Espionagem de Outubro
16 Consequências
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO X – ESPIONAGEM DE OUTUBRO
CAPÍTULO XV – CONSEQUÊNCIAS
O sol dava seus primeiros sinais de início do dia quando eu acordo com Leonard dormindo, enquanto aconchegava meu corpo ao seu. Sorrio ao observar seu bonito rosto e lembrar da noite passada. Tudo havia sido tão mágico e intenso que eu não conseguia acreditar que tudo não tinha sido apenas um sonho.
Suspiro e me acomodo melhor sobre seu peito desnudo. Velo seu sono, assistindo-o ressonar baixinho e algumas vezes dar um pequeno sorriso pelo sonho que estava tendo. Eu me sentia calma e relaxada como há muito tempo não me sentia. Era inacreditável como Leonard conseguia me fazer experimentar tantas emoções intensas, fossem elas positivas ou negativas. O fato era que a noite havia sido inesquecível.
Eu não conseguia controlar o sorriso bobo em meus lábios ao lembrar de sua declaração no palco durante o jogo de casais do luau. E como se aquelas palavras já não fossem o bastante para fazer meu coração saltar eufórico em meu peito, entregar-me de corpo e alma a Leonard havia sido o bastante para que eu saber que não conseguiria simplesmente me livrar desse sentimento que cresceu de forma teimosa e tem se intensificado a cada dia que passo ao seu lado.
Mas eu sabia que nem tudo era um mar de flores. Por mais forte e intenso que seja o amor que sentimos um pelo outro, Leonard e eu ainda precisamos enfrentar desafios que estão muito além de nosso controle, como o fato de sermos de agências diferentes e termos vidas tão inconstantes. Não sabemos quando podemos morrer ou quanto tempo e o que as missões em que somos enviados irão exigir de nós, principalmente eu, que passo mais tempo viajando disfarçada em alguma operação sigilosa do que em nossa cidade natal.
Além de que em nossa profissão, relacionamentos ou qualquer tipo de vínculo emocional pode significar vulnerabilidade ao agente. Sendo um membro da S.H.I.E.L.D, a unidade de comando especial da CIA, eu tenho que entrar de cabeça nas missões com a única certeza de que aquela pode ser a minha última missão e que nenhum chantagem a minha família poderá me parar ou impedir que eu haja pelo bem da minha nação.
Leonard significa tudo aquilo que eu secretamente sempre desejei ter e que havia tentado convencer de que jamais teria. Ele é o ombro amigo e o porto seguro que sempre estará pronto para me irritar apenas para me fazer esquecer do voo de decolagem, para me falar palavras encorajadoras e me incentivar a voltar para minha família.
No entanto, preciso ser realista e aceitar que se eu me entregar completamente a esse sentimento avassalador que me consome desde a primeira vez que eu o vi, haverá um momento em que eu serei obrigada a escolher entre minha carreira e a vida que posso ter ao lado de Leonard. Porque essas são as consequências de ter escolhido me tornar uma agente do comando especial da CIA.
Novamente deixo um suspiro escapar de meus lábios e observo o sol surgir no horizonte pela janela do quarto. A vista do nascer do sol, iluminando o oceano era hipnotizante. Junto o ressoar de Leonard, observo a paisagem sentindo meus problemas desaparecerem por um momento. Como se todas as preocupações que eu carregava em meu coração evaporassem.
Não sei quanto tempo permaneço naquele encanto acolhedor, mas desperto-me de meus devaneios ao sentir as pontas dos dedos de Leonard deslizarem suavemente pelas minhas costas e retornarem ao meu ombro, fazendo meu corpo estremecer diante do choque quente de sua mão a minha pele desnuda.
— Bom dia. – Sua voz rouca ecoa rente ao meu ouvido e me faz fechar os olhos e suspirar, sentindo meu peito se aquecer pela paz que aquele simples gesto me proporcionava.
— Bom dia. – Sussurro de volta, erguendo a cabeça para encarar seu rosto. Ele abre um pequeno sorriso e seus olhos se encontram com os meus. Ele me aperta mais contra si e deixa um beijo em minha testa. – Dormiu bem?
— Como um anjinho. — Ele ainda tinha aquela expressão meio sonolenta e os olhos estavam inchados, mas ainda parecia um dos homens mais bonitos que eu já conheci. — E você? – Questiona, observando-me com interesse.
— Como há muito tempo não dormia. – Confesso, virando meu corpo para ficar completamente em cima do dele. Ele abraça minha cintura e me encara com curiosidade, antes de desviar o olhar para encarar o relógio digital sobre o rack ao lado da cama.
— O que se passa nessa sua cabecinha loira que a fez acordar tão cedo? – Indaga, voltando a me encarar.
Pondero por alguns instantes o que eu deveria dizer. Noite passada eu havia evitado a conversa sobre o que iremos fazer. Não que fazer amor com Leonard tenha sido apenas uma deliciosa distração para mim, porque havia sido especial o bastante para ser uma das melhores experiências para a minha vida. No entanto, eu também não estava pronta para conversar com Leonard sobre as consequências de nos envolvermos.
— Apenas pensando nas consequências de minhas escolhas. Tudo o que tenho feito desde que decidi abandonar a minha família e entrar na CIA até a forma como tenho vivido desde então. – Respondo, pensativa. – E considerando o que teremos que enfrentar no futuro.
Leonard parece considerar minha resposta e passa a acariciar meu cabelo, enquanto seus olhos se encontram distantes. O silêncio se faz presente entre nós e não há muito o que dizer. Eu odiava ser a estraga prazeres, mas sabia que precisava ser pé no chão. Ainda havia o fato de que estamos em meio a uma missão perigosa que exigiria nossa total atenção.
— Nós vamos ficar bem. – Afirma Leonard e ele consegue ver que eu não havia acreditado muito em suas palavras. – Eu sei que vamos. Apenas não desista de nós.
— Eu não quero desistir. – Respondo e um suspiro escapa de meus lábios. – Mas não sei o que pode acontecer. Odeio admitir isso, mas eu estou com medo de não conseguirmos lidar com as interferências de nossas agências, com a distância que teremos que enfrentar quando estivermos em missão e com a possibilidade de termos que escolher entre nosso trabalho e nossa vida pessoal para não nos tornarmos o ponto fraco do outro.
— Você está pensando demais nisso. – Leonard, deixa um beijo em minha testa e dá um sorriso confiante. – Por que está tão insegura assim? Você é Sara Lance Hopper. A mulher que sobreviveu a um câncer severo e aos efeitos colaterais do Mirakuru. Você é capaz de derrubar pessoas do dobro do seu tamanho e peso. Eu também não sou um ser indefeso, Sara. Não cheguei tão longe no FBI por sorte. Eu trabalhei, treinei e me tornei alguém forte o bastante para conseguir me defender e lidar com qualquer obstáculo que possa surgir. Eu apenas preciso ter certeza de que está disposta a lutar por nós se for preciso. Que você me ama o suficiente para não deixar que outras pessoas possam interferir no que acontece entre nós. Que confia e acredita no amor que eu sinto por você.
E lá estava eu mais uma vez sem palavras, sentindo meu coração prestes a explodir, completamente apaixonada por Leonard. De forma que eu nunca havia experimentado antes, ele tinha o poder de saber quais palavras usar para me dar a coragem que eu precisava. E ele tinha razão. Eu já passei por situações piores. Não havia motivos para hesitação. Eu tinha que confiar em suas palavras e em nossos sentimentos.
— Eu confio e amo você o bastante para lutar por nós. – Afirmo com sinceridade.
Ele abre um lindo sorriso e puxa meu queixo para um beijo que faz eu perder as forças de meu corpo. Suspiro, sentindo suas mãos deslizarem pelas minhas costas até chegar as minhas nádegas, onde as aperta com firmeza, fazendo-me soltar um gemido prazeroso. Quando nossos lábios se separam em busca de ar, Leonard deixa beijos em meu ombro e pescoço.
— E você tem razão. – Respondo e ele ri, afastando-se para me encarar.
— É claro que eu tenho. Eu sempre tenho razão. – Brinca e eu reviro os olhos, dando um tapa em seu peito. Ele ri ainda mais e se encolhe pela dor.
— De qualquer forma, nós temos que...
Antes que eu continuasse a falar, ouço o meu celular e o de Leonard vibrarem ao mesmo tempo, anunciando novas mensagens. Nós nos encaramos e eu me viro para pegar o aparelho que estava sobre o rack ao lado da cama, assim como Leonard estende o braço para alcançar o dele.
— Mensagem de Ophelia. Como será que ela conseguiu o meu número? – Leonard me encara com preocupação.
— O que ela disse? – Pergunto, desconfortável por saber que Ophelia havia descoberto o número de Leonard. Ele se senta e suspira, antes de voltar a encarar a tela do celular e me entregar o aparelho. – Olá, Luke. Eu estou enviando essa mensagem para te informar que nossa reunião foi adiantada e ocorrerá à meia-noite no quarto duzentos e dez. Meu colega, dr. Arnim Zola irá apresentar algo realmente explosivo. Espero você lá. PS: não se esqueça que você deve manter sigilo de sua esposa.
— O dr. Arnim Zola irá apresentar algo explosivo. – Leonard repete a mensagem e suspira, incomodado. – Eles irão aprontar alguma coisa nessa reunião.
— Merda. Acha que eles desconfiam de nós? – Questiono, pegando meu celular para saber quem havia me enviado mensagem. Suspiro ao ver que o remetente de minha mensagem havia sido Lex Luthor com um conteúdo idêntico ao enviado por Ophelia a Leonard.
— Pela sua reação, eu chutaria que quem enviou sua mensagem foi Lex Luthor. – Assinto e Leonard suspira. – Bom, nessa situação, eu só consigo pensar em duas possibilidades. Ou eles desconfiam de nós e planejam fazer algo contra nós ou essa reunião será nosso ingresso na HYDRA e eles estão nos testando para saber se seremos capazes de nos enganar para chegar primeiro ao quarto sem que o outro descubra.
— As duas possibilidades me deixam apreensiva. E se eles usaram o nome de Zola, isso significa que podemos ter uma arma biológica potente para ser usada em breve. – Afirmo e Leonard assente, parecendo tão inquieto quanto eu. – Nós precisamos fazer alguma coisa.
— Eu tenho uma ideia. – Avisa Leonard e eu o encaro com curiosidade. – Mas pode ser um pouco arriscado. Dependendo de como vamos nos sair, pode colocar tudo a perder.
— O que planeja fazer? – Pergunto com preocupação.
— Enquanto você distrai Zola, eu invado o quarto dele e investigo o que eles estão aprontando. Ao menos, devo conseguir alguma coisa que nos prepare para o que vamos enfrentar nessa reunião. – Sugere Leonard, mas não consigo me animar com sua ideia. Ele parece notar e suspira, pegando em minhas mãos. – Essa é a nossa única chance.
— Por que você não o distrai e eu investigo? Essa é a minha especialidade. Eu fui treinada para ser capaz de entrar e sair de qualquer situação complicada. Se trabalharmos com a possibilidade de que eles estão desconfiando de nós, eles com certeza estarão com um nível de segurança elevado em torno de seu novo experimento. Talvez eu seja a melhor opção para realizar essa invasão. – Respondo, mas Leonard balança a cabeça em negação. Suspiro, inconformada. – Leonard...
— Você atraiu a atenção de Arnim. Nós vimos como ele ficou encantado por você no baile à fantasia e como desde então ele tem feito de tudo para chamar a sua atenção. A sua habilidade de comunicação irá o prender por mais tempo do que eu. Talvez você consiga até mesmo arrancar alguma informação dele. E eu também recebi treinamento do FBI e tenho experiência em invasão e investigação furtiva. Além disso, seria muito pior se os dois fossem pegos pela HYDRA. Confie em mim. Eu vou me sair bem. Eu prometo. – Insiste Leonard, encarando-me com intensidade. Seus olhos azuis exibiam aquele brilho que me impedia de negar qualquer coisa a ele. Suspiro e acabo dando meu braço a torcer.
— Tudo bem. Mas me prometa que se notar algo perigoso demais para lidar sozinho, você vai sair imediatamente de lá. Farei o meu melhor para manter Arnim ocupado, mas fique com o celular por perto. Eu vou te avisar caso ele retorne para o quarto. Também precisa me avisar quando for entrar e quando tiver saído do quarto para que eu ter certeza de que você está bem. E não tente bancar o homem de aço. Eu quero que me prometa que não vai se arriscar sem necessidade.
— Eu prometo que tomarei cuidado. Não se preocupe. Nada irá acontecer comigo. Será apenas uma investigação rápida. Eu entro e saio de forma furtiva, sem que ninguém note a minha presença, assim como fiz inúmeras vezes e em no máximo dez minutos desapareço de lá como se nada tivesse acontecido. Será simples e rápido. – Garante Leonard, mas isso não é o bastante para acalmar meu coração, que me dizia que aquele plano estava longe de ser simples e rápido, uma vez que estamos lidando sozinhos com a seis membros perigosos da HYDRA.
[...]
Assim que Leonard e eu terminamos de nos arrumar e seguimos para o restaurante do navio para o café da manhã. Para a minha surpresa, Ophelia, Lex, Von Strucker, Batroc, Vandal e Arnim estavam no restaurante, comendo com outras pessoas e pareciam completamente envolvidos em suas conversas.
Apesar de Leonard manter a expressão neutra, enquanto tomava seu café da manhã, eu sabia que ele estava tenso e trocava olhares nervosos comigo. Eu não estava muito diferente. As lembranças dos sorrisos de Vandal continuavam a vir em minha mente e meus instintos me alertavam que havia algo de errado. Aquela tranquilidade presente entre todos os membros da HYDRA me deixava ainda inquieta.
— Você está bem? – Pergunta Leonard, enquanto eu bebia meu café encarando Ophelia discretamente, que lançava olhares maliciosos para Leonard, que por estar tenso demais com a missão que teria em alguns instantes, nem mesmo notava.
Ainda que eu tivesse inúmeros motivos para odiar Vandal, de todos os membros da HYDRA, Ophelia conseguia despertar algo realmente incomodo em mim. Ao contrário do que acontecia quando eu estava com os rapazes, onde eu sempre conseguia disfarçar meu incomodo e controlar a situação, eu sentia como se ela estivesse sempre prestes a dar o bote e mostrar na prática o motivo de seu codinome na CIA ser Víbora, sempre manipulando o ambiente a sua volta.
— Sim. Apenas ansiosa. – Respondo, colocando minha xícara no pires a minha frente. Leonard coloca a mão sobre a minha e sorri compreensivo. – Está quase na hora de ir. Você está pronto?
— Bom, confesso que estou um pouco apreensivo, mas estou pronto. Será rápido. Eu prometo. – Garante Leonard, deixando um beijo em minha mão em seguida. – E você também tome muito cuidado. Não sabemos o que eles são capazes de fazer.
— Eu vou ficar bem. – Respondo, dando de ombros. – Você está com o seu celular?
— Sim. Está em meu bolso. – Leonard abre o blazer que usava e é possível ver o celular guardado em seu bolso interno. Ele olha para a direção em que o dr. Arnim Zola estava e suspira. – Parece que chegou a hora de colocar nosso plano em ação.
Suspiro e viro-me discretamente para trás, vendo Arnim se levantar da mesa, finalizando seu café da manhã. Respiro fundo, assumindo meu papel como Stacy Baumann, e me levanto. Nesse momento, noto o olhar de Ophelia sobre nós. Sorrio e faço questão de beijar Leonard com intensidade, apenas para mostrar para ela que não permitiria que ex-agente da CIA colocasse suas mãos nele.
— O quê...? – Balbucia Leonard, confuso pelo beijo repentino. Rio e acaricio seu rosto. Posso ver um sorriso desafiador vindo de Ophelia, mas decido ignorar. Não era hora de comprar briga com a maldita traidora da CIA.
— Boa sorte. – Sussurro e caminho calmamente em direção a saída do restaurante, assim como Arnim fazia, que ao contrário dos outros dias onde era acompanhado por Von Strucker e Vandal, estava completamente sozinho e focado em seu celular.
Para a minha surpresa, ao invés de se dirigir ao seu quarto, como era a maior preocupação de Leonard, Arnim pega o caminho para a área onde ocorria uma espécie de show, onde a tripulação realizava o que parecia ser fitdance. E é exatamente pela enorme quantidade de gente agitada, dançando uma coreografia animada, que eu acabo me distanciando do geneticista e por muito pouco não o perco de vista.
Nós andamos por um longo tempo até que de repente eu me deparo com uma apresentação completamente aleatória de um robô dançando junto ao homem que o controlava por um controle no meio do caminho. Frustrando minha tentativa de me aproximar de Arnim, um número razoavelmente grande de pessoas se junta ao redor da apresentação, bloqueando o percurso que me levava até Zola.
Com certa dificuldade, eu consigo desviar as pessoas a tempo de ver Arnim entrar no spa do navio, que que tinha letras de led indicando seu nome. Ainda preciso lidar com mais algumas pessoas que tumultuavam os corredores do navio e me aproximo do estabelecimento que o homem havia entrado minutos antes. Estranho o fato dele ter pego o caminho mais distante para chegar ao local, mas decido cometer o erro de ignorar os avisos de minha intuição de que algo de muito errado estava para acontecer.
— Olá. Seja bem-vinda ao Serene Spa & Wellness. Em que posso ajudar a senhora? – Questiona a recepcionista assim que entro no spa.
Vejo Arnim acompanhar uma funcionária do spa ao longe pelo corredor do lugar. Suspiro aliviada por saber que eu não havia perdido o engenheiro genético de vista. Sorrio para a mulher de vestido preto social, cabelos castanhos presos em um coque alto e os olhos cor de âmbar, que corresponde ao gesto, confusa com o meu comportamento.
— Olá. Gostaria de aproveitar o dia para relaxar no spa. Eu me chamo Stacy Baumann e estou hospedada na suíte Regent. – Respondo e a funcionária do spa sorri de forma educada.
— É claro, sra. Baumann. Um instante, por favor. – Pede a recepcionista, que começa a digitar freneticamente em seu computador. Observo o ambiente, atenta a qualquer movimento suspeito. Nesse momento, uma mulher de cabelos pretos presos também em um coque e o uniforme do spa, olhos azuis, bochechas avantajadas e sorriso educado surge. – Lyla será a responsável por acompanhar a senhora pelo seu dia de relaxamento.
— Certo. Obrigada. – Agradeço, dando um sorriso simpático.
— Seja bem-vinda, sra. Baumann. Poderia me acompanhar, por favor? – Pede Lyla e eu assinto, seguindo-a para a parte interna do spa.
A mulher me guia para um vestiário, onde troco minhas roupas por um roupão e uma calcinha descartável. Guardo meus pertences em um armário de chave no lugar e faço questão de permanecer com meu celular em mãos para o caso de precisar conversar com Leonard. Devidamente arrumada para o meu dia de relaxamento, sigo Lyla por mais um corredor com uma decoração moderna e aconchegante.
Lyla para de andar assim que chegamos a um corredor onde havia várias portas que imaginei serem salas de atendimento. Ela abre a terceira porta e faz sinal para que eu entrasse. Assinto e entro, vendo duas macas confortáveis no meio dela, uma estante com diversas embalagens do que imaginei ser óleos corporais e uma enorme janela de vidro que dava uma visão privilegiada do oceano.
— Nós iremos começar com uma massagem relaxante em suas costas, sra. Baumann. Por favor, deixe-me colocar o seu roupão no cabide e se deite de barriga para baixo. A massagista virá em breve para te atender. – Lyla sorri, apontando para o cabideiro onde havia um cabide para colocar o roupão. – Recomendo guardar o celular no bolso do roupão para que consiga usufruir melhor da experiência.
— Claro. – Concordo, forçando um sorriso. Coloco o celular no bolso do roupão e me viro de costas para Lyla, permitindo que ela retirasse o roupão que eu usava. A mulher o coloca no cabideiro e aponta para as macas. – Em qual delas eu devo me deitar?
— Na que se sentir mais confortável. – Responde Lyla, dando um sorriso educado.
Contrariada, deito-me na primeira maca, encaixando meu rosto no apoio de cabeça que tinha um buraco no meio. Se Lyla permanecesse no quarto comigo, eu não conseguiria ir atrás do cientista e isso estava começando a me deixar apavorada.
— Lyla, você se importaria de pegar um pouco de água com gás para mim? Eu não estou me sentindo muito bem e acho que foi alguma coisa que eu comi. – Peço, levantando o rosto, enquanto dou sorriso forçado.
— Claro. – Concorda Lyla, indo em direção a porta do quarto de massagem. – Um instante, por favor.
Assim que a mulher sai e fecha a porta do quarto, eu imediatamente me levanto e vou atrás de meu celular para informar a Leonard que esperasse um pouco antes de entrar no quarto de Arnim. Eu não sabia onde ele estava e até o encontrar, eu não poderia permitir que Leonard se arriscasse. No entanto, surpreendo-me ao não encontrar o aparelho em nenhum dos dois bolsos do meu roupão.
— Procurando por isso? – A voz de Ophelia na entrada do quarto me surpreende. Viro-me em sua direção e a vejo segurando meu celular com um sorriso convencido em seus lábios. – Você quer que eu ligue para o seu parceiro do FBI, com quem você está ingenuamente se envolvendo, para informar que você vai se atrasar para o almoço?
Meu coração gela e o sorriso de Ophelia se amplia ainda mais. A mulher usava um macacão verde, munhequeiras e botas pretas. Seus longos cabelos ondulados caiam graciosamente como cascatas pelas suas costas. Por mais que eu odiasse admitir, mesmo com seus quase cinquenta anos, Ophelia era uma das mulheres mais bonitas que eu já vi. Ela exalava sensualidade e poder de forma quase intimidante.
Observo-a entrar no quarto e fechar a porta. Noto o coldre em sua perna, exibindo o cabo de sua arma. Coloco-me em posição de defesa, sentindo a adrenalina percorrer minhas veias. Eu sabia que em algum momento eu enfrentaria Ophelia, mas jamais imaginei que seria tão cedo.
— Sabe, eu estou curiosa. Como você, Sara Lance, uma das melhores agentes da S.H.I.E.L.D, a melhor unidade especial da CIA, pôde se envolver com um agente do FBI? Tudo bem. Eu admito que ele é gostoso e aposto que ele é capaz de levar uma mulher a loucura na cama, inclusive, espero ter essa oportunidade em breve, mas o que aconteceu com o nosso código de conduta? Você sabe. FBI e CIA são inimigos naturais. Como pôde cometer esse terrível crime de cultura das agências? Por acaso vocês são uma versão mais moderna de Romeu e Julieta? – Provoca Ophelia e travo meus dentes para não cair em suas provocações. Ela se aproxima de mim e joga meu celular no chão, pisando-o em seguida, até que ele ficasse completamente em pedaços. – Parece que essa nova geração da CIA se tornou fraca e bastante incompetente.
E então, como era de se esperar, Ophelia avança contra mim com agilidade e tenta me socar. Desvio de seu ataque e por muito pouco acabo não caindo na maca. Ela leva o punho em minha direção outra vez, mas novamente consigo desviar. Ophelia tenta me acertar mais uma vez e eu puxo uma bandeja com alguns objetos para massagem para me proteger.
A mulher recua e se abaixa para me dar uma rasteira. Por muito pouco eu consigo escapar de seu ataque, mas me desequilibro com a maca que estava atrás de mim. Ophelia aproveita os poucos segundos em que minha guarda estava baixa para chutar meu estômago. Com sua força esmagadora, sou jogada para longe, atingindo a segunda maca, que imediatamente vai ao chão.
Ainda sobre a maca, arfo em busca de ar e recebo um chute em meu rosto. Ophelia me puxa pelo pescoço e me ergue bruscamente, fechando minhas vias respiratória. Levo minhas mãos ao seu braço para tentar fazê-la me soltar e isso faz intensificar o aperto em meu pescoço. Impulsiono meu corpo e chuto sua perna com toda a minha força. Ela afrouxa o aperto e eu me aproveito para empurrar seu corpo e me soltar.
Já no chão, corro contra Ophelia e a derrubo contra a maca, que cai e atinge um carrinho onde havia diversas pedras quentes para massagem. Sem esperar que ela reagisse, ignoro a dor de queimar minha mão por estar pegando uma pedra quente e bato com força na cabeça de Ophelia, que solta um grunhido gutural de dor. Bato mais duas vezes, mas na quarta vez, ela consegue apertar meu pulso e usa uma bandeja para bater em minha cabeça, deixando-me momentaneamente desorientada.
Ophelia se levanta com dificuldade e tenta acertar a bandeja em minha cabeça mais uma vez, no entanto, uso meu braço para me proteger. Com a mulher pressionando a bandeja contra mim, consigo me levantar e a empurrar. Ela solta uma espécie de rugido e avança contra mim, usando o seu ombro para me jogar contra a estante de óleos que havia no quarto.
Abaixo a cabeça ao sentir vários vidros de óleo cair contra meu corpo. Ao tentar me recompor, não demoro a sentir mais um chute contra minha barriga, tirando-me o ar por completo. Encolho-me de dor e vou ao chão. Ouço o riso presunçoso de Ophelia e quando levanto meu rosto para encará-la, vejo-a com uma seringa em mão.
Antes que eu tivesse qualquer reação, Ophelia injeta a seringa contra meu braço e aplica uma substância dolorosa. Grito e me debato, tentando me soltar. Ao fim da injeção, Ophelia bate a bandeja contra meu rosto mais uma vez. Caio no chão, sentindo uma moleza incomum em meu corpo. Ophelia fala alguma coisa, mas nada suas palavras não me alcançam. O mundo então parece rodar e posso ouvir sua risada mais uma vez antes de me entregar completamente a escuridão e ao cansaço que me atingia.
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