Capitulo 6

(Acordou-se a delfim, e os sinos badalam por todo o reino. Os sinos só badalavam quando ou o rei ou a rainha morressem, quando nascia um herdeiro ou quando a realeza safava-se da morte. Os sinos soavam tão alto que o som estendia-se por todo o reino, fazendo-se ecoar pela floresta onde na cascata, banhava-se Victoria observada por Cesar).

Victoria (assusta-se com o som dos sinos) – É a delfim… terá morrido? (Sai da água e depara-se com Cesar. Ouvir: Paolo- Malafemmena . Olhava-a com os olhos arregalados, apreciando as curvas despidas do seu corpo. Victoria fica paralisada, esquecendo-se da sua nudez. Olha-o espantada, afinal não esperava tê-lo ali. De repente, ao dar-se conta, apanha os panos e cobre-se virando de costas para ele). O que fazes aqui, mensageiro? Estavas como um voyeur a ver-me despida? Como ousas! Vai-te embora já, e que não queira Deus que isto se espalhe.

Cesar (nervoso e excitado, desconversa, dando-lhe os restantes tecidos e virando o rosto para deixá-la vestir-se) – Perdão, majestade. Eu… eu estava a passear por aqui e sem querer, cheguei a este lugar onde vossa senhorinha banhava-se. (Curva-se) Não foi a minha intenção.

Victoria (vestida e molhada, tem a face corada de vergonha) – Não importa, já viste o que não devias. Por favor, mensageiro, não contes isso a ninguém, ou poderão cortar-nos as cabeças.

Cesar (olha-a com desejo) – Vossa majestade tem a minha palavra. Será o nosso segredo. (Tinha um segredo com ela, com a sua rainha almejada e cobiçada pela impureza dos seus pensamentos. Cesar sentia-se como um ladrão que esgueira-se para empalmar as joias de um tolo barão) Se me permite, minha rainha, já vi muitos corpos de donzelinhas, já fui amante de condessas e ciganas, já vi sereias com estes dois olhos que a terra ainda há de comer, mas garanto que elas todas juntas não têm um terço do fascínio que vossas curvas causam a uns olhos masculinos. É como murmura-se a lenda: sois vós a mais bela entre as belas.

Victoria (sente gosto naquelas palavras, mas esconde-o) – Cala-te! Quem pensas que és para me falar com tal prepotência? Olha-me, mas olha-me bem! Eu sou uma rainha e tu és um mero criado daquela intrusa. (Olha-o com raiva por sentir uma ponta de agrado) Os sinos badalaram, mensageiro… a tua rainha deve ter morrido já.

Cesar (injuria-se com as palavras frias dela e agarra-a esquecendo-se da sua classe) – Como pode ser assim tão má? Eu sempre trato-a com respeito e honra. Porquê é tão dura comigo?

Victoria (junto ao seu peito, enquanto ele agarrava-a forte) Não te devo satisfações. Solta-me!

Cesar (com a respiração ofegante, tendo-a tão colada a ele, humedecendo-o com aquelas roupas quase molhadas da sua pele) – Não solto até que me diga o por quê de tanto odio… mas será mesmo odio que me tem, majestade? Ou seria medo de ceder a algum desejo?

Victoria (solta-se dele e dá-lhe uma bofetada) – Já basta, mensageiro! Esta foi a última vez que me dirigiste a palavra. Se a tua rainha morreu ou vive, tanto me faz, porque ambos vão-se embora do meu reino. E estejas agradecido por eu não mandar executarem-te na guilhotina. Eu vou retornar ao castelo e tu, dás a volta porque não te quero ver a minha frente. (Victoria monta o seu cavalo puro sangue como uma verdadeira amazona e vai-se embora).

(Enquanto isso, no palácio, os criados aglomeravam-se junto aos aposentos da delfim para vê-la. Entra Frederico. Ouvir: Bungaro – Notizia di te. Depara-se com uma visão de esplendor. Estava ela de costas, ao pé da janela, vestida nos seus mantos reais. Ela vira-se e olha para o Frederico com um olhar vazio e confuso, tinha as mãozinhas brancas suadas).

Paula — Bonjour! Où suis-je? Qui êtes-vous? (Olá! Onde eu estou? Quem sois?)

Frederico (por ser rei, era muito instruído) — Je suis D. Frederico, roi d'Allemagne. (Eu sou Frederico, o rei da Alemanha.) Ne pas avoir peur, madame. Je veux l'aider. (Não tenha medo, minha senhora. Quero ajudá-la) Fala a minha língua?

Paula (curva-se) – Eu sou D. Maria Paula, a delfim da França. Porquê estou aqui?

Frederico – Vossa majestade fora encontrada a beira da estrada… desfalecida. (Aproxima-se dela) Não se lembra do que aconteceu convosco para estar caída como morta?

Paula (com um ar angustiado) – Lembro-me de estar na minha carruagem com o meu rei, quando de repente fomos parados. Havia uma mulher no caminho. Usava um capuz… ela ergueu a mão como se fosse lançar algum feitiço, então eu vi uma luz azul muito forte e não me lembro de mais nada. (Aflita vai até Frederico) Onde está o meu rei? Onde está?

Frederico (sente um calor ao tê-la tão junto a si) – Eu… eu… não sou quem para lhe contar…

Paula (desata a chorar) – Contar-me quê? (Agarra-o pela lapela de rendas do fino manto roxo em veludo de majestade) Diga-me, diga-me por quem sois, onde ele está?

Frederico (segura-lhe as mãos e olha-a nos olhos. Sente uma energia percorrendo-lhe as veias como se aquelas mãos juntas, fossem dois fios que se uniam) – Eu lamento mas ele… morreu.

Paula (desespera-se e descai nos seus braços a chorar) – Não! Não pode ser… meu marido… meu rei, meu amor. Que tragédia, meu Deus. O que será de mim sem ele?

Frederico (abraçando-a forte, sente-se inconformado com a sua tristeza por aquele morto… era um ciúme) – Não temais, minha rainha, minha delfim. Protegê-la-ei com a alma.

(Entra Victoria e presencia aquela cena que lhe parecera uma espada cravada ao coração. Os seus olhos queimavam diante daquela imagem de desonra. Cesar entra, está atrás dela e sente a sua tristeza e raiva, que saltava-lhe a pele como se incendiasse o recinto).

Cesar (avança para dentro do quarto) – Majestade, é tão bom vê-la de pé!

Paula (olha para ele e alegra-se) – Mensageiro? Mensageiro Cesar? Que gosto tenho por ver-te, meu amigo. (Então vê Victoria, fica a olhar para ela, como um reflexo no espelho. Assustada, puxa a espada de Cesar e aponta-lhe) Bruxa! Afastem-se. Ela é uma bruxa… não vêm que fez um feitiço para se parecer comigo. (Olha para eles) Ajudem-me!

Cesar (imediatamente, vai até ela e abaixa-lhe a espada) — Majesté, elle est la reine.

Paula (espantada) – A… a rainha? Mas então, porquê se parece tanto comigo?

Victoria (com um tom de voz altiva) – É exatamente o que eu me tenho perguntado. (Aproxima-se dela e olha-a de cima a baixo) Bem… parecidas, mas não iguais. Olha-me! É notório que eu sou mais bela. (Sorri com desprezo. Vai até Frederico e abraça-o) Meu senhor, que saudades. (Beija-o para impor a sua presença) Que felicidade a nossa hóspede ter, finalmente se despertado do feitiço que lhe prendia. Agora já podem ir-se embora.

Cesar (avança) – Não pode! (recua de cabeça baixa e fala com Frederico) Perdão, majestade. Se eu retornar à França com D. Maria Paula… (olha apara ela) O Conde de Gouvarinho vai hastear a cabeça dela numa lança e prega-la em sua parede para relembrar a glória.

Paula (aflita vai até Cesar) – Eu sou a rainha… meu povo e ama e meu exército é fiel.

Cesar – Milady, o Conde pode acusá-la de ser uma bruxa, pois o povo acredita em vossa morte. Seria lançada à fogueira antes de pisar Versailles. Além disso… o Conde tem vosso filho preso.

Paula (descai quase a desmaiar) – Meu Sebastião? Meu filho? Preciso voltar à França para salvar o meu herdeiro e cravar, eu mesma, a espada de sir Lancelote naquele traidor.

Cesar – Majestade, não adiantaria ir lá desarmada. Ele matá-la-ia e antes disso, mataria vosso filho diante de vossos olhos, de uma maneira lenta e cruel. (Para Frederico) Milorde, não sou ninguém para lhe pedir, mas peço: ajude-nos, por quem sois! Eu imploro pelo sol que nasce e pela lua que ilumina as trevas: deixe que fiquemos aqui por mais um tempo… ao menos até D. Sebastião subir ao trono depois que se casar.

Victoria – Casar? Tu mesmo disseste que ele está como um prisioneiro. Se não pode sair do quarto, como encontraria uma esposa? Isso é ridículo. Eu nego o teu pedido.

Frederico – Mas eu não. (Para Paula) Vossa majestade é bem recebida em meu lar e os seus aqui serão como irmãos. Fiquem o tempo que precisarem… e digo mais: ponho a vossa disposição parte do meu exército para lutar e salvar o trono da França.

Victoria (quase sem acreditar naquela infâmia) – Mas… meu rei, eu não acho…

Frederico – E tenho dito. A delfim e seu fiel servo ficam na Alemanha até a ascensão do filho herdeiro. (Para Paula) Esta noite o banquete será servido em vossa honra, majestade.

Cesar (alegre) – Eu lhe dou a minha palavra, milorde, que sangrarei pela vida do herdeiro se assim me for imposto, e que D. Frederico é e sempre será o meu rei, sangue do meu sangue.

Frederico (sorri) – Eu agradeço o teu juramento de lealdade ao dizer-me “sangue do teu sangue”. Não sangres por mim, mensageiro… sangra pela França e triunfarás diante dos teus.

Paula (curva-se) – Serei eternamente grata à vossa gentileza, majestade. Tem a minha palavra de que assim que eu recuperar a minha coroa, a França lutará ao lado da Alemanha para conquistar a Europa e as Índias… sangue do meu sangue. (Para Victoria) Espero não lhe ser incômodo, milady. Aprecio vossa beleza e altivez. Tenho certeza que é uma grande rainha.

Victoria (Sem olhá-la) – Acato as ordens de meu marido. Honrem com as vossas palavras. Queiram desculpar-me, mas tenho coisas a fazer. (Retira-se em passos fortes, com as sobrancelhas franzidas de odio. Vai em busca do espelho para refugiar-se).

Paula (percebe o mal estar) – Meu rei, eu não quero causar nenhum problema entre vós.

Frederico – Não se preocupe, milady. D. Maria Victoria teme pelo seu povo e por isso revela-se odiosa. Ela tem medo de que a sua estadia aqui, traga a escuridão.

Cesar – Eu estou responsável por D. Maria Paula e garanto que nada vai ameaçar o seu reino.

(Victoria entra na sala do espelho, desta vez não está retraída e caminha com pressa).

Victoria – Espelho, espelho meu, aparece-me por quem sois, que preciso de vós.

Espelho – Ora se não é a minha rainha. Em que vos posso servir, majestade?

Victoria (aflita) — Espelho, a delfim, aquela mulher despertou-se…

Espelho – Despertou-se? Não, majestade. Despertaram-na, seria o termo mais adequado.

Victoria (olha para ele, tremula e aterrada) – Que queres dizer, com isso, espelho?

Espelho – Não, não! As coisas não são feitas assim, majestade. Pergunte-me como deve de ser.

Victoria (fecha os olhos e respira fundo, sente o coração a saltar-lhe o peito e as pernas que visam falar) – Espelho, espelho diga para mim… quem despertou a adormecida delfim?

Espelho – As palavras de Camões são claras, minha rainha: “amor é fogo que arde sem se ver”… ele vem quando ninguém espera e ele vai quando ninguém quer. Os lábios que despertaram a mulher de cabelos dourados são os mesmos que dantes já despertaram-na.

Victoria (cai ao chão, incrédula) – Frederico? Como foi capaz de me trai assim?

Espelho – E isso será apenas o início, majestade. Em breve, ele a mandará para um convento, anulando o matrimónio, rompendo a aliança com o clero apenas para casar-se com ela.

Victoria (olha para ele assustada) – Anular? Como podes saber disso, espelho?

Espelho – Eu sou os olhos que tudo veem, minha senhora. Vede, que esta mulher está para roubar-lhe o homem e que virá depois? O vosso reino, as vossas vestes. Terá sorte em não acabar num calabouço. Ela tem vossa face… quanto tempo levará para o povo dizer que ela é mais bela que vós? Se já não é… mas estas dúvidas, tem-me a mim, para tirá-las.

Victoria (entranhada de ódio e rancor) – Ainda não é hora, espelho. O povo me é fiel. (Levanta-se altaneira e ríspida) Esta mulher não me vai tirar o rei, porque eu sou D. Maria Victoria, a rainha da Alemanha. Porque este reino é meu e porque eu sou a mais bela de todas. Antes de ceder o meu trono àquela rameira francesa… mato-a.

FIM (CAPITULO 6)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.