Esquecimento
22 Pretérito: Triângulo Hermético - Parte 1
Notas iniciais
Esquecimento
Escrito por Kohana
Capítulo Vinte Dois: Pretérito: Triângulo Hermético — Parte 1
"Todo mundo tem segredos, escondidos em si mesmo [...] Tire o disfarce que esconde quem você realmente é." — Nx Zero • Confidencial
O baque surdo da porta batendo soou atrás de si, pouco audível já que esta era sua intenção; jogou sua bolsa em qualquer canto daquela sala, este que não fez questão, sequer, de verificar qual era; caminhou o corredor extenso e estreito, tomando muito cuidado com a criaturinha pequena em seu colo, essa que estava em um sono agradável e profundo. Por conta do silêncio costumeiro do apartamento, era possível, até mesmo, ouvir seus pequenos suspiros. Somente observa-lo dormir era o motivo de sua alegria, pouco ficava triste em seus últimos dias, esses que não separava-se dele. Era um novo recomeço, talvez com resquícios do passado mas, ainda sim, era uma vantagem a favor dela.
Sabia que esquecer o passado, este que tinha levado uma parte importante de sua vida e que, no final, estava estaria em seu futuro e acabara por ser seu presente, estava fora de cogitação, mesmo que fosse tortuoso. Sasuke sempre seria primordial em sua vida e, ainda que esteja alheio a isso, acabou sendo uma peça fundamental para um novo recomeço, mesmp que seja o nome dele o chamado todas as noites em meio a lágrimas e gemidos estridentes. Entretanto agora ela, de fato, poderia sair rumo ao berço ao lado de sua cama e, antes mesmo de chegar a ele, estaria sorrindo atoa. Porque Daisuke, mesmo tendo muito pouco tempo de vida, era o único que conseguia mover os finos lábios de Sakura para formar um sorriso.
Embora Daisuke sempre conseguisse fazê-la sorrir, tinha alguém que, de um jeito cruel, conseguia matar todas as suas alegrias, em geral, acabar com a sua felicidade, lentamente e dolorosamente. Foi no exato momento em que abriu a porta do seu quarto que isso veio acontecer. Sua frustração nasceu junto a sua raiva, conforme sua mão apertava a maçaneta da porta, tamanha era a sua mudança de humor. Não conseguia pensar em nenhuma forma para ele conseguir entrar em sua casa mas, por incrível que pareça, aquilo não lhe deixava surpresa.
Ele não desistia e sua persistência já havia passado todos os limites que ela havia colocado. Achou que era um capricho de garoto mimado, e não mudou a sua forma de pensar quanto a isso. Entretanto, aquele capricho estava se transformando em algo complexo, tal como se ela não entendesse mais aquela situação. Estava perdida e por fora de alguns quadros daquela história complexa. As mulheres caiam aos pés dele, ela comprovou aquilo. Então, qual era o motivo para todo aquele circo? O que ela era, verdadeiramente, para ele? Uma missão impossível? Talvez. Não era como se aquilo pudesse ser mais importante, diante a ele, naquele momento. Odiava ele, odiava somente olhar para ele ou estar em um mesmo ambiente. Sabia que ele não era de boa índole, soube disso na primeira vez em que esteve com ele, ele mesmo comprovou suas suspeitas.
Era repugnante, porém não era o pior de seus problemas.
Ele se espreitava nos cantos da faculdade, do refeitório, dos lugares que estavam... era como um rato. Deveria ser trivial esse ato, caso fosse outra pessoa. Mas não era, porque ele era Sasori Akasuna. Ouviu muitos boatos sobre ele e a família, mas não achou que deveria se preocupar. As coisas estavam claras entre os dois, fez questão de deixar tudo assim da primeira vez que fora confrontada por ele. Na verdade, porém, o que ela não soube naquele momento é que as coisas só iriam piorar.
Sasori não havia desistido, ouso dizer que isso nunca passou pela mente conturbada dele. Conseguiu muitas informações sobre a vida dela com suas empreitadas e, sobretudo, com seu dinheiro, principalmente sobre a parte que ela mais queria esquecer. Ele a lembrava como uma forma de tortura, a pior delas. Ele sabia que seu coração pertencia a outro, ela deixava isso muito explícito em todas as suas muitas controvérsias. Todavia, para a infelicidade dela, ele soube depois, quem era esse outro.
"Sasuke Uchiha" — ouvia ele dizer, lia em seu caderno entre suas anotações, ouvia ele cantarolar em ligações de forma profana e zombeteira... O nome de Sasuke nunca lhe dera tanto nojo quanto a ouvir naquele timbre de voz. Seu estômago embrulhava', sua mente rodava... nunca desejou tanto não poder ver e ouvir mais nada. Ele queria enlouquece-la e, aos poucos, estava conseguindo...
"Deveria livrar-se desse embrião sem pai que carrega dentro de seu ventre." — sussurrou cinicamente contra sua face enquanto ela, totalmente aturdida, chorava feito um cachorro acuado, encolhida no banheiro feminino.
Sasori queria, também, fazer da vida dela um inferno e, por algum tempo, ele conseguiu. Ele tinha um relatório diário sobre como a vida de Sasuke estava, algo que, devido a detetives contratados, não era difícil. No final, para piorar sua situação, ela também tinha.
Era incrível o quanto ele, Sasori, estava empenhado em chegar na glória de seu objetivo, este que era mostra-la a vida de Sasuke sendo levada, ou seja, com quantas mulheres estava saindo, quantas vezes sorria por dia e, até mesmo, onde ele passava as poucas horas que tinha livre, o que era desnecessário saber, ao menos para ela. Era cortante saber de tudo aquilo, mas ela, fraca e esperançosa por, talvez, uma mudança de rumo em sua vida ou encontrar uma notícia boa, não conseguia se livrar do veneno que era cada foto explícito um sorriso mínimo de Sasuke. No final, ela agiu de forma ingênua. Abrir todas aquelas pastas só serviram para ela ver o que, não tão fundo, já sabia: ela não era mais que uma lembrança perdida em um baú fechado a sete chaves, na vida de Sasuke.
Por benevolência não era, fato óbvio. Os resultados de tudo aquilo era para, unicamente, beneficiar a Sasori e mais ninguém, o que deu certo por um tempo. Porque no fim, Sasori era uma criança mimada querendo um doce no super mercado, enquanto sua mãe negava.
Conviver com aquilo era doloroso demais e nada e nem ninguém podia lhe ajudar. Nem mesmo Shion, que era seu colo para todas as suas lágrimas, sabia de sua tormenta. Motivos? Ela não queria ser o colo para as lágrimas de Shion. Não queria vê-la chorar, era notório seus sentimentos por aquele homem desprezível, ela sequer tinha conhecimento sobre o homem que a desprezava. Enfim, até mesmo a polícia procurou, tamanho era seu desespero. Porém, era só falar o sobrenome 'Akasuna' para surgir uma desculpa "plausível" para ela, supostamente, estar enganada sobre suas acusações.
Era tão patético quanto triste.
A felicidade que sentiu ao saber que estava grávida, nunca poderia ser esquecida, porém. Deixou isso de lado, priorizou a sua dor ao invés de sua alegria... Sim, foi um grande erro. Contudo, as coisas acabaram por mudar quando ouviu a última frase de Sasori, enquanto estava sentada naquele banheiro sujo, somente por ele estar ali. As palavras, também, sujas de Sasori, proferidas apenas para lhe fazer mal, fizeram nascer um sentimento maior que suas tristezas. Lembrou-se do que a fez sorrir quando tudo a fazia chorar, o que era devidamente primordial em sua vida e o que ela, de fato, deveria se importar. Ao tocar o seu ventre, fez vir a tona em seus pensamentos um provável futuro sem lamúrias, limpando todo o mal que estava sendo proferido em sua mente e em seu coração. Sasori estava buscando um objetivo sem nexo e esse foi seu erro. Ele sequer a conhecia suficiente para evitar a sua última frase, pois se conhecesse, não teria dito nada, era um fato.
Sakura Haruno fugiu de seu passado, feito um gato que foge do dia. Tirar seu maior bem era algo muito diferente, contudo.
O erro dele foi achar que poderia influenciar ela. Desgraçado engano.
O embrião em seu ventre, mesmo em formação, já estava fazendo uma enorme diferença em sua vida. Não, não teria Sasuke para o criar, viveria com essa tormenta, infelizmente. Mas aceitaria o futuro fadado a sofrer por ele mas, ainda sim, teria seu filho, este que dependeria dela. No entanto, no final, fora ela quem dependeu dele. Ele lhe deu tudo o que mais precisava: força. Ele atingiu-a como um desfibrilador, acordando-a para de volta a vida, mostrando quem ela era e quem o rato a sua frente, naquele dia, era.
As palavras, a expressão, a fúria fervendo em nos olhos verdes dela, quase como se estivessem vermelhos de sangue... O tapa no lado direito de sua face... Sasori não encontrou palavras para iniciar, sequer, uma discussão. Saiu depois de alguns segundos naquele apertado banheiro, precisava de tempo para entender o que havia acontecido ali. Algo impossível, de fato. Fora uma Sakura repentina, totalmente diferente da que ele pensou que sairia dali lhe seguindo. Submissa! Era desse jeito que ele queria Sakura. No entanto, acabou por ser expulso por alguém muito do contrário.
Isso o fez ter ainda mais vontade de ganhá-la, contudo. Um caçador, atrás de uma presa difícil para se colecionar e se gabar por o ter pegado. A prova disso era ele estar sentando na cama dela, olhando para a televisão e parecendo estar pouco atento a sua chegada. O que não era um fato verídico, porém.
Meses sem ter notícias dele a fez acreditar em uma possível desistência, conformação... O que Sakura não sabia era que, Sasori Akasuna, não desistia de seus objetivos, muito menos dela. Ele era insidioso e astuto, ela tinha que admitir. Sasori não nutria paixão, tampouco amor, por ela, sabia disso. Conheceu o amor, conhecia-o como conhecia Sasuke, este que o apresentou. E ela deveria ter percebido que, o que Sasori sentia, não passava de uma obsessão pérfida.
Quem dera fosse simples assim.
– Vou chamar a polícia. — ameaçou estridente, ainda que tivesse pensado em várias formas de fugir dali em apenas um rápido olhar.
Viu aquelas amêndoas, lentamente, virar-se para sua direção, totalmente irônicas, impossível seria não notar, porém, ainda sim, ameaçadoras. Primordialmente, ainda mais impossível de notar, era o sorriso pecaminoso brotando aos poucos nos lábios dele, enquanto sua mão apertava o botão do controle que desligou aquela TV.
– Como se isso fosse ajudar. — zombou manejando sua cabeça em negativo, uma forma de rir de suas palavras, levantando-se e ficando de pé em sua frente. — Então você teve seu filho. — observou a criança apertada nos braços de Sakura, com desdém.
Era hilário, ao seu ver.
– Me admira você, com tanta inteligência, ter pensado que eu o tiraria. — desdenhou igualmente olhando-o de soslaio.
– Hm... — estreitou um pouco seus lábios, dando de ombros em seguida. — Eu gostei bastante desses vídeos. Sasuke amava mesmo você, não? — zombou novamente, mesmo que estivesse com sua face séria, sobre os vários vídeos espalhados em sua cama.
Sabia que, mesmo com toda seriedade do mundo, ele estar tocando no nome de Sasuke, era nada mais, nada menos, que uma zombaria para a atingir.
– Saia daqui, Sasori. — ignorou-o, dizendo suas palavras pausadamente, tentando não alcançar o limite de sua compostura e apertando ainda mais seu filho em seus braços, temendo, sobretudo, por ele.
Passou alguns dedos sobre a cômoda que havia sob a televisão, enquanto fazia isso, um sorriso nascia lentamente e novamente em seus lábios finos e duros. Seu olhar levantou-se penetrante, encontrando as esmeraldas cintilantes da mulher a sua frente.
– Eu vim te levar para a casa. — falou simplesmente, com toda a sua avidez. Tão calmo e normal que, se não fosse por sua frase e por saber quem era o homem em sua frente, ela poderia o julgar sereno.
Prendeu a sua respiração, de tanto que sofreu o impacto daquelas palavras. Não queria demonstrar, sequer admitir, mas sentiu todo o receio e medo que ele queria a proporcionar. Não por ela, poderia aguentar qualquer coisa sozinha, não era importante, afinal. O problema era que estava com Daisuke, seu maior bem, sendo assim, estava de mãos atadas,.
– Você não é o único que tem poder, eu também tenho uma família. — blefou, claro.
Sua família tinha capital, era conhecida e muito bem sucedida. Contudo, não se equivalia a família Akasuna, ao menos, não aquela que os boatos diziam. Mesmo assim, não importava, usaria toda sua saliva para blefar e contra argumentar, se precisasse. Caso tivesse que ir ao extremo, também o faria. Sua vida, literalmente, estava em suas mãos, não andaria para trás, não dessa vez. Ainda mais que, sabendo o que sabia sobre Sasori, aquilo não adiantaria.
A risada hilariante de Sasori ecoou por todo aquele cômodo, chegando em seus tímpanos como facas devidamente afiadas. Sentiu, naquele momento, mais uma vez, o receio e o medo lhe atingir, afinal, ela temia sobre o que ele iria fazer, era desconhecido para ela e o desconhecido tende a ser mais assustador.
– Sakura, amor, eu sei tudo sobre você e os seus. — explicou, enfim, o motivo para uma risada tão estridente. Não que ela não soubesse, claro.
– Você é louco, completamente. — murmurou em sua controvérsia, totalmente apavorada com toda aquela situação. — Não entende? Eu já amo alguém. — o encarou, suavizando seu tom enquanto, pouco a pouco, sem perceber, se aproximava. — Eu não posso te amar, nem se quisesse. Meu corpo, minha alma, todo o meu ser, pertence a Sasuke Uchiha. — completou, com toda a repugnância que sentia dele.
Seus olhos desceram por um rápido segundo, suficiente para ver toda a fúria de Sasori explícita no cerrar de seus punhos.
Um passo para trás: estava perto demais e, mais importante, havia falado demais.
– Ele, mais uma maldita vez. — murmurou, pouco alheio a ela, ou melhor, como se tivesse falado com alguém que, no caso, não era ela. Seu olhar estava longe, longe da mulher a frente.
Mais um passo, porém, não só dela e não somente recuado.
– A culpa não é dele. — falou, apertando mais o embrulho azul em seus braços. — Eu o amo, simplesmente. Não guardo sentimentos por você, aceite!
– Eu amo você! — contestou seu sentimento platônico olhando-a, enfim.
– Isso não é amor, é obsessão. — aumentou seu tom de voz, sentindo o arder de seus olhos surgir quando ouviu o choro de seu filho em seus braços, acordado pelos barulhos perturbadores.
– Se ele não existisse, você me amaria. — argumentou, algo que, para ela, era implausível.
– Se ele não existisse, eu não estaria aqui. — murmurou enquanto balançava o pequeno filho, tentando acalentar no cuidado de seus braços.
– A culpa é dele. — insistia em dizer, olhando, mais uma vez, para um lugar qualquer daquele quarto.
Estava perdido em devaneios, estava louco...
– Não existe culpa! — gritou, colocando seu filho no berço ao lado, este que ainda berrava, quase como uma reclusão vindo dele. — Tampouco amor. — murmurou por fim.
Um passo a frente: a raiva lhe consumia.
– Vou matá-lo. — murmurou em um sorriso ameaçador a conclusão de seus problemas.
Um passo a frente: perdeu-se em seu desespero e sua raiva.
Surpresa com aquelas palavras? Não. Sasori só estava deixando claro, com suas atitudes e palavras, o que ela já sabia.
– Faça isso. — apertou sua mão, travou seu corpo... — Eu mato você, o odiando ainda mais. — falou, deixando explícita sua ameaça em cada palavra dita.
– E perder seu precioso tesouro? — sorriu em ironia, apontando para onde o bebê agora se encontrava
Sakura sentiu a tremedeira de seus lábios, seus olhos molhados e seu corpo queimar, queimar de raiva. Mais um passo: estava diante a ele, perfeitamente em sua frente. Ódio e obsessão, desejo e repulsa, ironia e tristeza... Sentimentos opostos e, ao mesmo tempo, iguais em uma batalha incessante.
– Ele teria pessoas para o amar, tanto quanto eu. — cuspiu a suas palavras na faceta nascendo contraída de ódio, do homem a sua frente.
Sentiu seus braços serem apertados em caso repentino, o hálito quente dele bater contra seu rosto e a repulsa atingir todo o seu corpo a cada vez que pensava o quão perto estava dele e o quão queria e pedia para ele sumir de sua vista em um passe de mágica.
– Se quiser, faça desse jeito. — desdenhou ela com um mínimo sorriso torturante. Não era preciso pensar muito para saber o quão repugnante eram os pensamentos de Sasori enquanto apertava seus braços, isto é, sobre quais eram seus desejos sujos após isso. — Nada, além de um ódio maior, irá mudar. Ainda amarei Sasuke, queira você ou não. — concluiu observando as iris desesperadas dele se moverem com rapidez, deixando claro os seus delírios, ainda mais.
Aos poucos, mesmo que lentamente, o aperto nos braços de Sakura fora diminuído, deixando de lado o encontro de olhares, nascendo, novamente, a ironia provinda por aquelas amêndoas. Essas moveram-se para encontro com o berço a poucos passos dali, deixando nascer, também, um ódio explícito enquanto observava a criança parar seus berros agudos.
Embora mais passos fossem arrastados naquele assoalho, não eram mais a diante, ainda sim, conseguiram deixar mais receio no coração sob o peito de Sakura. Andou desviando-se dela, todavia, na maior lentidão que conseguiu, como se quisesse a torturar com esse gesto; antes de virar-se para seu destino, como há meses ele fez, ainda disse:
– Não pense que acabou. — caminhou rumo a direita daquele corredor, pisando duro a cada passo que dava, deixando mais uma batalha perdida para trás.
Entretanto, deixou em primordial a guerra declarada no ar pesado daquele cômodo.
Mesmo que sentisse todo seu corpo se derramar com o deleite da batida de sua porta, indicando que Sasori já não residia mais lá, infelizmente, teve uma certeza conforme observava seu filho sorrir ingenuamente deitado em seu berço: Sasori tinha razão, aquilo não havia acabado. E, mais uma dúvida nascia em toda sua mente, lhe proporcionando todo o desconforto que a angústia poderia lhe dar:
Quando aquela situação iria acabar?
Fale com o autor