Claus era um garoto que tinha diversos problemas em casa. Apanhava com frequência, pois seu pai chegava com frequência em casa irritado com seu trabalho e sua infelicidade com a esposa era mais um dos fatores que corrobora com isso. Ele dizia que ela não servia mais para ele. Não possuía mais utilidade, sendo assim tinha que descontar em seu filho suas frustrações, ódio, insatisfação e dizia que aquilo tudo era culpa dele, pois se ele não o tivesse tido, provavelmente ele estaria bem melhor de vida. Então seus problemas eram sempre atrelados a ele, sua mãe já exausta de tanto medicamento, de tantas obrigações em casa, já não ligava mais, ele não tinha com quem confiar ali. Mas ele tem pessoas com quem pode contar: seus “amigos”.

É com eles que Klaus consegue desabafar, contar o que anda passando em casa. Sua dor, aflição, desamparo. Ele confia fielmente neles. Com quem ele pode contar além deles? Ele não possui mais ninguém. Já se vê como nada, sendo diminuído pelos que deveriam proteger e exaltar, pelo contrário. Ali não é um local saudável para ele, mas ele não pode escolher, quem escolhe as pessoas a qual vem ao mundo? O que resta é aceitar. Sempre que ele se abria e desabava, tendo seu único momento de atenção e “preocupação” seus amigos sempre se referiam a sua situação com desdém, pois o que ele passava em casa não era lá grande coisa. E que ele deveria parar de se vitimizar tanto, pois ele possuía um teto e comida, um lugar para voltar e chamar de lar.

Fazendo assim acreditar que ele era uma pessoa de sorte por ter uma “família”, embora desestruturada e definhando em tentativas falhas de dar certo. Então lá voltava o rapaz para mais um dia de sobrevivência, pois por mais que ele não fosse feliz ali, ele tinha que “agradecer” por ter para onde voltar, sempre se questionando de ser uma pessoa egoísta e ingrata. Então aos poucos ele foi aparentando ter sintomas de ansiedade e isso o torturava por dentro, ele não tinha com quem realmente conversar e ser tratado da forma que deveria. No início ele apenas chorava até ficar exausto e assim acabar adormecendo. Funcionou por um tempo, mas logo ele percebeu que não adiantava mais, estava piorando, foi daí que ele começou a se mutilar, se perfurar, em meio as suas crises, pois ele queria castigar a si mesmo.

Ele só enxergava a si mesmo como um erro. Ele batia sua cabeça na parede de seu quarto, sua mãe via o estado em que ele estava, mas não fazia nada. Tudo ia sendo desfragmentado em sua cabeça, já não se via mais com forças a suportar tudo aquilo. Seus amigos quando o viam naquele estado, repetiam que isso era uma fase de rebeldia e que ele era doente, aos poucos foram se afastando dele prejudicando ainda mais o estado deteriorado em que ele se encontrava.

— Eu não sou médico pra lidar com doente, Claus! Esse seu ato de chamar atenção já tá ficando velho, eu que não vou dar palco pra doido. Vai pro hospício! — sua ‘amiga’ gritou enquanto o mesmo tentava pedir por ajuda.

Para ele isso foi a gota d'água.

Ele já não tinha mais dúvidas alguma que ele era o problema. Ele chegou em casa e tomou todos os medicamentos de sua mãe, querendo dar um fim em tudo aquilo, em toda aquela dor causada “por ele mesmo”, pois é o que ele achava.

Ele dormiu e nunca mais acordou.

Com sua morte, foi espalhado que ele só queria um pouco de atenção e que agora ele tinha conseguido o que queria. Sendo incapaz de descansar em paz, mesmo depois de tudo aquilo.

Mas claro, sempre é mais fácil colocar a carga em outra pessoa do que carregar ela para si.

Até porque a dor que sentimos sempre é “maior” que a de todos.

Somos incapazes de ser empáticos.