Capitulo 5

(Consentindo a ideia do Gran Duque, Frederico toma a decisão de convocar as três fadas ditas. Acatadas as ordens, as três fadas apresentam-se ao palácio, curiosas com o misterioso caso da delfim adormecida. Victoria está impaciente. Caminha ansiosa dum lado para o outro).

Victoria – Evangelina! (Diz em voz alta, impróprio para uma rainha). Elas chegaram?

Evangelina (faz reverencia) – Ainda não, majestade. (Diz em tom preocupado).

Victoria – Ainda não? Mas quem elas se creem ser? Deixar o rei e a rainha a espera é demasiada petulância para seres tão minoritários, não achas, meu senhor?

Frederico (concentrado a olhar para a delfim) – Sê paciente, Maria Victoria, que elas já vêm.

(Victoria percebe a sua distração e, convenientemente, vira-o para si e olha-o como se lhe quisesse gritar a cara. Entra o Gran Duque acompanhado pelo mensageiro, que interrompem o momento de Victoria e Frederico. Cesar olha para Victoria, que está como se fosse beijar o seu rei, e sente-se tenso, ficando irritado sem aparente motivo. Ao perceber a presença dos senhores, eles afastam-se, em constrangimento. Entra Evangelina, acompanhada das três fadas, que fazem reverência às autoridades. Victoria fica admirada com a aparência daquelas criaturas. Três mulheres anciãs com asas e roupas fora de época. Uma usava um vestido dourado e florido. Curiosamente, as flore eram de ouro maciço. A segunda vestia azul, e o seu vestido era feito de cristais de gelo. A última, estava vestida de verde, e o seu vestido era decorado com todas as espécies de plantas do mundo. Cada uma com a sua varinha. Três varinhas diferentes. Uma de ouro, uma de prata e uma de esmeraldas. Eram alegres… até demais, pensava Victoria. Aproximam-se a caminhar e observam a delfim, que mesmo a dormir, reluzia majestosa e altiva. As fadas não pareciam assustadas ou admiradas com as semelhanças entre as rainhas. Era como se elas já soubessem que elas se pareciam e o motivo. Fiore, a fada das flores de ouro, passa a mão sobre a delfim, sem lhe tocar, e sorri. Fredda, a fada do gelo, paira sobre ela e sente o seu calor… deixa escapar uma risadinha. Flora sente-lhe o coração pulsante e cantarola. Afastam-se e põe-se a cochichar).

Victoria (angustiada) – Então, senhoras… o que tem a delfim? Podemos curá-la?

Flora (vira-se para a rainha) – Não, majestade… “podemos” é muita gente, não acha? (Sorri).

Fiore (vai até o rei, olha-o bem, e volta-se para a delfim) – Nós conhecemos esta magia.

Fredda (aproxima-se da rainha Victoria) – Isto não é feitiço, minha rainha… é encanto.

Frederico (confuso e exausto) – Mas, afinal, o que se conclui disto? Sejam mais claras!

Fiore – Quem fez isto, fez bem, e não fez por mal, mal não faz a ninguém. (Rir-se).

Flora – Este encanto é comum, mas não é atoa, nem é maligno à quem lhe bem soa.

Fredda – Magia de amor só se cura com amor, o coração dela é gelo, mas beijo será calor.

Victoria (confusa e irritada) – Ora… sejam mais objetivas e parem de rodeios… já!

Fiore (rir-se) – Sois vós muito impaciente. (Sussurra-lhe ao ouvido) Cuidado que ele mente.

(Victoria afasta-se dela e olha para o Frederico acreditando ser dele que ela falava, mas seria?)

Fredda (rir-se) – As histórias por aqui sempre se repetirão… aí aí… partir-se-á mais um coração.

Flora (junta-se às irmãs) – Vossa majestade tem, ainda, a maior beleza, mas cuidai-vos, minha rainha… cuidai-vos que da inveja sois presa. (As fadas saem a voar pela janela sem despedida).

Victoria (surpreendida) – Esperem! Voltem, imediatamente, em nome do rei, eu ordeno!

Frederico (vai até a janela) – Já se foram… e ainda estamos na mesma. (Vira-se) Gran Duque, eu perdi o meu tempo. Elas não disseram nada que se entendesse.

Cesar (acanhado) – Bem, meu rei, se me permitir, eu acho que não é bem assim. Acredito que as fadas disseram que só um beijo de amor poderá salvar a delfim.

Victoria – Beijo de amor? E quem irá beijá-la se o delfim está morto?

Frederico (sussurra) – Não é preciso que haja vida para que se perpetue um amor.

Victoria (vira-se rapidamente) – Que disseste, meu senhor? Eu não ouvi bem.

Frederico (desconsertado) – Ah… bom, vamos indo então, porque eu ainda tenho coisas a tratar com o Gran Duque. (A disfarçar com ele) Ajuda-me, e vem!

(O Gran Duque percebe a situação e sai com o rei, deixando Victoria e Cesar a sós).

Cesar (apreensivo e nervoso por estar sozinho com ela) – Então… esclarecedor o dia, não é?

Victoria (olha-o com desprezo, como se ele não merecesse lhe dirigir a palavra) – Esclarecedor não sei para quem. Olha aqui, mensageiro, eu… (tropeça e cai nos seus braços. Ouvir: Paolo – Malafemenna. De repente, um silêncio paira naquele recinto. Victoria sentia-lhe as mãos quentes que lhe seguravam apertando-a, e gostava daquilo. Cesar cheirava a homem fugaz, e o seu olhar era como duas labaredas de fogo que pareciam incendiar-lhe a alma. Num súbito de fraqueza, Victoria treme sob aquela respiração intensa, de um homem proibido. Ao segurar-se a ele, sente-lhe o peitoral rijo e ténue. Por uns instantes, esqueceu-se que era rainha, que era esposa e que era senhora de respeito… esqueceu-se do seu rei. Os rostos aproximam-se sem que eles se dessem conta daquela situação de desejo carnal intenso e pecaminoso. Parecia que os seus lábios deveriam, por lei, juntar-se um ao outro, para selar aquele momento insano… mas, como por uma aviso, ou impertinente inconveniência, um raio de sol faz-se refletir num espelho de mão e bate aos olhos da rainha. Victoria desperta-se e solta-se dele imediatamente, nervosa e tremula, sussurra) – Nunca mais me voltes a tocar, ouviste? Insolente! (Retira-se como um raio, para não olhá-lo nos olhos outra vez. Sentia o coração saltar e não gostava).

Cesar (sorri, incrédulo) – Esteve nos meus braços… (fecha os olhos) aqui, junto ao meu peito…

Victoria (do lado de fora, encostada a porta) – Meu Deus… o que está-se a passar aqui?

Cesar (apoiado a porta) – Meu Deus, o que há em mim que me enfraquece diante daquela mulher?

(Enquanto nos aposentos da delfim, surgia uma brasa de paixão, o rei estava com o Gran Duque, a discutir as palavras vagas das fadas).

Frederico – Ultraje, Gran Duque, uma afronta! Aquelas fadas pareciam rir-se da minha cara.

Gran Duque (preocupado) – Eu lamento, majestade. Não pensei que elas fossem…

Frederico (vira-se) – Eu não te dou tostões de ouro para pensares, dou para executares.

Gran Duque (abaixa a cabeça) – De facto, meu rei. Tomarei providências sobre a delfim.

(O Gran Duque retira-se, muito entristecido pelas palavras duras do rei. Frederico jamais se comportara de tal maneira. Ele bate à porta do mensageiro Cesar, que abre-lhe. O Gran Duque entra sem muita cerimonia. Demonstra estar irritado).

Cesar (preocupado por vê-lo assim) – Senhor Gran Duque, passa-se algo?

Gran Duque – Ludwig (pronuncia-se: Ludvig)! O meu nome é Ludwig Van. Podes chamar-me assim e tratar-me informalmente. (Caminha dum lado para o outro) O rei está furioso. Preciso resolver isto. Eu pensei que as fadas pudessem ajudar, mas estava equivocado.

Cesar – Eu acho que não, Ludwig. Olha, elas não foram claras, mas deram pistas. Elas disseram que um beijo poderia aquecer o coração da delfim… isso vai trazê-la a vida.

Gran Duque — Talvez… mas, Cesar, quem vai beijá-la se o rei morreu?

Cesar – Hum… ora, meu caro, talvez um rei tenha morrido, mas ainda temos outro.

Gran Duque (custa entender e quando entende, fica perplexo) – Estás a falar de D. Frederico?

Cesar (a sorrir) – Vais-me dizer que nunca notaste o modo como ele olha para a defim?

Gran Duque – Sim, eu notei, mas não dei importância porque é o mesmo com o que tu olhas a D. Maria Victoria. (Cesar fica em silêncio) Cesar? (Aflige-se) Tu estás apaixonado por ela!

Cesar (apreensivo) – Xiu! Cala-te, homem, por quem sois. Se o rei ouvir isto, a minha cabeça vai rolar. E afinal, aquela mulher nunca me vai olhar sem desprezo.

Gran Duque (sorri) – Não te preocupes, Cesar, que não és o primeiro e nem serás o ultimo a desejar vossa majestade, a rainha. Acredita que todos os homens, em peso, deste reino, já se ludibriaram por aquele par de olhos ciganos. O homem que não a desejar, não é homem.

Cesar (olha para o Gran Duque com desdém) – E tu? Também já a desejaste?

Gran Duque (abaixa o olhar e fica desconfortável) – Ah… eu… na verdade, eu não.

Cesar (estranha) – Não? Ora, Ludwig, mas disseste que não era homem aquele que não…

Gran Duque (apreensivo) – Desculpa, Cesar, mas eu tenho que ir… há coisas que preciso fazer.

(O Gran Duque retira-se aflito, como se algo levasse nas mangas a esconder do mundo. Cesar fica apático com a peculiar reação do seu amigo, mas logo esquece e volta a pensar na rainha).

Cesar (vai até a janela) – Aí, minha senhora, minha rainha… se soubesse o que faria por vós…

Victoria (em seus aposentos) – Mensageiro… (suspira) Mas o que se passa comigo? (Sente-se incomodada) Ele é apenas um criado… e pior! Ele é o criado dela… malditos os dois. O que vale é que mais logo os dois vão-se embora das minhas terras. (Vai até a janela. Pausa) Mensageiro… eu nem sei o seu nome e já me incomoda a sua presença… mensageiro… (vira-se rapidamente) Aí, não, não, Deus meu! O que é isto que me entranha na alma? Vós não me respondeis, pois não? Conheço alguém que me responderia a verdade… mas não ouso… será?

Frederico (volta aos aposentos da delfim. Aproxima-se dela e acaricia-lhe a face fria e pálida) – Quem sois, mulher, quem sois? Porquê me tens assim atrelado a tua respiração? As fadas disseram-me que só um beijo poderia despertar-vos, mas que beijo, se vosso rei é morto? Pobre de vós, que já sofreis tanto com vossa madrasta e irmãs. Sois tão bela que as vezes sinto-me como num encanto que me prende a vós. Seria a vossa salvação um beijo de amor verdadeiro? Mas onde estaria este amor? Como alguém poderia amar uma… (lembra-se de quando salvou a sua Victoria)… mulher morta. (Desatina) Eu… eu já amei, mas… mas já não sou capaz de voltar a fazê-lo, ou serei? Quem sou eu para quebrar tais feitiços e encantos?

(Cesar caminha pelos corredores do castelo a pensar na sua deusa. Vai até a janela e observa a vasta paisagem colorida de outono. Havia montanhas e rios que decoravam o reino. Ele olha para baixo e vê Victoria, montada num puro-sangue branco a entrar na floresta com roupas mais simples, embora finas. Ele não pensa duas vezes e segue-a. Atrasado uns minutos, só lhe resta seguir os seus rastros que levam-no à uma cascata de aguas quentes. Esgueirando-se por entre a folhagem, ele tem uma visão de sonhos. Ouvir: Paolo Malafemmena. Avista Victoria, que banhava-se nua nas águas cristalinas e esverdeadas da cascata. Parecia uma ninfa das águas que bailava submersa… quase uma sereia. As suas roupas, jogadas à um canto, mostravam o seu lado mais selvagem e escondido por uma imagem de rainha disciplinada e frigida. Sente queimar um desejo ardente de despir-se e ir de encontro àquela pele desnuda que provocava-o sem saber. Os seus olhos de voyeur, observavam-na como um predador carnívoro que ficava a espreita para atacar a sua caça, mas Cesar tinha a alma dum leão e a atitude dum rato. Enquanto isso, no palácio, estava um outro observador desejoso. Frederico sentia o cheiro inocente daquele ser imóvel. Ouvir: Bungaro – Notizia di te).

Frederico – Minha delfim… minha? Como eu queria que fosse minha, mas nunca será e eu nem deveria desejá-la assim, tendo ao meu lado D. Maria Victoria, que é uma santa rainha. Conheço-a há tão pouco tempo e já sinto este afeto, este sentimento confuso… que triste é a vossa condição, majestade… queria despertá-la para ouvir o encanto som de vossa voz. (Acaricia-lhe o rosto e aproxima-se ainda mais. Sussurra) Sois… sois vós a mais bela. (Frederico, envolvido por aquele rosto de anjo, esquece-se de quem é, e debilmente… beija-lhe os lábios com a mais profunda paixão que jamais sentira antes. Aquele beijo foi um relógio parado que fez-se eterno o momento. Frederico afasta-se e entristece-se sem sucesso) Falhei… (diz num tom de voz trémulo e choroso. Levanta-se e retira-se do recinto. A caminhar pelos corredores, ouve uma criada a gritar fervorosa _ Despertou-se a delfim… despertou-se a delfim da França!)

FIM (CAPITULO 5)