Espelho Meu
4 Capitulo 4
Capitulo 4
(Naquela sala fria, assediada por um ser magico e desconhecido, Victoria temia não resistir à tentação de perguntar… mas o seu receio falou mais alto e ela abandona a sala deixando o espelho ainda faminto de questões. Ao regressar para os seus aposentos, Victoria põe-se inquieta e pensativa. Que quereria aquele espelho? Está fria e tremula. O sol já se tinha ido embora, já se fazia hora do jantar. A criada Evangelina entra no quarto).
Evangelina (curvada) – Madame, o jantar já será servido. Gostaria de se arranjar agora?
Victoria (nervosa a esfregar as mãos) – Eu… não pretendo descer, Evangelina.
Evangelina (estranha a resposta da rainha) — Mas, a madame esqueceu que tem convidados esta noite? O Gran Duque e o mensageiro real.
Victoria (vira-se imediatamente e vai até ela) – Oh, Evangelina, tens toda a razão. Meu Deus, como eu me pude esquecer deles? Não devo cometer esta imprudência. Obrigada pela advertência, querida serva. Estou pronta para que me arranjem.
Evangelina – Muito bem, majestade. Vou buscar as demais criadas para me ajudar. (Vai a sair e logo recua) É verdade, eu já me ia esquecendo: a princesa Liza já está pronta. Com licença.
(Sentados à mesa, todos aguardavam a chegada ilustre da rainha. Cesar mantinha-se quieto, ansioso por voltar a ver a sua deusa. Victoria adentra o salão e todos levantam-se para recebê-la. Guiada pela mão de uma criada, Victoria senta-se no seu cadeirão real).
Frederico (erguendo-lhe o cálice) — Estás ainda mais bela hoje do que ontem, minha senhora.
Victoria (abaixa o olhar, ainda pensa no espelho) – Obrigada, meu marido, é muita gentileza.
Gran Duque (ergue o seu cálice de vinho) – Então, eu peço um brinde à vossa beleza, majestade. Sois vós, minha rainha, ainda, a mais bela entre as belas.
(Todos brindam. Cesar tomou do cálice com os olhos vincados na rainha que tomara o vinho demonstrando pouco interesse e descaso. Naquela mesa havia uma tensão escondida por debaixo dos panos. A filha Elizabeth esquecida a jantar, pois nenhuma palavra lhe dirigiam; Frederico muito entusiasmado com o Gran Duque que falava-lhe da temporada de caça aos lobos; Cesar que mal conseguia garfar o prato devido à hipnose sobre a qual estava por culpa da rainha e Victoria, que brincava com o rico banquete sem lhe tocar a boca, pois lembrava-se do tesouro que descobrira mais cedo. Ela mal podia ouvir o que o rei dizia).
Frederico (rir-se dentro da conversa) – É claro que a rainha vai adorar ter um casaco de pele de lobo branco. (Olha-a e ela não reagiu à sua citação) Altesa, não ouviu o que eu disse? Victoria?
Victoria (percebe e surpreendida, deixa o garfo cair sobre a mesa) – É claro, meu rei.
Frederico (nota o desconforto de Victoria e como estava aérea) – Passa-se algo?
Victoria (desconsertada) – Não… não, meu senhor, eu simplesmente não me sinto muito bem.
Gran Duque (preocupado) — Vossa majestade está a passar mal? Foi algo do jantar?
Victoria (limpa delicadamente os lábios carnudos e escarlate) – Não, caro amigo… obrigada pela preocupação. (Levanta-se) Senhores e minha filha, perdoar-me-ão mas terei de me retirar. Estou um pouco cansada, o dia hoje foi deveras atordoado. Bom jantar e boa noite!
(Todos levantam-se para a rinha. Victoria retira-se elegantemente acompanhada de Evangelina. Tornam a conversar sobre os lobos sem muito interesse no mal estar da rainha, mas Cesar fica preocupado em que ela talvez estivesse com algum problema, mas consente).
Evangelina (a despir a rainha) – Vossa altesa não precisa mesmo de nada? Estava a sentir-se…
Victoria – Eu estou bem, Evangelina, obrigada pela preocupação. Podes sair.
(Vestida já na longa camisola cor marfim, de rendas e bordados, Victoria aproxima-se da varanda dos seus aposentos, para relembrar o momento perturbador que passou com aquele ser magico e macabro. Sentia medo e curiosidade… era como se ela tivesse algo de poder nas mãos, e assim, deixa escapar um sorriso no canto da boca. No corredor dos seus aposentos, vem Frederico, que queria aproveitar para ter uma noite com a sua senhora. Ele aproxima-se da porta, e não faz cerimonia de entrada. Cesar, que passeava por perto para ir-se deitar, vê Frederico junto a porta e esquiva-se para não ser percebido. Frederico entra e Cesar deixa escapar um triste semblante ao imaginar a sua rainha nos braços do marido).
Frederico (aproxima-se dela e abraça-a por trás) – O que tens, senhora minha?
Victoria (assusta-se mas acalma-se com aqueles braços que agarravam-lhe o corpo) – Não tenho nada, meu rei… estou bem. Não tenhas preocupações comigo.
Frederico (vira-a para si e acaricia-lhe o rosto) – Ainda estás aborrecida por eu ter gritado?
Victoria (solta-se dele) – Mas é claro que não. (Diz num tom soberbo).
Frederico (abraça-a forte e sussurra-lhe ao ouvido) – Perdão por ter sido mau para ti.
Victoria (olha-o com orgulho) – Não há nada para perdoar. Eu não senti nada… não me afetou.
Frederico (sorri) – Não mintas, minha rosa… que eu vejo o ciúme a queimar-te o olhar.
Victoria (solta-se mais uma vez. Está inquieta) – Bem… eu lamento imenso, mas sua majestade não me terá esta noite. Estou muito cansada… prefiro dormir, se não te importas.
Frederico – Não quer fazer amor comigo porque estás aborrecida? (Agarra-a) Vais resistir?
Victoria (suspira quase cedendo aos encantos do seu homem) – Frederico… por favor!
Frederico (beijando-lhe o pescoço desnudo) – Esta noite não quero cumprir função nenhuma. Esta noite não quero reza, nem me ajoelhar. Esta noite quero fazer amor como um camponês.
Victoria (a derreter-se, deixa escapar uma voz em suspiro) – E como um camponês faz amor?
(Vira-a para si e beija-a intensamente, com os lábios escaldantes e o corpo a tremer por ela. Os dois vestidos em fino pano, estavam nus por baixo… nada havia de fronteira para as suas partes pubianas unirem-se. O rei, atira-a a cama e beija-lhe a pele que restava sem pano a cobrir… era pouco o estimulo sem ver nudez, mas eles imaginavam-se nus, com os corpos colados pelo suor do exercício. Frederico, gentilmente, hasteia a saia da longa camisola à altura dos joelhos, sem olhar para as pernas descobertas, ainda que esposa fosse, eram-lhe proibidas a vista. O membro, já ereto, é-lhe posto dentro. Mexiam-se para frente e para traz, sempre na mesma posição, sempre na mesma frequência, mas agora sem o catolicismo em cima. Havia sobre eles dois olhos verdes enfeitiçados, que os observava com obsessão. Ouvir: Paolo – Malafemmena. Cesar, esgueirado à brecha da porta, via-a e ouvia-a gemer nos braços do rei. Cesar estava perturbado com aquela senhora que lhe parecera roubar-lhe os pés e o ar. Sentia o coração acelerado, e o sangue a ferver. Tinha vontade de espetar uma estaca ao rei para roubá-la dele. Cesar deixa escorrer um suor injustificável naqueles quinze graus de outono. Fecha a porta, inconsolado e ao mesmo tempo desconsertado por não compreender aquele sentimento recente e avassalador. Caminha em direção à sua ala dos aposentos, apoiando-se nas paredes, pois as pernas já não lhe serviam mais. Entra no quarto como um louco desesperado que não compreendia aquele calor insano).
Cesar – O que é isto, meu Deus? Porquê eu perco a voz e a razão diante daquela mulher? O que há de poderoso naqueles olhos ciganos que me roubam o ar? Vede, senhor, ela é uma rainha vestida em ouro e eu sempre serei nada mais que um reles empregado, cuja função é levar mensagens mas que se me for ordenado limpar a sujeira do chão, terei de o fazer. Não sou nada, não sou nem poeira perto daquele ser triunfante e formoso. Meu Deus, não me deixai perder a lucidez por uma mulher proibida… eu vos imploro!
(Nasce o sol. O rei e o Gran Duque reúnem-se no quarto da delfim para examinar a situação).
Gran Duque – Meu rei, há que se tomar uma atitude imediatamente sobre a rainha da França.
Frederico – Ora, Gran Duque, mas porquê? Combinamos que ela ficaria…
Gran Duque – Não é isso, majestade. Ela é humana, precisa de comer e precisa de água. Se o feitiço não a matou, então a fome e a sede hão de o fazer.
Frederico (desatina e senta-se ao lado dela) – Tens razão, Gran Duque. O que faremos?
Gran Duque – Precisamos de uma criatura de fábula para responder a esta questão. Em Itália, ouviu-se falar de uma jovem princesa que há muitos anos atrás espetou o dedo numa roca de fiar e caiu em sono profundo, mas despertou com o beijo de um príncipe. Ela possuía três fadas madrinhas… são boas. Talvez nós as devêssemos convocar.
Frederico – De acordo, Gran Duque. Faço qualquer coisa para tirar esta mulher do sofrimento.
(O Gran Duque, atendendo às ordens do rei, retira-se deixando-o a sós com ela. Entra Cesar).
Cesar (abaixa o olhar ao ver Frederico) – Saudações, sua altesa. (Curva-se).
Frederico (a olhar para ela) – Não é justo, meu caro mensageiro. Ela é tão bela…
Cesar – De facto, ela é… mas para si, não é mais bela que a vossa rainha, suponho eu.
Frederico (cala-se e consente) – Conta-me da história dela, por favor, mensageiro Cesar.
Cesar (senta-se num cadeirão de veludo avermelhado que ficava ao pé da janela) – A história é longa, mas é bonita. (Ouvir: Bungaro — Notizia Di Te) Foi há mais de vinte anos…
Frederico (olha para ele impaciente) – Por favor, mensageiro, abrevia!
Cesar – Quer ouvir ou não, meu senhor? (Frederico aquieta-se) Sua majestade D. Maria Paula era filha de um mercador muito rico. Ficara órfã de mãe ainda criança. Os anos passaram-se e o bom homem sentiu que faltava mais alguma coisa à jovem filha… o carinho de uma mãe. Ele então casa-se com uma renomada viúva de grande porte que trazia consigo o peso de duas filhas. Um dia, o comerciante precisou sair em viagem, deixando a pobre filha aos cuidados da madrasta que ao parecer, era gentil. Mas o mercador acaba por falecer desamparando a sua família. Sem empregados, a doce menina fora transformada em criada, pois sendo a madrasta a dona de todo o património do pai, era um favor que ela pudesse lá morar. Pobre de D. Maria Paula que era quase uma escrava… mas um dia, é lançada a notícia de que um baile será dado em hora ao príncipe e que escolheria uma das damas para desposar. Infelizmente, D. Maria Paula estava impedida de comparecer, por ordem da madrasta e por falta de roupa. Ela conseguira reformar um velho vestido da sua mãe, mas a madrasta acho que seria uma ofensa levá-la tão mal vestida. Mas, curiosamente, e misteriosamente, ela apareceu no baile com o mais formoso vestido. Nunca antes nenhum daqueles convidados ficaram tão hipnotizados com tamanha beleza. O príncipe logo tomou-a para si em dança. Estranhamente ela fugiu à meia noite, não se sabe o porquê. Saiu e deixou cair um sapato feito inteiramente de cristal, o mais fabuloso que o era. O sapato fora calçado em dama por dama, até que nós a encontramos. O príncipe e ela casaram-se, tornaram-se reis e bem… ai tem o resto da história.
Frederico (intrigado) – É incrível… poderia ser uma história contada em livros.
Cesar – De facto, majestade… Mas vede, que ela governou a França com perfeição, até que apareceu aquela mulher maldita. Que desgraça foi para todos nós, ter que ver aquele amor destruído pela maldade de uma mulher sem coração e alma.
Frederico – Essa… condessa e esse conde hão de pagar por todos os males feitos a vós.
(Em França, o conde está inquieto. Chama pelo mensageiro e procura por ele, preocupado).
Conde (irritado) – Onde está aquele palerma que não o tenho a postos? Onde está?
Criado (curvado) – Meu senhor, o mensageiro foi embora… eu lamento.
Conde (espantado) – Embora? Mas… para onde iria aquele morto de fome? Diz-me!
Criado – veio aqui um homem, meu senhor… era estrangeirado. Buscava por vós, mas o mensageiro tratou de tudo e logo depois partiu com ele sem apresentar justificativas.
Conde (agarra-o pela gola) — Como assim vieram procurar por mim e vocês não me dizem?
Criado (a tremer) – Eu lamento, meu rei… mas não pensei que fosse de grande importância…
Conde (atira-o ao chão e diz para os guardas) – Guilhotina para este imprestável já! E este será o fim de todos os que se atreverem a ser incompetentes!
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