Esquecer você
8 Parte II - Visitante Inesperado
Notas iniciais
Dias antes de sua morte, Molly voltava caminhando para seu apartamento alugado em Nova Iorque. Quase que um ano inteiro tinha se passado desde sua partida. Apesar de gostar do seu novo trabalho e estar alcançando um sucesso muito maior do que ela imaginava, recebendo elogios constantemente, ainda sentia muita falta de Londres. Por vezes pensava em voltar, mas então, lembrava-se de Sherlock.
Claro que não era covarde o suficiente para não voltar só por causa dele. Mas ali, em Nova Iorque, tinham conhecidos novas pessoas, novos lugares, e tinha voltado a ser feliz. No começo fora difícil, sentia muita falta de todos. E para completar tinha acontecido tudo aquilo nas férias, e ela demorou para se recuperar do fato de que ele não a procurou, não retornou sua carta e nem ao menos se despediu. Agora tinha passado. Não ia negar que ainda guardava mágoas, mas já não doía o tempo todo. Pelo menos era o que ela dizia para se convencer disso.
Conversava com Mary com frequência. Ela e John tinham até vindo visitá-la uns dois meses atrás. Logo que se mudou Molly ainda dava um jeito de perguntar de Sherlock, e queria se matar toda vez que sucumbia a essa tentação. Mas agora, ninguém mais o citava e a vida seguia.
Entrou em seu apartamento e foi preparar um chá. Era um costume que não abandonou. Sempre chegava em casa e tomava um bom chá antes de tomar banho, ler algum livro e dormir. Apesar de ter feito novos amigos, não era muito de sair. Não via mais graça em dançar. E não, isso nada tinha a ver com Sherlock, era só uma fase. Outra coisa que tentava se convencer.
Por conta desses seus hábitos regrados, estranhou quando a campainha tocou. Nunca ninguém ia até sua casa sem avisar. Xingando baixinho quem quer que tenha atrapalhado seu ritual do chá, foi em direção da porta e espiou pelo olho mágico.
Seu coração disparou e ela arfou. Mycroft. Aqui?
Conhecia o irmão de Sherlock, mas trocaram pouquíssimas palavras. Ele era ainda mais gelado que Sherlock. Por mais que pensasse rapidamente, não conseguia encontrar explicação nenhuma para ele estar ali, na sua porta.
Abriu a porta com cautela. Não fazia a menor ideia do que dizer. Ele entrou rápido, sem pedir licença, fazendo com que Molly se encolhesse um pouco contra a parede.
– Olá, Molly Hooper. Até que você não está tão mal instalada quanto imaginei observando esse prédio por fora. Sente-se, precisamos conversar.
Ele falava rápido, de forma arrogante e dando ordens a ela. Ela ergueu a sobrancelha, mas acatou, sentando-se em um dos sofás que compunham sua sala. Com um olhar que pareceu a ela ser resignação, ele escolheu uma das duas poltronas existentes e sentou-se.
Esperou que ele começasse a falar o que de tão urgente o tinha levado até ali. Já começava a ficar preocupada, será que algo tinha acontecido a seus amigos?
– Bem, Molly, poderia nos servir alguma bebida? O mais forte que você tiver.
A manda sentar, depois manda levantar. Estava começando perder a paciência.
– Eu parei de beber. Só tenho água e o chá que estava preparando quando você delicadamente me interrompeu.
Achou ter visto um brilho malicioso em seus olhos quando disse que não bebia mais, mas decidiu ignorá-lo.
– O chá está ótimo, por favor.
Molly revirou os olhos ao virar de costas para ele e voltou para a cozinha. Terminou rapidamente o chá, colocou os utensílios em uma bandeja e levou até a sala. Não serviu chá para Sherlock e agora estava servindo para seu irmão. O mundo dá voltas mesmo.
– Então?
– Molly, eu estou aqui porque preciso de você.
Ela o encarou com incredulidade. Após alguns segundos, e vendo que ele falava sério, não aguentou e riu.
– De mim? VOCÊ precisa de MIM? Só pode estar brincando.
Como assim, um membro importante do serviço secreto britânico precisava dela? Sua vida não parava de ser revirada. Isso já a estava chateando.
– Nunca falei tão sério. A sua ajuda pode salvar a Inglaterra. Pode salvar inclusive essa cidade tão agradável onde você está agora. Devo acrescentar que sua ajuda talvez seja benéfica a nível mundial.
Sua boca se abriu em choque. O que? Ela podia fazer o que?
– Vamos com calma nessa história, Mycroft. O que você acha de me explicar tudo isso desde o começo? Eu não nasci na família Holmes, desculpe-me por isso.
Estava sendo irônica de propósito. A postura dele estava irritando-a. Infelizmente nesse ponto ele lembrava muito o outro Holmes.
Mycroft suspirou, já imaginava que para ter dobrado seu irmão, ela não seria uma figura fácil. E ter que explicar tudo era tão entediante.
– Se você acompanha algum jornal, deve ter observado que o número de ataques terroristas tem aumentado nos Estados Unidos apesar de toda a vigilância do país.
Ela assentiu, tinha lido sobre. Inclusive Nova Iorque era sempre a primeira a sofrer com essas ocorrências. Há um mês mais de 200 pessoas ficaram feridas e 8 morreram quando um carro explodiu em uma avenida principal. O governo tentava passar tranquilidade para a população, mas o medo era inevitável.
– Sim, tenho visto o noticiário. O último aconteceu não muito longe daqui.
– A rixa dos Estados Unidos com o Oriente Médio já é antiga, de conhecimento de todos. Eles ganharam força nos últimos anos. A Córeia do Norte juntou-se a eles, financiando seus ataques. O G8 está recebendo ameaças de uma guerra há seis meses. Isso envolve a Inglaterra e todos os países que compõe o grupo. Nós deduzimos que essa série de atentados que vem ocorrendo em diversos países é um início da guerra.
Molly estava assustada, mas ainda não conseguia ver enxergar onde ela entrava naquela história toda. Uma guerra? Outra guerra mundial? Não o interrompeu, esperou que ele continuasse explicando sua história.
– Eu sei que você está se perguntando o que tudo isso tem a ver com você, além do fato de que uma bomba pode atingi-la a qualquer instante. Vou chegar lá.
Ela só conseguia assentir, estava curiosa para saber onde isso ia chegar.
– Obviamente fui contatado para dar início a investigação e interromper essa onda de atentados. É claro para nós que temos agentes infiltrados em nossos países passando informações e facilitando a entrada de terroristas. Precisamos descobrir essas pessoas e desfazer esses grupos. Só assim teríamos como interromper essa guerra. E isso pode levar anos para acontecer. – Ele fez uma longa pausa, olhando-a nos olhos. – Sherlock foi convocado.
Era nesse ponto que ele queria chegar, percebeu. Mas ainda não entendia, estava quase um ano sem notícias de Sherlock, ele não tinha nada a ver com ela.
– Desde que voltou de férias, meu querido irmãozinho tem passado por problemas. Ele acha que não, mas eu percebi que sua mente tem outras preocupações e ele não consegue se focar em nada. Devo dizer, Molly, e espero que você não se ofenda, mas a culpada é você.
Molly levantou-se indignada. Sentiu que seu sangue esquentava de raiva. Seus olhos faiscavam quando o encarou.
– Olha aqui, Mycroft, seu querido irmão me usou e me largou. A escolha foi dele. Se ele não consegue arcar com as escolhas que ele mesmo faz, eu não tenho culpa. E se é isso que você veio me dizer, pode levantar e ir embora. Não há nada que eu possa fazer. E não pense que foi falta de tentativas da minha parte.
Depois de tanto tempo era obrigada a reviver tudo aquilo. Nunca iriam deixar que aquela história passasse?
– Acalme-se, querida. Infelizmente meu irmão tem problemas com escolhas, mas acho que dessa vez ele fez a certa, só não está conseguindo lidar com ela. Nós sabemos que ele nunca conseguiria dar conta de um relacionamento e do seu trabalho ao mesmo tempo. Sherlock é casado com seu trabalho, e sempre será assim. Espero que você já tenha tomado consciência disso.
Ela sentiu que se aquele almofadinha não levantasse e fosse embora em cinco segundos, ela voaria no pescoço dele e ele perderia aquela arrogância na mesma hora.
– Mycroft, presta atenção, eu nunca pedi pro Sherlock largar nada. Nunca faria isso. Eu sei o quanto ele ama o trabalho. Caso você tenha dúvidas, é só olhar em volta, eu estou em Nova Iorque porque foi a escolha dele. Ele escolheu exclusivamente o trabalho. Fim.
O fato de Sherlock ainda pensar nela e isso atrapalhar seu trabalho deu um sentimento de satisfação a ela. Pelo menos tinha conseguido bagunçar a vida dele, conforme tinha planejado.
– Sherlock sente-se culpado pela dor que causou a você. Não se iluda quanto os sentimentos dele por você, meu irmão é incapaz de amar da forma que você espera. Mas desde que desenvolveu esse negócio de amizade, ele sente-se mal em magoar seus amigos. E isso o está deixando distraído no momento que mais precisamos dele completo.
Molly franziu o cenho. Naquele momento não odiava ninguém mais do que odiava Mycroft. Como ele podia vir até sua casa, naquela distância, pra lhe dizer essas coisas?
– E o que você quer que eu faça, querido? – Disse essa palavra com nojo. – Quer que eu me case amanhã, dê uma festa e chame Sherlock para que ele veja como eu estou feliz? Ou quer que eu ligue para ele e peça desculpas por ter estado apaixonada por ele, mas que agora está tudo bem? Diga-me, Mycroft, qual a sua solução?
– Minha solução é a mais simples, Molly. Você precisa morrer.
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