Espionagem de Outubro
7 Noite
ROMANCES MENSAIS
LIVRO X – ESPIONAGEM DE OUTUBRO
CAPÍTULO VI — NOITE
Depois do estranho almoço onde fui obrigado a usar todo o meu autocontrole para interagir com Vandal, quando na verdade eu queria mesmo era torturá-lo de forma lenta e dolorosa, Sara e eu passamos o dia observando os membros da HYDRA. Ophelia, Lex e Arnim se mantiveram entretidos com as atividades do cruzeiro e se mantiveram afastados para não levantar suspeitas.
Como Vandal havia nos informado, ele, Batroc e Von Strucker passaram o dia desaparecidos. Nem mesmo no horário do jantar os dois apareceram no restaurante para degustar os pratos caros e saborosos oferecidos no cruzeiro. Assim, após o jantar, cansados de seguir os outros três membros da HYDRA, buscando alguma informação que pudesse ser útil para a missão, nós voltamos para o nosso glamouroso quarto.
Assim que chegamos, Sara vasculhou cada canto da grandiosa suíte na sua tradição de verificar se nossos disfarces ainda estão seguros. Auxilio na busca, que durou aproximadamente vinte minutos, e vou tomar o meu merecido banho na luxuosa banheira de hidromassagem. Eu posso estar nesse cruzeiro a trabalho, mas não perderia nunca a oportunidade de aproveitar o luxo que meu baixo salário jamais me permitiria pagar.
Enquanto Sara tomava banho, minha mente viajava nos últimos acontecimentos. Para a minha surpresa, Sara é uma mulher completamente diferente do que eu havia construído em minha mente depois de nosso terrível primeiro encontro. Ela é extremamente inteligente e sua capacidade de se adaptar ao ambiente é impressionante. Isso me fazia compreender o motivo dela ser considerada uma das melhores agentes da CIA, mesmo sendo tão jovem.
Não estamos exatamente nos dando bem. Ainda há um certo ressentimento entre nós pelo nosso passado complicado. No entanto, quanto mais tempo passo ao lado da garota de personalidade intensa e uma força física que supera muitos dos homens com quem eu já lutei, mais atraído eu me sinto. Havia algo em mim que desejava descobrir mais sobre a loira de bonitos olhos azuis.
Suspiro e encaro a tela de meu notebook, pensando no que eu estou fazendo da minha vida. Eu preciso focar na missão. É a honra de Mick que está em jogo e eu não tenho tempo para perder pensando em futilidades como quem é o tal tio Clint que Sara tanto cita e o porquê aquele colar que ela nunca desgruda parece ser algo tão importante para ela.
Balanço a cabeça, tentando espantar os pensamentos inúteis e encaro a foto de Ophelia Sarkissian, a membro de quem menos tenho informações no momento. Tudo o que sei de Ophelia é que ela é uma ex-agente da CIA com um histórico assombroso de assassinatos e tortura durante as operações. Ela foi uma das fundadoras do Projeto MKULTRA, um programa ilegal e clandestino de experiências em seres humanos, feito pela CIA nas décadas de oitenta e noventa. As experiências em seres humanos visavam identificar e desenvolver drogas e procedimentos a serem usados em interrogatórios e tortura com o objetivo de debilitar os suspeitos e os forçar a confissões por meio de controle de mente.
Mesmo após a descoberta do programa no início dos anos 2000, a grande maioria das informações mais específica sobre o Projeto MKULTRA continuam classificadas como secreta. Ophelia acabou saindo da CIA e incorporou o quadro da HYDRA. Com a influência da organização, ela nunca respondeu pelos crimes que cometeu e sempre foi um grande mistério para todas as organizações de segurança do mundo.
— Eu estava pensando. Talvez amanhã devêssemos nos aproximar de Ophelia. – Comenta Sara, abrindo a porta do banheiro que era ligado ao quarto. – Ela pareceu notar você no spa. Acho que se soubermos jogar bem, ela pode acabar se interessando por você.
— Eu estava agora mesmo pesquisando sobre... – Paro de falar no momento em que a loira deixa o banheiro. Ela usava um short e uma blusa de seda brancos e estava com o longo cabelo preso em um rabo de cavalo. Sem notar meu olhar sobre si, ela se aproxima da mala e pega o creme de pele, antes de se sentar na cama e me encarar. – Hãn, eu... eu estava pesquisando agora mesmo sobre Ophelia. Alguma ideia de como podemos fazer para nos aproximarmos dela?
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Sara não estava vestindo nada sexy ou extravagante. Na verdade, era nítido que ela não tinha intenção alguma de seduzir, mas naquele momento, eu me sentia completamente hipnotizado com sua beleza. Ao ponto de perder o foco de meus pensamentos por alguns instantes e esquecer até mesmo meu nome.
E então eu a observo passar o creme de fragrância floral suave pelas pernas torneadas com os pensamentos perdidos. Embriago-me pelo aroma e preciso fazer um grande esforço para conseguir desviar o olhar de seu belo corpo. Eu só podia estar ficando louco.
— Eu estava pensando que deveríamos aproveitar o baile de amanhã. Se criarmos uma situação como você acabar esbarrando nela com bebidas ou algo assim, com certeza você terá a atenção dela. Eu vou fingir ficar furiosa. Uma crise de ciúmes. Isso com certeza vai marcar a mente de Ophelia. Depois de amanhã, nós vamos ao cassino e vocês deverão se esbarrar de novo. Finja estar bebendo mais que o normal. Converse com ela. Podemos fingir que estamos brigados e você conta um pouco sobre o seu descontentamento com algum comportamento meu. Fale sobre a sua fortuna. Ophelia já vai ter ouvido falar sobre você pelos outros, então com certeza vai se aproveitar para tentar tirar mais informações. – Responde Sara, terminando de passar seu creme nos braços. Ela então me encara e eu preciso novamente me lembrar de que os olhos dela estavam um pouco mais a cima. – Perdeu alguma coisa, Snart?
— Nada. – Digo, rindo. Sara suspira e vai guardar o creme em sua mala. – Acha que ela vai cair em algo assim?
— Precisamos ser convincentes. Além disso, eu não tenho dúvidas de que ela está querendo investigar você de perto. Estaremos dando apenas uma oportunidade para que isso aconteça. – Explica a loira, pegando o controle para desligar a televisão que eu nem mesmo havia notado que estava ligada. – Nós já nos tornamos alvos da HYDRA, então todos eles vão tentar se aproximar de nós para ter certeza de que estamos aptos a ingressar na organização. Pela maneira como Vandal reagiu, ao seu suposto pai, Werner Baumann, deve ter sido alguém que eles tentaram recrutar, mas não tiveram sucesso. Então você pode ser a oportunidade que eles queriam para obter controle de uma das maiores empresas de fármacos e produtos químicos para agronegócios. Nós temos que aproveitar isso.
Sara puxa o cobertor e mexe em seu celular, que carregava ao lado da cama e suspira, antes de colocá-lo de volta no lugar. Ela começa a afofar um dos travesseiros que estava próximo a ela e isso só me faz ficar ainda mais confuso.
— O que você está fazendo? – Pergunto e ela me encara em dúvida.
— O quê? Eu estou me preparando para dormir. Não está vendo? – Questiona Sara, ajeitando as cobertas.
— Como assim “dormir”? Simples assim? – Eu sabia que deveria estar soando como um idiota, mas eu não conseguia acreditar que Sara estava mesmo determinada a dormir na mesma cama que eu.
Não que eu planejasse fazer alguma coisa com ela, mas se já estava sendo difícil ignorar sua presença quando ela estava agindo como a minha esposa na frente dos outros tripulantes do navio de luxo, dormir com ela tão próxima de mim não era exatamente o jeito mais fácil de fazer minha mente esquecer as loucuras que se passavam por ela com a loira tão próxima de mim.
— Sim? O que mais eu deveria fazer? Eu estou cansada e com sono. Então sim, eu vou apenas dormir. E essa cama é grande o suficiente para caber nós dois e ainda sobrar espaço. – Responde, dando de ombros. Ao notar minha surpresa, ela ri. – O quê? Está com medo que eu te ataque?
— Bom. Não. – Respondo, desconfortável, e Sara ri ainda mais. Por que a risada dela tem que ser tão contagiante? – Eu apenas pensei que quisesse evitar contato.
— Se quiser dormir no sofá, fique à vontade. Eu é que não vou. Esse dia já foi cansativo o suficiente. Não vou abrir mão do conforto dessa cama. – Afirma a mulher com determinação. No entanto, não demora muito para que seus olhos assumissem um brilho perigoso. – Além disso, se você ousar triscar em um fio de cabelo meu sem a minha permissão, eu quebrarei cada pequeno osso do seu corpo, em seguida, cortarei as suas bolas e o seu amiguinho com uma serrinha sem qualquer afiação e anestesia. Depois te colocarei em uma cadeira elétrica, onde aplicarei choques dolorosos em você até que esqueça como se fala. Então pense bem antes de fazer qualquer coisa comigo, porque você sabe que eu posso acabar com você com bastante facilidade.
— Eu jamais me aproveitaria de uma mulher em uma situação de vulnerabilidade. – Respondo, ofendido com os pensamentos de Sara. Ela apenas dá de ombros, sem se importar com a minha fala. – E eu também mereço uma excelente noite de sono.
— Ótimo. Agora apague as luzes e me deixe dormir. Preciso preparar a minha mente para o que iremos enfrentar amanhã. – Resmunga a loira, deitando-se na cama. Ela procura uma posição confortável e suspira, apertando o travesseiro. – Boa noite.
— Boa noite.
Suspiro e peço a qualquer divindade existente que me dê juízo e paciência. Faço o que Sara pede e volto a me deitar ao seu lado. Observo o teto do quarto e o silêncio começa a me incomodar. Eu estava agitado. Viro-me de um lado para o outro, procurando alguma posição que me fizesse dormir, mas tudo parecia inútil. Mesmo cansado, eu não estava com sono.
— Sara? Está dormindo? – Pergunto depois de um tempo, virando-me para a loira. Sara permanecia quieta e de costas para mim.
— O que você quer? Vai dormir. – Resmunga, irritada.
— Eu não consigo. – Confesso e ela bufa.
— E o que você quer que eu faça? Cante uma canção de ninar? – Sara ironiza, aconchegando-se melhor em seu travesseiro.
— Bom, se você....
— Não. Eu não vou cantar para você. Agora feche os olhos, conte carneirinhos mentalmente e durma. – Ordena a loira, jogando um travesseiro em mim.
Suspiro e volto a encarar o teto. Desde a morte de Mick, eu tenho dificuldades para dormir. Os pesadelos com lembranças de sua morte sempre voltam para me atazanar. Mesmo tomando calmantes e inúmeros outros remédios, nada parece surtir efeito. Geralmente, eu tiro apenas alguns cochilos rápidos ou passo inúmeros noites sem pregar os olhos.
— Sara? Quem é tio Clint? – Pergunto e ela rosna, irritada. – Como é sua família? Você ainda mantém contato com eles?
— Mas que merda, Leonard! Vai dormir! Já são quase duas horas da manhã! – Reclama, finalmente olhando para mim.
— Está bem. Desculpa. – Sussurro, sentindo-me como uma criança que acabou de ser repreendida pela mãe.
— Obrigada. – Agradece, irritada.
Ela volta a se virar para o outro lado e o silêncio retorna. Observo a luz da lua invadir as frestas das janelas. No meio do oceano, o brilho das estrelas se torna ainda mais intenso. Passo a lembrar de como Lisa gostava de olhar as estrelas quando criança. E meu coração se aperta ao saber que falhei como irmão mais velho.
— Eu vim de uma família de criminosos. – Sussurro, nostálgico. Eu não sabia se Sara estava dormindo ou não, mas por algum motivo, eu sentia vontade de falar sobre a minha família. – Meu pai se chamava Lewis Snart. Era um policial corrupto, violento e perigoso. Por causa disso, ele acabou sendo preso. Ele passou cinco anos na prisão e quando voltou, ele se torno alguém ainda pior. Lewis entrou para o crime e passou a me usar ajudá-lo a desativar os sistemas de segurança durante os assaltos. Minha mãe era uma grande traficante de drogas, meu avô materno, tios e primos ajudavam como se isso fosse os negócios da família. Lisa e eu crescemos em um mundo assustador. Mas eu não queria ser como eles e também não queria que minha irmã fosse. Fiz tudo o possível para que Lisa ficasse longe das drogas, bebidas e todos os falsos benefícios daquele mundo. Eu queria que ela fosse uma pessoa boa, gentil e honesta. E eu tentei dar o exemplo. Tentei protegê-la, mas acho que falhei. Se eu tivesse sido mais....
— A culpa não foi sua. – Sara me interrompe, virando-se para mim. Seus olhos azuis brilhavam intensos e ela me encarava com seriedade. – A única pessoa inteiramente responsável pelas escolhas que Lisa fez, com certeza essa pessoa é ela mesma. Lisa não é mais uma criança, Leonard. Ela sabia exatamente o que estava fazendo quando concordou em ajudar a HYDRA.
— Mas se eu...
— Não é sua culpa e nunca será. Você também cresceu em uma realidade difícil e nem por isso você concordou em entrar para a HYDRA. Você é um ótimo policial e agente do FBI. Você escolheu ser diferente de sua família e deveria sentir orgulho disso. – Responde Sara, dando um bonito sorriso. – Tio Clint sempre diz que caráter, honestidade e empatia são atributos que não se pode comprar. É algo que nasce e deve vir de cada um de nós.
— Tio Clint parece ser uma pessoa incrível. – Afirmo, vendo Sara apertar o colar em seu pescoço de forma inconsciente. Ela me encara com um sorriso fraco e assente. – Por que decidiu entrar para a CIA? Soube que você entrou para a agência quando tinha apenas treze anos. Como isso foi possível?
Sara suspira e passa a encarar o teto do quarto. Posso ver sua hesitação em falar sobre o seu passado. Eu não sabia o que se passava em sua mente, mas parecia ser algo complicado. Começo a pensar que não terei respostas. Minha mente começa a criar inúmeras teorias sobre a origem de Sara e o que a levou a fazer parte da CIA.
— Ao contrário de você, eu vim de uma família incrível. Uma grande família composta pelo meu pai, minha mãe, muitos tios e primos. Nem todos eram de parentes de sangue, mas compartilhávamos uma ligação única. Eu tinha tudo para ter uma vida perfeita. Meu pai era um homem amoroso e o xerife da cidade de Hawkins. Minha mãe era uma mãe divertida e uma excelente dona de casa. Apesar de não ter irmãos, eu tinha onze primos de consideração que eram tudo para mim e tios incríveis, em especial, o irmão adotivo do meu pai, Clint Barton. Eu até mesmo ganhei uma tia que era como uma mãe para mim, Natasha Romanoff. – Conta Sara e eu não sabia qual informação me surpreendia mais.
— Espera. Você é sobrinha de Clint Barton? O excêntrico bilionário, Clint Barton? E como assim a Natasha é a sua tia? Você era filha do xerife da cidade? – Pergunto, perplexo.
— Apesar disso, eu também tinha algo que me impedia de viver. – Sara ignora completamente as minhas perguntas e me encara. Eu podia ver a dor em seus olhos. – Aos quatro anos de idade, eu descobri que estava em estágio avançado de leucemia. Durante quase nove anos da minha vida, eu passei por tratamentos severos de quimio e radioterapia. Lutei intensamente para sobreviver. No entanto, eu sempre ouvia dos médicos que eu jamais passaria dos catorze anos. Meu corpo não aguentaria toda a perversidade da doença e chegaria um ponto em que os remédios já não seriam capazes de atrasar os avanços da doença.
— Leucemia? – Sussurro, ainda mais surpreso com a história de Sara.
— Meus pais tentaram de tudo para me curar, mas os tratamentos só me faziam ainda pior. Eu tentava ser positiva sobre a minha vida, porque apesar de toda a dor que eu sentia, eu sempre tinha a família Barton para me dar forças e me mostrar que eu não era apenas mais uma criança frágil que poderia morrer a qualquer momento. – Sara continua a história, dando um sorriso nostálgica. – Eles eram maravilhosos. Ao lado dos meus primos e de tio Clint, eu me sentia forte, poderosa. Tio Clint nunca me tratou como se eu fosse um objeto frágil que poderia quebrar com um simples aperto. Ele me ensinou a lutar, a falar vários idiomas, exercitou meu cérebro, me treinou para sair das mais diversas situações como uma autêntica espiã. Ele também me ensinou a lutar Aikido, Boxing, Bojutsu, Kickboxing, Capoeira, Esgrima, Luta livre, Kung Fu, Karatê, Hapkidô, Judô, Jiu-jitsu, Jeet Kune Do, Krav Maga, Muay Thai, Ninjutsu, Savate, Tae Kwon Do e Wing Chun. Além disso, durante o tempo em que eu frequentei os acampamentos de tio Clint, eu aprendi a manejar bastões expansíveis, espadas, facas, adagas, arco e flecha e a usar armas de fogo. Aprendi a dançar, cantar, a arte da furtividade, infiltração e como fugir de lugares impossíveis sem ser notada.
— O quê? Por que Clint ensinou isso a você? – Pergunto, abismado. – Eu sabia que Clint Barton era um homem excêntrico, mas isso é...
— Não ouse falar do meu tio. – O tom cortante de Sara faz meu corpo estremecer. Seus olhos pareciam prestes a me matar apenas com um só olhar. – Você não entende. Ele sabia que um dia, eu e meus primos precisaríamos desse conhecimento. Não somos uma família qualquer.
— Certo. Me... desculpe. – Eu nem mesmo sabia ao certo pelo que eu estava me desculpando, mas sentia que era o certo a fazer.
— O lema da família Barton é “Seja teimoso e inteligente como um Barton”. – Continua Sara, voltando a me encarar com um sorriso gentil. – Não podemos desistir do que nós acreditamos e precisamos usar toda a nossa capacidade intelectual para conseguir o que queremos. E sabe qual era o meu maior sonho quando criança?
— Se curar do câncer? – Chuto e ela dá uma fraca risada anasalada, assentindo.
— Também. Mas eu queria viver. Queria fazer algo que me mostrasse que valia a pena existir. Meu tempo estava se esgotando e eu passava praticamente todos os meus dias no hospital, suportando tratamentos cada vez mais severos e dolorosos. Eu não estava mais suportando. Ao mesmo tempo, eu não queria morrer. Meus únicos momentos felizes eram quando nós íamos nos acampamentos do tio Clint, no entanto, depois de ir embora, eu voltava a minha realidade torturante. Eu ouvia as brigas constantes de meus pais em casa, dificilmente conseguia frequentar as aulas e a única amiga que estava sempre comigo era Nancy, uma das minhas primas da família Barton. Eu sobrevivia a cada dia com uma parte de mim morrendo a cada noite.
"E foi então que em mais um dos acampamentos de tio Clint, eu ouvi tia Tasha conversando com um de seus superiores sobre um programa secreto que a CIA planejava inicia com adolescentes. O programa consistia em treinar crianças e adolescentes para se tornarem agentes especiais. Eles queriam ver o quanto o desempenho de seus agentes poderia melhorar se eles os desenvolvessem desde a infância e sem contato com amigos e famílias. Basicamente, as crianças precisavam ser consideradas mortas pela sociedade e se tornarem fantasmas. E então, eu vi um novo universo se abrir. Era a minha chance de fazer algo que pudesse fazer a minha vida valer a pena.” – Sara sorri com tanta animação que eu me questionava se ela realmente tinha noção do que ela estava falando.
— E a agente Natasha Romanoff simplesmente concordou em colocar você, uma criança que estava enfrentando uma severa leucemia, na CIA? Assim? Sem mais nem menos? – Questiono, surpreso.
— Não. É claro que não. Na época a tia Tasha namorava tio Clint e...
— Natasha Romanoff já namorou com Clint Barton? – Indago, sem acreditar nessa possibilidade. Clint Barton era um dos maiores colaboradores do FBI. Apesar de sua excentricidade, ele é um gênio. Era quase como se ele fosse uma versão mais excêntrica, rica e inteligente de Sherlock Holmes.
— Sim. Agora vai deixar eu continuar a história ou vai me interromper a cada frase dita? – Pergunta a loira, irritada.
— Desculpa. Pode continuar. – Respondo, encolhendo-me.
— Como eu ia dizendo. Assim como meus primos e eu éramos como filhos para tio Clint, tia Tasha nos amava e protegia como uma mãe. Ela jamais concordou com a minha decisão. Mas você precisa entender que os membros da família Barton levam a sério o lema da família. Nós não desistimos, uma vez que colocamos algo em nossa cabeça.
“Então durante aquele mesmo dia, eu criei uma distração no acampamento e fiz dois dos meus primos brigarem. Eles eram impulsivos e já tinham problemas um com o outro. Então não foi tão difícil assim. Enquanto todos estavam distraídos com a briga, eu peguei o celular da tia Tasha e liguei para o chefe dela.
Contei do meu interesse e que estava disposta a fazer o que fosse preciso para participar do novo programa deles. Mesmo que fosse só por alguns meses, eu precisava tentar, mas infelizmente, o chefe dela também recusou o meu desejo. Nick Fury precisava de crianças e adolescentes saudáveis e achava que eu não aguentaria o treinamento naquelas condições. Mas eu não desisti. Estava determinada a me tornar uma agente da CIA e foi exatamente por isso que eu recorri a única pessoa que teria as influências e ferramentas necessárias para isso.
— Clint Barton? – Suponho e ela assente, concordando.
— Ele concordou em me ajudar a entrar no programa da CIA, mas com uma condição. Eu precisava superar dois grandes desafios que seriam as provas necessárias para mostrar ao agente Fury que eu tinha todas as qualidades necessárias para fazer parte da S.H.I.E.L.D. A primeira exigência da CIA para participar do programa é a criança ou o adolescente se tornar um fantasma para o mundo. Isso significava que eu precisava morrer para família e amigos. Então, se eu conseguisse convencer a todos que eu morri, eu já estaria cumprindo com a primeira exigência do programa. A segunda prova era sobreviver a um estudo de tio Clint que poderia me curar da leucemia. Era um experimento perigoso. Não havia nenhuma prova de que eu sobreviveria e nem sabia quais seriam os efeitos colaterais. Se eu falhasse em qualquer um dos desafios, eu teria que desistir de qualquer forma.
“Determinada como eu estava, concordei com as suas condições. Eu faria isso acontecer, não importava o que fosse preciso. Eu não tinha muito tempo de vida. Já estava com treze anos e sabia que meu corpo não estava mais aguentando o avanço da doença. Eu já havia tentado todos os tipos de tratamento e nada tinha resultado. Então a única coisa que me restava era o medicamento de tio Clint.” – Conta Sara e eu a encaro sem saber o que dizer. – Por ser algo perigoso, meu pai jamais concordou com esse tratamento quando tio Clint sugeriu. Ele jamais iria se opor ao irmão mais velho, então ele deixou isso de lado. Por isso, depois de minha suposta morte para a sociedade, tio Clint assumiria a responsabilidade por mim e pelo tratamento.
— Que tratamento foi esse? – Pergunto, preocupado com esse tratamento que havia feito o pai da garota recusar algo que poderia salvar a vida da filha. Sara sorri e me encara com intensidade.
— Mirakuru. — Responde Sara e eu arfo, surpreso
Mirakuru foi um soro criado pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Esse soro era capaz de aprimorar a capacidade humana, mas possuía muitos efeitos colaterais. Poucas pessoas resistiam ao uso dele. E era exatamente por causa do desejo da HYDRA de colocar as mãos nesse soro que o FBI e a CIA fizeram um acordo para trabalhar juntos e impedir que eles criassem super soldados.
— Você usou o Mirakuru? Mas..., mas como? – Pergunto, sentando-me na cama, completamente em choque. – E você conseguiu forjar a própria morte aos treze anos?
— Eu não posso falar sobre o Mirakuru. Não me lembro de muita coisa. Mas, meu corpo aceitou bem o medicamento e me curou por completo da leucemia. Depois disso, eu nunca mais adoeci, eu me tornei resistente a dor e meus ossos são muito mais fortes do que qualquer outro. – Responde Sara, também se sentando. Ela aperta o colar que estava em seu pescoço e sorri. – E bom, não é tão difícil forjar a sua própria morte quando se você tem Clint Barton do seu lado.
“Tio Clint tem dinheiro, poder, conhecimento e contatos. Tudo o que eu precisei foi das ferramentas corretas e de muita confiança. Então, primeiro eu tive que parar de tomar meus medicamentos para ter uma piora em meu quadro clínico. Eu não poderia morrer de uma hora para outra. Depois disso, tio Clint conseguiu “Atropa belladonna”, um veneno que se ingeridas em maior quantidade, induz a um sono semelhante à morte. Mas eu só tinha doze horas antes de acordar. E é aí que entra o poder e contatos de tio Clint. Por todos estarem muito abalados com a minha morte, ele tomou conta de todo o velório e sepultamento. Eu morri ao amanhecer e fui enterrada duas horas antes do efeito do medicamento passar. Vinte minutos depois que eu fui enterrada, seus contatos me desenterraram e voltaram a fechar o meu túmulo.
Depois disso, tio Clint cuidou de toda a parte do tratamento e em um mês, eu estava completamente curada e com o corpo muito mais forte que o de um adulto. Passei por intensos treinamentos na CIA e me tornei o que sou hoje. Uma das melhores agentes da agência”. – Sara termina de contar sua história e puxa minha mão. Seus olhos recaem sobre os meus e há uma intensidade que me atrai e me hipnotiza. – Você precisa prometer que não contará essa história a ninguém, Leonard.
— Eu...
— Me prometa! – Insiste a loira em desespero. – As únicas pessoas que sabem sobre isso são tia Tasha, tio Clint, Nick Fury e dois primos meus. Se mais pessoas descobrem sobre isso, minha vida e a da minha família pode estar em perigo. Para todos os efeitos, eu estou morta.
— Tudo... bem. Eu não vou contar para ninguém. – Respondo, ainda tentando assimilar toda a história de Sara. Ela sorri e suspira, aliviada.
Eu nem mesmo sabia como reagir. Tudo era tão complexo e louco. Eu tinha tantas perguntas para fazer e minha mente parecia prestes a ter um curto-circuito. Ainda assim, por algum motivo, eu me sentia feliz por ela compartilhar sua história comigo e sentia que depois disso, nossa relação nunca mais seria a mesma.
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