Essa Noite Não
8 A maior expressão de angustia pode ser a depressão
Saímos da base as 19h40 e já está escuro. É como se o clima já previsse os acontecimentos dessa noite.
As rondas passam e as resistências de Atenas se fundem em uma única, se confundindo, e, sem duvidas, derrubando nazistas.
Vejo Aiolia passar correndo.
Ele está lutando ao lado de uma ruiva em trajes sumários, cujo belo rosto está duro como uma mascara. Mulheres e crianças lutam ao nosso lado, e vejo Shura pular.
Ele pula e acerta um alemão com uma baioneta tirada não sei de onde. Ele é um guerreiro incrível, nasceu para isso.
Ouço uma explosão, mas tudo que posso fazer é rezar para que não tenha pego um dos nossos.
Milo e Camus lutam juntos, dando cobertura uma ao outro. Camus tem tanta mira como fotografo quanto como atirador.
Eu uso meu corpo como arma, sempre fui forte o suficiente para isso.
Antes Kanon e eu disputávamos, mas desde que ele se foi eu deixei de contabilizar quantos eu derrubo.
A voz não está mais me atormentando. Ela costumava despertar em mim uma horrível sede de sangue... Então vejo algo incrível. Shaka está enfrentando cinco oponentes ao mesmo tempo, e está vencendo. É como se ele flutuasse ao desviar dos golpes.
E algo em seu estilo de luta paralisa os inimigos. Mal posso distinguir o que fulgura entre os dedos de sua mão enquanto ele os golpeia.
A própria magia dessa técnica é hipnotizante.
Mas é possível perceber também o quanto ela é reservada, uma vez que ele só a utilizou agora, nem mesmo quando Shura e Camus o atacaram ele o fez...
Continuamos, incansavelmente, e os tiros ecoam. O que fazer neste momento?
Respirar fundo e agradecer por não ter sido acertado. E continuar. É cansativo, mas eles estão recuando.
No fim, sempre nos reunimos, contamos e retiramos os nossos mortos, e fugimos, porque as vezes eles voltam com ainda mais gente para nos prender e matar.
E está chegando esse momento.
Todos os meus se espalharam, não posso ver mais ninguém, só continuar lutando e avançando.
Derrubo o ultimo adversário persistente e os vejo bater em retirada. Caminho entre mortos e ferido a procura dos outros. Encontro Shura sentado em uma pilha deles.
- Shura! Saia daí!
- Fracos... Fugiram!
- Tenha mais respeito pelos mortos!
- Ainda mais os que morreram em batalha, Aiolos falava isso o tempo todo.
- Devia ter o ouvido.
- Ele já morreu mesmo...
O olho severamente, mas dou ombros. Há muito tempo desisti de convencer Shura a ser ético. Que irônico... Ética de guerra...
Encontro mais a frente Milo e Camus sentados, um apoiado nas costas do outro.
- Vocês estão bem?
- Sim.
Milo responde, inclinando a cabeça para trás a encostando no ombro de Camus, que olha de lado e suspira, inconformado.
- Viram os outros?
Mas eles não respondem. Estão obviamente exaustos.
Não consigo encontrar Aiolia nem Shaka pelas proximidades, então me distancio do centro do confronto. Temos pouco tempo.
Lembro-me de que Aiolia sempre vai ao Santuário após os confrontos, então sigo para lá apressado.
Não o encontro. Isso é um mal sinal.
- Ei, você!
- Q...?
- Pensei que nunca mais pisaria aqui depois de matar aquele homem. Sabe, os mercenários do grupo estão dando um bom preço pela sua cabeça. É meio arriscado.
- Quem é você?
- Meu nome é Marin, eu trabalho por aqui.
- O que está insinuando Marin?
- Que você matou um cara chamado Shion, e que está sendo caçado.
Ela se lembra... Daquela noite terrível em Star Hill, quando duas resistências se enfrentaram... E eu matei um homem sábio, guiado por um instinto animal e por aquela voz...
Mas ela não pode se lembrar Saga. Se ela se lembra, vai te denunciar, e você vai acabar a sete palmos do chão. Acabe com isso agora mesmo!
Não, péra, eu vou ter que pensar melhor nisso...
Essa mulher estava ao lado de Aiolia, ele a conhece, se não quer fazer, mande-o em seu lugar.
Isso até que não é uma má idéia... Mas agora preciso achar os outros...
Saio andando rápido, ainda ouço ela perguntar meu nome e dizer mais alguma coisa, mas a ignoro.
Estou voltando quando vejo algo que gela meu coração. As belas mechas loiras que me são conhecidas estão espalhadas no chão...
- Shaka!
- Saga... Ai... Espera aí.
Ele faz um movimento para se levantar, mas vejo que sua perna está ensangüentada.
- Deixa que eu te ajudo. –o coloco em pé- Vamos, temos que ir. O que houve?
- Tiro. A sorte é que não pegou na fêmural.
- Realmente. Segure-se em mim.
- Não dá.
- Então vou ter que te carregar.
Faço menção de levantá-lo mas ele se esquiva e seu rosto assume um leve tom de rosa.
- Nem pensar. Eu vou andando.
- Mas você...
- Saga, -ele assume um tom muito sério- eu sei o que é melhor para mim.
- Hã...
- Mas me faz um favor... Pegue meu rosário que está ali...
- ?
- O rosário.
- Ah, está bem.
É uma bela peça, porém algumas pérolas estão encharcadas de seu sangue.
- Onde conseguiu isso?
- Era da minha mãe. Onde estão os outros?
- Já devem ter voltado. –notei a mudança de assunto- Só não encontrei Aiolia.
- E como eles estão?
- Bem. Vamos.
Ele se esforça para ir na minha frente, é ridículo...
Avisto vultos, que estão mais próximos do que deveriam, e uniformizados.
- Shaka!
Eles já nos viram, e estão o atacando. Corro o máximo que posso, e me jogo, arrancando Shaka de entre dois nazistas que o tinham cercado. Rolamos rua a baixo, e eles nos perdem entre os mortos. Ele tenta se erguer, mas não permito de imediato.
- Você está bem? Eles te feriram novamente, te acertaram?
- Estou bem.
- Descanse agora, –murmuro- amigo...
- Não posso, os outros... Logo virão mais nazistas e você...
- Shh... –ele cria coragem e reabre os olhos, me observando. Por que tenho de fazer sofrer todos que amo, por que?
- Está chorando...? Saga...
- Você vai ficar aqui, por enquanto, te dou cobertura. –me sinto ridículo e tento parar de chorar como uma mulherzinha- É para o seu bem.
Ele finalmente relaxa os músculos, para que eu possa soltá-lo. Depois de alguns minutos, ele se levanta, impaciente.
- Temos mesmo que ir!
Assinto.
Prosseguimos em passos lentos, e a perna dele apresenta características de lesão irreversível ao músculo. Também não para de sangrar.
- Você está forçando isso.
- O que?
- Caminhar. Está destroçando seu tecido muscular e perdendo muito sangue, você sabe.
- Imagine... –ele sorri- Eu estou bem.
- Está é querendo não andar para o resto da vida.
Antes que ele possa retrucar eu o ergo do chão e apresso meus passos.
- Sagamesolte.
- Como?
- Saga, me solte AGORA!
- Sinto muito, mas não. Estamos chegando.
- Isso não vai ajudar...
- Pense em outra coisa.
- Outra coisa que não seja na minha dor insuportável e na minha vergonha? Talvez possa pensar no meu orgulho, que acaba de ser destruído.
- Isso está além do orgulho.
- Hunpft.
- Vamos, me diga, que técnica foi aquela que você usou contra os nazistas?
- Apenas algo que aprendi com os monges.
- Monges lutam?
- Não quando se pode evitar. E ainda assim usam uma técnica que evita derramamento de sangue.
- Percebi. Como...?
- Atingindo as terminações nervosas do inimigo com a ponta dos dedos, retirando seus sentidos. Não mata, mas pode deixar a pessoa meio alienada por varias semanas, dependendo da intensidade do golpe.
- Imagino que tenha usado esse.
- Sim.
- Foi incrível. E por que o Rosário?
- É pessoal.
- Desculpe perguntar...
- Tudo bem. Posso te dizer que não faz parte da técnica original.
- Hum... Bem, chegamos.
Ele me olha surpreso. Talvez tenha duvidado de minha velocidade ou de minha capacidade de entreter...
Sorrio e bato na porta.
Milo abre.
- O que...?
- Bala. – ele mesmo responde- Busca um pouco de gelo, e espero que tenham alguns panos. Talvez, se não parar, precisemos cauterizar.
- Hum... O.k.
- Ah, Milo, você vai ter que me ajudar tá?
- Vou tentar. Saga, onde que eu acho essas coisas?
- Se vira Milo, ele tá com os braços ocupados agora.
Shura ironiza e eu rosno um “é melhor você parar”, antes de sair do caminho para Milo passar.
- Aiolia, traz água e aquele uísque!
- O que vai fazer Camus?
- Tirar a bala, antes que infeccione.
- Eu dei sorte, a bala atravessou.
- Ahh, que bom.
O deixo em minha cama e me volto para Aiolia.
- Onde esteve?
- Cheguei antes de vocês.
- Precisamos conversar. –mas não na frente dos outros Saga, leve-o a outro lugar- Mas não aqui.
- Vamos ao meu quarto então.
Ele está desconfiado, eu posso perceber.
Entramos e ele se senta.
- Tenho uma missão para você.
- Diga.
- Conhece uma mulher chamada Marin?
- Sim. –as feições dele mudaram ligeiramente.
- Então. Ela se aliou aos nazistas, precisa ser eliminada imediatamente.
- Mas...
- Ordens são ordens Aiolia. Se não a matar, eu saberei, então vocês dois vão se ver comigo, e eu dou um fim nos dois.
Suas pálpebras se estreitam e ele me encara, mas assente.
Melhor assim.
Uma semana se passa desde essa ocasião.
Eu continuo na cola de Aiolia, Camus está procurando saber da próxima investida dos alemães sobre a capital e Shaka se recupera da recente cauterização.
Seu músculo foi uma perda irrecuperável, e passamos quatro dias tentando evitar uma infecção, mas agora já está melhor.
Shura tem bebido cada vez mais e Milo continua tentando aliviar a tensão em nossos espíritos para evitar que nos matemos entre nós.
Shaka tem me ajudado muito. Passamos horas juntos, já que ele não pode sair da cama ainda.
É uma boa amizade, seria ainda melhor se não estivéssemos neste cenário de guerra, tão propicio para a voz dominar minha mente. Tudo isso me levou a apelidá-la de Ares, em um momento bem humorado enquanto Milo contava suas velhas piadas no jantar.
Então eu volto para o quarto e para a companhia de Shaka. Como sempre. Não posso passar mais de duas horas longe dele, sua voz, seus assuntos, tudo nele me faz bem. Evito as ironias de Shura e não passo mais tempo do que o necessário longe dele, também não lhe nego nada.
Estes dias ele me pediu uma tesoura e eu, é claro, a dei a ele. Quase tive uma síncope quando vi o que ele havia feito. Cortou seus belos cabelos claros mais curtos do que os de Aiolia.
Quando o questionei do por que, ele respondeu simplesmente que daquela forma era mais pratico.
E eu acabei rindo. Me sinto tão mais leve em sua presença, que é como se eu estivesse em uma profunda depressão todo este tempo...
- Ei, Saga!
- O que?
- Más noticias. Acabo de descobrir que os nazistas vão fazer um novo ataque.
- Quando? –digo, já me levantando.
- Hoje a noite.
- Essa noite... Essa noite não...
- Sei muito bem o que essa noite representa para você Saga, vão fazer dois anos da morte do Kanon, mas temos que ir!
- Shaka nem está recuperado ainda... –Milo se junta a mim no meu protesto pesaroso.
- Eu sei Milo, mas ele vai ter que ficar.
- Por falar em ficar, alguém viu o Aiolia?
- Não Shura, por que?
- Faz dois dias que ele saiu, e não voltou mais.
- E por que você não disse isso antes? –Milo se exaspera.
- E por que está dizendo com essa calma?! –grito.
- Pensei que tivesse o mandado em alguma missão Saga, mas pelo visto...
- Ahh, caramba, -isso é demais para a minha pouca paciência- Shura, você não ajuda mesmo!
- O que está acontecendo?
- Shaka! Você sabe que não pode ficar andando! –Camus faz Shaka se sentar- Você vai fica aqui esta noite.
- Mas eu...
- Não está suficientemente recuperado cara, foi mal. –Milo suspira- Queria estar no seu lugar.
Ele me olha, suplicante.
- Sinto muito. Não tenho um bom pressentimento quanto a isso, mas não há o que fazer.
Ao olhar em seus olhos irritados sinto um desespero horrível. Como se fosse perdê-lo.
- Bem, preparem-se, por que ao escurecer...
- Já entendemos Camus.
Estou decidido a passar o resto do dia com Shaka, então me sento ao seu lado.
- Tudo bem?
- Não.
- Sua perna está doendo?
- Não.
- Então o que...?
- Você me magoou muito agora Saga, só provou o quanto não confia em mim.
- Mas...
- Acha que eu não sou capaz de enfrentar os nazistas por que estou com problemas de locomoção?
- Eu...
- Ou acha que eu seria um peso para vocês? Que teriam que cuidar de mim? Você viu do que sou capaz, sabe que não preciso disso.
- Você é mais frágil do que imagina Shaka. –passo a mão pelo rosto dele, que fica mais quente sob o meu toque- E é muito precioso para mim.
Ele me fita e desvia em seguida os olhos. Me pergunto o que há de errado, será que eu não posso amá-lo?
O que ele teme?
Não há nada tão natural... Bem, isso já não me importa mais, ele vai ter que saber...
Essa noite, como todas as outras em que enfrentamos os nazistas, pode ser o meu fim, então vou encarar os fatos.
E a noite chega rápido.
É aniversario de morte do meu irmão gêmeo, e mais uma batalha se aproxima, pois apesar de sempre ganharmos as batalhas, sozinhos não podemos vencer a guerra.
Todos se despedem de Shaka, que nos acompanha até a porta.
Chega o momento, porem nós dois falamos ao mesmo tempo.
O deixo falar, mas ele fraqueja, sua voz não sai, então me adianto e sussurro:
- Eu te amo.
Selando minhas palavras com um beijo, o mais expressivo que eu já dei em alguém.
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