Esquecer você
9 Parte II - Decisão
Notas iniciais
“Você precisa morrer.”
Molly deixou que aquele absurdo penetrasse em seu cérebro e então ocorreu o que ela não previa. Sentiu uma incontrolável vontade de rir. Teve que sentar-se novamente, ria tanto que não conseguia parar em pé. Não sabia se estava histérica com a possibilidade de morrer ou realmente achava aquilo engraçado.
Depois de algum tempo assim, enquanto Mycroft só a olhava entediado, ela secou algumas lágrimas que escorreu dos seus olhos, depois de tanto rir e tentou se recompor.
– Você pensa em me dar um tiro agora?
Ele suspirou exasperado. O que diabos Sherlock viu nessa mulher?
– Não seria por falta de vontade, mas prefiro evitar a burocracia. Isso não aconteceria de verdade, só preciso que você pareça morta.
Olhou algum tempo para ele, sem entender. Então, quando a compreensão finalmente veio, ela riu ainda mais.
– Isso não está ficando repetitivo? Fingir morrer de novo? Vocês não cansam dessa tática?
– Você prefere morrer de verdade? Porque apesar da papelada que teria que preencher, posso dar um jeito quanto a isso.
– Primeiro: eu não sei por que aceitaria fazer isso. Segundo: Sherlock descobriria na mesma hora.
Mycroft espalhou várias fotos na mesa de centro de Molly. Ela olhou com curiosidade e logo sentiu seu estômago embrulhar, o riso sumiu de seu rosto. Não queria ver aquilo.
– Esse é o resultado dos ataques terroristas que estão acontecendo. Como pode ver, além de adultos, crianças estão morrendo das piores maneiras possíveis. Você é uma médica, e pelo que sei, está lutando para descobrir curas para doenças. Para salvar vidas. Eu preciso de sua ajuda para que muitas outras vidas sejam salvas.
Ela não disse nada, estava paralisada. O terror saltava a seus olhos.
– Quanto a Sherlock, temo que ele irá investigar a fundo sua morte. Mas dessa vez ele nada descobrirá, já temos tudo planejado. Nada sairá errado. Com a sua morte em um atentado terrorista, atribuído a um grupo de nossos inimigos, ele terá a motivação necessária para voltar a ser o Sherlock Holmes de sempre. A vingança pode ser um ótimo combustível, Molly Hooper.
Não sabia o que dizer a ele. Mycroft estava pedindo para que ela abrisse mão de toda sua vida. Mas não era em troca de nada. Vidas estavam sendo perdidas. Pessoas estavam morrendo iguais aqueles homens, mulheres e crianças das fotos. Se ela não aceitasse fazer isso, se sentiria culpada por toda morte que acontecesse? Mycroft jogou uma bomba no colo dela – com o perdão do trocadilho – e ela estava sem saída. Ainda encarava as fotos sem dizer nada.
– Sherlock a deixou, Molly. Você não tem familiares próximos e seus amigos ficaram bem. Você irá para um país seguro, com outra identidade e continuará suas pesquisas. Nós pagaremos um alto valor para você, não terá problemas quanto a isso.
Nesse ponto ela ergueu devagar os olhos para ele e o encarou. Quem ele pensava que ela era?
Caminhou até a porta e a abriu.
– Saia. Agora.
Ele aproximou-se da porta, preparando-se para sair.
– Diga-me quanto.
Molly não pensou duas vezes e sua mão acertou o rosto de Mycroft. Sentiu a ardência em sua palma e viu, com satisfação, que o rosto dele começava a ficar vermelho. Achou que ele reagiria com raiva a esse ato, mas ele apenas a encarou seriamente antes de sair.
– Nós precisamos de você, Molly. Pense sobre isso. Voltarei amanhã.
–- -- --
Quando fechou a porta, Molly encostou-se nela, aliviada por ele ter ido embora. Seu alívio não durou muito, viu que ele tinha deixado as fotos sobre a mesa. Aproximou-se lentamente, como se fosse algum animal perigoso. Trabalhou anos como médica legista no St. Barts e viu a morte de várias maneiras, talvez piores que as das fotos. Mas nunca lidou bem em ver corpos de crianças. Quando tinha que analisar o corpo de uma era sempre um sofrimento. Tirava motivação do fato que seu trabalho ajudaria a prender os responsáveis. Ali não estava a trabalho e a única coisa que as fotos mostravam era a violência pura, a falta de humanidade em sua pior forma.
Como poderia deixar as coisas como estavam? Nunca poderia viver em paz sabendo que uma parcela de culpa sobre futuros desastres seria sua.
Deixando as fotos no lugar e foi para o seu quarto. Encolheu-se em sua cama e chorou. Como poderia sumir da vida de todos? Só Sherlock a tinha abandonado, não os outros. E como lidaria com a informação de que a vida de Sherlock estava bagunçada por causa dela? Será que existia algum sentimento da parte dele ou era só culpa, como Mycroft tinha dito? Mas o que adiantaria saber disso agora? Não poderia ir atrás dele, atrapalharia tudo ainda mais. E de que adiantaria se a guerra tivesse início e ela perdesse seus amigos de qualquer forma?
Mycroft tinha dito que toda a operação poderia demorar anos. Poderia ficar afastada por quanto tempo de todos? Sherlock ficou por dois anos. Quanto tempo ela suportaria? Essa história de morrer e não morrer de verdade já estava repetitiva demais. Nunca imaginou que se veria no meio de algo assim.
Sua cabeça começou a doer com tanta informação e tantas coisas que precisava perguntar a Mycroft. No fundo, já sabia qual resposta daria a ele. Adormeceu quando a exaustão chegou.
–- -- --
O dia começava a clarear quando Molly acordou assustada com a campainha tocando insistentemente. Mycroft.
– Você não consegue esperar nem ao menos as pessoas acordarem?
Logo que disse isso, ela se arrependeu. O rosto dele mostrava preocupação, podia jurar que algumas havia algumas rugas ali que não estavam na noite anterior.
– Não temos tempo, Molly. E menos tempo ainda para convencê-la. Diga-me qual a sua decisão.
Ele passava a mão pelos cabelos e parecia agitado. Outra cena que ela não esperava ver vindo de um dos Holmes.
– Antes eu tenho algumas perguntas.
Mycroft suspirou exasperado e sentou-se. Não poderia exigir que ela tomasse uma decisão desse tipo sem antes fazer perguntas.
– Faça-as o mais rápido que puder.
– Como isso vai funcionar? Para onde irei? Com quem irei? O que vou fazer da minha vida? Com quem vou manter contato? – Molly se confundia com tantas perguntas que tinha para fazer.
– Você vai morrer em um atentado em uma rua no centro de Nova Iorque. Deixe os detalhes por nossa conta. Não vai sobrar muito do seu corpo, de qualquer forma. – Era bem estranho ouvir falar assim da sua morte. – Claro que ninguém irá assumir o atentado, mas também não haverá desconfiança quando atribuirmos a algum grupo terrorista. Você continuará suas pesquisas contra o câncer em um conceituado laboratório no Brasil.
Os olhos de Molly arregalaram-se em espanto.
– Eu não falo a língua! Você está louco.
– Nós temos um cientista trabalhando por lá. O idioma não será problema. Ele acompanhará você por toda a viagem e ajudará em tudo que for necessário. Você terá uma casa, dinheiro e o que mais for preciso. Manterei contato com você e deixarei algum meio para você me contatar quando necessário. Sua vida continuará basicamente a mesma, Molly, mas no Brasil. E lá, você estará segura.
Claro, minha vida vai continuar a mesma. Exceto que estarei morta para todos meus amigos.
Ela sacudiu a cabeça, tentando espantar esse pensamento. A maior de todas as perguntas ela ainda não tinha tido coragem de fazer. Respirou fundo, reunindo toda a coragem que já não pensava existir.
– E quanto ao tempo? Por quanto tempo isso vai durar?
Mycroft a encarou longamente. E Molly sentiu que seu coração poderia parar de funcionar a qualquer instante. Viu algo parecido com tristeza passar pelos olhos dele.
– Eu não sei, querida. Realmente não sei.
Molly levou as mãos aos olhos, apertando-os. Isso não podia ser verdade. Por que cargas d’água esse peso tinha que cair em cima dela? Por que ela não podia ter uma vida normal como qualquer pessoa?
Você se apaixona por um sociopata, tem como melhor amiga uma assassina e quer ter uma vida normal?
Ela riu com essa observação pertinente de sua consciência.
Mycroft esperava com impaciência que ela pensasse nas respostas que ele lhe dela. Por fim, não aguentou a espera e interrompeu os pensamentos dela.
– O que me diz? Aceita nosso acordo?
Ao ouvir a palavra acordo, uma avalanche de emoções tomou conta de Molly. Lembranças de um tempo que agora parecia tão distante. Sentiu que se coração se quebrava. Mycroft a olhava com uma sobrancelha erguida, não dava sinais de que sabia o que aquela palavra significava para ela. Aguardava uma resposta.
Por fim, ela assentiu com a cabeça. Fazendo com que Mycroft respirasse aliviado.
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