Icaro acordou cedo no dia vinte e dois de dezembro. Não conseguira dormir muito bem. Estava agitado. As memórias dançavam em sua mente quando se sentou para tomar café. Growlithe acomodou-se entre os pés de sua cadeira.

— Bom-dia, onii-chan! — cumprimentou Aya, saltitando pela cozinha em seu pijama rosado. — Você pode me ajudar com algumas coisinhas?

— Claro, mas não posso demorar muito está bem?

— É rápido. — Ela segurou seu braço, manhosa. — Queria cozinhar com você. Faz tempo que não cozinhamos juntos.

Icaro lembrou-se dos biscoitos.

— Acho uma boa ideia.

— Legal!

Ele arrumou seu quarto, que estivera uma zona desde o dia de sua chegada, e separou algumas roupas para lavar. Growlithe seguia-o de um lado para o outro. Talvez estivesse ansioso para rever Eevee, seu melhor amigo Pokémon.

— Tenha paciência. Nós nem almoçamos ainda.

Às onze e meia, Icaro vestiu seu avental e se juntou a Aya na bancada da cozinha. Naomi apareceu por alguns instantes, mas retornou ao escritório quando viu os dois irmãos. Quando cozinhavam, eles entravam em sintonia. Icaro preparava excelentes molhos. Aya era boa nos detalhes, na apresentação da comida. Paul arregalou os olhos quando viu o prato.

— Vocês fizeram isso?

— Sim! — responderam os irmãos.

— Que incrível! Eu mal sei fazer um sanduíche.

Aya riu.

— Você mal sabe escolher duas meias que combinem, Paul!

Ele levantou as barras da calça, conferindo. Uma meia era listrada de vermelho e branco. A outra era cinza com bolinhas azuis.

— Culpado.

Após o almoço, Aya e Icaro assaram alguns biscoitos juntos. Ele olhava o relógio a todo instante, mas a irmãzinha não estava com pressa. Enquanto os biscoitos esfriavam, puxou-o para todos os cantos da casa, arranjando mil coisas para fazer. Icaro enfim perdeu a paciência.

— Aya, pare com isso!

Ela se afastou.

— O quê?

— Eu sei o que você está fazendo. Está me mantendo ocupado para eu não ir ver a Arrietty.

— Não estou, não! — Ela balançou a cabeça com vigor. — Só estou fazendo as tarefas que a mamãe mandou.

— Já está tudo feito, Aya. Pare de enrolar!

Ela recuou ainda mais, ressentida.

— Você está sendo mau comigo, onii-chan.

— Aya!

Icaro suspirou profundamente.

— Aya... Não faça isso, está bem?

Ela abaixou o rosto. Seus ombros começaram a tremer.

— Ei. Ei. — Icaro puxou-a para perto. — Não fique assim... — Tocou seu rosto de leve com a ponta do dedo. Sentiu quando a lágrima o tocou. — Você sabe que é minha garota favorita no mundo, Aya. Ninguém vai roubar esse lugar de você, está bem? Ninguém!

A menina fungou. Aos pouquinhos, reuniu coragem para encarar o irmão.

— Mas e quando você tiver uma namorada?

— Ela não será mais importante do que você. — Ele sorriu. — Você é minha irmãzinha, Aya. Será sempre a número um. Mas agora entenda. A Arrietty está sozinha. A mãe dela morreu, e o pai está viajando. Você não quer que a Arrietty fique sozinha, não é?

Aya abaixou o rosto outra vez. Balançou a cabeça.

— Boa menina. — Icaro beijou sua testa. — Eu voltarei na hora do jantar. Vamos comer curry juntos.

Ela esfregou as pálpebras.

— No kotatsu?

— É. No kotatsu.

Icaro correu em direção ao parque. Estava duas horas atrasado. Por um momento, olhou a seu redor em desespero. Arrietty estava sentada no banco. Aliviado, caminhou até ela. Achou que seria prudente mostrar o pote de plástico antes de se sentar. Ela ergueu o rosto.

— O que é isso?

— Biscoitos! — Icaro abriu seu melhor sorriso.

Arrietty encarou-o.

— É essa a sua noção de pontualidade?

— Mas eu trouxe biscoitos.

— Não vai me comprar com eles, se é isso que está pensando.

Icaro suspirou pesadamente e se deixou cair no banco. Arrietty pegou o pote de sua mão.

— Desculpe o atraso.

— Eu não vim por causa de você.

— Veio por causa dos biscoitos, não é?

— Eu vim porque quis.

Icaro prensou os lábios. Growlithe subiu no banco para interagir com Eevee. Os dois formavam um quadro bonito juntos.

— O que tem feito?

— Nada — respondeu Arrietty, mordendo um biscoito.

— Ah... Você... quer ir lá em casa jogar vídeo game?

— Quantos anos você acha que eu tenho?

— Quinze?

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Isso foi uma pergunta?

— Talvez? — Icaro deu de ombros.

Arrietty balançou a cabeça.

— Perdido. Você é um garoto sem salvação.

— Mas eu sei fazer biscoitos.

— Para de falar nos biscoitos!

Eles se encararam. E começaram a rir.

— Então, como vão as pesquisas do Paul?

— Você podia ir no laboratório e ver por si mesma, sabia? Ele gosta de você.

— Sou tímida.

— Ah, ‘tá.

— Tenho alergia a microscópio.

— Quem tem alergia a microscópio?! Isso sequer é possível?

Ela riu de leve.

— Você é engraçado.

Icaro inclinou o corpo para trás. Nunca conversava com garotas; não sabia se estava fazendo certo. Naquela tarde, Arrietty havia prendido os cabelos negros em um rabo de cavalo, deixando apenas duas mechas soltas, emoldurando o rosto. Estava bonita.

— O quê?

— O quê? — Ele arqueou as sobrancelhas.

— Você disse que eu estou bonita.

— Disse? Devo ter pensado alto.

— Seus pensamentos são bobos.

— Acha besteira eu te achar bonita?

Ela empurrou o pote contra seu peito. Com força.

— Se é esse o jogo que vai fazer, eu não estou a fim. Procure outra garota que goste da sua lábia e dos seus biscoitos. — Levantou-se. — Vamos, Yuki.

O raposo pareceu não entender, mas lançou um olhar triste a Growlithe e seguiu a mestra. Icaro apressou-se em ir atrás.

— Ei, espera — chamou, tentando segurar o pulso de Arrietty.

— Me deixa em paz! Eu não estou a fim de conservar com você.

— Não seja dramática! Eu só estou tentando ser legal!

— Não preciso da sua caridade.

— Ok! Ok! — Ele bradou, irritado. — Então, ao menos deixe eu começar de novo, está bem?

Arrietty cruzou os braços. Icaro ficou em silêncio.

— E então?

— Bem... — Ele pigarreou. — Prazer — disse, estendendo a mão. — Icaro Shindo.

— Esse é o seu começar de novo? — Ela grunhiu.

— E você?

Um suspiro.

— Arrietty Nakamura.

— Prazer em conhecê-la, Nakamura-san.

Ela afastou sua mão. Por um instante, Icaro teve certeza de que estragara tudo. Mas olhos castanhos encontraram-no.

— Arrietty. Só Arrietty.

Ela se levantou com cuidado e espanou a neve das roupas. Posicionou-se ao lado de Icaro para comparar os resultados. Ele ergueu o queixo.

— O meu é maior.

— Engraçadinho. Você é mais alto!

Ele riu.

— Seu anjo de neve está todo torto.

— Torta vai ser a marca da minha mão na sua cara.

— Nossa! Que agressiva!

Arrietty empurrou-o.

— Nossa! Nem precisa de um Pokémon assim.

Kiba e Yuki também tentaram fazer seus anjinhos de neve. Tentaram. Eles só sabiam rolar, deixando um rastro imenso no caminho.

— Quer um chocolate quente? — convidou Icaro.

— Pode ser.

Anoitecia. Eles compraram os chocolates em uma pequena cafeteira e se sentaram em um banco de madeira perto do meio fio. Arrietty envolvia o copo com ambas as mãos. Icaro sentiu o impulso de abraçá-la, mas não o fez.

— O que pretende fazer amanhã?

— Ficar sentada no banco de pedra até minha bunda ficar quadrada.

— Legal. Posso deixar minha bunda quadrada junto com você?

Ela o beliscou.

— Ai, que agressiva!

— Golpe crítico — ela brincou.

— É super efetivo!

Os dois riram. Growlithe e Eevee, que estavam deitados no cantinho do banco, balançaram as caudas.

— O que achou dos biscoitos de hoje?

— Estavam gostosos.

— Eu que fiz! — disse Icaro, inflando o peito de orgulho.

— Essa, não. Eu vou passar mal.

Ele a empurrou com o ombro.

— Boba. Ei, ainda temos uns trinta minutos antes de a Naomi-san começar a me ligar desesperadamente. Quer ver a árvore?

— Pode ser.

Terminaram de beber os chocolates e se dirigiram ao centro comercial da cidade, que não ficava muito longe. Pessoas caminhavam apressadas, comprando os presentes de última hora. Os quatro pararam diante do enorme pinheiro decorado com lindos enfeites coloridos e um pisca-pisca hipnotizante. Eevee enroscou-se no pescoço de Growlithe.

— Bonito — murmurou Arrietty.

Icaro segurou sua mão. Ela não soltou.

Naomi batia o pezinho quando Icaro chegou a casa com seu sorriso travesso. Despiu as botas sujas de lama, calçou as pantufas e seguiu para a sala, onde Aya e Paul assistiam ao noticiário sentados no kotatsu.

— Olhe só quem finalmente lembrou que tem casa. Estava namorando, Icaro-kun?

O garoto engasgou.

— E-eu só estava passeando!

— Estou só brincado. Deve estar com fome.

O estômago de Icaro roncou. Aya fez menção de se levantar.

— Tudo bem, não precisa. Eu esquento o curry.

Minutos depois, sentou-se ao lado da irmã. Ela ficou feliz ao vê-lo devorar o prato.

Icaro apenas imaginava o quanto as noites de Arrietty deviam ser solitárias. Kenshin ainda não aparecera na cidade, e só faltavam mais dois dias até o Natal. Deitado em sua cama, ele fitava a tela do celular. Pensara em mandar uma mensagem, mas tinha receio de irritá-la. Melhor esperar até o amanhecer e voltar para o parque.

Revirou-se na cama dezenas de vezes, até cair no sono e ter um pesadelo com sua mãe. Levantou-se para buscar um copo d’água, mas parou no caminho, em frente ao quarto de Aya. Ela deixara a porta aberta porque sabia que Growlithe gostava de aparecer no meio da noite parar dormir junto. De fato, ali estavam os dois, encolhidinhos. Icaro sorriu.

Desceu para a sala e encontrou o pisca-pisca da pequena árvore ainda ligado. Sentou-se no sofá e fitou o teto. Tudo parecia mais bonito na penumbra. Ele apertava o celular. Na tela, os dizeres “00:43 23 de dezembro” brilhavam. Icaro fechou os olhos. Em algum outro lugar, Arrietty fechava os olhos também.