Essências Divinas
6 Capitulo 6 - Você (não) está sozinho.
Notas iniciais
Capitulo 06 – Você (Não) Está Sozinho.
— — Ukyo — -
Dor. A dor é um aspecto sempre presente e quase essencial a vida humana. Me arrisco a dizer que é ela a principal responsável por moldar nossa percepção de mundo. Óbvio que a parte mais importante quem faz são os sentidos, mas é a dor que determina a maioria de nossas ações. Imagino nossos antepassados, ainda no tempo das cavernas, dividindo o mundo entre coisas que doíam e não doíam. Entre animais que causavam dor e não causavam. Plantas e alimentos que doíam ao serem ingeridas e as que não doíam. Hoje as coisas não são muito diferentes. Pessoas buscam desesperadamente se livrar da dor. Seja física, emocional ou psicológica. Nossos corpos, almas e mentes anseiam em se livrar da dor, mas ela é necessária. Ela nos diz do que devemos nos afastar. Do que devemos tomar cuidado. E a segundo atrás, meu corpo rugia dizendo que deveria tomar cuidado com Seth... Bem, ele estava certo. Esse cara conseguiu me causar um monte de dor. Se não fosse essa sensação super-humana de resistência e poder proporcionada pela ativação da carta, eu provavelmente já estaria morto.
Dor era tudo que eu deveria estar sentindo agora, mas, estranhamente, não era. Eu não estou sentindo dor. Nenhuma. Abro meus olhos e não me vejo mais na estufa, não vejo mais o céu ou o chão. Não vejo nada além de uma imensidão branca, independente de para onde eu olhe. Antes mesmo de ter a oportunidade de imaginar onde eu estava, o ar a minha frente entre em uma violenta combustão. A luz e o calor me fazem erguer os braços como maneira de proteção, dando três passos atrás sobre a imensidão branca. Percebo que o branco onde eu piso é tão sólido quanto o chão. Será que alguém cansou da decoração e resolveu pintar tudo de branco? Até mesmo o ar?
As chamas começam a se reunir e se agrupar umas sobre as outras, formando um ardente vulto alaranjado. O ar cheirava a carvão incendiado, a figura a minha frente devia ter uns bons dois metros, seu corpo humanoide é cumprido e bruxuleava à minha frente, assim como uma chama de vela quando açoitada pelo vento. Seus olhos, ou o que deveriam ser eles, era um espaço vazio de onde rancor e ódio emanavam. A odiosa voz gutural ressoa em meus tímpanos.
— Que fracassado você é, hein? — Sinto o sangue subir a minha cabeça e fecho os punhos.
— Cala a boca ou eu vou...
— Vai o quê? — Ruge o espírito do deus. – Vai acertar meu punho com sua cara? — Ele gargalha ruidosamente. – Você é mesmo um fraco imprestável. Que erro quando concordei em me juntar a você. Morra de uma vez e passe minha carta a outro.
— Quem porra você acha que é para me dar ordens? – Esbravejo. – Você matou minha mãe! Você destruiu minha vida! Você não tem o direito de me dizer o que fazer!
— CALE-SE SEU VERME! – O rugido dele ecoa em minha mente como um terremoto, tampo os ouvidos diante a potência de seu grito. – Não culpe os outros pelas suas próprias falhas! Sua mãe morreu por sua culpa! Você que foi irresponsável ao convocar forças que não podia controlar! Você que não conseguiu controlar o poder que tinha! – Ele se aproxima, seus olhos a centímetros de mim, o calor era intenso e insuportável. – Meu corpo não está no seu mundo. Lá fora, eu nunca realmente existi. Sempre estive na sua mente. E é ela que você deveria culpar. Sempre querendo achar um culpado em tudo, sem perceber seus próprios erros. — A imagem tremeluz e se afasta, sorrindo bisonhamente. – Você externa o culpado que há em você, dentro de sua própria incompetência e fraqueza. E no fundo, você sabe disso.
Engulo em seco. É tudo mentira. Tudo que ele está tentando é me jogar contra mim mesmo, mas... Por que não digo nada? Por que meu corpo se recusa a responder? Os segundos se arrastam pesadamente antes que o ser de fogo continuasse.
— Estamos na sua mente, garoto. As coisas aqui são diferentes de lá fora. Mas não vencerá lá fora se falhar consigo mesmo aqui dentro.
Depois de uma brevidade de silêncio, volto a me pronunciar.
— Jin me disse que, aquele que reunir todas as cartas, poderá realizar qualquer pedido aos deuses... Isso é verdade? – Um silêncio solene, exceto pelo crepitar do corpo divino, se instala no local, sendo quebrado alguns segundos depois.
— Sim, é verdade. — Responde gravemente. – Aquele que reunir a mente dos deuses, pode exigir qualquer coisa deles. Essa é a tradição.
— Até mesmo... Ressureição? – Uma gargalhada se espalha pelo local, o corpo tremeluz e reaparece em minhas costas, sussurrando em meus ouvidos.
— Agora entendo. Estranhei muito um fraco inútil que nem você ter entrado nessa, mas agora entendi. – Ele rodeava ao meu redor, me sondando. – Você deseja redenção de seus erros. Uma vontade forte que fez nossa Sincronização Divina aumentar, mesmo que não tenhamos feito contato algum. Nada mal. – Uma leve pausa é feita à medida que ele avalia suas próximas palavras. – O caminho que você está percorrendo é duro. Faltam 50 cartas e você está sozinho. Sempre esteve sozinho. Não podes contar comigo nem com mais ninguém. Só podes confiar em si mesmo. Mas você vai precisar de poder, e para ter poder, vai precisar de Sincronização Divina, e para isso, tem que dizer meu nome.
— Você não respondeu minha pergunta. – Inquiro e ele gargalha alto.
— Você tá tomando uma surra lá fora se lembra? Não temos tempo para essa merda de pergunta. Tive muitos nomes durantes os séculos, mas o que mais gosto é...
Sinto-me sugado para fora de um canudo de plástico e, quando me dou conta, estou ajoelhado no chão da estufa, as chamas crepitavam por todos os lados. Não posso mais perder tempo.
Sinto lentamente a força voltando a mim. Meu corpo recobra as forças, mesmo que um pouco, e um calor agradável invade meu peito. Levanto-me com dificuldades e vejo Seth a me encarar.
— Eu estava te esperando. – Afirma ele, mas tudo o que faço é me concentrar. Me concentrar em todo o fogo que nesse momento queimava as plantas da estufa. As chamas lentamente retrocedem em minha direção, juntando-se e acumulando-se sobre minha mão até formar uma esfera do tamanho de um pneu de carro, só que de fogo. Tipo um pneu de carro pegando fogo.
— Ok, está na hora de virarmos isso, Efreet.
— Demorou, garoto.
— Muito bem, Ukyo, superou minhas expectativas. – Fala Seth, um sorriso brotando em sua face. – Agora, vamos dançar.
— — July — -
Longos minutos se passaram e Ukyo continuava no chão, aflição e medo cresciam em meu peito à medida que às palavras de Jin ecoavam em minha mente.
Não confie em ninguém.
Viro-me para Laila, ela assistia a tudo com fria indiferença, mas eu ainda podia ver em seus olhos, seu rosto era escassamente iluminado pela lua, mas seus olhos ainda assim a entregavam. Eles tinham o brilho de quem quer chorar, mas sabe que não deve.
— Não interfira nisso, July. – Fala ela, seu tom soava como uma advertência.
— Não interferir? É do Ukyo que estamos falando! – Vocifero. – Ele é nosso amigo, e tem um maluco querendo matar ele! Temos que fazer algo.
— Aquele cara não é um maluco, é meu irmão. – Sentencia Laila. – E ele não quer matar o U. – Arregalo os olhos, incrédula.
— Não? Pois o que ele tá fazendo ali dentro não faz suas palavras parecerem mais verdadeiras. – Falo aborrecida. – Que se dane, eu vou lá. – Rapidamente Laila se põe entre mim e a estufa, seu olhar cheio de gravidade.
— July. – Fala seriamente. – Todos têm um motivo para lutar. U tem o dele, meu irmão também. – Ela faz uma pequena pausa, noto que ela apertava os punhos com força, as mãos pequenas estavam avermelhadas pela força do aperto. – Todos já perdemos alguém, todos querem alguma coisa e todos devem estar dispostos a pagar o preço pelo que se quer. – Ela se aproxima um passo, seus olhos fixos nos meus. – Meu irmão está disposto a pagar esse preço. E eu pagarei o preço que for para ajudar ele. – Ela direciona seu olhar para a estufa quando Ukyo se ergue, formando uma esfera de fogo em suas mãos. – U já se decidiu. – Conclui ela, novamente virando-se para mim. – Ele está disposto a ir às últimas consequências para ter seu desejo e isso me deixa com apenas uma pergunta. – Ela engole em seco, como se tivesse que tomar coragem o suficiente para falar a próxima frase. – Você tem realmente algum motivo para estar nisso?
— Do que diabos está falando?
— Vamos lá, pense comigo, não somos crianças aqui July. – Seus lábios estreitam-se, seus olhos fixam-se em algum ponto no chão e seus ombros se encolhem. – Sabemos que tudo isso é real, e agora que sabemos, temos certeza que as coisas não vão se desenrolar sem mortes. Talvez até alguns de nós morram. – Ela ergue seus olhos aos meus, como se implorasse para ser ouvida. – Vocês foram os primeiros amigos de verdade que já tive, eu não quero perder vocês. – Ela estende uma mão caridosa para mim. – Você não precisa fazer isso. Me entregue a carta, dentro de algumas semanas os juízes vão aparecer para você e será como se nada disso tivesse existido.
Um longo silêncio se instala entre nós. Fui pega de surpresa pelo pedido dela. Embora Jin tenha me dito para não confiar, convivi tempo o suficiente para saber quando Laila estava mentindo e, por isso, posso dizer: Nunca a vi falando tão sinceramente. Um aperto em meu peito me faz levar a mão até a pequena caixinha no bolso do casaco. Ergo meus olhos à estufa, perdendo o fôlego com a cena que se desenrolava diante mim.
— — Seth — -
— Vamos dançar, Ukyo. – Sinto um sentimento de satisfação brotar dentro de mim. O garoto está correspondendo às minhas expectativas.
— Aparentemente a Sincronização Divina dele aumentou. — Conclui a voz divina dentro de minha consciência, abro um sorriso com o canto dos lábios.
— Um verdadeiro detetive você é, Zeus. – O garoto começa a condensar todas as chamas em uma esfera menor, porém de um poder destrutivo compacto e poderoso.
— Prepare-se, eles virão com tudo. — Adverte o deus dos raios quando Ukyo arremessa a bola de fogo contra mim. Um cheiro de ozônio começa a se espalhar, faíscas percorrem velozmente meu corpo, rodeando meus braços, um arrepio elétrico percorre minha espinha, arrepiando os pelos de minha nuca. Ergo o braço, atirando um raio contra a esfera. Os ataques se chocam em um estrondo doloroso e as chamas se dividem em várias pequenas brasas, com uma manipulação ágil e precisa, Ukyo transforma essas brasas em agulhas flamejantes, novamente atirando-as contra mim. Uso os reflexos apurados que a carta dos raios me concede, desviando-me de algumas e saltando para trás para evitar o restante.
À medida que deslizo por sobre o gramado, toco com a mão no chão, espalhando uma corrente elétrica pelo mesmo. Ukyo salta para um grosso galho de árvore antes que o golpe o atinja, em seguida vindo em minha direção, seu braço entrando em combustão no processo. As chamas estão mais fortes e controladas do que antes. O brilho alaranjado e o calor das chamas passam chamuscando alguns fios de cabelo quando desvio, rapidamente encurtando a distância, colando meu corpo ao dele para que ele não tivesse espaço para realizar um soco.
Dou uma cabeçada em sua testa, o jovem ruivo sente o golpe e cambaleia para trás, tonto, tentando acertar um outro golpe flamejante, agacho-me, acertando um chute rasteiro na parte traseira de seus calcanhares. Ukyo cai no chão, de costas para o mesmo. Coloco minha mão em seu peito, desferindo uma forte descarga elétrica. Os gritos do ruivo são audíveis. Fico uns bons cinco segundos antes de aliviar a tensão e me pôr em pé de novo. Observando o garoto machucado no chão.
— Eu te disse. – De meu bolso retiro um maço de cigarros, pondo-o na boca e acendendo-o em uma chama que queimava sobre a grama local, ponho-o na boca e dou uma longa tragada, prendo o ar em meus pulmões por alguns prazerosos segundos antes de soltar a fumaça deveras tóxica no ar. – Isso não é uma porra de um conto de fadas. – Os olhos dele me fitavam, ele ainda não tinha desistido. – Não pense que só por que você está um pouco mais forte pode me derrotar, vai precisar fazer melhor que isso. – Calmamente caminho até uma árvore, sentando encostado à ela. – Me diz uma coisa. – Dou mais uma tragada antes de questioná-lo. – Você acha mesmo que pode ganhar esse jogo? Digo, derrotar outros caras, pegar todas as coisas, fazer o pedido, coisa e tal. – Vejo-o com dificuldade se levantar, se pondo sobre um dos joelhos, ele ofegava e seu corpo parecia teimar em continuar deitado.
— Se eu não acreditasse nisso, eu não teria nem aceitado participar disso.
— Isso não é totalmente verdade. – Concluo e ele me olha confuso. – Esse é seu erro, garoto. Você não escuta os outros. Isso não é conto de fadas. É real. É a coisa mais real que você pode imaginar. É mais real do que a própria porra da realidade. E essa realidade te diz uma coisa. – Levanto o dedo indicador para ele. – Você não vai vencer. Não tem força. Não tem as melhores cartas. Não tem o conhecimento ou os recursos necessários. – As palavras atingem-no duramente, uma carranca se forma em seu rosto. – Não me leve a mal, eu estou na mesma situação que você. Na hora de enfrentar os casca grossa, vou precisar de ajuda, mas existem duas diferenças entre nós dois. – Levanto o dedo indicador. – Um: Eu sei disso, e estou pronto para fazer o necessário para conseguir vencer. – Levanto também o dedo médio. – Dois: Eu não ligo se é meu amigo, irmã ou o que for, não preciso de aliados fracos que não conseguem nem limpar a própria bunda sem se ferir, esses eu prefiro que entreguem as cartas e fiquem em casa. – Os olhos dele se estreitam.
— Devo presumir que está falando de mim. – Não posso deixar de sorrir para a afirmação dele.
— Você entende as coisas rápido, garoto. – Sorrio e apago o cigarro contra o tronco da árvore. Me erguendo novamente. – Vamos lá, acabou o intervalo, hora de te dar outra surra.
— — Ukyo — -
— Garoto, ele tem reflexos muito melhorados graças ao poder da carta dele, é meio que um bônus, você vai ter que se concentrar mais se quiser vencê-lo.
— Não consigo me concentrar com você matracando na minha cabeça. – Murmuro à medida que Seth avança. Não importa quantas vezes eu tentei, ele sempre parece ter o controle absoluto da situação e do fluxo da luta, tenho que pensar em algo para reverter isso, mas um soco de esquerda me obriga a erguer a defesa.
Quando percebeu a guarda armada, Seth rapidamente modificou seu golpe, me acertando um cruzado de direita, meu mundo gira à medida que constato que, além dos reflexos, a força dele também é maior que a minha, tenho que pensar rápido no que farei. Um soco no estômago me tira de meus devaneios, seguido de uma joelhada contra o rosto que joga minha cabeça para trás. Sinto-o segurar meu pulso e me puxar, acertando uma cotovelada na lateral de meu rosto.
Fecho o punho, me preparando para revidar, jogo-o contra Seth em um balanço longo, brasas voando dos poros de minha pele. O cinzento desvia a cabeça para o lado á tempo de desviar do golpe, mas antes que pudesse fazer alguma coisa, abro a mão, disparando uma rajada de fogo de sua palma. Graças a seus malditos reflexos, Seth agacha-se no momento certo, desviando do golpe. Faíscas percorrem seus braços, do cotovelo até a ponta dos dedos, um forte cheiro de ozônio invade minhas narinas pouco antes que a descarga elétrica me arremesse contra uma árvore.
Caio em um baque sonoro, mas rapidamente me ergo. Devo ficar em movimento o tempo todo, manter a adrenalina alta. No momento que meu sangue esfriar, todos os golpes começarão a fazer efeito e esse será meu fim. Corro para o lado, lançando pequenas esferas de fogo contra Seth que as neutraliza facilmente, seja desviando ou revestindo sua mão com uma luva elétrica para bloquear os golpes, as chamas explodem contra a mesma, liberando fumaça e brasas no chão, que geram pequenas labaredas. Tive uma ideia.
Continuo correndo em círculos, atirando esferas de fogo contra ele que continua a bloqueá-las, ele deve pensar que dessa maneira está se poupando enquanto eu gasto energia. Ótimo, espero que ele continue assim.
Ao completar uma volta completa, toco o chão e tento fazer valer minha vontade sobre as chamas que aumentam e se erguem, formando uma espécie de gaiola ao redor de Seth. Salto, pegando impulso no caule de uma árvore, até estar acima da gaiola, Seth olhava para mim com um sorriso no canto de seus lábios. É agora. As chamas crescem e se atiçam ao redor de meus braços, um mal-estar em meu estômago se forma à medida que lanço a maior quantidade de fogo que já manipulei contra Seth. Escuto um zumbido mais intenso no momento que as labaredas atingem a gaiola, transformando-a em um camarote de show no inferno.
Aterrisso e sinto minhas pernas tremerem com o impacto. As chamas levantavam fumaça e o cheiro de gás carbônico era quase palpável, mas algo estava estranho. Nada ali dentro se assemelhava a um Pikachu de cabelos cinzentos e é então que percebo o tamanho do meu erro. Um soco forte atinge minhas costelas, fazendo com que meu corpo inteiro estremecesse e se retorcesse. Um chute na parte de trás de minhas coxas me põe de joelhos, meu corpo começa a sentir os efeitos da fadiga e dos danos da batalha. Sinto a mão dele prender-se em meus cabelos e ele puxa minha cabeça, me obrigando a olhar para cima.
— Aquele foi um bom golpe. – Fala ele, seu sorriso de canto mantinha-se firme ali. – Se qualquer outra pessoa fosse seu oponente, teria funcionado. – Ozônio invade minhas narinas e um chiado elétrico ressoa em meus ouvidos. – É o que eu te disse, garoto. Você não pode me derrotar. – Cerro os punhos e travo a mandíbula quando sinto a descarga elétrica começar a percorrer todo meu corpo, como se fosse me deixar em pedaços a qualquer momento.
— — Laila — -
Um raio dourado reluz por todo o interior da estufa e vejo July levar as mãos a boca, abaixo a cabeça, soltando um longo suspiro. Ás vezes meu irmão exagera nas coisas que faz. O clarão desaparece e July se põe a correr para a entrada da estufa, penso em impedi-la, mas algo chama minha atenção. Um clarão rápido e quase imperceptível a distância, algo parecido com um... Flash?
Aproximo-me disfarçadamente, coberta pela penumbra noturna, vejo que a luz viera de um pequeno arbusto no canto sudoeste da estufa. Aproximo-me vagarosamente, colocando uma mão no bolso. A carta lá dentro pulsava como uma coisa viva. Quando me aproximo, minhas suspeitas se confirmam. Elly, a jornalista da faculdade, estava deitada ao lado do arbusto, sobre seu nariz havia uma câmera profissional que ela usava para tirar fotos lá de dentro. A mecha colorida caía sobre um de seus olhos em meio a um emaranhado de cabelos castanhos. Pigarreio, o que parece chamar sua atenção, que olha para cima, assustada.
— O que você está fazendo aqui? – Questiona ela, empalidecendo.
— Eu que pergunto, o que você está fazendo aqui? – A rigidez em minha voz apenas exibia minha irritação. A situação já era complicada demais para mim, não preciso de uma jornalista magricela e xereta para me importunar ainda mais.
— Não é obvio? – Responde ela, sua voz trêmula exibia seu nervosismo diante de tudo que presenciou. – Estou tirando fotos para o jornal da escola. Não é todo dia que vemos um aluno que solta fogo lutando contra um homem elétrico. Se é que eles são realmente humanos. – Ela se volta novamente para a estufa, buscando voltar às suas atividades. Impeço-a, colocando a mão na frente da lente.
— Pare com isso. – Imponho severamente, ela arregala os olhos e se ergue, puxando a câmera.
— Pare você com isso. – Retruca. – Essa é a chance de uma vida. Não vou deixar ninguém me impedir de- Antes que ela terminasse de falar, a câmera estoura em um chiado elétrico irritante. Ela se assusta, jogando a mesma no chão. Um cheiro de queimado chega até minhas narinas à medida que um rastro de fumaça começa a sair do equipamento eletrônico. – O que você fez? – Exaspera ela.
— Eu não fiz nada, mas ele sim. – Aponto para uma árvore próxima, Elly olha para a mesma e vê Seth encostado a ela, faíscas passeavam por seus dedos, seu indicador estava apontando para a jornalista. Ele disparou uma corrente elétrica em direção a câmera, que pifou pela sobrecarga. – Escuta bem aqui. – Me aproximo dela com rosto severo, vejo-a quase fraquejar, mas a mesma estufa o peito e me encara de volta. – Não se meta em coisas que você não entende, ou pode acabar se machucando. – Viro-me de costas, indo na direção de meu irmão. – E se você aparecer para mim de novo, eu mesma vou te machucar.
Junto-me a Seth e vamos embora, deixando uma jornalista furiosa para trás.
— — Ukyo — -
Sinto minha consciência voltar para meu corpo lentamente e lamento por isso, pois começo a sentir toda a dor que a adrenalina anteriormente estava inibindo. Mas antes mesmo de abrir os olhos, percebo que há algo errado. Sinto um leve frescor na minha cabeça, como se alguém estivesse passando um gel ou coisa assim.
Abro os olhos sofrida e lentamente, notando que ainda estou dentro da estufa, porém minha cabeça repousa sobre algo macio. Mexo-me, tentando ver do que se tratava e percebo que descanso sobre o colo de July. A loira mantinha ambas as mãos em minha cabeça e uma luz verde-jade emanava delas.
— O que... – Minha voz falha, mas a loira faz um sinal de reprovação com a cabeça.
— Não fale ou se esforce demais, você ainda está muito fraco. – Explica ela, lembranças da luta atacam minha mente e me acertam com precisão enjoativa. Eu perdi. E perdi feio.
— Onde ele está? O que aconteceu? – Pergunto agitado.
— Ele se foi. Está tudo bem agora. – Garante ela, sua voz tentava me tranquilizar, mas a última coisa que eu queria no momento era isso. Me ergo rapidamente, me afastando.
— O que você está fazendo aqui? – Questiono e posso ver a preocupação e chateação em seu olhar quando o faço.
— Laila me trouxe aqui. Aquele cara... É irmão dela. –Arregalo os olhos, sentindo o chão estremecer abaixo de mim.
— Irmão? – Ela assente com a cabeça antes de continuar.
— Melhor não conversarmos sobre isso agora, você ainda está ferido. – Ela tenta se aproximar novamente, mas mantenho a distância.
— E o que você estava fazendo? – Ela pega uma carta e a levanta para mim, uma das cartas que recebeu de Jin.
— Descobri que essa é uma carta de cura, ajuda a acelerar em muitas vezes o seu processo regenerativo. – Estreito os olhos, encarando-a por um tempo.
— Você sabe que não quero você se metendo com essas cartas, não é? – Murmuro e ela assente com olhos decididos.
— E você sabe que não me importo, né? – Responde prontamente. – U, você não manda em mim. – Solto um longo suspiro, abaixando a cabeça.
— Eu sei, é só que... – Sinto-me estremecer, uma confusão de sensações se apoderava de mim. Tristeza, fraqueza, derrota, raiva, tudo intensamente ecoando em meu peito, todos ao mesmo tempo. – Eu já perdi tudo que eu tinha, minha mãe morreu, meu pai está internado em um hospital psiquiátrico, minha vida toda foi arruinada por essas cartas. – Ergo o olhar, sinto lágrimas quentes descerem por meu rosto, emoções a muito tempo reprimidas vinham à tona violentamente. Me sinto novamente como aquela criança indefesa no meio de um incêndio. – Eu já perdi tudo, estou sozinho. – Falo em meio a soluços. – Eu não quero que isso aconteça com você também.
Ela mantinha um olhar compassivo e atencioso. Se aproximou de mim lentamente e, me pegando de surpresa, me deu um forte abraço, me aconchegando em seus braços.
— U... Você não está sozinho. – Ela diz consolando-me. – Eu tô aqui. Eu não vou a lugar nenhum. Eu estou com você, você não está mais sozinho. – Sinto uma sensação de calmaria se espalhar por meu corpo, cada fibra de meus músculos parece relaxar e me deixo descansar em seus braços, minhas dores, lágrimas, incertezas e inseguranças. Pela primeira vez, elas não pareciam tão pesadas sobre meus ombros. Um refrigério se espalhava por meu peito, como um bálsamo e, desta forma, deixei-me estar ali por mais algum tempo, sentindo apenas o ritmo das batidas do coração.
— — Continua — -
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