Em poucos minutos a dupla se organizou. O centro vazio do quarto foi ocupado por uma baixa mesa dobrável e como assentos foram usadas duas grandes almofadas.

Arabella se encontrava sentada de frente para Alex que possuía seu caderno aberto na matéria intacta de biologia.

— Nem mesmo uma anotação? – choramingou a garota.

— As aulas dele são horríveis – retrucou – meu pai era muito melhor do que ele.

— Ora – Arabella descurvou-se de cima do livro – seu pai era professor?

— Sim – Alex empinou o nariz – um dos melhores.

A garota sorriu de lado para com a atitude do mesmo ao pai.

— E como ele era?

— Simplesmente incrível – disse Alex apoiando os cotovelos sobre o caderno na mesa – era conhecido dentro e fora do país. Deu aulas nas maiores universidades do mundo...

Arabella assentia a cada palavra do garoto o incentivando a continuar, e este, por sua vez, contou todas as façanhas de seu pai no mundo profissional.

Alex contou, no meio de tudo, que ele havia falecido não fazia muitos anos, mas isso não o parou e cada nova conquista do homem parecia enchê-lo ainda mais de fôlego.

Ele era tão puro, a garota pensou.

— Então é isso – terminou Alex se afastando da mesa.

— Por isso odeia seu professor de biologia? – riu baixo.

— Não é exatamente por isso – murmurou o garoto corando ao perceber que havia falado demais sobre seu pai.

— Seu pai parecia ser um bom homem.

— E era um ótimo pai também – Alex fitou a garota a sua frente.

Por que estava contando todas aquelas coisas a ela?

— Uma vez fomos a uma casa nas montanhas para passar as férias e ele nos fez jogar todos os jogos que você possa imaginar. Foi um mês inesquecível.

— Isso tem alguma coisa a ver com as cabras do seu computador? – Arabella apontou para a máquina atrás de si.

Alex ficou completamente vermelho e sorrindo fraco assentiu. A garota riu abertamente aumentando o rubor do rapaz.

— Veio aqui para me ensinar ou fazer uma sessão de terapia? – balbuciou ainda corado.

Arabella olhou para o mesmo e não conseguiu deixar de sorrir. Com pouca dificuldade ela se esgueirou pelo chão, levando consigo a almofada que sentava, para próximo de Alex.

— Sim senhor.

Alex fez uma careta e a garota sorriu mais abertamente. O calor que havia se acumulado ao lado dele começava a deixa-lo quente tornando-o mais sensível ao aroma doce da garota.

Com um pigarro Arabella desviou a atenção dele para o caderno.

— Hoje pensei em descobrir quais seus conhecimentos sobre biologia para podermos​ ter uma base. Poderia me mostrar o que sabe?

Os olhos de ambos se encontraram. Alex sentiu o coração acelerar e desajeitadamente pegou o lápis sobre a mesa. Arabella percebeu a ação e sorriu para si mesma. Ter seu corpo perto do dele o perturbava. Ele estava extremamente envergonhado.

O observando escrever no caderno Arabella pensou em todas as reações que havia causado nos homens durante todos aqueles anos. E nenhuma havia sido tão interessante quanto aquela. Ela queria ficar cada vez mais próxima. Queria ver mais expressões que ele podia fazer.

— Acabei.

Arabella piscou várias vezes voltando a realidade e sorriu de lado ao notar apenas uma frase no caderno.

Todos somos formados por células? – leu em voz alta.

Alex fez um sinal de concordância sério e a garota não deixou de rir. Em seguida puxou um dos livros que havia tirado do armário e se aproximou mais um pouco para mostrar a página ao garoto. Seus braços se encostaram e ao perceber a vermelhidão nas orelhas dele Arabella sorriu de canto, satisfeita com a reação.

Após explicar o básico para Alex a garota se jogou cansada sobre a cama do rapaz. Haviam se passado duas horas desde então e ambos estavam no limite. Arabella girou sobre a cama ficando de frente para o garoto que se encontrava de pé, se alongando.

— Esse é o básico? – resmungou Alex.

— E tem muito mais de onde veio isso – brincou a garota sentando – mas hoje não dá mais – olhou em seu relógio – nossa aula já acabou fazem trinta minutos.

— Pareceram séculos – retrucou o garoto sentando na cadeira do computador com um sorriso.

Arabella se apoiou na ponta da cama para levantar.

— Você não é tão ruim quanto achei que fosse.

Teatralmente o garoto pôs a mão sobre o peito ofendido.

— Você achou uma coisa dessas sobre mim?

Rindo a garota se levantou da cama e se alongou. Pelos breves segundos que duraram a ação Alex sentiu sua respiração falhar com a visão da garota a sua frente. Arabella sorriu ao final do movimento ao notar o leve vermelho no rosto do rapaz.

— Então – ela recolheu os quatro livros – posso leva-los mesmo?

— Sim – respondeu num sussurro.

— O que disse?

— Disse que pode. Não os estou usando no momento.

— A poeira denuncia isso – ela piscou para o mesmo.

Alex sorriu e ela o retribuiu. Lentamente a garota deu uma última olhada no quarto do rapaz, conferindo seu trabalho, e se dirigiu a porta.

— Nos vemos amanhã.

— Nos vemos amanhã – repetiu Alex acenando com a cabeça.

Arabella rapidamente saiu do quarto e em passos rápidos desceu as escadas. Não encontrou Sofia antes de sair então por si mesma pegou seu casaco que jazia pendurado próximo a porta e saiu. Lá fora o vento frio do outono ricocheteou sobre a mesma que decidida deu seus primeiros passos para fora da casa.

•••

Alex soltou um longo suspiro ao ouvir o som dos passos dela descerem as escadas. Mais que rapidamente fechou a porta do quarto e se apoiou na mesma. Seu coração ainda se encontrava acelerado, ainda que naqueles últimos momentos ela sequer tenha encostado nele.

— O que está acontecendo? – resmungou.

Num impulso ele correu até a janela e ao ver a longa cabeleira negra em seu quintal todo seu corpo reagiu agitando-se. Quando seus olhos se chocaram e ela lhe sorriu acenando Alex não soube o que fazer. Seu corpo automaticamente recuou voltando para dentro e fugindo da figura fora da janela.

Alex olhou para seu quarto de cima a baixo. A mesa armada no meio do mesmo, os cadernos de seus anos anteriores espalhados pelo chão e o doce aroma de ameixa que a perseguia.

Era como se ela estivesse marcando seu território ali, pensou Alex.

— Mas ela está fazendo muito mais do que simplesmente isso – murmurou para si ao se agachar próximo a pequena mesa e pegar um memorando.

Nele se encontrava descrito objetivamente os processos de divisão celular e suas fases. No verso havia o desenho de um dos personagens presentes nos pôsteres de seu quarto, ele fazia sinal de positivo com uma frase de incentivo logo acima, dentro de um balão de fala.

Se você se esforçar pode conseguir tudo que desejar, inclusive passar em biologia — Alex leu em voz alta e riu baixo.

Seus olhos pousaram sobre a janela e ele sorriu. Talvez não fosse assim tão ruim ter aulas com ela.

Notas finais
Nada a declarar, nada a declarar...