Esquecimento
1 Encontro Necessariamente Doloroso
Notas iniciais
Esquecimento
Escrito por Kohana
Capítulo Um: Encontro Necessariamente Doloroso
O destino me fez ir embora, o tempo vai me dizer quem é quem. Pode não ser o fim da
nossa história.
Nx Zero — Destino
Conseguia chamar a atenção de todos os homens e até mulheres, enquanto andava pelo aeroporto, com sua filha no colo e seu filho ao seu lado, olhando tudo curioso e atentamente. Ela não tinha a aparência de uma mulher de vinte e sete anos, era notório. Tão pouco alguém diria que aqueles eram os filhos dela. A mulher era impecável e quem visse diria que ela dormiu no formol por ser tão esbelta e jovem.
Sorriu ao notar os cabelos longos e dourados pulando junto ao corpo. A placa que continha seu nome não era precisa ali. Não tendo uma melhor amiga eufórica como aquela.
Seu filho, Daisuke, soltou da sua mão para correr até a loira maluca que corria em sua direção também. Sakura parou diante a eles, enquanto Mia, sua filha, ria da cena.
– Nem preciso perguntar se sentiu minha falta não é? — indagou a loira pegando o pequeno no colo.
– Não. — respondeu o menino enlaçando seus braços no pescoço dela
– Assim eu vou ficar com ciúmes. — disse ela interrompendo o momento, tomando assim a atenção dos dois.
Daisuke sorriu faceiro, já que na maioria das vezes quem era o ciumento era ele. Porém, não podia evitar, estava com saudades, afinal via sua tia poucas vezes no ano. Já Ino, notando a pequena diferença ali, colocou Daisuke no chão, completamente atônita e confusa. Sakura, prevendo aquilo, somente sorriu, tentando pedir com este gesto para que ela esperasse; iria explicar.
– O-Ora, quem é a pequena? — se limitou a perguntar apenas para ter certeza, pois já estava praticamente ciente da resposta.
– Minha filha. — deu uma olhada na mulher, enquanto ajeitava o vestido da pequena Mia. No fundo, agradecia por ela lhe dar somente uma careta, pois ela esperava no mínimo um escândalo.
– Mãe, ela é linta' — disse Mia, com seu sorriso enorme, amenizando o clima pesado ali.
– Você também é. — sorriu serena Ino, pegando-a no colo. Antes de se virar a caminho, ainda fez questão de mandar uma nova careta para Sakura. Algo que dizia perfeitamente que queria uma explicação.
[...]
Depois de uma recepção calorosa dos amigos, Linda, a empregada de Ino, levou as duas crianças para o jardim. Internamente Sakura agradeceu já que sabia que eles, no momento em que entrou na casa de Ino, estavam tão atônitos quanto sua amiga ficou anteriormente no aeroporto. Não podia culpá-los emfim, estarem surpresos era o mínimo que poderiam fazer.
Suspirou com um sorriso, observando suas duas crias brincando no jardim da casa de Ino. Aquela cena era tão boa, a fazia tão bem, que por um momento esqueceu do clima pesado daquela sala.
– Então, quando vai nos explicar? — indagou Ino já impaciente, tratando de lembrá-la do tal clima.
– Por onde eu começo? — indagou, porém para si mesmo, ignorando a impaciência da loira, observando ainda além aquelas portas.
– Do começo seria bem legal. — Ironizou a loira.
Caiu seu olhar sobre eles, como se aquele movimento pudesse ajudá-la com aquela história. Odiava conversar sobre aquilo, sobre tudo aquilo. Estava cansada de ter que voltar aquela fita repetidas vezes. Entretanto, sabia que devia uma satisfação a eles.
– Ela é minha filha. — suspirou por fim, cansada. Não era para menos, aquele assunto era exaustivo.
– Sabemos disso. Mas porque não nos contou que havia casado? — se irritou, levantando-se diante dela.
– Casado? — riu, sem qualquer humor notável. — Nunca me casaria. Preciso dizer o por que? — era uma pergunta retorica. Era claro como a água que ela não precisava dizer o porque.
Ino se calou e, quem iria falar algo, deixou as palavras morrerem em suas bocas. Aquele assunto era um tabu, não só para ela. Trazia uma sensação ruim, algo amargo e cruel. Eles estavam presentes, participaram de sua dor, ainda que não tivessem mínima ideia de como ela era. Não poderiam fazer nada afinal. Nunca puderam e, mesmo Sakura nunca tendo pedido, queriam sobre tudo ajudá-la de alguma forma, sempre quiseram. Mas a maldita da impotência não deixara. E isso era, no mínimo, insuportável.
– Então você não sabe quem é o pai? — indagou Neji, amigo e quase irmão dela, quebrando o silêncio ensurdecedor do ambiente.
– Saber quem é o pai, é um dos meus problemas. — passou a mão por sua testa, demonstrando assim o quanto aquele assunto era delicado. — Mas antes de explicar, ressalto que Mia não é minha filha biológica.
A surpresa lhes atingiu em cheio novamente. Por essa nenhum deles esperavam. E ela recebeu o silêncio deles com uma deixa para continuar, sobretudo, acabar com aquilo logo. Este em si era seu desejo.
– Tive uma amiga na faculdade. Ela sempre estava comigo desde que cheguei lá. — suspirou sentindo seus olhos arderem. Só o que tinha dentro de si era assuntos delicados, e esse não era menor que os outros. Aliás, falar sobre aquilo exigia delicadeza. Sem ela, sabia que seria mais difícil do que já estava. — Mas ela morreu, morreu dias depois de dar a luz a Mia.
– Então ela é filha dessa amiga sua — afirmou Gaara, marido de Ino, até então calado.
– Sim, Mia é minha filha e dela. — sorriu minimamente. — Eu tenho a guarda dela.
– Quantos anos ela tem? — indagou sua outra amiga, Tenten, com suas mãos apoiadas no queixo, como uma criança atenta a uma história.
– Fez quatro a pouco tempo — sorriu voltando seu olhar a eles, que sorriam com alguma coisa.
– Agora explica porque você voltou. — deu continuidade Ino, do mesmo jeito que Tenten.
Sakura respirou fundo, tentando, enfim, puxar coragem para falar sobre aquilo. Explicou depois de uma pausa longa, toda a história para eles. Uns retrucaram, outros questionaram... No final, entenderam muito bem a volta dela.
– ... Eu preciso da ajuda deles. — finalizou, atordoada por entrar naquele assunto.
Se entreolharam, dando suspiros multiplos. Realmente, era cansativo entrar naquela zona bagunçada de Sakura.
– Terá que ver ele.– Encarou-a Neji, com certo nervosismo por ter que mencionar ele, ainda que não utilizasse seu nome.
– Está viajando, vou aproveitar isso. — disse por fim, voltando a olhar seus filhos na tentativa de que, com isso, conseguisse forças para não chorar.
– Mas e Daisuke? — indagou Ino, tão receosa quanto os outros.
– Vou dizer sobre ele. — afirmou.
Silêncio. Não sabiam se era uma má ideia, tanto quanto poderia ser boa.
– Não posso pedir a ajuda deles, escondendo ele. — encarou um ponto qualquer, respondendo assim a pergunta silenciosa deles, pensando em como a prática iria ser diferente da teoria, que era fácil até demais.
– Não sabemos se é certo. — Encarou Gaara, escutando-o atentamente. — Mas vamos estar do seu lado, te apoiando.
Sorriu. Era por isso que estava ali, era isso que ela ansiava ouvir. Precisava deles, seus amigos da vida inteira. Precisava do apoio deles para conseguir ir adiante com aquela loucura. Loucura esta, que se mencionada com o mesmo motivo para ter que o fazer, mudava de palavra: precisão.
[...]
Sorriu triunfante quando viu os sorrisos de seus dois pequenos ao entrarem na nova casa. Era grande, não tão grande como a de Nova York, mas era tão linda quanto.
– Será que eu mereço um beijo? — indagou sorrindo.
– Sim! — gritaram em uníssono pulando encima da mãe que riu como só fazia na presença deles.
– Boa tarde senhora. — sorriu a nova empregada, esta contrada por Ino. Sakura sorriu junto as crianças.
– Olá. — disse ela por fim.
Após ficar um pouco com suas crianças, pediu para que a empregada cuidasse deles enquanto saia. Não conseguiria dormir se não fizesse logo o que a fez sair de sua cidade.
Era repentino, no mínimo apressado demais, tinha consciência disso. Entretanto, perto da sua ansiedade, aquilo não era nada demais. Iria surpreender, ainda que não fosse essa sua intenção. Prometeu não voltar lá, mas pouco importava sua promessa. Não era como se ela quisesse estar ali. Seu corpo todo reagia contra sua vontade, lhe implorava para adiar aquele momento. Mas, no fundo, só estava indo até lá repentinamente, sem nem avisar sua visita, porque sabia que a qualquer hora podia dar para trás, sua covardia implorava por isso. Mesmo que o motivo de sua ida, seja um de seus maiores bens.
Era por este mesmo motivo que se forçou a não se arrepender quando o táxi lhe deixou na frente daqueles enormes portões de ferro. Forçou a esquecer, por um minuto ao menos, tudo o que a imagem longínqua daquela casa lhe trazia. As lembranças, sorrisos... Ela o fez, ainda que soubesse ser impossível. Pois o que viu na sua frente não foi em sim a casa, foi ele, somente ele. E a dor de receber a imagem dele em sua mente, a fez cogitar a ideia de voltar, mais do que às vezes anteriores.
– Quem gostaria? — sua mão tremula apertou o seu casaco, tentando reprimir o nervosismo que estava sentindo. Estava a tanto tempo parada diante daquele portão, que nem sequer lembrava quando fora que apertou o botão do interfone.
– S-Sakura — sua voz saiu tremula, pois sua mente ainda gritava implorando para sair dali. Decidiu então pensar em Mia, em Daisuke... — Haruno Sakura. — concluiu com um sorriso que não combinava com a cena de nervosismo, porém foi difícil não fazer quando pensou em seus dois pilares — assim ela os denominava.
Silêncio. E ele em si era perigoso, dava tempo para ela planejar uma fuga.
– Que brincadeira é essa? — ouviu a voz cansada e agora tremula dizer. Agradeceu ela ter dito algo antes dela fugir dali, pois até estratégia ela conseguiu montar.
– Pode abrir? eu realmente não quero discutir pelo interfone — Na verdade, não queria ter tempo para fugir e, estando ali fora, isso era o que não faltava. E, com certeza, as chances eram maiores.
Não disse mais nada. Entretanto ela recebeu o rangido do portão, mostrando estar se abrindo, como uma resposta. Mesmo que ainda tenha cogitado ir embora, antes de entrar, novamente.
Abaixou a cabeça, um gesto que a fez achar que poderia evitar lembrar. Não iria deixar as lembranças lhe atingirem, não queria lembrar. Cantarolava uma musica infantil na mente, impedindo-a de pensar em outra coisa. Entretanto, infelizmente, até aquele chão asfaltado lhe trazia lembranças, e depois da música em sua cabeça sessar, não pode fechar os olhos para não o ver. Levantou sua cabeça encarou ,enfim, tudo ali. Sentiu algo lhe incomodando a garganta, algo incomodando seus olhos... Iria chorar? Não sabia se iria, mas queria.
– Nada mudou afinal. — resmungou retoricamente, mesmo que, qualquer pessoa que ouvisse, notaria o quanto embargada e tremula sua voz estava.
– Sakura... — virou-se para ver a dona da voz que a chamou. Sorriu. O aperto que seus braços causavam, também era o mesmo. Ainda era rápida, suficiente para ela esquecer o tempo que ficavam abraçadas. O olhos arderam; seu perfume era tão nostálgico e inebriante. Sentiu-se em casa, como sentia-se quando era mais nova.
– Tia... — foi tudo o que conseguiu dizer, antes de sentir seu ombro ser molhado aos poucos. Afagou-lhe os cabelos negros, sorrindo mais ainda quando notou mais duas figuras entrando naquele abraço.
A dor lhe atingiu, porém era estranhamente confortável estar dolorida.
[...]
Coçou a garganta pela terceira vez na tentativa, quase desesperadora, de que alguém começasse aquele assunto. Ela mesmo o faria, se não estivesse tão nervosa sob seus olhares ainda atônitos. Já esperava isso entretanto, como sempre, teoria e prática eram totalmente diferentes.
– Sinto muito, ele... — Quando enfim alguém resolveu dizer algo, ela preferiu o silêncio. Conhecia aquela frase muito bem, dolorosamente bem. A ouviu no hospital, em sua casa, do outro lado da linha... Seus reflexos até mesmo lhe permitiam saber quando ela seria dita. Enfim, já sabia que escutaria ela, mas não lembrava que doía tanto.
– Eu já sei tia. — cortou-a, tentando manter firme sua voz. — Eu estou aqui por outro motivo.
Os dois homens ali se entreolharam, em certo confusos. Não imaginavam outro motivo para ela estar ali. Sabiam exatamente o quanto lhe fazia mal estar ali, ainda que ansiavam sua volta.
– Decidiu dar o ar da graça então? — indagou o mais novo, sorrindo faceiro. Ela riu discretamente. Amava a forma que ele usava para amenizar o peso fo ar, aia que quase não surgisse efeito nela.
– Talvez, Itachi. — pousou sua xícara de chá na mesa onde estavam.
– Algum problema? — indagou o mais velho, extremamente sério. Suspirou, sabia que ele se preocupava, porém sempre esperava ela mesma dizer. Ouvir ele perguntando, significava que já estava na hora de dizer.
– Preciso da ajuda de vocês, tio. — alternou em olhar a face confusa de cada um. — Mas antes, preciso mostrar algo a vocês. — engoliu o seco de sua garganta, apertando o que pôde de sua calça jeans. — Ou melhor, alguém.
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