Essências Divinas

7 Capítulo 07 - Aquele Que Me Encara No Espelho


Notas iniciais
Será este um milagre divino que vejo diante de meus olhos? Existe mesmo um capítulo novo sendo lançado quando todos acreditavam que essa história estava morta? Isso mesmo para você que esperou até hoje, estou de volta, agora sem enrolação, vamos lá.

Capitulo 07 – Aquele que me encara no espelho.

— — Ukyo — -

Abro os olhos lentamente e me vejo encarando o teto de meu quarto, minhas pupilas lentamente se ajustando á luminosidade, esta praticamente inexistente, enquanto memórias da luta de ontem vêm à tona como um lembrete inconveniente, quase como um alarme para lembrar de tirar as roupas do varal. Eu perdi. Em todos os sentidos da palavra. Seth é muito superior e nada do que fiz foi suficiente.

Ponho-me sentado enquanto tento lidar com a frustração de não ter conseguido dar um motivo para os cabelos dele parecerem cinza. Fogo, cinzas. Você entendeu. Grande piadista sou. Noto que ainda estou usando as roupas da noite passada, prova final de que o rolê foi bom. Levanto-me e noto que os ferimentos da noite passada eram poucos ou nenhum e meu corpo não se encontrava mergulhado em uma piscina de dor. Não tenho certeza do porquê, mas isso com certeza é bom. Ando até a porta, mas antes de chegar á ela, a maçaneta é girada e a porta se abre. Meus olhos se encontram de July e ela parece ficar aliviada.

— Você acordou, ainda bem. Achei que dormiria por anos. – Fala ela, fechando a porta atrás de si.

— A quanto tempo eu estou dormindo? – Questiono e ela pega o celular para olhar o horário.

— Umas dez horas. – Ergo a sobrancelha.

— Você sabe que isso não chega nem perto do meu recorde né?

— De 29 horas? Tenho plena ciência. – Ela abre um sorriso tímido. – Como você está se sentindo?

— Francamente? É como se eu não estivesse acabando de sair de uma luta, parece mais que eu me alonguei errado antes do exercício e fiquei com câimbras. – Ela suspira, aliviada, e indica para que eu me sente e assim o faço.

— Isso é ótimo, fiquei preocupada de não funcionar.

— Não funcionar o quê? – Questiono e, do bolso da calça dela, ela retira uma carta.

— Isso. – Estreito os olhos e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela completa. – É uma carta que serve para curar. A deusa dentro dela me disse o que fazer e aparentemente funcionou. – Ela diz enquanto se senta em uma cadeira próxima à minha cama. – Óbvio que isso não fez você despertar mais rápido.

— Eu te mataria se fizesse. – Ela dá uma risadinha, mas após isso um silêncio incômodo toma conta do cômodo, só sendo quebrado por meu questionamento. – Ontem foi...

— Eu vi. – Me interrompi a loira. – Difícil, né? – Assinto silenciosamente com a cabeça e ela se mexe, desconfortável. – A Laila me levou lá...

— Aquilo que você disse... Da Laila ser irmã dele... É verdade? – Ela sustenta o olhar sobre mim, assentindo alguns segundos após. Sinto meu corpo murchar, parecia pesar uma tonelada o que deve ser a maneira dele de expressar que devo começar uma dieta. Ponho minha cabeça entre os braços, sentindo o olhar de July sobre mim.

— Ele poderia ter te matado... Mas porque não o fez?

— Ele queria me testar.

— Te testar? O que quer dizer?

— Ele falou algo sobre não confiar em mim como um aliado e querer me testar. Algo assim. – July torce o lábio erguendo seus orbes azuis para algum lugar nas paredes do quarto.

— Então ele é aliado do Jin?

— Algo assim. – Murmuro e o silêncio volta a se instalar no cômodo.

Alguns minutos se passam sem que nenhum de nós falasse nada. Permaneci sentado enquanto a loira ergueu-se e começou a caminhar no quarto. Ela parecia nervosa, mas não a culpo. Os últimos dias foram cheios de novidades que, se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, diria que foi escrito para um livro por algum desocupado durante uma madrugada de sexta-feira. Algumas semanas passadas, tudo que eu sabia era que uma carta estranha tinha incendiado minha casa e matado minha mãe. Agora... Cartas. Poderes. Deuses. É muita coisa para processar em tão pouco tempo. Não me surpreende que ela esteja surtando.

— U. – July chama minha atenção, quebrando tanto o silêncio quanto minha linha de raciocínio. – Somos aliados do Jin, até onde sei Laila e o irmão dela também, mas não sabemos até que pontos eles vão colaborar conosco. Eles têm os próprios motivos deles para lutar. – Assinto com a cabeça. – Teremos que tomar muito cuidado a partir daqui. É como o Jin disse. Não devemos confiar em ninguém. E ao mesmo tempo, não podemos contar nada disso para nossa família ou amigos. – Assinto com a cabeça, o rosto dela estava severo como nunca antes vi, mas logo se alivia à medida que ela solta um longo suspiro. – As coisas eram tão mais simples antes... – Diz ela fazendo um muxoxo, abro um pequeno sorriso e ergo as sobrancelhas.

— Vamos para a cafeteria? – Seu semblante ilumina-se com a ideia.

— Sim! – Me levanto, fazendo questão de me espreguiçar um pouco, me certificando de não ter nenhum osso quebrado.

— Hoje é por minha conta.

—Deus, hoje você vai falir! – Brinca ela enquanto nós saímos do quarto.

— — Joseph — —

O som de pesadas portas de madeira se abrindo arrancam-me de meu cochilo. O assento acolchoado abaixo de mim sempre se mostrara confortável quando precisei dele. Um vulto feminino cruza o pátio de pedra, indo até as janelas atrás de mim, abrindo-as e deixando o sol entrar impetuosamente, minha visão embaçada subitamente se incomoda, mas deixo estar por alguns segundos até que o incômodo não passa de uma sensação distante.

— Achou o que buscava? – O tom inquisidor de Mira retira-me de meu torpor.

— Não, o Rei voltou antes que eu conseguisse. – Ergo-me da cadeira, fitando a mulher de longos cabelos prateados.

— Devo presumir que lutaram então?

— Sim. – As mãos dela repousam sobre a janela, os pés descalços no chão frio. – Ele é poderoso, mas causei danos. – Continuo. – Também pude presumir que ele não sobreviverá muito tempo.

— Como pretende agir então? – Ela se vira, os cabelos esvoaçando, os orbes cor de esmeralda fixando-se em mim.

— Por enquanto, devemos manter nossa posição, em breve estará na hora de iniciarmos nosso plano, deixarei um recado para ele antes disso. Ele não ficará em nosso caminho quando chegar a hora. – Os lábios femininos se movem em um sorriso satisfeito, os passos dela se aproximam de mim, seus lábios colam-se nos meus em um rápido selinho e, logo em seguida, ela se dirige à saída.

— Manterei os outros atentos, enquanto isso, descanse. O mundo não vai se governar sozinho, e você precisa estar inteiro quando a hora chegar. – As pesadas portas se fecham em um retumbar. Olho para as janelas, um frio na barriga presente. A hora está chegando. Este mundo sujo irá ter fim.

— — Laila — -

A xícara de café quente entre minhas mãos ajudava á afastar o frio da manhã. Não nevara, mas não significa que a temperatura passasse dos 10°, o vapor emanado do líquido negro misturava-se com o que saia de meus lábios em uma confusão de temperaturas. Vago o olhar pelas mesas vazias da cafeteria, algumas semanas haviam se passado desde o confronto entre Seth e Ukyo, não vejo o ruivo e July desde então, o fim do semestre já era uma realidade e poucos alunos permaneciam na faculdade, a maioria havia pegado um barco de volta para suas casas, onde quer que fossem.

Levo a bebida até meus lábios enquanto um aperto no peito dá as caras quando me lembro do desfecho daquela luta. Ukyo e July são os únicos amigos que já tive. São preciosos para mim. Eu faria tudo ao meu alcance para evitar que se machucassem. Mas que inferno eu poderia fazer? Seth é meu irmão! Como posso ficar contra ele? Mas ao mesmo tempo não posso simplesmente deixar meus amigos sofrerem. Que droga eu faço?

Parar de perder seu tempo pensando bobagens seria um bom começo. — Uma voz ecoa cortante em minha mente, mesmo dentro da caixa de chumbo as divindades, contanto que possuam certa sincronia, ainda podem se comunicar com seus portadores. E contanto que os usuários estejam em contato com o objeto, claro. Por um momento esqueci que a caixa estava no bolso de minha calça.

— Você tem ciência de que vive me atormentando sobre possíveis animais quiméricos e agora chama os meus pensamentos de bobagem, né? – Retruco e tenho a impressão de ouvi-lo bufar.

Com quem mais poderia eu partilhar minhas girafas aladas com trombas? — Reviro os olhos, novamente sorvendo a bebida escura. – Laila, sabes que gosto de você e quero seu bem, por isso devo te dizer: Suas dúvidas em breve vão te matar.

— Otimista e prestativo. – Murmuro mentalmente. – Como pôde presenciar, todas as minhas dúvidas são intencionais e as mantenho por que quero.

Olhe bem como fala comigo, mocinha! — Ordena. – Francamente, fica um tempo longe de mim e quando nos reencontramos, é assim que me recebe! — Reviro os olhos, uma DR com uma divindade mental. Tudo que eu estava precisando. – E trate de resolver logo isso! Você tem objetivos á cumprir, não pode deixar essas coisas te atrapalharem.

— Como quiser, milorde. – Respondo e tenho a sensação de escutar um suspiro irritado, mas novamente a divindade se cala. Meu estômago, antes embrulhado, parece relaxar, o que expressa o fim do elo mental entre nós dois. Massageio minhas têmporas e deixo meu corpo relaxar sobre a cadeira. Minha mente se tranquiliza e por algum tempo sinto-me boiar sobre águas tranquilas. Mas paz é algo com que não devo me acostumar e uma voz me tira de meus devaneios.

— Podemos sentar com você? – Ukyo fala, de pé a minha frente, July ao seu lado, ambos com café em mãos. Inconscientemente encolho os ombros e vejo que a loira fazia o mesmo, seus olhos eram um misto de dúvida e medo, mas não os de Ukyo. O ruivo tinha um brilho curioso em seus orbes. Aceno com a cabeça, indicando um par de cadeiras. Ambos se sentam, pondo seus cafés sobre a mesa.

Mesmo após a luta de ontem, Ukyo não parece ferido, pelo menos não na quantidade que ele deveria estar, acho que devo colocar isso na conta dos efeitos da carta de cura, que Jin diz estar em posso de July agora. Aquele velho não deveria em hipótese nenhuma ter envolvido ela nisso.

— É verdade? – Só então percebo está olhando para minhas próprias mãos, ergo o olhar e encontro Ukyo com os obres cor de avelã cravados em mim, uma frágil esperança dançando em sua íris. – Seth é mesmo seu irmão?

July se remexe, inquiete, apreensiva. O mesmo desconforto enche e infla em meu peito, acompanhando o ritmo de minha respiração. Reteso os músculos e suspiro antes de continuar.

— Sim, ele é. – A loira se encolhe, mas é Ukyo quem me surpreende, o brilho em seus olhos e a expressão no rosto nem ao menos se alteram.

— E o que isso muda entre nós? – Ele questiona.

— Muda que no futuro seremos inimigos.

— E o somos agora? – Ele inquire.

— Enquanto Jin ainda estiver por aqui, estaremos do lado dele, mas quando ele se for, não mais.

— Pare de apressar as coisas! – Seu tom de voz me surpreende, encolho os ombros e ele parece perceber que exagerou. – Desculpa.

— Não se desculpe. – Desvio o olhar, incapaz de encará-lo. – Em breve não seremos nada um para o outro.

— Não minta para nós, nem para você mesma. – Dessa vez é July quem se intromete. – Não finja que quer isso. – Ela tem razão, eu não o faria mesmo que pudesse.

— Laila. – O tom de Ukyo era acolhedor, ele estica a mão sobre a mesa, deixando-a estendida para mim. – Somos seus amigos, não nos trate como se fôssemos estranhos, pare de nos evitar. – Seu olhar aquece meu coração enquanto ele sorri. – Talvez em algum momento tenhamos que nos enfrentar, mas até lá, você ainda será uma das minhas melhores amigas, e não quero que nada mude entre nós. – July acena com a cabeça, também estendendo a mão. Por alguns momentos fico sem reação. Mas logo percebo: É exatamente por eles serem assim que gosto tanto deles. Coloco minhas mãos sobre as deles.

— Você tem razão.

— Eu sempre tenho. – O ruivo brinca e não posso deixar de rir.

— Laila. – Chama July. – Por que nunca nos disse que aquele era seu irmão?

— É por que aquele.... Digo, aquilo não é meu irmão. O irmão que conheci é bem diferente daquilo. – Ambos parecem confusos, mas antes que eu pudesse me explicar, nosso amigo Tyler começa a se aproximar, acabara de sair do treino creio eu, demos o assunto por encerrado, pelo menos momentaneamente, e o recebemos junto a nós.

— — Peter — -

Peter! Ele está fugindo! — A voz ecoando em minha mente começava a me incomodar enquanto disparo por entre plantas e raízes, o peito arfando e o ácido lático queimando meus músculos por dentro.

— Alguma ideia de como pará-lo, Arthur? – Abaixo-me, desviando de alguns cipós perigosamente pendurados. A vegetação fechada impedia que a maioria dos raios solares penetrasse no denso manto de folhas, tornando ainda mais difícil seguir o rastro de meu alvo.

Poderíamos cortar a floresta inteira e impedir que ele consiga nos despistar. — Uma veia de irritação salta em minha testa.

— Vou fingir que você não sugeriu que eu desmate grande parte da Amazônia só para perseguir um cara. – Deslizo por baixo de uma grossa raiz, notando que o homem que persigo virou á direita ao encontrar uma árvore ancestral. Corto caminho por entre algumas árvores, tentando interceptar sua trajetória, a exaustão atingindo todas as partes do meu corpo.

A pele do indígena brilhava com o suor, o corpo forte e as pinturas tribais, seu corpo coberto por couro e penas. Um guardião da tribo que, ao sentir minha aproximação, rapidamente afastou-se da própria tribo, sabendo que a batalha seria inevitável, buscou afastar-se para evitar danos, o que caracteriza um tipo de poder de larga escala sobre a qual ele talvez não tenha tanto controle.

A perseguição é interrompida ao chegarmos ás margens de um rio, seus pés afundando um pouco na terra lamacenta. Ele se vira, cuspindo o que julgo serem insultos de sua língua materna e, de um adorno em sua perna, ele saca uma carta.

Ele finalmente parece pronto para lutar, Peter.

— Que assim seja, prepare-se, Arthur. – Murmuro, puxando a carta do bolso de trás de minha calça.

Vejo-o recitar o encantamento em hindu e seu corpo imediatamente começa a se transformar. A pele adquire uma coloração cinzenta e grossa, o ser humano bípede em minha frente transforma-se em uma criatura quadrúpede, uma longa cauda sobressai de seu corpo e o pescoço se alonga, bifurcando-se em certo ponto. Após toda a transformação me vejo em frente à uma lendária criatura. A Hidra.

Por minha vez, ativo o encantamento em uma língua nórdica á muito esquecida. Um brilho cegante irradia da mesma, abro minha mão esquerda e, de dentro da carta, retiro algo constituído de um metal gelado. Fecho os dedos sentindo o punho dourado, cravejado de pedras preciosas, contra minha pele. Uma lâmina pálida, leve e sem fio que parecia refletir qualquer mínimo foco luminoso que recaísse sobre sim.

— Em frente, Excalibur. – Sussurro, brandinho a espada no ar, seu peso aumenta minimamente enquanto assumo minha posição de combate.

No momento, você é incapaz de cortar, atravessar ou perfurar a pele da besta. — Arthur me adverte. Nada que eu já não tivesse conhecimento.

A Hidra avança desengonçadamente.

Planeja me pisotear.

Que venha.

Corro em sua direção, usando o solo lamacento para escorregar de uma possível e até provável morte. Bato a lâmina duas vezes na pele da besta enquanto deslizo por debaixo de suas patas. A grossa pele não parece nem ao menos próxima de ceder. A espada começa a pesar um pouco mais. Me ergo com as roupas ainda pingando só para ser acertado pela cauda corpulenta. Arremessado sou contra uma árvore e tenho plena ciência de que algumas costelas minhas se partiram. Rolo para o lado bem á tempo de desviar de um pisão da besta, o chão lamacento sendo expelido em todas as direções com o peso da mesma. Brando minha espada, que ricocheteia inutilmente contra a perna da Hidra.

Ainda não

Afasto-me rapidamente à medida que um dos longos pescoços chicoteia à minha frente.

Uma besta verdadeiramente fabulosa esta. — Sinto uma leve sensação de admiração na voz de Arthur.

— Vai ficar aí babando ela ou vai me ajudar á derrota-la? – Questiono

Corte mais forte. – Sugere ele inutilmente.

Estalo a língua e começo a desviar dos furiosos golpes da criatura, a lâmina em minha mão ficando ligeiramente mais pesada á cada instante enquanto a brando no ar. Só então consigo notar, estou de costas para o rio, completamente cercado.

Um dos pescoços da Hidra ergue-se, fazendo-se parecer ainda mais imponente e intimidante. Nada que meus joelhos trêmulos não tivessem percebido antes. A primeira cabeça mergulha em minha direção, as mandíbulas abertas em um abraço mortal. Levanto a espada verticalmente, colocando-a entre os dentes da criatura. Uso minha outra mão para manter nossa distância enquanto os dentes da Hidra roçam-se contra o metal pálido. Sua tremenda força faz um de meus joelhos cederem, indo de encontro ao chão. A outra cabeça avança pelo meu flanco, tentando abocanhar-me, mas neste ponto eu já conseguia senti-lo.

O fio ideal.

Forço rapidamente a espada para cima, lacerando as gengivas da primeira cabeça, que recua rugindo, dou dois passos a frente e giro o corpo, o fio da lâmina cortando a carne do outro pescoço e o decepando. O sangue espirra em abundância do pescoço enquanto Arthur se pronuncia.

Um corte muito bom, mas que não deveria ter sido feito. — Quando Arthur termina de falar, a grossa carne cinzenta começa á espasmar enquanto a Hidra afasta-se alguns passos e, da estrutura antes única, saem mais duas cabeças, maiores e mais furiosas do que aquela que foi cortado. Ambas se unem á que já existia e rugem ensurdecedoramente.

Talvez exista um limite de quantas cabeças podem ressurgir. — Especula minha divindade quando a besta já possuía umas 64 cabeças.

— Duvido muito. – O ritmo cardíaco ofegante e as roupas empapadas de lama, além do suor, evidenciavam minha exaustão e a dificuldade da luta.

Talvez existam outros pontos vitais que possam ser explorados que não sejam as cabeças, afinal cortá-las não parece tão fatal assim. — Bufo enquanto mais cabeças vêm em minha direção, brando a espada, que corta a carne grossa tão facilmente como uma faca quente na manteiga. – Se não me engano, o coração da fera fica próximo à pata esquerda frontal.

Uau. Ele realmente só pensou em me dizer isso agora? De todos os momentos, justo agora?

— Vou precisar de uma abertura para atacar lá. – Desvio de mais uma dezena de ataques, me afastando para uma posição segura.

— A Excalibur está pronta para criar a abertura que precisas. – Relaxo os ombros, retesando os músculos, aperto o cabo dourado com força à medida que assumo posição de combate, respiro fundo e corto o ar à minha frente.

Solto o ar de meus pulmões, o estômago extremamente embrulhado e o vômito querendo precipitar-se por minha garganta, mas os efeitos valeram a pena quando a lâmina cortou toda a extensão em uma linha reta por 1 quilômetro. Todos os pescoços cortados desde sua base, o sangue jorrando e a carne convulsionando sugeriam que eu não tinha muito tempo.

Disparo em direção à besta cambaleante, árvores e cipós despencando em direção ao chão e animais cheios de pânico em fuga, minhas pernas queimavam enquanto as botas pesadamente deslocavam-se pela lama. As carnes estouram e mais de dez dúzias de novas cabeças surgem, retorcendo-se e rugindo umas sobre as outras, sem hesitar, faço como antes e deslizo pela lama.

Algumas cabeças parecem me notar e mergulham tentando me almoçar, passo por entre suas patas bem á tempo e ergo a espada, atravessando a pele espessa e cravando-a fundo. O rugido ensurdecedor da Hidra ecoa pela floresta. Posso jurar sentir as pulsações de seu coração perfurado retinirem pela lâmina até o cabo. O sangue lentamente escorrendo pelo punho dourado da Excalibur. Em um último esforço, conduzo a espada para a direita até que a lâmina saísse da carne pelo torso do ser.

Ele cambaleia para trás, agonizando, debatendo-se enquanto se afastava. Seu corpo inteiro entrando em colapso.

— Foi um inferno de uma abertura. – Murmuro em pensamentos, meu corpo exausto à medida que a Excalibur começa a se desfazer como se nunca tivesse existido.

Muito bem feito, Peter. — Arthur se pronuncia orgulhosamente. – Eu não teria feito melhor.

— Mas minha habilidade com a arma não é concedida por você?

Aprenda a aceitar elogios sem questionamentos tolos. — Abro um sorriso divertido e me ponho sentado sobre o chão.

A gigantesca besta que deveria estar ali não mais se encontrava, mas sim um indígena guerreiro completamente inconsciente. Fico me perguntando o que o levou a possuir essa carta. Talvez ache que seja um talismã de alguma de suas divindades. Ou o sinal de que foi escolhido para algo.

— Ele está morto? – Questiono, pondo-me em pé vagarosamente.

De modo algum, apenas inconsciente. — Arthur começa a explicar. — No caso da Hidra, o corpo do portador é colocado em um invólucro denso e indestrutível localizado em algum lugar seguro do corpo da fera, de tal modo, os danos causados à Hidra em nada ferem seu usuário. Seu desmaio deve ter sido apenas de exaustão física, decorrente da energia necessária para sustentar a transformação. — Aproximo-me, examinando o corpo inconsciente com os olhos, a carta estava no chão ao seu lado. – Morte ou vida, a escolha é sua. — Arthur proclama solenemente, o que dispara um arrepio por todo o meu corpo. Lembro do mesmo Arthur me contando que, dentre todos os deuses, ele era o mais difícil de se construir uma Sincronização Divina decente, isso porque a deidade possui um código de honra próprio, e qualquer um que viole ao menos uma lei deste código instantaneamente se torna incapaz de empunhar a Excalibur. O deus testa constantemente seus portadores, e esta não era a primeira vez que seu tom inquisidor pairava sobre mim.

— Não há porque mata-lo. – Respondo, escutando um murmúrio de aprovação por parte de Arthur e completo. – Ele já foi derrotado.

Dizes que se ainda pudesse lutar, o mataria? — O tom solene evidenciava o julgamento sendo feito.

— Não sou tolo á ponto de pensar que posso vencer todas as batalhas sem sujar minhas mãos. Existem situações onde é matar ou ser morto. Em tais situações, farei o que precisa ser feito, mas esta não é uma delas. Não tenho porque mata-lo. Apenas pegarei a carta e irei embora. Após algum tempo os juízes aparecerão e a vida dele vai seguir como se nada tivesse acontecido.

Muito bem dito, Peter. Continue desta maneira e poderemos ser companheiros por muito tempo.

— — Jin — -

Pigmentos avermelhados sujam meus lábios à medida que uma mistura de vômito e sangue percorre todo o caminho entre meu estômago e a pia. Alguns minutos depois saio do banheiro, fraco e tonto.

Você não aguentará muito mais tempo, Jin. — O deus-dragão adverte.

— Cale-se. – Murmuro em resposta. – Aguentarei tempo suficiente, a competição mal começou, não me ponha fora do páreo ainda.

Um certo barulho chama a minha atenção, saio de minha suíte e percorro todo o caminho até o corredor, onde encontro a televisão ligada. Um jogo da NBA desenrolava-se diante de meus olhos, o grande sofá em forma de U ocupava o centro da sala, o jovem que acolhi em minha casa sentava-se esparramado sobre o mesmo, um grande pacote de Cebolitos na mão, uma cerveja na outra.

— Parece que você levou a sério quando eu disse para se sentir em casa, Seth. – Ele vira os orbes verdes em minha direção, esquadrinhando-me, logo em seguida voltando á olhar para a televisão.

— Seu corpo está se deteriorando. – Conclui ele desinteressadamente, vibrando com uma ponte aérea bem executada na partida. Sinto meus músculos tensionarem e a é a vez do deus-dragão falar.

O garoto é muito bom nisso, não vai conseguir esconder dele. — Dou a volta e me sento do lado oposto ao de Seth, encarando-o.

— Está tão na cara assim? – Questiono e ele dá de ombros.

— O suficiente para mim. – Ele dá um longo gole em sua cerveja, me indicando outra, ainda não aberta, sobre o tapete peludo no chão. Pego-a, abrindo facilmente e tomando alguns goles. – Quanto tempo você tem?

— O suficiente. – Respondo de imediato. – Não cairei antes do momento certo, de modo algum. – O jovem de cabelos cinzentos abre um pequeno sorriso.

— Que rei orgulhoso. – Murmura entredentes. – O que pode ter despertado essa ferocidade toda?

— Fui atacado. – Os olhos de Seth, mesmo sem se virarem, pareciam atentos ao que seria dito á seguir. – Um homem entrou aqui, Joseph era seu nome. Ele sabia das cartas, mas não conseguiu acha-las. – A mandíbula do cinzento se tensiona. – Acho que alguém pode ter vazado informações.

— Joseph não precisa disso. – Seth responde. – Ele simplesmente rastreou as cartas através da ressonância entre elas.

— As cartas estão guardadas em caixas de chumbo, não seria possível, além do que, ele teria que estar próximo o suficiente das cartas para conseguir rastreá-las e pela maneira que ele estava procurando, ele não parecia saber onde elas estavam.

— Ele é incapaz de encontra-las com precisão, mas sabe que estão aqui. – Estreito os olhos.

— Explique-se. – Inquiro.

— Eu já fui aliado dele. – Começa ele. – Conheço seu modus operandi e seus aliados. A espinha dorsal de seu plano envolve o poder de uma carta que manipula ondas sonoras, podendo assim rastrear as cartas, mesmo as isoladas em chumbo.

— Se o que você diz é verdade, é impossível se esconder dele? – Seth desliga a TV, endireitando-se no sofá e continuando.

— Em tese, mas ele se limita a rastrear inimigos que venham em direção a sua base, evitando ataques, mas vez ou outra ele pode rastrear inimigos e saber onde eles estão, foi por isso que Joseph veio. Suponho que ele queria roubar as cartas antes que você voltasse, mas não creio que funcionou como ele esperava. Ele não seria tolo o suficiente de arriscar revelar sua identidade e poderes para um Rei se não achasse que conseguiria evitar tais riscos. – Seu olhar demonstrava uma frieza descomunal, mesmo para ele. – Como não é ele que usa a carta, ele não tinha a exata noção de onde ela estava aqui dentro, foi isso que ganhou tempo para que você chegasse.

— Então, isso exclui a possibilidade de traição. – Ele nega com a cabeça.

— Em uma situação com tantas cartas em jogo, a traição nunca deve ser descartada, diminui as chances de ser pego desprevenido.

— Não preciso de um pirralho me dizendo como agir. – Respondo secamente. – Além do que, segundo seu argumento, que garantia tenho de que você mesmo não é um traidor?

— Você não tem. – Ele responde de imediato, um sorriso surgindo no canto de seus lábios. Ele esparrama-se sobre o sofá. A carta King pode ser minha, mas deve ser dito, ele sim é um rei orgulhoso, sempre testando seus competidores que tentam usurpar sua coroa. – Acho melhor aprender á dormir de olhos abertos, Jin.

— Com essa sua atitude, me surpreende que alguém um dia tenha gostado de você. – Instantaneamente sua face endurece. Seus olhos somente poderiam ser descritos como desalmados e um leve arrepio percorre minha espinha.

Seth tem motivações fortes, o que quase sempre o mantém focado, mas ele é humano afinal de contas. Ele também se enfurece.

Ele se levanta, andando distraidamente enquanto toma alguns goles de cerveja. Ele encara o céu lá fora por alguns minutos antes de finalmente falar.

— Eu nem sempre fui assim. – Limito-me á beber e escutar enquanto ele continua. – Em outros tempos, eu era alguém bem mais.... Dócil, por assim dizer. Eu tinha pessoas á quem amar, com quem me importar. Coisas para proteger. Um futuro inteiro pela frente. – Outro longo silêncio antes que ele continue. – Mas isso mudou. Tudo mudou. Sentimentalismo não vai me levar até onde preciso. Não vai me trazer quem eu preciso. Então abandonei isso. Eu tenho meus próprios planos para essa guerra, e nada vai me impedir de concluir esses planos. Nada. — O tom em sua voz demonstrava o quão sério ele realmente estava. – Você costuma se encarar no espelho? – Ele se vira, me encarando nos olhos. – Você se vê nele? Você tem orgulho do que vê? – Ele termina a cerveja, largando a garrafa pelo chão. – Eu não olho. Eu sei o monstro que vou encontrar lá. Eu sei o monstro que precisei me tornar. Eu não me orgulho disso. Mas me orgulho menos ainda das coisas que perdi. – Seu tom era tão seco quanto os canais lacrimais de seu rosto. – Então eu me tornei o monstro. Um monstro tão perigoso que o próprio inferno teria medo de mim. E os que não tem, é por que ainda não me temem. – Ele começa a andar para o quarto de hóspedes. – Não me leve a mal, Jin. Eu gosto de você. Você é um cara legal. Mas fique no meu caminho, e estarei pronto para acabar com você. – A frieza de sua voz expressa bem o perigo que o jovem representa. A porta se fecha deixando aquela sensação no ar. Uma sensação que só podia ser descrita com uma palavra.

Terror.

— — Continua — -

Notas finais
E com isso, encerramos o primeiro arco da história. Talvez o próximo capitulo venha logo? Talvez. Mas talvez também não venha. Não criem esperanças, eu não criarei. Até a próxima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.