Espionagem de Outubro
28 Questão de Tempo
ROMANCES MENSAIS
LIVRO X – ESPIONAGEM DE OUTUBRO
CAPÍTULO XXVII – QUESTÃO DE TEMPO
O clima não poderia estar pior do que naquele momento. Eu me sentia culpada pela briga recente de Oliver com Felicity, que para a minha surpresa havia se mostrado bastante empática pela minha situação. Não que eu esperasse um ataque de sua parte. Sendo uma amiga de longa data de tio Clint, eu esperava que ela fosse se manter mais neutra em relação ao caos que eu já esperava acontecer e não que iria me defender dos ataques dolorosos de Oliver.
Os olhos decepcionados e abalados de meus primos me atingiam como lâminas afiadas contra a minha pele. Era claro que eles estariam furiosos. Eu menti e desapareci. Descumpri as promessas que fiz e quebrei o código de amizade que Nancy e eu tínhamos de nunca mentirmos uma para outra. Dez anos se passaram, então é claro que seria pedir demais ser recebida com compreensão por aqueles que eu abandonei.
— Por que agora, Sara? Por que demorou dez anos para voltar? Você por acaso faz ideia do quanto foi difícil para o Oliver superar a sua morte e seguir em frente? Por que teve que voltar somente quando ele finalmente encontrou o amor da vida dele e está vivendo feliz com a esposa e o filho? — Questiona Damon, aproximando-se com os olhos carregados com uma profunda mágoa e tristeza. — Não é justo você ter escolhido sair de nossas vidas de forma tão cruel e voltar dez anos depois. Oliver perdeu a pessoa que ele mais amava e se culpou todos esses anos por não ter sido capaz de cumprir com as promessas que fez a você. E ele ficou tão abalado que se prestou ao papel de viver ao lado de Laurel por dez anos, apenas porque ele não queria quebrar as promessas que fez a ela também. Você por acaso tem a consciência de que todo o sofrimento que ele passou e todas as merdas que ele enfrentou poderiam ter sido evitados com uma simples conversa antes de simplesmente forjar a própria morte como se não houvesse pessoas que se importavam com você?
— Eu sinto muito, Mon. — Lamento com sinceridade e ele suspira, voltando a passar as mãos pelo rosto. Nancy ainda chorava intensamente e nem mesmo fazia questão de olhar em meus olhos. Mesmo Jonathan ao seu lado, ela parecia bastante nervosa e isso me preocupava. Ela está grávida. Não pode passar por fortes emoções. — Eu sei que deveria ter aparecido antes, que deveria ter contado a verdade a vocês antes de tomar minha decisão, mas...
— Nós sempre te apoiamos, Sara. Sempre! Mesmo nas maiores loucuras, nós confiávamos uns nos outros. Por que nos traiu e nos fez passar por tanto sofrimento em vão? Não teríamos ido contra a sua vontade. Confiávamos em tio Clint o suficiente para saber que você ficaria bem. Todos nós queríamos a sua felicidade. Não contaríamos a ninguém sobre a sua decisão. Você sabe disso. — O tom de voz de Nancy aumentava mais a cada palavra proferida. Seu corpo tremia e ela parecia mais pálida que o normal. — Você ao menos faz ideia de quantas noite eu passei visitando seu túmulo e conversando com uma lápide para conseguir lidar com a dor que sentia por ter perdido a única pessoa no mundo que eu pensei que me entendia? Tem noção de quantas vezes eu precisei ter minha melhor amiga ao meu lado durante esses dez anos? Sabe o quanto eu desejei compartilhar com você os momentos bons da minha vida? Você por acaso imagina o quanto eu odiei o mundo por supostamente não ter mais você nele?
— Nana, acalme-se, por favor. — Peço com preocupação e tento me aproximar mais uma vez, mas teimosa como minha melhor amiga é quando está furiosa, ela me rejeita novamente.
— Não, Sara! — Nancy parece ficar ainda mais nervosa e Jonathan a encara com preocupação.
— Nancy, você precisa ficar calma. Pense na Hope. — Pede o marido de minha melhor amiga, abraçando-a com cuidado.
— Jonathan, leve Nancy para casa. Ajude-a a se acalmar. — Orienta Beth com uma seriedade que poucas vezes vi de sua parte. Nancy parece querer argumentar, mas é cortada pela nossa prima mais velha. — Vá para casa, Nancy. Sei que está decepcionada e entristecida por Sara ter escondido que estava viva por tanto tempo, mas você agora é mãe. Precisa colocar a saúde de sua filha em primeiro lugar. Esfrie a cabeça e quando estiver pronta para ouvir o que Sara tem a dizer, vocês duas conversam. Mas agora você precisa se acalmar pelo bem de sua filha.
Nancy não discute. Sem me direcionar o olhar, ela permite que Jonathan a levasse para casa. Um pouco mais lúcida de suas ações, ela parecia ter dificuldade até mesmo para andar devido à pressão que deveria estar alterada. Novamente, sinto o peso das consequências de minhas ações do passado me atingirem com ainda mais intensidade. Leonard me lança aquele olhar acolhedor e encorajador, como um lembrete que eu não podia desanimar agora.
— É melhor nós irmos também. Eu não estou com cabeça para conversar com Sara, Sam ou Barry no momento. – Fala Damon, encarando Elena, que suspira e assente, concordando.
— O quê? Você está brincando comigo, Damon? Por que você não pode simplesmente ficar feliz por Sara estar viva? – Questiona Sam, indignada com a decisão do rapaz de ir embora. Ela se aproxima e empurra Damon, obrigando-o a encará-la. A loira balança Damon várias vezes de uma forma que eu tinha certeza que estava o machucando, mas o rapaz nem mesmo mantem o olhar sobre ela por muito tempo. – Qual é o maldito problema com você, Nancy e Oliver? A Sara está viva! Será que vocês não conseguem ver o quão incrível isso é? Ela está viva!
— Para, Sam! – Interfere Elena, puxando Sam para se afastar de Damon, só conseguindo separá-los quando Freddie, namorado de Sam, também passou a puxar a garota. – Para!
— Que droga, Elena! Até você? – Questiona Sam, encarando Elena com incredulidade. A morena me encara por alguns segundos e volta a atenção para a nossa prima. – Por que não está feliz pela volta de Sara?
— Não é questão de estar ou não feliz, Sam. É claro que todos achamos incrível o fato de Sara ter se curado do câncer e retornado para as nossas vidas, mas precisamos de um tempo para lidar com essa notícia. – Responde Elena, suspirando frustrada.
— Por acaso vocês têm merda na cabeça no lugar de cérebro? Ela é a nossa prima! – Grita Sam, furiosa pela atitude de Damon e Elena, enquanto apontava para Ben, Austin e Thea que se mantinham calados até o momento.
Eu já nem mesmo sabia se deveria me manifestar ou deixar coisas acontecerem naturalmente. Ainda que odiasse isso, eu estava com medo de piorar a situação que já estava péssima. Suspiro, vendo que a fúria presente nos olhos de Thea, indicando que aquela confusão estava começando a perder todo o controle.
— E isso não a impediu de ir embora e machucar o coração do meu irmão, Sam! – Grita Thea, aproximando-se da loira. – Não pode simplesmente achar que o fato dela estar de voltar e viva significa que devemos apagar tudo o que ela fez. Sara poderia ter nos contado. Poderia ter entrado em contato antes, mas não! Ela só fez isso quando encontrou o amor e viu que estava sozinha, longe da família que a amava e que ela não pensou duas vezes antes de abandonar.
— Não seja tão injusta com Sara, Thea. – Interfere Barry, aproximando-se da garota. – Você nem mesmo sabe o que aconteceu.
— O que eu sei é que eu vi meu irmão se definhar dez anos de sua vida pela morte de alguém que nem mesmo pensou em nos dar uma satisfação. – Responde Thea, extremamente magoada. Eu não a culpava. Ela era a mais nova de todos. Tinha acabado de completar sete anos quando eu supostamente morri e acompanhou a adolescência inteiro o irmão sofrendo por mim.
— Todos nós vimos, Thea, mas Sara era apenas uma criança também. – Responde Austin e isso faz Thea rir.
— Uma criança por acaso forjaria a própria morte e fugiria da família como ela fez? – Questiona Thea, encarando-me com intensidade. Encolho-me, sentindo a culpa perfurar ainda mais o meu peito. – Por acaso está do lado de Sara?
— Não há um lado nessa história ao qual devemos ficar, Thea. – Resmunga Ben, massageando as têmporas. – Sara errou, mas talvez a gente deva ouvir o que aconteceu primeiro antes de sair surtando.
— Você pode ter razão, mas...
— Ah, por favor, Thea. Seja madura sobre essa situação. Se tiver que culpar alguém nessa situação, que seja Clint por ter concordado com essa loucura. Sara tinha apenas treze anos. Isso sim é ser uma criança. – Responde Mal, namorada de Ben, surpreendendo a todos ao interromper Thea. – Clint só foi o babaca excêntrico que ele é. Então ao invés de ficarem acusando Sara, por que vocês não usam essa ira para ir atrás de Clint e cobrar dele explicações? Um cara louco a ponto de concordar em forjar a morte de uma criança com câncer para ela entrar na CIA deveria estar internado.
— A culpa não foi do tio Clint! Não fala assim dele! – Afirmo, encarando a garota de cabelos roxos com seriedade e um pouco de irritação. – Olha, eu posso aceitar que todos me odeiem, mas não vou permitir que acusem e tratem mal o tio Clint por salvar a minha vida.
— Mas, o quê...? – Sussurra Mal, perplexa com a minha resposta. – O que foi que ele fez na sua cabeça...
— Mal, para. – Ben a interrompe com frieza. – Você não conhece o meu padrinho. Ele pode ter inúmeros defeitos do mundo, mas todos nós somos a prova viva de que ele daria a vida se fosse preciso para nos proteger.
— Isso só pode ser brincadeira. – Mal ri com ironia, sem acreditar nas palavras do namorado. – Será possível que vocês não conseguem ver que Clint é um desequilibrado? Ele é um completo louco!
— Olha Mal, com todo o respeito do mundo, é melhor não se envolver aqui. – Pede Sam, irritada. E pela primeira vez naquela noite, todos os primos pareciam concordar que era melhor a garota não citar nosso tio. – Amamos você e te consideramos como alguém importante da família, mas não vou permitir que ofenda tio Clint dessa forma.
— Vocês só podem estar loucos para não verem toda a loucura dessa situação. Acham mesmo que uma criança de treze anos teria malícia para bolar um plano tão complexo quanto forjar a própria morte? – Questiona a garota de cabelos roxos.
E então uma grande confusão se inicia. Todos os primos começam a falar ao mesmo tempo ocasionando em um eco perturbador na enorme sala da mansão de tio Clint. Sam e Thea afirmavam que Mal não deveria dar opinião naquele assunto e acusar tio Clint daquela forma sem o conhecer. Ao mesmo tempo, as duas discordavam sobre seus pensamentos quanto o meu retorno a Hawkins depois de dez anos.
Damon permanecia afastado e com os punhos cerrados, controlando as próprias emoções. Eu estava surpresa por ver que ele estava aprendendo a se conter quando as situações saem do controle. Elena tentava sem sucesso acalmar os ânimos, mas também parecia bastante estressada. Ben e Austin estavam neutros na situação. Não permitiam que Mal falasse sobre tio Clint, mas não interferiam sobre como os outros me viam, ao contrário de Barry, que me defendia intensamente.
Eu também ponderava falar, mas Leonard me impede, como se dissesse que era melhor eu não interferir ou tudo poderia ficar ainda pior. Observo os acompanhantes de meus primos, que com exceção de Mal, estavam completamente perdidos no que deveriam fazer. Meus olhos recaem sobre Beth, anda pelo palco e puxa o microfone que eu nem mesmo havia notado que ainda continuava em minha mão.
Assumindo a autoridade que ela sempre possuiu por ser a mais velha de nossos primos, Beth bate o microfone, fazendo com que um alto som agudo ecoasse pelo salão. Todos se encolhem, estremecendo pela microfonia potente.
— Já chega! Todos vocês parem já com isso! Desde quando tio Clint criou animais ao invés de adultos? – Pergunta Beth furiosa. Foram poucas as vezes em que vi a mais velha perder a paciência, mas quando isso acontecia, era sempre bem assustador. – Eu já estou cansada dessa gritaria desnecessária. Todos vocês vão para casa e irão retornar amanhã para um almoço em família.
— Mas...
— Nada de “mas”, Thea. Eu não estou brincando. Vocês sabem de quem é a autoridade quando tio Clint está fora. – Beth corta a fala de Thea com brutalidade, fazendo a garota encolher os ombros. – Todos vocês vão para casa esfriar a cabeça e refletir sobre esse show que deram aqui hoje. Amanhã ao meio-dia, eu quero todos aqui para almoçar e ouvir o que Sara tem a dizer. E se qualquer um de vocês não aparecer aqui, eu farei questão de ir buscar um por um pela orelha. Estamos entendidos? – Ninguém responde. Todos pareciam amedrontados com a postura quase demoníaca de Beth naquele momento. – Eu não ouvi a resposta de vocês!
— Sim, Beth. – Concordam Thea, Sam, Barry, Austin, Ben, Damon e Elena, um pouco contrariados.
— Ótimo. Agora vão para casa tomar um banho e esfriar a cabeça. Reflitam sobre o que significa ser um Barton e qual é a importância do Recomeço para nós. Quem sabe assim vocês não colocam um pouco de juízo nessas cabeças duras de vocês. – Após as ordens de Beth, meus primos e seus acompanhantes deixam o salão de tio Clint sem contestar.
Era quase como se tivéssemos voltado a ser crianças no acampamento de tio Clint. Todas as vezes que aprontávamos, ele sempre nos repreendia e nos fazia pensar sobre nosso comportamento, antes de nos mandar para os quartos para refletir tudo o que ele disse. No dia seguinte, sentávamos e cada um dizia o que havia feito de errado e se desculpava tanto com tio Clint quanto com os outros primos.
E quanto todos vão embora, inclusive os amigos atores de tio Clint, restando apenas Beth, seu marido Daryl, Leonard, Bernard e eu, o silêncio se faz presente pela casa. Eu me sentia destruída. Nem mesmo era capaz de pensar sobre o que deveria dizer a pessoa que eu tinha como minha irmã mais velha.
— Beth... – Sussurro cautelosa. Ela se vira para me encara e suspira. – Eu... eu sinto muito mesmo.
Beth sorri e me puxa para um abraço apertado. O mesmo que ela sempre me dava todas as vezes que eu recebia alta do hospital após ficar semanas internada. E pela primeira vez naquela noite, eu me sentia acolhida pela família Barton novamente. Acabo deixando algumas lágrimas escapar, apreciando o calor dos braços finos de minha prima em volta de meu corpo.
— Eu estou tão feliz por você estar viva e saudável, minha Canário Branco. – Sussurra Beth em meu ouvido e as lágrimas passam a cair com ainda mais intensidade. Ela sorri e se afasta, acariciando meu rosto. – Tivemos uma noite muito difícil. Que tal irmos para minha casa tomar um bom vinho e esquecer o fiasco que foi essa festa?
— Beth... – Eu estava tão emocionada e tocada pelo carinho com o qual ela me encarava que nem mesmo era capaz de expressar. Ela ri e encosta a testa na minha.
— Vou interpretar isso como um sim. – Responde Beth, abraçando-me de lado. Ela então se vira para Leonard e estende a mão direita, enquanto a esquerda ainda me apertava contra si. – Eu me chamo Beth Dixon. Aquele é o meu marido, Daryl. É um prazer te conhecer, Leonard.
— É um prazer conhecê-la também, Beth. Maggie e Sara me falaram muito sobre você. – Comenta Leonard, apertando a mão de minha prima.
— Você conhece Maggie? – Questiona Daryl, surpreso com a informação.
— Ela é a minha chefe no FBI. – Explica Leonard e o outro sorri, assentindo em compreensão. – Ouvir muitas histórias sobre vocês dois. Ela tem muito orgulho da irmã mais nova e do cunhado que tem como um irmão.
— Pelo visto, teremos muito o que conversa essa noite. Que tal irmos logo para casa? Eu estou louca para saber mais sobre você e como vocês dois começaram a namorar. – Responde Beth, animada.
E assim, depois de nos despedirmos de Bernard e Beth explicar o que planejava para o dia seguinte, quando ocorreria o almoço de família, todos nós seguimos para os nossos carros. Leonard e eu seguiríamos Beth e Daryl que também estavam de carro.
Eu não conseguia controlar a adrenalina que percorria minhas veias ao pensar sobre tudo o que aconteceu essa noite. No entanto, no momento em que Leonard e eu entramos no carro e eu encaro a mansão de tio Clint, aperto meu relicário e as lembranças dos olhares magoados de meus primos voltam a me torturar.
— A minha família me odeia. — Lamento, levando as mãos ao rosto, sentindo a dor em meu peito.
— Não odeiam não. — Nega Leonard, suspirando.
— Odeiam sim. E eles têm razão para isso. Eu os abandonei há dez anos. Não posso querer voltar para eles e achar que tudo vai voltar a ser como era antes. É claro que eles me odiariam por ter dado as costas para eles e ter tornado tudo uma verdadeira bagunça. — Respondo, encarando o homem ao meu lado. Ele me analisa por alguns instantes e balança a cabeça em negação, antes de acariciar meu rosto.
— É impossível odiar você, Sara. Confie em mim. — Garante o homem, dando um sorriso caloroso.
— Você me odiou desde o momento em que nos conhecemos. — Retruco e ele dá aquela gargalhada gostosa e suspira, negando.
— É verdade. Eu a odiei na primeira e na segunda vez que nos encontramos, mas tudo mudou quando eu conheci a mulher determinada, inteligente, forte, gentil e sensível que você é. Agora, eu sou um homem completamente apaixonado que não imagina mais seu futuro sem ter você nele. Então eu posso dizer com propriedade que é impossível te odiar. — Responde Leonard, puxando minha mão. Ele deixa um delicado beijo e entrelaça nossos dedos. — Apenas dê um tempo para eles se acostumarem com a ideia de que a prima deles voltou dos mortos. Eu tenho certeza de que eles logo vão ver que ter você de volta em suas vidas é a melhor coisa que eles poderiam ter ganhado como presente da festa de Recomeço.
— Eu não mereço você. — Sussurro, encantada pelas palavras doces de Leonard. Ele sorri e me lança uma piscadela. — Eu te amo.
— Eu também te amo e é por isso que não vou deixar você agir de forma tão negativa. A Sara Hopper que eu conheço jamais desistiria só porque recebeu alguns "não" como resposta. Não é você que sempre diz que precisa ser teimosa e inteligente como um Barton? Então coloque isso em prática e não permita que as reações negativas se sobreponham sobre as positivas. Se Barry, Sam e Beth aceitaram tão bem o seu retorno, eu tenho certeza de que os outros não devem demorar a entender também. — Sorrio diante de seu discurso motivacional. – Eles vão se lembrar dos motivos de te amarem e amanhã voltarão dispostos a ouvir o que você tem a dizer.
— Você sempre sabe o que me dizer para fazer eu me sentir melhor. — Comento, rindo. Encaro-o com carinho, completamente apaixonada. — Obrigada.
— Não precisa agradecer. Apenas troque essa carinha triste que não combina nada com você e me dê aquele lindo sorriso que só você tem. – Pede Leonard, dando um sorriso divertido. Dou uma breve risada anasalada e abro um discreto sorrio. Ele deixa um rápido beijo em meus lábios e se afasta. – Isso mesmo. Agora vamos, antes que Beth fique furiosa comigo e volte para tirar satisfações. Maggie já me contou sobre o que ela foi capaz de fazer com dois saltos em mãos contra homens que eram duas vezes maiores do que ela.
— Ah, nisso você tem razão. Nunca deixe Beth Dixon furiosa. Ela pode ser mortal. – Aviso, rindo ao lembrar do vídeo que tia Tasha me mostrou de Beth batendo nos capangas do tio que sequestraram sua irmã dois meses atrás e tenho que dizer que foi hilário e impressionante.
Assim, temendo a fúria de Beth, seguimos para o apartamento de minha prima e seu marido, que não ficava muito afastada da mansão de tio Clint. Eu sabia que ela morava em um condomínio de luxo, mas assim que chegamos ao local, estacionamos o carro na espaçosa garagem de três vagas que eles tinham e seguimos para o grandioso elevador de seu prédio, foi inevitável não ficar impressionada com a beleza e toda a riqueza que aquele condomínio esbanjava.
Enquanto conversávamos sobre banalidades, Beth e Daryl nos conduzem para seu apartamento que ficava no último andar de um enorme edifício. Confesso que estava assustada com a naturalidade com a qual minha prima reagia diante da minha presença. Nem mesmo parecia que eu havia acabado de retornar após fingir estar morta há dez anos.
— E esse aqui é o nosso lar. Sejam muito bem-vindos. – Fala Beth, abrindo a porta do apartamento. – Entrem e, por favor, fiquem à vontade. Daryl, poderia me ajudar a pegar as taças e o vinho para eles?
— Claro. – Concorda Daryl, dando um sorriso educado. – Sentem-se e sintam-se em casa.
— Obrigada. – Respondo, encantada com a linda vista da grandiosa parede de vidro que exibia as luzes do centro de Hawkins acesas.
— Esse lugar é lindo. – Comenta Leonard, assim que Daryl e Beth desaparecem pelo espaçoso apartamento. – Olha essa vista! É de tirar o fôlego. Eu definitivamente não me incomodaria em morar aqui.
— Pensei que estivesse acostumado com o luxo depois do cruzeiro que fizemos. – Comento e ele ri, negando.
— Eu acho que nunca vou me acostumar com a riqueza. Vivi tempo demais na pobreza para achar natural ter uma sala em um apartamento do tamanho de toda a minha casa e a do vizinho juntas como essa aqui. – Responde Leonard e eu acabo rindo.
— Você é um idiota. – Comento, dando um tapa em seu ombro, enquanto nos sentávamos no confortável sofá da sala.
— Eu estou falando sério. Olha só para esse lugar. Chega a ser surreal. Só não é maior do que a mansão de seu tio Clint. Agora eu entendo o motivo de você não ter se impressionado com a suíte Regent. – Relembra Leonard, passando o braço por cima dos meus ombros, enquanto me aconchega mais contra si.
— Prontinho. Eu não sei qual vinho vocês gostam e nem se vocês gostam de vinho, mas eu trouxe o meu preferido. – Beth aparece na sala com uma garrafa de vinho em mãos, enquanto Daryl trazia consigo quatro taças.
— Cabernet Sauvignon 2015 da Scarecrow? – Questiona Leonard, assoviando em seguida. Beth ri, parecendo se divertir com meu namorado. – Eu amo esse vinho. Ele é incrivelmente saboroso.
— É muito bom saber disso. Por que não nos sentamos à mesa próxima a janela para admirar a bonita visão que temos das luzes noturnas da cidade? – Recomenda Beth, apontando para uma mesa próxima a parede de vidro do apartamento. Ela então sorri com doçura. – Eu sei como você goste de observar a noite, Sara.
— Eu amo. – Concordo, sorrindo emocionada por saber que Beth ainda se lembrava do meu fascínio pelas paisagens noturnas.
— Você gosta de jogar xadrez, Leonard? – Pergunta Daryl, colocando as taças sobre a mesa, enquanto todos nos aproximávamos.
— Na verdade, sim. Eu acho que não há nenhum enxadrista melhor do que eu. – Provoca Leonard e Daryl ri.
— O que acha de irmos para o escritório para eu te mostrar que as medalhas de ouro que eu tenho dos campeonatos de xadrez que participei são a prova de que o título de melhor enxadrista do mundo é meu? – Sugere Daryl e dessa vez é Leonard quem ri.
— Vai ser prazeroso te fazer chorar depois de humilhantes derrotas. – Responde Leonard, dando um sorriso desafiador.
Daryl abre a garrafa de vinho e enche duas taças com o líquido púrpuro. Ele entrega uma das taças a Leonard e pega a outra. Depois de uma rápida troca de olhares entre a esposa, Daryl conduz Leonard pelo apartamento até o escritório, deixando Beth e eu às sós.
— Esses homens. – Comenta Beth, rindo. Ela então se aproxima mais da mesa e puxa as duas taças de vinho para perto de si. Sento-me em uma das cadeiras e observo a linda paisagem da janela. – Ah, como eu estou precisando disso. Vai ser bom para relaxar e esquecer um pouco dos problemas. Não sei se já provou o Cabernet Sauvignon 2015 da Scarecrow, mas tenho certeza de que não vai se arrepender.
— Você não vai perguntar? — Pergunto, observando Beth encher uma das taças com vinho. Ela desvia o olhar da bebida para me encarar.
— Perguntar o quê? — Questiona a loira, confusa. Ela empurra a taça cheia para mim e enche a dela, antes de se sentar de frente para mim e colocar a garrafa de lado. Estudo a expressão calma em seu rosto. Beth bebe um pouco de vinho e suspira, satisfeita. — Eu amo esse vinho. Quer saber? Eu vou pegar um pouco de queijo para acompanhar. Você vai ver que...
— Beth... Eu sei que não está tudo bem. — Impeço que minha prima se levantasse para ir à cozinha pegar o queijo. Ela me encara por alguns instantes, completamente imparcial. — Eu vou entender se estiver com raiva. É natural. Eu fui embora. Eu os abandonei. Forjei a minha própria morte e fui egoísta por nunca ter voltado. Então não precisa fingir que...
— Não seja boba. — Beth me interrompe, dando um peteleco em minha testa. Resmungo e a solto, vendo-a se sentar de volta em seu lugar com um sorriso amável. — Ao contrário dos outros, eu tinha quase dezenove anos quando você morreu. Eu já era adulta. Mais velha até do que a idade que Thea tem agora. Eu acompanhei o seu nascimento e a vi sofrer com a leucemia, Sara. A pior parte em saber que você tinha morrido era pensar que você não tinha vivido nada. Era apenas uma criança de treze anos com um futuro brilhante pela frente. Porque você sempre foi brilhante. Apesar de todas as dores e a dificuldade que você sentia, eu nunca a vi ficar reclamando ou deprimida. Eu assisti durante anos você se agarrar ao fio de esperança de viver cada dia como se fosse o último, na esperança de que no dia seguinte os médicos encontrariam uma cura e você viveria até a velhice, ao contrário do que todos diziam.
"Quando você morreu, eu senti que uma parte minha também foi embora. Você era como a minha irmãzinha. Eu perdi as contas de quantas vezes eu desejei que tudo fosse mentira e que eu te encontraria no outro dia com aquele sorriso travesso, contando alguma história divertida sobre algum paciente inusitado do hospital.
Eu não sei o que a motivou a forjar a própria morte e nem o que aconteceu com você durante todos esses anos, mas eu realmente não poderia estar mais feliz por saber que você está viva, Sara. Esse ano, muitas coisas aconteceram em minha vida. Eu perdi meu pai, quase perdi minha irmã mais nova, descobri que meu tio era um assassino e me casei com o homem da minha vida. Todas essas mudanças me fizeram entender que a vida é preciosa demais para ficarmos perdendo tempo com detalhes bobos.
Não se preocupe com a reação daqueles cabeças duras. Eles só estão com o orgulho ferido e não sabem como reagir. Mas depois de um bom banho, eu tenho certeza de que eles vão refletir sobre suas ações, assim como faziam quando eram crianças e vão ouvir o que você tem a dizer. Tudo o que eles precisam é de um pouco de tempo para assimilar a novidade, então não se martirize demais por isso. No fim, tudo ficará bem. Você vai ver.” – Responde Beth, pegando em uma de minhas mãos.
Sorrio e aperto a mão de minha prima com força, sentindo um enorme peso sair de minhas costas. Ela acaricia meu rosto com a mão livre e eu me sinto muito mais aliviada.
— Obrigada, Beth. De verdade. – Agradeço com sinceridade e ela nega, sorrindo amorosa.
— Não precisa agradecer. Agora que tal começar a me contar sobre como você conheceu o bonitão do Leonard? Algo me diz que a história é bastante intrigante. – Comenta e eu rio, concordando.
— Ah, eu tenho certeza de que você vai adorar. – Afirmo e ela me encara com curiosidade.
Sorrio e passo a narrar desde o momento em que me encontrei com Leonard pela primeira vez em Londres até os dias atuais. Beth escuta tudo com atenção, comentando vez ou outra sobre algum fato que mais lhe chama a atenção. E pela primeira vez em muitos anos, eu me sinto como uma jovem qualquer, contando para a melhor amiga as aventuras de um romance avassalador.
Fale com o autor