Essa Noite Não

9 Algo que você pressente


Então isso é a guerra.


É muito cansativo. Mas é mais fácil derrubar alemães do que eu imaginava.


As técnicas que aprendi na Índia, contra os aconselhamentos de meu pai e contra as crenças de minha mãe, agora me são muito úteis.


O único problema são as armas, mas até agora dei sorte.Taíuma coisa que eu nunca tive!


Ahh, foi só falar!


Sinto minha carne ser destroçada por um projétil e caio. Permaneço estendido, esperando que ninguém venha terminar o serviço. Minha perna, contra o gelo, é aquecida pelo meu sangue.


O Rosário de minha mãe, que representa o verdadeiro motivo de usar essas técnicas, apesar de não passar do símbolo de um rancor ridículo, rancor por ter sido abandonado, trocado por uma batalha, por um país.


Minha mãe e meu pai sempre enfrentaram seus respectivos compatriotas para permanecerem juntos, antes do “iluminado” Gandhi interferir.


Uso o rosário na luta como se gritasse para ela que a não-violência nunca vai a ajudar a libertar a Índia, nunca.


- Shaka! –Saga me encontrou... Por que justo ele tinha de me ver nesse estado deplorável?


- Saga... Ai... Espera aí.


- Deixa que eu te ajudo. –ele me ajuda a levantar- Vamos, temos que ir. O que houve?


- Tiro. A sorte é que não pegou na fêmural.


- Realmente. Segure-se em mim.


- Não dá. –ofego. A dor é muita.


- Então vou ter que te carregar.


Ele faz menção de me pegar, porem eu desvio. Ainda não perdi minha dignidade


- Nem pensar. Eu vou andando.


- Mas você...


- Saga, eu sei o que é melhor para mim.


- Hã...


- Mas me faz um favor... –eu não posso me abaixar agora que estou em pé...- Pegue meu rosário que está ali...


- ?


- O rosário.


- Ah, está bem.


- Onde conseguiu isso?


- Era da minha mãe. –penso no motivo ridículo e me recrimino por ter trazido isso da Índia comigo- Onde estão os outros?


- Já devem ter voltado. Só não encontrei Aiolia.


- E como eles estão?


- Bem. Vamos.


Meus passos são largos, pois tenho medo de que qualquer coisa que ele possa me dizer eu possa entender, em meu desespero, como eu te amo.


Avisto soldados, que estão mais próximos do que deveriam, e uniformizados.


- Shaka! –ele grita meu nome ao mesmo tempo que um dos nazistas me ataca e eu desvio.


Estou cansado de lutar, e algo me arranca dos dois nazistas que me cercavam. Rolamos rua a baixo, por sobre corpos, vejo apenas borrões cinza e vermelho, muito vermelho. Eles nos perderam entre os mortos. Estou sob o corpo de meu salvador, meu impulso imediato é empurrá-lo, mas ele jogou seu peso sobre mim.


- Você está bem? Eles te feriram novamente, te acertaram?


- Estou bem. –bem, e desesperado para me livrar deste peso. Desta respiração em meu pescoço, que me faz manter os olhos fechados. Se os abrir, não responderei por mim, ainda mais se ele continuar a se dirigir a mim desta forma.


- Descanse agora, –murmura, arrepiando minha alma- amigo...


- Não posso, os outros... –tento usar a lógica, acima de tudo e sempre- Logo virão mais nazistas e você...


- Shh... –água cai sobre meu rosto, abro os olhos, encontrando os olhos de indignação e sofrimento de meu companheiro de guerra.


- Está chorando...? Saga...


- Você vai ficar aqui, por enquanto, te dou cobertura. –sussurra, tentando obviamente conter as lágrimas de dor, por eu ter levado um tiro. Não é possível que esteja se culpando novamente! Entrei nessa guerra por ele e para ele, nunca me arrependerei... O que ele me pedir nesse momento... — É para o seu bem.


Relaxo meus músculos, resignado à situação e disposto a aceitar o que ele quiser, mas ele me solta. Depois de alguns minutos, quando minha adrenalina baixa, volto a sentir uma dor insuportável na perna atingida, e me levanto para continuar, impaciente.


- Temos mesmo que ir!


Ele assente.


Prosseguimos em passos lentos, por que minha perna sangra cada vez mais.


- Você está forçando isso.


- O que? –me faço de desentendido.


- Caminhar. Está destroçando seu tecido muscular e perdendo muito sangue, você sabe.


- Imagine... –sorrio, tentando parecer seguro- Eu estou bem.


- Está é querendo não andar para o resto da vida.


Ele me retira do chão e eu perco a fala por um segundo. Por um segundo.


- Sagamesolte. – reclamo.


- Como?


- Saga, me solte AGORA!


- Sinto muito, mas não. Estamos chegando.


- Isso não vai ajudar... – meu músculo já foi pro saco, mas quem se importa?


- Pense em outra coisa.


- Outra coisa que não seja na minha dor insuportável e na minha vergonha? – me irrito com sua gentileza obrigatória- Talvez possa pensar no meu orgulho, que acaba de ser destruído.


- Isso está além do orgulho.


- Hunpft.


- Vamos, me diga, que técnica foi aquela que você usou contra os nazistas?


- Apenas algo que aprendi com os monges.


- Monges lutam?


- Não quando se pode evitar. E ainda assim usam uma técnica que evita derramamento de sangue. – eles incorporam os pensamentos de Gandhi... Ou seria o contrário?


- Percebi. Como...?


- Atingindo as terminações nervosas do inimigo com a ponta dos dedos, retirando seus sentidos. Não mata, mas pode deixar a pessoameio alienada por varias semanas, dependendo da intensidade do golpe.


- Imagino que tenha usado esse.


- Sim.


- Foi incrível. E por que o Rosário?


- É pessoal.


- Desculpe perguntar... – talvez eu esteja descontando minha raiva nele... Saga...


- Tudo bem. Posso te dizer que não faz parte da técnica original.


- Hum... Bem, chegamos.


Ele foi muito rápido. Sorri para mim e bate na porta.


Milo abre.


- O que...?


- Bala. – respondo- Busca um pouco de gelo, e espero que tenham alguns panos. Talvez, se não parar, precisemos cauterizar.


- Hum... O.k.


- Ah, Milo, você vai ter que me ajudar tá?


- Vou tentar. Saga, onde que eu acho essas coisas?


- Se vira Milo, ele tá com os braços ocupados agora.


Shura ironiza e sinto o coração de Saga disparar, irritado.


- Aiolia, traz água e aquele uísque!


- O que vai fazer Camus? –pergunto, uma vez que o planejado era eu mesmo cuidar disso.


- Tirar a bala, antes que infeccione.


- Eu dei sorte, a bala atravessou.


- Ahh, que bom.


Saga me põe em sua cama e se dirige a Aiolia.


- Onde esteve?


- Cheguei antes de vocês.


- Precisamos conversar. Mas não aqui.


- Vamos ao meu quarto então.


Fico um pouco intrigado com isso, mas deixo passar. Serão ciúmes?


Apesar de tudo, não conseguimos estancar o sangramento então orientei Camus e Milo e eles cauterizaram meu ferimento.


Foi uma dor insuportável, porém recusei o anestésico que me ofereceram, uísque. Saga não estava lá, mas me disse que não poderia me ver gritar de dor. Eu não soube o que responder, mas ele me prometeu que, se eu tivesse de sofrer novamente (o que afirmou não desejar que jamais acontecesse), que fosse por algo maior que essa guerra egoísta, e ele estaria ao meu lado.


Perdi a fala.


Uma semana se passa desde essa ocasião.


Minha ferida infeccionou, e somente depois de quase quatro dias eles puderam conter a infecção. Passei dois dias inconsciente.


Ah, e como não podia deixar de ser graças a minha sorte, perdi 35% do movimento de minha perna esquerda.


Tenho passado muito tempo com Saga. Na verdade ele que tem dedicado seu tempo a mim, porque raramente saio da cama.


É uma boa amizade, seria ainda melhor se não estivéssemos neste cenário de guerra... Ou se pudesse ser mais do que uma amizade. Mas me contento em tê-lo de volta após o jantar, sua companhia me faz feliz.


Estava um pouco cansado da minha aparência, então cortei meus cabelos. Pareço mais sadio assim.


Ele me perguntou o por que, e eu expliquei a questão de praticidade, uma vez que agora estão bem curtos.


Estava deitado em minha cama quando ouvia a voz de Saga se elevar, então fui até lá ver o que havia. Continuo agindo como se pudesse o ajudar e o proteger, mas ele está forçando para que a situação se inverta...


- Ahh, caramba, -eles estão mais exaltados do que o normal...- Shura, você não ajuda mesmo!


- O que está acontecendo?


- Shaka! Você sabe que não pode ficar andando! –Camus me faz sentar- Você vai fica aqui esta noite.


- Mas eu...


- Não está suficientemente recuperado cara, foi mal. –Milo suspira- Queria estar no seu lugar.


Olho para Saga, esperando que ele não concorde com aquilo. Não vou ficar para trás.


- Sinto muito. Não tenho umbom pressentimento quanto a isso, mas não há o que fazer.


Nem mesmo seu rosto carregado de tristeza desfaz a raiva que estou sentindo. Eles não confiam em mim.


- Bem, preparem-se, por que ao escurecer...


- Já entendemos Camus.


Ele se senta ao meu lado, quando os outros saem.


- Tudo bem?


- Não.


- Sua perna está doendo?


- Não.


- Então o que...?


- Você me magoou muito agora Saga, só provou o quanto não confia em mim.


- Mas...


- Acha que eu não sou capaz de enfrentar os nazistas por que estou com problemas de locomoção?


- Eu...


- Ou acha que eu seria um peso para vocês? Que teriam que cuidar de mim? – deixo a raiva me dominar ao dizer isso- Você viu do que sou capaz, sabe que não preciso disso.


- Você é mais frágil do que imagina Shaka. –ele toca meu rosto e fecho minha mão, tentando não deixar nada escapar- E é muito precioso para mim.


O fito, mas não por muito tempo. Seus olhos ardem mais do que chamas, e eu não quero entregar meus sentimentos e estragar tudo.


E a noite chega rápido.


Todos se despedem de mim, eu os acompanho até a porta.


Pensei em tudo que podia falar, e talvez seja a hora de dizer o que guardo em minha alma para Saga.


Chega o momento, porem nós dois falamos ao mesmo tempo.


Ele me deixa falar, porém minha voz não sai.


- Eu te amo. –ele sussurra, me pegando de surpresa.


E eu posso sentir seus lábios quentes nos meus neste momento, então apenas fecho os olhos e espero que ele entenda que esse sentimento é mútuo.


Essa sensação boa que sua língua em minha boca produz não dura muito. Eles têm que ir.


O fito sem dizer mais nada, e ele compreende.


Shura está com cara de enojado e Camus se retirou. Milo sorri para mim e também sai.


Entrelaço os dedos nos fios anil de seus cabelos e me despeço.


Ele e Shura saem.


Agora posso permitir as minhas pernas desmoronarem, então me encaminho para o quarto, me segurando nas paredes para não cair. Me deito na cama dele, que apesar do mofo do teto e do sangue do chão, ainda conserva o cheiro de sua pele.


Fecho novamente meus olhos, apreciando a lembrança de sua boca. Pela primeira vez em toda a minha existência as coisas saíram como eu queria!


Ouço um estrondo. Mas está muito próximo. Muito mesmo.


Me levanto e vou ver o que é. Ah, que ótimo Shaka, agora que as coisas estavam dando certo um grupo de dez nazistas invade a base da resistência...


Penso em Saga e nos outros... Existe a possibilidade dos alemães armarem uma tocaia para prendê-los... É chegada a hora de sacrificar minha vida em pró de quem eu amo, como minha mãe sempre previra.


- Ei, vocês... Enfrentem-me se forem capazes!


Realmente, continuo sem entender alemão, mas a surpresa e a satisfação são mundiais... Qualquer um as vê nos olhos deles.


A luta começa.


Revivo as minhas aulas com meu mestre, o auto-controle, e, acima de tudo, não temer a morte.


Derrubo um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete...


Bem, um deles tem a genial idéia de acertar minha perna ferida com a baioneta. Eu caio e sou levado. Pelo menos não os deixei em numero suficiente para tocaiar, meus amigos estão salvos por enquanto.


Apenas fecho os olhos, tentando conter as lagrimas de dor.


Nem os abro de novo, não por enquanto. É uma longa viagem, e por muitas vezes eles me mudam de veiculo. Nada pode me salvar agora. Minha perna sangra tanto... Acho que vou acabar desmaiando.


Acordo.


Eles me parecem bem contentes. Não sei se quero saber do que eles estão falando. As únicas certezas que tenho agora é que sou um prisioneiro político, que salvei as pessoas que amo e que vou morrer.


Suspiro. Pelo menos ele ficará bem.


Me carregam para uma espécie de prisão... Um campo de concentração, com certeza. Deixo que me dispam e me empurrem para uma sala cheia de gente, e todos olham para mim. Pelo jeito sou “visita surpresa”.


Eles nos trancam e um gás sai das paredes e de umas espécies de chuveiros... Meu pulmão reclama oxigênio e imediatamente percebo que esse gás é tóxico. Pelo menos não nos deixaram congelar até a morte. Morte...


Nunca pensei em morrer, mas isto é uma transformação que me aproximará do Nirvana.


Minha... Consciência... Sacrif...