ROMANCES MENSAIS

LIVRO X – ESPIONAGEM DE OUTUBRO

CAPÍTULO XXVI – INTRIGAS

A música de orquestra para. O silêncio toma conta do salão grandioso da mansão. As luzes se apagam mais uma vez e retorna a imagem do telão com Clint exibindo uma expressão séria. Sinto o corpo de Sara ficar tenso e sua mão aperta a minha com mais firmeza. Encaro seu rosto e ele estava inexpressivo. Aperto nossas mãos em uma tentativa de acalmá-la, mas ela parecia focada demais no vídeo de Clint para prestar atenção ao que acontecia ao seu redor.

— Olá, amados sobrinhos. Infelizmente, não pude comparecer ao nosso encontro anual. Eu tentei. Fiz o meu melhor para chegar a tempo ao Recomeço, mas no momento estou tentando fugir de um casamento com uma indígena que tem a idade para ser a minha filha. – As palavras de Clint fazem com que os presentes rissem. Ele também ri e dá de ombros. – Bom, não é brincadeira. Eu realmente estou tentando fugir de um casamento. De qualquer forma, antes de tudo, eu quero me desculpar por não ter estado presente em suas vidas esse ano. Tudo tem sido bastante complicado.

“Vocês são grandinhos o suficiente para entender a situação. Então, irei me limitar a dizer que tive que me ausentar para garantir a segurança de vocês e suas famílias. Aaron relatou minhas fraquezas aos meus inimigos e por isso tenho que ter cautela com as minhas ações, que refletem diretamente em todos vocês, especialmente em nossas crianças, que são as mais vulneráveis.” – A explicação vem acompanhada de comentários de ódio destinados a Aaron Moon, um dos sobrinhos de Clint que se envolveu com a HYDRA. Sara também parece furiosa pela traição do primo.

Eu não sabia dizer o que havia levado Aaron a fazer o que fez. No entanto, se Clint é mesmo a única pessoa capaz de atingir a organização criminosa, eles definitivamente não perderiam tempo em tentar acabar com o excêntrico bilionário. A HYDRA não é uma organização qualquer. Ela é extremamente perigosa e numerosa. Então, eu entendia os motivos de Clint de ter se afastado de sua família.

— Mas não se prendam a esse pequeno detalhe. É só uma questão de tempo até que eu esteja de volta em suas vidas para enchê-las de alegrias, confusões e ainda entretê-los com as minhas divertidas histórias de viagem. — Todos parecem se acalmar ao ouvir que Clint voltaria. Novamente, me questiono sobre o poder desse homem sobre seus sobrinhos. A evidente admiração e carinho que todos possuem por ele é surpreendente. – Mesmo estando longe, eu tenho acompanhado cada acontecimento de suas vidas. E mais do que isso, tentei ajudá-los da melhor maneira possível.

“Eu acompanhei o relacionamento divertido de Ben e Mal, as aventuras eletrizantes de Barry e Cait, a doçura de Austin e Ally, o amadurecimento de Oliver e Felicity, a cumplicidade de Thea e Roy, a intensidade de Elena e Damon, as loucuras de Sam e Freddie, o companheirismo de Beth e Daryl e o amor inspirador de Nancy e Jonathan que agora nos trará a pequena Hope muito em breve. Eu estou orgulhoso de todos vocês. A forma como aprenderam a lidar com os problemas e superar os obstáculos pelo amor que sentem um pelo outro foi admirável. Vocês construíram suas famílias com cuidado e dedicação.” – De repente, todos parecem emocionados. Até mesmo Sara parecia se segurar para não chorar.

Talvez por não ter presenciado as lutas de cada um dos casais citados ou saber com detalhes pelo que eles haviam passado, eu não entendesse o significado daquelas palavras de Clint, mas eu conseguia ver que a aprovação do líder da família Barton e seu reconhecimento era algo de extrema importância para todos eles.

— Hoje é um dia muito especial. É a minha data predileta do ano. O dia em que celebro com felicidade e orgulho o momento em que todos vocês retornaram para os seus caminhos, que resolveram dar mais um voto de confiança a mim, a nossa família e a vocês mesmos. É um dia que também relembramos os momentos em que vivemos quando vocês ainda eram crianças e achavam que eu tinha poderes especiais. Felizmente vocês cresceram e confirmaram que eu sou mesmo um mágico. Sim. Não estou vestido dessa maneira à toa.— Brinca Clint arrancando risadas de seus sobrinhos. Acabo me deixando contagiar pelo clima descontraído do ambiente, começando a entender a magia que o homem tinha. Ele tinha uma energia e uma forma única de falar que parecia hipnotizar ao ponto de se sentir próximo e contagiado pela felicidade que ele exala naturalmente. – Bem, apesar de amar essa nossa tradição, esse ano teremos algo diferente. Não apenas pela presença de novos membros que tenho um imenso carinho. Todos vocês que já me conheciam e os que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, quero que saibam que eu estou muito feliz pelo que cada um de vocês têm feito aos meus sobrinhos. Como já devem ter percebido, eles possuem uma habilidade única de se envolverem em confusão. Então conto com a ajuda de vocês para garantir que eles tenham uma vida muito feliz e segura.

Sara então me encara. Posso ver um brilho intenso em seus olhos. Suas mãos pararam de tremer e, por um breve momento, parece que todos os problemas que nos cercavam desaparecem. Sara então abre um lindo sorriso e me abraça com tanta ternura que sinto meu coração bater intenso em meu peito.

— Obrigada por cuidar de mim. – Ela sussurra contra o meu ouvido, fazendo com que eu me sentisse ainda mais encantando por sua doçura. – Eu te amo muito mesmo.

— Eu também te amo muito. – Respondo, beijando sua testa. Ela fecha os olhos e alarga ainda mais o seu sorriso. Nós nos afastamos assim que voltamos a ouvir a voz de Clint. Sara corre para a cortina e encara o salão com expectativas.

— O que eu estou querendo dizer é que hoje é o dia em que eu vou revelar algo que tenho escondido de vocês há dez anos. Não me orgulho disso e sei que irei decepcionar muitos de vocês. Apesar de tudo, eu quero que vocês se lembrem que eu amo vocês com todo o meu coração e que tudo o que eu faço é com o propósito de proteger vocês. Mas não vou retirar a minha responsabilidade. Até mesmo permitirei que me punam da maneira que preferirem. Irei aceitar o castigo de vocês. Mas, antes que vocês me odeiem, peço que por favor assistam essa linda peça teatral que irá explicar os motivos e o maior segredo de minha vida. — As palavras de Clint trazem de volta todo o nervosismo que Sara e eu momentaneamente havíamos esquecido.

Nós nos encaramos com apreensão e nesse momento, Bernard aparece de novo acompanhado de algumas pessoas que eu não fazia ideia de quem eram. Sara também parecia perdida sobre o que estava acontecendo, pois se aproxima mais de mim e exibe um comportamento defensivo.

— Srta. Hopper e sr. Snart, peço que fiquem mais afastados. Esses são os atores selecionados pelo sr. Barton para interpretar a peça e eles precisam de espaço. Quando o momento chegar, andem até o “x” que está no palco. – Pede o mordomo de Clint, deixando-nos ainda mais confusos sobre o que o excêntrico bilionário estava para fazer. Os atores acenam, mas não dizem nada, como se estivessem se preparando para o show.

Sem opções, nós nos afastamos para além das cortinas, enquanto os atores se posicionam sobre o palco. As mãos de Sara voltam a tremer. Eu não sabia bem quando seria o momento em que deveríamos andar até o palco, mas permaneço em silêncio para não deixar a loira ainda mais nervosa. Bernard desaparece. As vozes dos primos de Sara ecoam pelo salão, ansiosos para saber o que o tio escondia de tão sério.

— Então, enquanto narro os acontecimentos, quero chamar meus amigos e talentosos atores da Broadway, Mark Kenny, Roger Spell, Collins Green, Angeline O’Brien e Joanne Mayfield, para interpretar a peça escrita e narrada por mim mesmo. A Última Esperança.

As cortinas se abrem e as luzes iluminam uma mulher com vestes semelhantes à de uma criança com um lenço na cabeça — que supus ser Sara -, e um homem com roupas que mais pareciam a de um africano. As atenções de todos os presentes se voltam para o palco. A mulher no papel de menina começa a brincar com sua boneca, enquanto o homem de roupas africanas a observava com atenção.

— Era uma vez, um homem muito, muito, muito bonito que possuía doze maravilhosos sobrinhos de coração que ele amava muito. Cada uma daquelas crianças tinha algo de especial que o fascinava e o fazia querer protegê-las com a sua própria vida se fosse preciso. Ele presava muito pela segurança, saúde e felicidade daquelas crianças especiais e por isso sempre as submetias a acampamentos divertidos de treinamento.

“Mas de todas as crianças que ele observava, havia uma que sempre uma que lhe causava muita preocupação. A pequena Sara era uma garota risonha que estava sempre brincando com seus primos e vendo o lado positivo da vida. Ela tinha a terrível leucemia aguda infantil e por isso vivia como se não houvesse um amanhã. Desde que tinha apenas quatro anos de idade, Sara sabia que não teria muito tempo de vida. Os médicos e as reações de seu corpo a faziam lembrar constantemente disso.

Para seus primos e pais, Sara já havia aceitado essa situação e lidava bem com o fato que poderia morrer a qualquer momento. No entanto, o que ninguém imaginava é que todas as vezes em que ela ia para os acampamentos de seu tio, a pequena Sara passava as noites chorando em seus braços, implorando para que lhe curassem daquela maldita doença e que a fizesse ficar boa o bastante para brincar para sempre com os primos que ela tanto amava.

O belo homem, também conhecido como tio Clint, não aguentava aquela situação. Ele amava a sobrinha. Via a pequena garotinha como sua própria filha e sabia que poderia curá-la. No entanto, os riscos eram altos. O pai da menina não queria arriscar a vida da filha por um experimento que não tinha nenhuma certeza de que poderia mesmo curar Sara.

Ele aceitou a situação e observou Sara crescer com aquela angústia em seu coração por nove anos. E então, em um dia comum de acampamento, Clint observa sua sobrinha de maneira suspeita. Ele conhecia bem seus sobrinhos e suas peripécias. Clint observou Sara executar um plano divertido onde colocava dois de seus primos para brigar, na tentativa de fazer todos terem suas atenções voltadas para eles, esquecendo completamente da garota.

Sara então correu para dentro de casa, pegou o celular de dentro da bolsa de sua tia Tasha e ligou para o chefe da mulher. E então inúmeras perguntas ficaram no ar. Por que Sara ligaria para o chefe de sua tia Tasha? Por que ela bolou aquele plano mirabolante para fazer a atenção de todos do acampamento se voltarem para a briga que ela ardilosamente arquitetou? O que se passava na mente da forte e doce Sara?

Clint teve as suas respostas ao ouvir a conversa entre Sara e Nick Fury, vice-presidente da CIA. O agente Fury planejava criar uma unidade de comando especial dentro da CIA, onde crianças e adolescentes sem famílias e com habilidades especiais fossem treinados para executar missões secretas de alto grau de importância para o país. Sara queria fazer parte S.H.I.E.L.D. Ela sonhava em ser uma agente da CIA e ajudar as pessoas assim como sua tia.

Obviamente, a ideia foi rejeitada. Sara estava doente e tinha uma família. Como poderia participar de um programa que exigiria tanto de seu frágil corpo? Mas ela era uma Barton e por isso não desistiu. Então tentou convencer a tia de todas as formas a aceitá-la no programa.

Sara dizia sentir que não viveria muito tempo e também não queria morrer sem ter feito nada de significativo em sua vida. Clint observou tudo em segredo. Estava dividido entre fingir que não sabia de nada, interferir para fazer com que ela desistisse da ideia — indo contra todos os seus ensinamentos sobre nunca desistir dos sonhos, ser teimoso o bastante para ignorar os comentários que dizem que você não é capaz -, ou interferir para ajudar a garota a atingir seus objetivos.

À princípio, ele ignorou. Sara não havia solicitado sua ajuda. Ela queria resolver tudo por conta própria, assim como sempre fez. De todos os sobrinhos, ela era a criança que menos pedia ajuda. Na verdade, ela nunca pedia a ajuda de ninguém. Gostava de ser independente e se mostrar forte, ainda que a doença sugasse todas as suas energias.

No entanto, em um dia claro de primavera no ano de 2005, Sara bateu na porta do escritório de Clint e o encarou com súplica. Clint desviou o olhar de seus documentos e soube que o momento que ele tanto aguardara havia chegado. Sara havia dado o seu melhor para tentar entrar na S.H.I.E.L.D, e nada tinha sido o suficiente. Ela então decidiu que seu amado tio Clint era a única pessoa que poderia ajudá-la a atingir seu objetivo.

Clint sabia dos riscos. Estava ciente de todas as condições impostas por Fury, onde o jovem recrutado precisava ser alguém saudável, um fantasma da sociedade e alguém habilidoso. Sara não estava saudável. Pela forma como estava reagindo ao último tratamento, Clint sabia que ela viveria, sendo bem otimista, no máximo mais um ano. Ela já não conseguia mais ficar tanto tempo longe do hospital e estava ficando cada vez mais pálida e esquelética. Ela também não era um fantasma. Tinha uma família incrível que a amava e rezava para que ela se curasse. Mas ela era muito habilidosa. Era a pessoa que possuía as melhores técnicas de luta da família.

Sara pediu a ajuda de Clint e explicou todas as dificuldades e motivos que tinha para querer entrar na unidade de comando especial da CIA. Ela estava determinada. Não havia ninguém que a fizesse mudar de ideia. Então, Clint concordou em ajudar a garotinha com uma condição. Ela precisava superar os dois grandes desafios que a impediam de entrar para o programa da CIA.

A primeira exigência era cumprir com a principal condição da CIA, onde para participar da S.H.I.E.L.D, a criança ou o adolescente se tornar um fantasma para o mundo. Isso significava que no caso de Sara, ela precisava morrer para a família e amigos. Então, se ela conseguisse convencer a todos de sua morte, ela já estaria cumprindo com a primeira exigência do programa.

O segundo desafio era sobreviver ao experimento do Mirakuru, poderia curar a garota de sua odiosa leucemia. Isso mesmo! O Mirakuru era real e Clint tinha certeza de que poderia curar sua sobrinha. Ao fim, Clint lhe disse que se Sara falhasse em qualquer um dos desafios, ela teria que desistir de uma vez por todas do seu sonho de entrar para a S.H.I.E.L.D.

Determinada, Sara concordou com as condições. Ela faria o que fosse preciso para realizar o seu último e único sonho de vida. Apostando em sua última esperança, Sara confiou em seu tio e ele aceitou as consequências de estar fazendo algo que ele sabia que decepcionaria seu irmão mais velho e seus sobrinhos. Ele mentiria e faria o que fosse preciso para salvar a vida de sua sobrinha e a ver feliz. Clint estava disposto a tudo.

Com as ferramentas certas, contato, poder e dinheiro, Clint bolou um plano arriscado que mudaria para sempre a vida de toda a sua família. Sara parou de tomar os remédios do tratamento e apresentou pioras em seu estado clínico. Ela afirmava que não poderia morrer de uma hora para a outra, ainda que seu tio não concordasse com essa parte do plano.

Em seguida, Clint conseguiu “Atropa belladonna”, um veneno que se ingeridas em maior quantidade, induz a um sono semelhante à morte por doze horas. E com todos abalados pela morte precoce de Sara, Clint cuidou de todo o velório e sepultamento da garota. Garantiu que seu caixão tivesse uma dose extra de oxigênio para que ela sobrevivesse ainda mais um dia debaixo da terra, caso acordasse e ainda não fosse retirada do caixão. Ele também garantiu que fosse confortável e combinou com o coveiro que deveria desenterrar a garota vinte minutos depois de seu sepultamento.

Com Sara em segurança, Clint cuidou com fervor do tratamento de sua sobrinha. Surpreendentemente, o corpo da garota aceitou muito bem o medicamento e em um mês, ela estava completamente curada e com o corpo muito mais forte que o de um adulto. Seu sistema imunológico se tornou impecável ao ponto dela nunca mais adoecer. Sara se tornou muito mais resistente a dor e seus ossos adquiriram uma força que os tornavam praticamente inquebráveis.

Sara passou por intensos treinamentos na CIA que a tornaram uma das melhores agentes da S.H.I.E.L.D. Sim! Ela realizou o sonho dela e encontrou alguém por quem seu coração bateria forte por toda a eternidade. Fim!”. – Ao fim da peça, o silêncio se fez presente por todo o salão.

As luzes se apagam e as cortinas se fecham. Os atores fazem sinal para que nos aproximássemos. Hesitante, Sara aperta a minha mão e me guia até o local marcado que Bernard havia indicado. Eu não sabia dizer o que iria acontecer a partir de agora, mas conseguia sentir toda a tensão no ar.

As cortinas voltam a se abrir. As mãos de Sara tremiam e estavam incrivelmente gelada. Eu podia ver o suor descendo pela sua testa. A respiração estava falhando. Os olhos levemente arregalados mostravam que ela estava apavorada. As luzes se acendem sobre nós. Não há para onde fugir. É tarde demais para voltar atrás.

Ergo minha cabeça e encaro o público em choque de frente para nós. Barry e Cait acenam assim como uma loira e outro rapaz que supus ser Sam e Freddie. O restante dos Barton se encontrava em choque. Pareciam não acreditar no que seus olhos viam.

— Com vocês, após dez anos desde sua última aparição diante da família Barton, recebam a agente especial da CIA Sara Lance Hopper e seu namorado, o agente especial do FBI, Leonard Snart. — Anuncia Clint com animação, mas não há reação dos sobrinhos.

As luzes do salão se acendem e é possível ver as faces assustadas de todos. Eles pareciam estar diante de um fantasma. Quer dizer, de certa forma, Sara era de fato um fantasma para as pessoas que estavam presentes naquela festa. Eles a viram ser enterrada. Ainda que Clint tivesse assumido toda a culpa pelo que aconteceu e tivesse usado sua criatividade para criar uma peça com atores da Broadway interpretando de forma brilhante e bastante realista os acontecimentos, eu duvidava que isso fosse amenizar o choque de seus sobrinhos por terem sido enganados.

Clint tenta falar mais alguma coisa, mas a conexão de sua chamada de vídeo se encerra. O silêncio volta a se tornar presente no recinto. Um dos atores aparece com um microfone e entrega a Sara. A garota estava nervosa e demora algum tempo até pega o objeto. Ela respira fundo e me encara por alguns instantes. Sorrio, tentando transmitir algum tipo de apoio, ainda que eu soubesse que aquilo não seria o suficiente.

— Oi pessoal. Quanto tempo. – Começa Sara, falando no microfone. Um ruído muito desagradável provocado pela microfonia ecoa pelo salão em seguida. Novamente a tensão se torna quase papável. – Eu sei que vocês devem estar surpresos e cheios de perguntas para me fazer, mas quero que saibam que eu senti muito a falta de vocês e lamento muito ter demorado tanto tempo para revelar a vocês que eu estava viva. Eu apenas estava... com medo de como vocês iriam me receber. Eu sinto muito mesmo.

Um rapaz dá um passo a frente. Ele tinha um cabelo claro quase raspado e uma barba bem desenhada no rosto. Seus olhos azuis estavam arregalados e ele segurava a mão de um garotinho. Toda a atenção do salão recai sobre ele. O corpo de Sara fica tenso. Não demoro muito tempo para reconhecê-lo como Oliver Queen, o herdeiro do IU Health Methodist Hospital e ex-namorado de Sara.

— Ollie... – Sussurra Sara e isso é isso parece ser o bastante para despertar o rapaz que até agora se mantinha em estado de choque.

— Isso só pode ser brincadeira. – Ironiza Oliver, transtornado. Ele sobe no palco e fica de frente para Sara. – Você está viva?

— Ollie, eu posso...

— Não me chama assim! Você não tem esse direito! Não depois de ter ido embora! – Grita Oliver, furioso. Coloco-me na frente de Sara e o encaro com seriedade. – Saia da frente! Esse assunto não é com você!

— Esse assunto é comigo no momento em que você passa a agredir a minha namorada. – Respondo calmamente. Isso parece enfurecer Oliver ainda mais. Sinto o aperto em minha mão se tornar mais forte.

— Sua namorada? – Oliver repete, rindo amargurado. – Sabia que antes dela forjar a própria morte e me deixar completamente sem chão, eu era o namorado dela? Eu se fosse você, tomaria cuidado. Pode ser que ela decida te abandonar da maneira mais covarde e cruel possível só para voltar dez anos depois fingindo que nada aconteceu.

— Eu não estou fingindo que nada aconteceu, Oliver. – Sara se coloca ao meu lado e encara o rapaz com seriedade. – Eu entendo que esteja furioso, mas...

— Entende? Você por acaso tem noção do quanto eu sofri com a sua morte? De como eu fiquei ao ver o seu corpo supostamente sem vida dentro daquele caixão? Por acaso você sabe o que foi viver dez anos da sua miserável vida se sentindo um lixo por nunca ter cumprido com as promessas que eu te fiz? Eu amava você, Sara! – Exclama Oliver e posso ver lágrimas descendo de seus olhos. E então, uma mulher loira aparece no palco com uma criança no colo.

— Amava ou ainda ama, Oliver? – Ela pergunta, chamando a atenção do homem que imediatamente se vira para trás.

— Felicity... – Oliver parece se acalmar ao encarar a esposa e o filho, que parecia bastante assustado com os gritos do pai. De repente, o Queen se encontrava perdido. – Do que você está falando?

— Por que ao invés de atacar Sara, você não escuta o que ela tem para dizer? – Indaga a mulher, aproximando-se mais. Seus olhos verdes demonstravam mágoa e decepção. Oliver também parece ter notado também os sentimentos da esposa, pois se encolhe momentaneamente, mas não demora muito a reassumir a postura furiosa.

— O que ela tem para dizer? Que os sentimentos dela por mim não significavam nada? Que eu passei dez anos sofrendo à toa por alguém que não estava nenhum pouco preocupada comigo? Com o que nós tínhamos? – As palavras de Oliver ecoam de forma ferina e Felicity solta um suspiro incrédulo.

— Isso não é verdade! – Exclama Sara, irritada com as acusações de Oliver.

— Cala a boca! – Grita Oliver, transtornado.

— Não fale assim com ela! – Defendo Sara, sentindo cada músculo de meu corpo se tencionar, enquanto avanço para próximo de Oliver.

— Encoste em um fio de cabelo dele e sairá daqui sem seus membros do corpo. – Ameaça um segundo homem, subindo no palco.

— Quero ver você tentar. – Respondo, irritado com a situação.

— Parem já com isso! – Uma mulher de longos cabelos castanhos ondulados aparece no palco no momento em que o homem tenta avançar para cima de mim. Ela se coloca na frente dele e parece servir como um freio imediato para o rapaz. – Já chega, Damon! Pare também, Oliver. Vamos conversar de maneira civilizada. Vocês estão assustando o Tony.

— Não briguem! – Pede a criancinha no colo da mulher loira, com as mãos sobre os ouvidos.

— Como você tem coragem de mentir para nós e voltar apenas dez anos depois? – Uma garota de cabelos curtos e olhos azuis se aproxima do palco. Seu vestido destacava a pequena barriga, que parecia estar em seu quinto ou sexto mês de gravidez, e isso foi o bastante para eu saber que aquela era Nancy Wheeler, melhor amiga de Sara. A mulher chorava intensamente e demonstrava tanta mágoa que parecia destruir Sara por completo.

— Nana... – Sussurra Sara e posso ver as lágrimas também escorrerem pelos seus olhos. – Eu sinto muito. Eu...

— Desculpas não são o bastante para resolver essa situação, Sara. Você tem noção do que você fez? Do que suas ações causaram a nossa família? – Questiona Nancy com uma frieza que doía até mesmo em mim.

— Não fale como se Sara tivesse sido a única culpada pelo que aconteceu em nossa família, Nancy. – Retruca a menina que supus ser Sam Puckett, também subindo no palco, acompanhada do rapaz baixo de cabelos e olhos castanhos, de Barry e de Cait. – Isso não é justo!

— Não se meta nisso, Sam! – Retruca Nancy, irritada. – Você era apenas uma criança quando tudo aconteceu.

— Todos nós éramos, Nancy. Sam tem razão. Sara não foi a única culpada pelo que aconteceu a nossa família. Todos éramos jovens imaturos com sentimentos aflorados e uma profunda tristeza pela morte precoce dela. Mas, ouçam o que Felicity disse. Ao invés de estarmos atacando-a como se ela tivesse cometido um crime hediondo, deixem que ela explique os motivos dela ter feito o que fez. – Pede Barry, mostrando seu apoio a Sara.

— Obrigada. – Sara sussurra, limpando as lágrimas que desciam pelo seu bonito rosto.

— Então você sabia que ela estava viva? – Questiona Oliver, incrédulo. Barry hesita e isso faz com que o Queen ficasse ainda mais transtornado. – Como você pôde esconder isso de nós?

— Não era um segredo nosso, Oliver. Era algo que Sara precisava fazer por conta própria. Não tínhamos o direito de revelar algo assim. – Sam defende o primo e isso causa ainda mais comoção.

— Você também sabia, Sam? – Damon passa a mão pelo rosto, tentando controlar as emoções que pareciam prestes a explodir.

— Sim. Assim como Barry, eu sabia que Sara estava viva. Não faz muito tempo que descobri, mas eu sabia. – Responde Sam com determinação.

— Você contou para Sam e Barry que estava viva e não teve a mínima consideração de me contar isso? – Questiona Nancy, magoada com as ações da amiga.

— Nana, eu não podia contar. Era perigoso demais. – Afirma Sara, desesperada. Ela se aproxima de Nancy, tentando pegar em seus ombros, mas a gestante a empurra, rejeitando sua aproximação.

— Perigoso demais? Ah, conta outra, por favor. Quem você pensa que nós somos, Sara? – Indaga Oliver, furioso. — Se queria ir embora e nos abandonar, era só ter dito. Não precisava desse teatro todo.

— Já chega, Oliver! – Exige Felicity, aproximando-se do marido com os olhos tão arregalados e vermelhos que ela parecia a ponto de entrar em erupção. – Por que está agindo como uma criança mimada? Desde quando eu estou casada com um moleque que não sabe conversar e resolver os problemas como um adulto que você deveria ser?

— Moleque? – Repete Oliver, surpreso com a acusação de Felicity.

— É! Moleque! – Acusa Felicity, apertando mais o filho contra si. – É compreensível que estejam chateados com Sara, mas isso está passando do limite. Vocês não têm mais treze, catorze anos de idade.

— Você não entende! – Responde Oliver, incomodado.

— Eu não entendo o quê? Que você está com o orgulho ferido e não consegue ver o quão maravilhoso é o fato de Sara ter se curado da leucemia e estar de volta? – Questiona Felicity, parecendo decepcionada com o comportamento do marido. Ela para diante de Oliver e o encara com seriedade. – Você por acaso ainda ama a Sara, Oliver?

— O quê? – Sussurra o rapaz, surpreso com a pergunta feita pela mulher.

— Responde! Você ainda ama a Sara? Depois que a viu, por acaso seus sentimentos de infância retornaram? É isso? – Insiste Felicity e o clima se torna ainda mais pesado.

— É claro que não. Você ficou louca? Eu amo você! – Declara Oliver e Felicity não parece acreditar em suas palavras. – Eu apenas não posso suportar o fato de ter sido enganado tantos anos por ela!

— Quer saber, Oliver, eu vou embora. – Avisa Felicity, ajeitando o filho em seu colo e dando as costas para o marido.

— O quê? Felicity! Volta aqui!

E se esquecendo completamente do que acontecia anteriormente, Oliver corre atrás da esposa, que continua a marchar furiosa pelo salão para a saída da mansão de Clint. O silêncio assume o lugar novamente. O ambiente fica pesado e as pessoas pareciam completamente sem reação. Sara me encara amedrontada e eu não sabia nem mesmo o que dizer ou fazer para melhorar a situação. A única certeza que eu tinha era que as intrigas estavam apenas começando.