Espion Noir
4 IV.
Alex caminhava despretensiosamente pelas calçadas de sua rua em direção ao colégio, ponderando toda informação da noite anterior, desejando intensamente que fosse um sonho.
Enquanto caminhava o garoto cumprimentou todos os vizinhos e após sair de sua rua e atravessar a próxima, deu de cara com Thomas que acenou para o mesmo o tirando de seus devaneios.
— E aí meu garoto.
Alex sorriu de lado.
— Bom dia.
— O que aconteceu? – perguntou o garoto caminhando lado a lado.
— Tanta coisa – Alex suspirou.
Na curta caminhada para a instituição Alex contou ao amigo o que acontecera no dia anterior. Sobre as aulas de reforço indicadas pelo professor William e sobre sua nova babá, ou como ela mesma se denominava, professora.
— Caramba – foi tudo que Thomas disse.
Alex riu da expressão de surpresa de seu amigo.
— Nunca pensei que ele fosse fazer algo do gênero – comentou o rapaz sobre o professor – e logo com você, o adorado por todos os outros professores.
— Sinceramente acabei pedindo por isso – admitiu Alex suspirando – mas as aulas dele são horríveis, não aprenderia nada nem mesmo se quisesse.
— Então talvez o reforço não seja uma má ideia – Thomas deu de ombros – a garota é bonita?
Sem qualquer hesitação Alex assentiu fazendo o amigo rir.
— Então está ótimo. Você aprende a matéria o mais rápido que puder e ainda ganha uma bela companhia no processo – sorriu sugestivo.
— Mas a questão é que já estou no último ano – retrucou Alex – receber reforço é quase um atestado de morte.
— Então não vamos contar para ninguém – Thomas piscou – e você tenta fazer o mais rápido possível que ela vá embora.
— O que estão falando aí? – Henry aproximou-se atravessando a rua.
A dupla se entreolhou. Alex suspirou e contou tudo novamente a Henry, que assim como Thomas sugeriu o mesmo. Quando chegaram ao colégio e encontraram Brad o assunto voltou à tona e todos os amigos de Alex concordaram com a ideia: se livrar o mais rápido possível das aulas e manter sigilo.
No intervalo o grupo já havia esquecido a temática e rumavam em direção as vendas de comida. Após se munirem de lanches sentaram-se em uma mesa qualquer do refeitório.
— Quando é mesmo que vai ser a festa do Asher? – perguntou Thomas mordendo seu cachorro quente.
Brad pensou por alguns segundos.
— Esse sábado.
— Já? – Alex quase se engasgou com a água.
— Não sabia? – Brad riu do amigo.
— Não.
Alex esquecera completamente sobre o assunto quando sua mãe o falou sobre as aulas. E após as palavras dela, tinha desconfiança sobre ela aceitar sua ida. Mas não iria desistir, afinal havia dado sua palavra aos seus amigos.
Ao final do intervalo o grupo escapou das últimas aulas fugindo do colégio em direção a uma lanchonete próxima. Henry ria alto junto a Brad no percurso. Thomas e Alex seguiam mais atrás, conversando mais civilizadamente sobre os últimos lançamentos dos jogos.
— Meu irmão comprou ele – disse Thomas com um suspiro – minha mãe com certeza não libera grana para mim.
Alex assentiu pesaroso e pôs as mãos dentro do bolso de sua calça.
— A minha não faz isso há séculos – respondeu o garoto – tenho trabalhado em algumas coisas para ela pra poder comprar meus jogos.
Thomas riu.
— Sorte a sua, Dona Sofia parece só querer que você não seja sedentário.
— Fazendo todos os trabalhos domésticos – murmurou o amigo.
Thomas riu novamente e depositou a mão sobre o ombro dele.
— Veja pelo lado bom, você já é um homem para casar.
Alex sorriu ao comentário.
— Vão querer um x-bacon ou x-egg? – perguntou Brad voltando-se aos amigos retardatários.
Alex percebeu que já haviam chegado a lanchonete tarde demais. Henry já se sentara junto a três garotas numa mesa e elas riam com algo que ele havia acabado de falar.
Brad, por sua vez, estava no caixa impaciente e Thomas já se desvencilhara do lado dele e jazia ao lado de Brad lendo em voz alto o cardápio.
Com um sorriso de lado pela normalidade que aquela situação trazia Alex logo se juntou aos amigos pedindo dois da cada para si e recebendo comentários brincalhões dos companheiros.
•••
Arabella saiu cedo de seu apartamento em direção a casa do garoto. Era seu primeiro dia como professora e não podia manchar a linda imagem que havia criado para si.
Passo a passo toda sua história com o alvo anterior se reproduzia em sua mente. O quanto ela conseguiu manipula-lo e a facilidade com que ela havia tirado sua vida.
Seus pés pararam sozinhos. Olhando ao redor ela observou a paisagem. Era uma praça pequena e bastante movimentada. Árvores surgiam majestosas por detrás de uma pequena construção coberta e cercadas de finas grades. Adultos e crianças descansavam dentro do espaço que possuía bancos e mesas.
Fora do mesmo, na parte sem cobertura, era possível ver diversos brinquedos que iam desde balanços à altas casas suspensas que possuíam acopladas a si escorregadores.
O vento uivou forte e sorrindo fracamente a garota lembrou-se de sua infância, quando ainda não havia sido arrastada para aquilo tudo.
Seu relógio acionou o alarme uma vez mais e ela o desligou. Dando uma última olhada para o lugar que exalava calor ela rumou para a casa de Alex, apertando contra si o sobretudo marrom. O inverno logo chegaria.
Arabella bateu na porta duas vezes antes de ser atendida por Sofia, que com um sorriso gentil a convidou para entrar.
— Boa tarde querida – cumprimentou a mulher aceitando o casaco da jovem.
Meio sem jeito Arabella o passou deixando à mostra a blusa de mangas longas e o short que usava. Sofia a observou por breves segundos e sorriu.
— Ser jovem é tão maravilhoso, não é? – Sofia virou para a jovem mostrando as roupas que usava, que lhe cobriam quase dos pés a cabeça – se for me atrever a usar algo do gênero nessa época, pego uma hipotermia fácil.
Arabella riu pela forma como a mulher brincou e sorrindo ambas subiram ao primeiro andar.
— Alex ainda não chegou – disse a mulher despreocupada – mas você pode espera-lo no quarto dele. Os livros sempre ficam num armário debaixo da mesa do computador, se quiser já ir fazendo alguma coisa...
Arabella assentiu e em seguida Sofia parou de súbito.
— Saiba que pode pegar pesado o quanto quiser com ele – Arabella sorriu as palavras da mesma – ele é meu filho, mas merece um grande puxão de orelha.
A expressão no rosto de Sofia fez a garota rir mais uma vez e a mulher sorriu, pondo as duas mãos no ombro da mesma.
— Pelo tempo que ficar aqui quero que se sinta em casa.
— Já começou bem.
Sofia sorriu junto a garota e em mais alguns passos ambas já se encontravam na porta do quarto do rapaz.
— Pois bem, pode entrar. O computador sempre fica ligado caso queira pesquisar algo para lhe ajudar.
— Pode deixar – ela abriu a porta do quarto – qualquer coisa grito por socorro – brincou.
Sofia riu e afagou os cabelos da garota.
— E eu virei correndo querida.
Com essas palavras a mulher se afastou, mas antes de descer as escadas parou.
— Irei fazer algum café para esquentar os ossos. Aceita?
— Desta vez eu passo – Arabella sorriu.
— Só uma dúvida. Prefere com ou sem açúcar?
— Sem açúcar.
— Gostei de você.
A dupla riu e com um último movimento Sofia sumiu pelas escadas. Com cuidado a garota deu seus primeiros passos para dentro do quarto e o examinou com os olhos. Mais que rapidamente tirou de seu bolso e pôs em locais estratégicos nanoescutas vinculadas a nanocamêras.
— Tudo ok – disse para si mesma, dando uma última olhada no trabalho.
Todo o equipamento se encontrava invisível aos olhos e piscando para si mesma através do espelho atrás da porta ela seguiu seu trabalho. Abriu o armário abaixo da mesa onde jazia o notebook e encontrou diversos livros escolares.
Arabella afastou a cadeira e sentou-se no chão. De um em um ela foi tirando os referentes a biologia e com uma pilha pequena de quatro livros terminou, soltando um longo suspiro.
— Ser estudante deve ser bem difícil mesmo – pensou alto encarando os livros a sua frente.
Ela nunca havia entrado em uma escola propriamente para estudar. Havia sido educada em casa e tão logo puderam a encaixaram em seus planos. Como uma espiã aos dez anos de idade.
O som baixo de notificações acordou a garota que fitou o computador intrigada. Com mãos ágeis ela fechou o armário e puxou de volta a cadeira, sentando-se na mesma. Quando acendeu o monitor quase caiu em gargalhadas.
A imagem de fundo era do próprio Alex, que corria desesperado de cabras, com a maior expressão de pânico que Arabella já vira.
Se controlando e apenas sorrindo ela puxou de seu bolso um pen drive, com um clique começou a fazer a instalação de um sistema de monitoramento, e esperta, abriu uma guia qualquer entrando em um site de moda, rolando a página até a metade.
Ao final da instalação ela maquiou o programa e sorriu satisfeita. Guardou o dispositivo entre os seios e voltou à guia aberta.
Coma audição aguçada ela ouviu passos e sorriu de lado com a precisão de seus movimentos.
Alex entrou no quarto com tudo refazendo seu ritual, de jogar a bolsa na poltrona e se jogar na cama, e sequer percebeu a garota sentada no seu computador. Arabella o observou brevemente girando a cadeira em direção à cama.
— Finalmente em casa – resmungou o mesmo.
— Estava tão animado para as aulas assim? – riu Arabella.
Alex paralisou aonde estava. Lentamente virou seu rosto em direção ao computador e lá encontrou ela. A garota sorriu e acenou para ele ao ser notada. Por que ela se encontrava em seu quarto?
A realidade das aulas caiu como concreto sobre sua cabeça e seus olhos pousaram sobre a mesma.
— Bem-vindo de volta.
O garoto sentou-se abruptamente e cravou seus olhos no computador atrás dela, nervoso, mas ao perceber o site soltou um suspiro de alívio.
— Algo aconteceu? – perguntou Arabella levantando.
— Está tudo bem – ele levantou as mãos a impedindo de se aproximar.
A uma distância tão curta ele conseguia sentir o cheiro dela. O mesmo do outro dia. Ameixa.
— O que faz aqui no meu quarto?
A garota sentou-se vagarosamente a cadeira.
— Sua mãe me pediu para ficar aqui – deu de ombros – separei os livros de biologia que achei – apontou para pequena pilha ao seu lado – e como você estava demorando demais...
— Resolveu mexer no meu computador? – Alex ergueu a sobrancelha.
Arabella fez cara de ofendida desconcertando o garoto.
— Sua mãe consentiu. Não mexeria em algo que não é meu desse jeito.
Alex suspirou em derrota e acomodou-se a cama.
— Acredito em você.
Arabella sorriu de lado e pulou da cadeira para a cama, pousando ao lado do rapaz que a fitou em confusão. Ela estendeu-lhe a mão com um sorriso.
— Vamos começar do início – pigarreou – sou sua nova professora, Arabella Turner.
Alex a fitou intensamente por breves segundos e sem qualquer recuo da mesma ele segurou sua mão, apertando-a.
— Sou Alex Martin.
— Vai ser um prazer trabalharmos juntos – disse a garota num tom de comemoração e euforia.
Alex sorriu para com toda empolgação da mesma e por um breve momento esqueceu que estava odiando a ideia de um reforço escolar.
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