Espelho

5 Capítulo O5: PRATOS LIMPOS


ESPELHO

Escrita por Coffee

CAPÍTULO O5: PRATOS LIMPOS

Naruto voltou no outro dia à noite. Não falou com ela, embora ela voltasse novamente a pedir desculpas ele continuava impassível. Sasuke não voltou em nenhum dos últimos dois dias, imaginou que talvez ele estivesse em missão ou que simplesmente tinha algo mais importante para fazer do que ficar sentado no hospital.

Depois que Naruto foi embora, apenas meia hora após ter chegado ela passou os últimos dois dias sozinha. Sua única companhia era alguma enfermeira que aparecia de horas em horas. Tsunade também não vinha ver-lhe há quatro dias. Embora lhe fossem mandado relatórios todo dia do seu estado de saúde ela não viera a ver, provavelmente ocupada com os compromissos da vila. Kakashi também não veio, ele só havia lhe visitado uma vez desde há uma semana que estava ali.

Ouviu uma batida leve na porta. A madeira branca foi aberta lentamente e a figura delicada passou por ela com mais flores nas mãos. Também notou um livro na outra. Hinata estava com as bochechas levemente coradas e com um sorriso gentil.

— Bom dia Sakura-san.

— Bom dia Hinata.

A morena andara até o vaso posto na escrivaninha e trocou as flores antigas – que ela própria trouxera — e colocara as novas no lugar. Seguira alguns segundos enquanto ela foi ao banheiro jogar as flores antigas e voltou.

— Obrigada pelas flores, é muito gentil de sua parte Hinata.

— Imagine, eu... Trouxe-lhe um livro também, sei que gosta de ler e... Pensei que seria um bom passatempo já que está de repouso aqui.

— Oh! — Pegou os livros de capa bonita das mãos da morena analisando-o, realmente ela adorava ler e seria uma ótima maneira de se distrair — Muito obrigada!

Colocou o livro delicadamente ao lado das flores para que tivesse fácil acesso na hora que fosse ler. Hinata sentou no sofá, com as mãos em cima do colo como uma boneca. Ela e Hinata não eram amigas, pensou, mas Hinata fora à única – além de seu antigo time e Tsunade – que viera visitá-la.

Ela e Ino não eram mais tão próximas e devido ao seu sumiço momentâneo provavelmente não tinha mais nenhuma amiga também.

— Sakura-san, — a voz doce se fez presente — sei que não somos muito próximas, mas... Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa pode contar comigo.

Sorriu, ela nunca havia imaginado que a garota cálida e tímida que mal falava com ela ou com alguém, algum dia lhe traria tanto conforto.

♦ ♦ ♦

— Quando vou poder sair daqui?

— Talvez daqui dois dias — Respondeu-lhe Tsunade analisando sua ficha.

A loira havia chegado há dez minutos. Naquele dia só recebera a visita de Hinata logo cedo que teve de partir logo, assim que um ANBU chegara e a avisara a Hyuuga de uma missão. Ela partiu prometendo a rosada que voltaria para vê-la o mais rápido que pudesse.

A morena de cabelos azulados tinha lhe ajudado e lhe apoiado muito desde que havia acordado no hospital, embora as visitas da garota fossem poucas ela lhe trazia muito conforto.

Hinata continuava a mesma, talvez não tão tímida quando antes, embora sempre corasse ao falar com alguém. Teve vontade de perguntar a ela como ia seu relacionamento com Naruto, ela sabia do envolvimento silencioso e discreto dos dois, talvez para que o próprio pai de Hinata não descobrisse de seu envolvimento.

Antes de ir para a missão – da qual passara muito tempo fora -, os dois já tinham um envolvimento, ela mesma já os tinha visto algumas vezes sentados lado a lado nas mesas do Ichiraku lámen e torcia para que o quase namoro ou namoro secreto dos dois desse certo. Hinata era uma ótima pessoa, gostava de Naruto e ela sabia que poderia fazê-lo muito feliz.

— Não seria aconselhável que ficasse sozinha em seu apartamento, Sakura.

Foi interrompida de seus pensamentos pela voz da loira. Sabia muito bem que o medo e a preocupação da sua shishou era que ela se entupisse de remédios novamente.

Embora ela soubesse que não poderia – e não faria -, isso novamente, era lógico que a loira desconfiaria. Sabia dos perigos que seria caso ela voltasse a tomar os comprimidos novamente, principalmente na quantidade e frequência que estava tomando antes.

— Não se preocupe Tsunade-sama, não acontecerá novamente, além disso sei me cuidar sozinha.

— Claro que sabe se cuidar sozinha, tanto que dá ultima vez passou horas desmaiada no chão da sua cozinha e Sasuke teve que arrombar a porta de sua casa para tirá-la de lá.

— Volto a repetir que não acontecerá novamente.

— É o que espero Sakura.

Não respondeu, olhou para baixo envergonhada. Tinha vinte e um anos e não cinco. Mas era o que parecia, já que não sabia nem cuidar de si mesma.

— Olha Sakura, não vou obrigar-lhe a falar nem te encher de perguntas sobre o porquê e o que te levou a fazer isso, mas se por acaso algum dia quiser falar... Estarei pronta para ouvir.

— Obrigada shishou — Sua voz saiu um sussurro, mas a Hogake já tinha saído porta pela porta, deixando-a sozinha novamente.

Seu olhar recaiu para a janela, a lua escondida entre as nuvens deixava seu quarto ainda mais escuro. Um vento gelado que entrava pela janela balançou seus cabelos róseos e seu corpo tremeu de frio.

Não podia e não conseguiria levantar para fechar a janela e não queria chamar uma enfermeira, sabia como era árduo o trabalho delas e como havia pessoas naquele hospital que precisavam mais das enfermeiras do que ela para fechar uma janela.

Puxou mais o fino lençol branco cobrindo todo seu corpo fragilizado e dolorido por ficar tanto tempo deitada na mesma posição; só havia sentado alguns minutos nos últimos dias quando a enfermeira chegava com sua refeição e logo a deitavam novamente e era assim que ela passava o resto do dia.

Olhou para o céu escuro e sem vestígios da lua. Sentiu-se sozinha. Com saudades de seus pais, de Naruto, de Hinata e até do silêncio de Sasuke.

♦ ♦ ♦

Quando acordou sentiu que alguém a observava. Girou a cabeça lentamente sentindo a dor incomoda no pescoço, provavelmente resultado do mau jeito em que dormira.

Naruto a olhava fixamente. Estava sentado no sofá com sua típica roupa laranja. Quando percebeu que ela havia acordado desviou o olhar e não disse nem ao menos uma palavra.

— Bom dia — Sussurrou com a voz fraca por ter acabado de acordar.

Ele não respondeu nem olhou para ela. Reparou quando ele mordeu o lábio três vezes seguidas como se estivesse se segurando para não dizer algo, como se fosse algo que fosse se arrepender de dizer.

Ele olhou para ela, frágil e delicada na cama. Ela ainda não havia recuperado sua cor, e estava ainda mais magra; resultado das comidas leves do hospital. Caso ela não estivesse em um hospital ele diria que ela estava morta, com sua pele pálida com sua boca sem cor e com seu corpo imóvel.

A vontade de perguntá-la o porquê de ela ter feito aquilo consigo mesma coçava em sua boca. Sabia que caso falasse poderia acabar a magoando, mas a vontade de colocar aquilo em pratos limpos era cada vez mais evidente.

— Porque fez isso? — Sua voz havia saído mais dura do que queria.

Viu a kunoichi arregalar os olhos, embora ele não soubesse se era de surpresa por ele ter falado com ela ou se era pela pergunta. Ela não respondeu imediatamente. Sakura olhou para um canto fixo na parede e depois olhou para ele.

— Eu... Eu não queria magoar-lhe.

— Eu não perguntei isso. Quero saber por que fez isso com você.

A voz de Naruto era fria feito gelo. Não parecia o garoto escandaloso e sorridente que ela conhecia. Não parecia o ninja hiperativo e cabeça oca, de roupa laranja que andava de um lado para o outro sorrindo e gritando. Não parecia o seu amigo loiro. Naruto parecia outra pessoa. Naruto parecia Sasuke.

— Eu... Eu... Desculpe-me Naruto. Por favor, peço que me desculpe.

Ficou irritado. Além de abandoná-lo, esconder dele o seu sofrimento, e agora ficar sabendo pela boca da Hogake que Sakura tomava remédios feito louca, ela ainda não respondia as suas perguntas.

— Não acredito nisso Sakura. Não acredito nisso!

Sua voz saiu feroz. Parou. Aquela não era sua intenção. Viu Sakura se encolher, ela estava com os olhos marejados e assustados como uma criança que levava broncas dos pais. Mas ele tinha que continuar, precisa botar aquilo para fora.

— Não acredito... Além de ir embora e abandonar as pessoas que gostavam de você, ainda você foi afogar suas magoas em remédios Sakura?

— Eu...

— Você sabia que esses remédios lhe ofereciam risco à saúde! Você é médica Sakura, sabe o que esses remédios podem causar!

— Naruto, eu... Eu não queria...

— Você poderia vir falar comigo, eu teria lhe ajudado, teria dado-lhe apoio, ao invés de ir atrás dessas drogas! O que você estava tentando fazer? Se matar?

— Claro que não Naruto eu —

— Não tente se explicar Sakura. Não peça desculpas, não fale nada. Você não é mais a Sakura que eu conheci, não é mais a menina que eu amei por tantos anos e depois continuei amando, embora fosse um amor fraternal. Você não é mais a Sakura de antes, essa Sakura, fraca, assustada e que se entope de remédios para tentar fugir das suas dores, das suas obrigações não é quem eu conheço. Não é.

Viu o loiro sair mais uma vez batendo a porta. E novamente ela não pode fazer nada. Não pode fazer nada a não ser chorar. Hinata abriu a porta assustada minutos depois. Provavelmente havia ouvido seus soluços altos. Ela caminhou até a cama e se sentou na beirada, ajudou-a a se sentar e a abraçou delicadamente, deixando-a chorar.

Agradeceu mentalmente pela atitude gentil de Hinata. As lágrimas caiam e pingavam na cama, na sua roupa e na blusa da morena. Mas o pior era a dor que sentia, a dor corroia seu peito. Seu peito parecia explodir.

Havia feito tanto mal a Naruto, como ela pode? Como pode fazer tanto mal ao seu amigo amarelo e laranja? Seus olhos já arranhavam quando piscava, de tanto chorar. Seu coração batia descompassado, seu corpo estava mole. A dor era absurda. Corroia e doía e doía. A dor queimava sua alma, seu peito, seu coração.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Peço desculpas pela demora. Agradeço a cada um de vocês que reservaram alguns minutos do seu tempo para mandar um comentário, em breve respondei a todos. Até o próximo capítulo.