Esquecimento

2 Encontro com o Passado


Esquecimento

Escrito por Kohana

Capítulo Dois: Encontro com o Passado

Olha aí, o mundo girando e a gente se esbarrando outra vez. Olha aí, o meu coração indo contra a razão, sentimento... Quando te vi a paixão veio a tona. Fui a nocaute, beijei a lona, o meu corpo tremeu. O tempo passou. A vida mudou. Mas eu continuo seu.

Jorge & Mateus — Nocaute

O sábado não demorou muito a chegar. Isso devido a falta de ansiedade de Sakura.

Ela, somente ela, sabia o quanto seria difícil contar sobre o que omitiu. Não que tivesse feito por mal, afinal. Era até aceitável. Estava triste, sozinha, desamparada, ainda que tivesse muitas pessoas que a amavam, mesmo que de longe. E, mesmo com toda turbulência de sua vida, amava o que o destino lhe deu de presente. Aquilo não deveria ser bom, enfim... O garoto era a cópia perfeita dele. Seus cabelos e olhos negros e um penteado igual ao dele. Não que ela tivesse feito aquilo, surgiu normalmente. Como se o destino quisesse deixar uma pequena cópia dele para ela.

Era infinito o amor que sentia por aqueles dois pentelhos. Mia era a mais traquina e Sakura, mesmo que não fosse mãe biológica, a achava muito parecida com ela. Daisuke já era mais quieto, mas tinha seus momentos de traquinagen, igualmente a ele.

Ignorou a promessa de não voltar mais ali. E descobriu enfim o quanto o amor de uma mãe pode ultrapassar limites. Se fosse há alguns anos atrás, teria ido embora antes mesmo de sair do aeroporto. Pois tudo naquela cidade lembrava ele, quem dera, estiveram em quase toda ela. E, em quase todos os lugares, só haviam lembranças boas. Mas, ainda sim, mesmo que poucas, algumas ainda conseguiam trazer a tona a tristeza que sentiu.

Foi doloroso ir uma última vez em seu apartamento e tirar tudo o que havia seu lá, doloroso é pouco. Ela chorou tanto deitada na cama que, não tinha muito tempo, faziam amor. As lembranças dele dizendo que a amava, tirar os retratos deles da estante, lavar as roupas para tirar o cheiro que seu perfume havia deixado... tudo e mais um pouco. Sabia o que estava sentindo, porém não sabia o nome.

Depressão? Tristeza? Dor? Era muito pouco. Era algo agonizante, algo que fazia com que ela voltasse a chorar quando se dava conta de que aquilo era real. Queria esquecer, como ele havia feito. Queria viver uma nova vida, deixar que ele vivesse uma também. Seria um peso, sabia disso. Ele não lembrava, quem garantia que ele lembraria um dia?

Só conseguiu amenizar sua dor quando descobriu sobre sua gravidez. Isso foi algo bom, só não o suficiente porque ele não estava lá. Mesmo assim, depois dos primeiros passos, a primeira risada, o primeiro "mamãe"... Ela enfim achou um modo para que pudesse viver, ela finalmente podia voltar a sorrir. E, mesmo que houvesse ganhado Mia através de uma situação triste, ela só ressaltou sua felicidade. Os dois eram literalmente sua vida. Eles, com tão pouca idade, sem nem mesmo saber, estavam guiando ela. Reergueram cada pedaço que havia caído dela. Ela mataria e morreria por eles. E, voltar depois e uma promessa dolorosa, provava isso.

Então não pôde se arrepender, ainda que sentisse seu corpo reagir ao nervosismo, quando notou os três passarem pela porta da sala de Ino. Respirou fundo. Gritou em sua mente que tudo daria certo. Mais uma vez, como sempre fazia, pensou na fonte de sua força: Mia e Daisuke.

Como falaria para eles? "Bem, então, vocês tem um neto. Neto esse que, claro, é filho do filho mais novo de vocês que não tem nenhuma memória de mim" e um grande sorriso falso na cara. Não, aquela não era a melhor opção.

As perguntas de como faria aquilo, com certeza a torturava.

Estavam, enfim, em sua frente. Sorriu. Remexeu-se. Observou cada um sentar em uma cadeira ao redor daquela mesa e Ino ir embora depois de um sorriso que lhe transmitia forças. Depois disso, com certeza não fora má ideia marcar esse encontro em sua casa. O que não era estranho para os três, afinal, eram "tios" de Ino tanto quanto de Sakura.

– Você parece que não envelheceu nesses oito anos. — disse Mikoto com certo descaso por lembrar o tempo que não a via. Agradeceu internamente, ela sempre começava uma conversa.

– Você com certeza sabe o que não é envelhecer — sorriu ternamente, fazendo os dois homens com vestes casuais sorrirem também.

Seu sorriso alargou-se quando seus olhos alcançaram a porta da sala de Ino, a tempo de ver os dois casais sairem por ela. Levantou-se, emocionou-se. Sentia muito a falta...

– Minha menina. — disse a ruiva correndo na frente de todos.

– Não sabia que viriam. — murmurou só para ela, sentindo o perfume extasiante de sua mãe.

– Tínhamos que aparecer. — murmurou de volta, um tanto irritadiça. — Você não avisa quando vem.

Soltou-a antes dela aprofundar aquele assunto.

– Senti sua falta. — disse entre risos e afagos, sendo apertada com muita firmeza pelo homem loiro.

– Eu também minha pequena. — choramingou ele.

– Vai matar ela pai. — riu quando viu a carranca do irmão logo atrás.

– Isso tudo é vontade de me abraçar? — perguntou zombeteira enquanto tentava de desvencilhar do pai.

– Eu nem senti sua falta. — cruzou os braços. Ela revirou os olhos correndo até ele como uma criança.

Ele a abraçou, deixando claro que seu dito era falso. Sentia mais do que qualquer um a falta dela. Demonstrou isso em seu abraço apertado e firme, como se não quisesse deixá-la ir de novo.

– Agora você quem vai matá-la, Naruto. — zombou o pai, ainda que estivesse emocionado com cena de irmãos se abraçando.

– Ele já até chorou pensando em você. — murmurou Hinata, sua cunhada, enquanto era abraçada também. Ela riu, sabia como o irmão era manteiga derretida. Entretanto ele negaria isso até a morte se sua namorada dissesse aquilo alto.

Depois de Ino puxar Naruto e Hinata "para atualizar as fofocas", de Mikoto e sua melhor amiga, Kushina, mãe de Sakura, choramingarem o quanto estavam com saudades uma da outra e o homens ali resmungarem quanto a isso, sentaram-se e iniciaram um bom papo. Coisas de como era a Itália, país que seus pais agora moravam, de como Sakura era malvada por sumir por tanto tempo e de como sentiam saudades dela. Porém, para a infelicidade dela, entraram em um assunto não conveniente para aquele momento, cujo confundiram muito presentes naquela mesa.

– Então amor, cadê meus netos? — indagou sua mãe completamente alheia ao que dizia. Era tal como um instinto materno, mesmo que fosse avó.

Fechou os olhos. Respirou fundo. Iria contar, mas não daquele jeito. Analisou o silêncio, não quis encarar eles depois daquilo. Seu coração bateu forte e, para seu pai, estava claro o que acontecera ali.

– Você ainda não contou não é? — indagou, mesmo que já soubesse a resposta. Se limitou a manear a cabeça em positivo, afirmando a sua resposta, abrindo seus olhos logo após.

– Sakura, como não contou? — Kushina estava perdida, ao que Ino tinha contado, seus amigos já sabiam e era por esse motivo que estavam ali, para dar forças a ela.

– O que está acontecendo aqui? — indagou Fugaku firmemente, lançando suas ônix para Sakura.

Ao que parecia, a voz não saía. Já sabia o que dizer, mas não conseguia dizer. E, quando, emfim, achou que conseguiria dizer algo, fora interrompida.

– Mãe! — pularam em seu colo, trazendo um misto estranho de alívio e desespero. Ainda sim, sorriu. Poderia respirar enfim, eles estavam ali. Diante dela, seus dois filhos sorriam, alheios a tudo e todos. Afinal, só precisavam ver sua mãe, nada mais.

– Minha pequena. — Mia fora arrastada. Ficou confusa, mas riu assim que percebeu ser sua avó ali. — E o meu pequeno! — Puxou Daisuke. — Vovó sentiu falta de vocês! — Ele tentou fugir, mas também fora pego. No fim, também riu da insistência de sua avó.

Se atreveu a olhar para seu lado, onde eles estavam. Como pensara, estavam atônitos, presos naquela cena. Pelo olhar sobre Daisuke, eles já tinham uma resposta para a pergunta de seu tio. Abaixou o olhar, não era assim que queria que soubessem.

– Quem são eles mãe? — perguntou Daisuke. Viu um sorriso sobre o rosto de Mikoto — sabia que ela mesmo queria responder aquilo.

– São meus tios, amorzinho. — forçou-se a sorrir, pegando-o no colo de sua mãe. Os três pares de ônix o seguiram nesse pequeno movimento. Nem mesmo Fugaku, sempre discreto, conseguiu evitar fazê-lo.

Daisuke os olhou, analisando-os, como fazia sempre. Sakura afagou-lhe os cabelos, escondendo seu rosto entre eles, como uma verdadeira covarde.

Minato, percebendo o clima tenso, disse:

– Vamos tomar sorvete? — levantou-se, junto a Kushina. As duas crianças sorriram eufóricas.

– Depois a gente volta. — disse Daisuke após um beijo no rosto de Sakura, que fez o mesmo. Mia também foi beijar-la, se despedindo com um te amo, o que sempre fazia.

Seu sorriso murchou após perdê-los de vista. Seu coração palpitou. Mas, enfim, virou-se para encará-los de vez. Tinha que acabar com aquilo.

– Nosso neto.- afirmou Fugaku, fazendo todo o discurso que ela montou, no tempo daquela pequena pausa, morrer enquanto ele mesmo estava fitando a porta da qual eles sumiram. Se surpreendeu, ele estava chateado. Não que achasse ser impossível ele sentir-se assim. Achava, porém, impossível vê-lo assim.

– Sim. — foi tudo o que disse. Ainda que eles não precisassem de uma resposta. Era óbvio, ele era uma miniatura dele

– Sakura, como isso aconteceu? — Itachi se pronunciou, fazendo Sakura o encarar com um mínimo sorriso. E, mesmo que fosse um sorriso, não era necessariamente por estar feliz.

– Preciso te dizer como é feito um filho? — perguntou, porém retoricamente. Itachi suspirou. Ela revirou os olhos, apertando o braço de apoio da cadeira. Tinha que lembrar daquilo de novo. — Ficamos uma semana antes do acidente. — somente em citar isso, sentiu aquele incomodo subir a sua garganta.

– Por que não nos contou Sakura? — indagou Mikoto

– Eu estava acabada tia. — riu escárnio, tentando não ver aqueles ônix que tanto lembravam ele. — E eu só soube quando estava em Nova York.

– Mas ele é nosso neto. — afirmou Fugaku, o óbvio.

– Consequentemente, filho dele. — o encarou, com certa irritação.

Calaram-se. Não tinham um argumento plausível contra a sua insinuação. Ela sofreu, mais do que todos. Foi a única afetada permanente. Ainda que, de certo modo, fosse errado esconder, era aceitável sua atitude. Era porque depois de tudo, novamente, só ela fora afetada profundamente.

– Que Daisuke é filho dele, é óbvio. — começou Mikoto, depois de uma longa pausa. — Mas e a pequena? Eles não são gêmeos, isso também é óbvio. Por acaso você...

– Casou? — completou, rindo sem qualquer humor notório. — Não tia, não casei. — Itachi iria falar algo, porém ela continuou, prevendo o que seria dito. — E eu sei quem é o pai, infelizmente.

Notando a confusão que suas expressões tinham, ela explicou tudo. Tocando, novamente, em sua ferida aberta e recente. Sendo assim, doía mais.

– .. Por isso preciso da ajuda de vocês. — concluiu.

Respiraram enfim, sentindo-se mal por toda aquela situação.

– Antes, me responda: — começou Fugaku, se inclinando mais a sua frente. — Nos diria sobre Daisuke caso não precisasse de nós?

Respirou fundo e, depois de uma pausa, respondeu:

– Você sabe a resposta. — suspirou — Não diria.

– Entendemos sua dor Sakura, mas não podia ter nos escondido ele. — Mikoto realmente entendia, mas no momento em que disse aquilo, estava pensando no seu lado.

– Pode ser egoísmo tia. — firmou sua voz, totalmente convicta. — Mas eu não sabia como dizer isso.

– E porque sabe agora? — indagou Itachi, atento até então em tudo o que ela dizia.

– Porque estou desesperada. — contraiu seus lábios, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos. — Mas vou entender se não quiserem me ajudar. — se recompôs no momento seguinte, limpando o canto de seus olhos antes de alguma lágrima cair.

– Não podemos negar ajuda a você... — afirmou Fugaku, fazendo com que ela levantasse seus olhos em esperança.

– Mas temos uma condição. — concluiu Mikoto, fazendo a esperança dela se esvair.

Tinha medo, profundo medo de sua condição.

[...]

Corria pelo gramado verde da casa da tia, atrás de sua pequena irmã. Ia em uma velocidade aceitável, afinal, se quisesse, poderia alcança-la. Entretanto ouvir sua irmã rir tão entretida, deixando com um sentimento tão bom, não o deixava ir mais rápido. Era melhor correr em círculos, a não poder mais ouvi-la rir, tal risada que o contagiava.

– Tomate, a mamãe vai brigar — gritou ao vê-la correr para mais longe.

– Você que é flaco' — gargalhou virando seu rosto para ele, que riu ainda mais.

Entretanto seu sorriso morreu quando viu-a bater contra o chão. Correu, se importando em apenas chegar até ela.

– Mia, você está bem? — perguntou ao chegar até a irmã.

– Sim. — riu passando a mão na perna, levemente arranhada.

– Desculpa ruivinha, eu não queria te derrubar — Olhou para o alto, percebendo só então que havia um homem ali. — Ei, você parece um tomatinho! — acarinhou os cabelos curtos e vermelhos de Mia, que riu do comentário.

– Ta vendo Mia — sorriu Daisuke contagiado com o comentário — Eu disse que você parecia um tomate. Seu cabelo é vermelho e sua cara redonda. — Mia fez um bico enorme, ainda que achasse engraçado. O homem riu da cena. — Ah, mas você sabe que eu amo tomates. — concertou quando viu as bochechas infladas da irmã.

– Se quer saber, também adoro tomates. — disse o homem arrancando um grande sorriso de Mia. Daisuke respirou aliviado — Bem, acho que o mínimo que eu posso fazer é levar a princesa até onde ela queira não é? — Mia assentiu com um largo sorriso.

– Eu consigo levar ela — disse Daisuke se pondo de pé, levantando logo após sua irmã.

– Eu sei que consegue, você é bem forte. — Daisuke sorriu animado — Mas como eu derrubei o tomatinho, que por sorte não estava podre, eu faço questão. — Daisuke assentiu rindo com o comentário do homem, fazendo Mia rir também.

Afinal, não tinha mal algum.

[...]

– Não tem como. — repetiu, sabe se lá o número de vezes

– Eu quero estar com o meu neto. — retrucou de volta, birrando feito uma criança.

– Tia, o Daisuke não sabe do pai, tê-la como avó significa que um de seus filhos é o pai dele. Como quer que eu explique isso? — argumentou a mesma coisa pela milésima vez. Estava ficando irritada, queria colocar aquilo na cabeça dela. Aliás, deles. Não era fácil dizer a Daisuke que, do nada, eles tinham outros avós. Eles subestimavam seu filho,mas só ela sabia o quanto isso seria triunfante para ele.

– Já disse que vamos dar um jeito. — resmungou ela.

– Oito anos tia. Ninguém deu jeito nisso. — desgostosa afirmou. — Sabe por quê? Porque não tem jeito. — Doloroso era pouco ter que admitir aquilo, mas era a verdade. Não voltou ali por ele, já sabia como estava a situação. E, somente contou a eles, como havia dito, pois não queria pedir um favor omitindo algo como aquilo.

Respirou fundo em busca de calma, de uma resposta para aquilo. Porém, quando ia soltar o ar, o impediu de sair, tamanha era sua surpresa.

Tamanha foi a dor que acordou aos poucos em seu peito.

Sabia, aliás, tinha certeza que aquele momento chegaria. Só não imaginou, porém, que seria tão rápido. Mais uma maldita vez um nó complicado se fez em sua garganta. Algo doeu dentro dela. As lembranças e a dor lhe atingiram com uma lâmina, cortando-a lentamente.

Os três, até então confusos com a mulher atônita a sua frente, levantaram-se rapidamente quando souberam o motivo de ter a paralisado. Ficaram tão atônitos quanto ela, alternando em olha-la e olha-los.

Não respirou quando percebeu que ele não estava sozinho. Se respirasse, choraria. Se limitou apenas em abaixar sua cabeça, para evitar terror caso chorasse. Não tinha controle de si, não diante aquela cena.

– Oi. — disse quando chegou. Ela levantou, por fim, sua cabeça, fazendo com que seus olhos cruzassem com os deles. Totalmente rendida a dor que se espalhava dentro dela.

Sasuke? — Mikoto, mesmo surpresa e, sobre tudo, com medo daquele encontro, conseguiu falar.