Ela estava mais agasalhada quando Icaro a encontrou no parque. Eevee moveu as orelhas. Vestia um casaquinho de lã azul. Já era um avanço. Com muito cuidado, Icaro sentou-se ao lado da Arrietty e ficou esperando. Mas ela não dizia nada.

— Trouxe biscoitos. Quer algum?

Sentiu o olhar dela pelo canto dos olhos.

— Vá embora.

— Tecnicamente, este é um lugar público. — Icaro deu de ombros. — Você não pode me expulsar.

Growlithe caminhou até Eevee e ergueu o focinho. O raposo retribuiu o gesto, cheirando e reconhecendo. Balançou a cauda.

— Você tem problemas? — Arrietty virou o rosto para Icaro. — Eu quero ficar sozinha.

— Não tão sozinha a ponto de não ter Eevee contigo.

Ela suspirou.

— Você tem problemas...

— Ainda vai querer os biscoitos?

— Por que não está em casa? Com sua irmã, o Paul e a Naomi-san?

— Eu já passei bastante tempo com eles desde que voltei. Queria ver meus amigos.

— Então vai, ué. ‘Tá todo mundo por aí, esperando sua visita.

— Eu já estou visitando.

Arrietty não respondeu. Fingiu distrair-se com as luvas lilases. Growlithe subiu no banco de pedra e mordeu a orelha de Eevee, provocando uma risada vulpina.

— No dia vinte e quatro, vão fazer uma apresentação de Natal lá na escola. Você quer ir?

— Não pretendo comemorar o Natal este ano.

— Ah... Então, ‘tá.

Ficaram em silêncio por vários minutos. Icaro nunca estivera tão perto de uma garota que não fosse sua irmã. Era até difícil respirar. Ou talvez fosse apenas o ar frio.

— Eu estava em Johto.

— E daí?

— Os Pokémons de lá são bem legais. Sabia que o Eevee tem outras evoluções além do Flareon, do Jolteon e do Vaporeon?

Arrietty o encarou.

— Já ouvi falar.

— Bem, em Johto, o Umbreon e o Espeon são muito famosos. Um é psíquico, e o outro é de um tipo inexistente aqui em Kanto. — Icaro fez uma pausa de suspense. — Trevas!

Ela pareceu rir.

— Deixe-me adivinhar, um evolui de dia, e o outro evolui à noite.

— Não vale! Você já sabia.

Arrietty deu de ombros.

— Pois eu encontrei uma moça que vinha de Sinnoh — prosseguiu Icaro. — Ela me contou sobre outras duas evoluções. Fascinante, não é?

Não houve resposta.

— Glaceon e Leafeon. Gelo e planta. Mas o Leafeon não evolui com uma pedra de planta. Achei isso muito curioso.

Arrietty fitou os balanços.

— Você é mesmo idiota.

— Ei, isso não é muito agradável! — Icaro fez uma careta, mas logo sorriu. — Já sabe qual será a evolução do seu Eevee?

— O quê? Não... — Ela acariciou o raposo. — Quero dar liberdade ao Yuki para ele ser o que quiser. Ainda é cedo para pensar em evoluí-lo.

— Você poderia ir a Sinnoh e evoluí-lo para Glaceon.

— Isso foi algum tipo de piada?

— Não era para ser... Eu só estava...

— De que são os biscoitos?

Ficaram assim por alguns segundos. Icaro com os lábios levemente abertos, e Arrietty encarando-o com seus olhos castanhos. Ele sorriu.

— Baunilha com gotas de chocolate.

— Eu aceito dois.

— Dois?

— Um para mim e outro para Yuki.

Conversaram pelo resto da tarde. Arrietty não falava sobre seu pai, então Icaro também não mencionava Paul, Naomi ou Aya. Concentraram-se em seus sonhos e medos, nas experiências com Pokémons.

— Quero dizer, é loucura! Como você voa de uma cidade para outra com um Pidgey? Deve demorar muito! — disse Arrietty, movendo os braços.

— Meu amigo Pietro jura que o avô dele cruzou Kanto inteira com um Pidgey quando era mais novo.

— O Pietro só fala besteira.

Ele riu.

— Isso eu não posso negar.

Growlithe soltou um longo bocejo, no que foi acompanhado por Eevee. Os dois aconchegaram-se um no outro para um breve cochilo.

— Eu cheguei a capturar um Furret quando estava em Johto.

— Legal — respondeu Arrietty, servindo-se de mais um biscoito.

— Fomos bem amigos durante algum tempo. Então, eu acabei deixando ele ir, para ficar junto de seu bando. Me senti meio sozinho depois disso.

— O pessoal do laboratório do Paul deve estar te perturbando muito por causa dessa viagem — disse Arrietty, lambendo os dedos. Ela havia retirado uma das luvas.

— Com certeza! Mas o que eles mais perguntam é se eu tenho uma namorada.

— E você tem? — Ela pegou outro biscoito.

Icaro apertou o pote de plástico.

— Não. Nunca namorei.

— Não encontrou nenhuma garota que te interesse ou só é um fracassado mesmo?

— Você não coloca as coisas de um jeito muito gentil...

Ela o fitou.

— Eu sei lá... Acho que nunca tive interesse mesmo. Meu relacionamento com minha mãe é uma desgraça. A única garota com quem me dou bem é a Aya-chan.

Ele hesitou. Temia ter dito algo errado. Mas Arrietty mantinha a mesma expressão de antes.

— Sua mãe é idiota.

Icaro engoliu em seco. Abriu os lábios, fazendo menção de perguntar.

— Ainda tem biscoito?

Com um sobressalto, olhou o pote. Estava vazio.

— Acabou, mas eu posso trazer mais amanhã.

— Amanhã?

— É. Aqui. No mesmo horário.

Arrietty mexeu nos cabelos.

— E o que te faz pensar que eu estarei aqui?

— Ué, parece que está grudada neste banco. Nunca vi ficar tanto tempo com a bunda no mesmo lugar.

Ela cobriu o rosto, contendo a risada.

— Mas o que te faz pensar que eu vou querer te ver?

Ele abriu um sorriso luminoso.

— Biscoitos!

Arrietty balançou a cabeça.

— Seu idiota... Ei... — Lançou o olhar para longe. — Aquela ali não é a Aya-chan?

Icaro espiou por cima do ombro. De fato, sua irmãzinha estava parada na entrada do parque, apertando o casaco. Fez sinal para ele, chamando seu nome.

— Naomi deve estar chamando para o jantar. — Ele retirou o celular do bolso e conferiu as horas. — Já é quase seis!

— Melhor você ir, ou o curry vai ficar frio.

— Eu esquento de novo. Quer ir comigo?

— Não. Tem comida lá em casa.

— Então, ‘tá. Kiba.

Growlithe saltou para a neve e latiu para Eevee em despedida.

— Não esqueça. Amanhã. Mesmo horário.

Icaro saiu correndo em direção à irmã, com Kiba em seus calcanhares. Ela fez uma careta quando ele chegou perto.

— ‘Tá muito frio aqui!

— Por que você veio?

— Para te chamar, ué.

— Você poderia ter me ligado. Eu tenho celular.

— É. Mas eu não tenho — implicou a garota.

— Podia ter usado o da Naomi-san.

— Não quis incomodar a mamãe. Ela estava trabalhando.

Icaro suspirou. No fim das contas, ele já sabia. A irmãzinha só desejava vê-lo.

— Vamos — chamou, segurando sua mão. — Está frio mesmo.

— Oh! — fez Aya, erguendo o braço livre. — Neve.

Um floco minúsculo caiu em sua palma enluvada. Icaro puxou-a de leve para irem embora. Antes de virar a esquina, olhou por cima do ombro. Arrietty ainda estava sentada no banco.

Quando era mais novo, Icaro passava muito tempo deitado no chão, pois não tinha nada para fazer. A mãe cuidava de suas necessidades básicas, mas não brincava com ele, tampouco perguntava como havia sido seu dia na escola. Icaro cresceu sem muitas conversas, sem muitos mimos. Ao passear sozinho pelas ruas, observava as outras famílias, sempre tão felizes.

Na primeira vez em que visitou Naomi, teve medo de ser rejeitado. Uma parte dele não queria conhecer a segunda esposa de seu falecido pai. Era um maldito traidor; largara sua mãe para viver com outra. Mas Naomi era tão doce e gentil, que Icaro quase desejou que ela fosse sua mãe biológica. Paul também era bastante carinhoso. Sempre o levava para o laboratório para lhe mostrar suas novas descobertas.

Naquela época, Aya era só um pinguinho de gente. Mal sabia falar. Ela ficava pelos cantos, observando o meio irmão de longe. Certo dia, sentou-se perto dele na sala e ficou olhando enquanto ele mexia nos brinquedos. Icaro nunca tivera nada além dos carrinhos de madeira, do Pikachu de pelúcia puído e das sucatas que colava umas nas outras até obter um resultado engraçado. Ver aqueles robôs e carros brilhantes o preenchia de fascínio.

— Eu gosto de “goulite” — disse a pequena Aya.

— O quê?

— “Goulite” — ela repetiu.

— Quê? — Ele franziu o cenho.

— “Goulite”! — Ela gritou, enfezada.

Paul apareceu naquele instante. Estava rindo muito.

— Ela quer dizer “Growlithe”.

— Ah. Growlithe.

Aya sorriu.

— Você gosta de quê?

Icaro pensou por um minuto.

— Acho que gosto de Growlithe também.

Depois daquela tarde, tornaram-se amigos inseparáveis. Aya admirava Icaro. Ele era sempre tão bom em tudo, tão inteligente! E nunca a dispensava em suas brincadeiras. Se o jogo era difícil ou perigoso demais para Aya, Icaro adaptava-o.

— Assim não tem graça! — diziam os meninos mais velhos. — Ela atrapalha tudo!

— Ela é minha irmã.

E, assim, Icaro acabava se afastando dos outros garotos. Mas a admiração de Aya só crescia.

— Quero que você fique aqui para sempre — murmurava, segurando sua mão.

— Eu também, Aya-chan.

Voltar para a casa de sua mãe era doloroso. Ficar sozinho era doloroso. A família de Icaro estava em Pallet, a quilômetros de distância. Às vezes, ele estendia o braço para o horizonte, imaginando como seria se pudesse puxar a si mesmo para o laboratório de Paul, onde tudo era fascinante.

— Se gosta tanto deles, por que não mora lá? — perguntou a mãe com desgosto.

Icaro não respondeu. Ele não ia embora porque a mãe precisava dele.

Quando Icaro tinha oito anos, Paul apareceu no laboratório com um pequeno cesto. Aya fez sua típica festinha, pulando de um lado para o outro como se fosse um Magikarp. Naomi teve de contê-la pelos braços.

— O que é? O que é? O que é?

— Uma surpresa. — Paul depositou o cesto no chão e puxou o cobertor. — Tcharã!

Os olhos de Aya arregalaram-se, brilhando muito. A criaturinha dormia encolhida. As listras em suas costas moviam-se junto com a respiração.

— Um Growlithe!

— Ele será nossa mascote agora. Cuide bem dele, ouviu, mocinha?

— ‘Tá bem! ‘Tá bem! Vou cuidar!

Ela continuou dando pulinhos pelo laboratório. Acabou acordando, Growlithe, que bocejou longamente.

— Seu nome vai ser Ember!

— Ember? — Paul riu. — Que nome engraçado. Eu prefiro Rex.

— Rex é sem graça! — ela protestou.

— Eu gosto de Victor — disse Naomi.

— Victor, querida? Para um cachorro?

— Ember! Ember! Ember!

— O que acha, Icaro?

O garoto teve um sobressalto. Estivera quietinho em seu canto, rabiscando um desenho. Olhou para Growlithe, depois para Aya, então para Paul.

— Eu escolho o que a Aya escolher.

— Ora, vamos. — Paul balançou a cabeça. — Todo mundo aqui deu sua opinião. Diga a sua também.

— Não quero me intrometer...

— Como assim se intrometer? — Naomi sorriu. — Você é da família.

Icaro sentiu o rosto corar. Largou o lápis.

— Kiba... Eu gosto de Kiba...

— Kiba, hum? — Paul meditou por um instante. — É. Eu gosto de Kiba. E você querida?

Naomi assentiu.

— Parece bom.

— Aya-chan?

— Sei lá. Gostei. Pode ser.

— Growlithe? — Paul sorriu para o cachorro, que abanou a cauda e latiu. — Pronto! Está decidido! O nome será Kiba.

— Viva! — Aya ergueu os bracinhos.

— O que ele come?

— Eu cuido disso, querida. — Paul abraçou a esposa e beijou sua testa. — Vamos jantar agora? Aya-chan, Icaro-kun, Kiba?

Os três juntaram-se animados.

— Vamos indo!

Enquanto os outros seguiam em frente, Icaro deixou-se ficar para trás por um minuto. Esfregou o rosto. Apenas Growlithe o ouviu fungando.