Especial Fim de Ano
15 Noite de Ano Novo - Amanda Lima
Notas iniciais
Um pequeno envelope branco passou por debaixo da porta do chalé 4. Pela janela ao lado da porta, Katie viu uma das meninas do chalé de Hermes se afastar. Se abaixou e pegou o envelope. Abriu-o. Dentro, um pequeno cartão decorado com fogos de artifício anunciava a “festa de ano novo” na praia, em algumas horas, e convidava todo o chalé a comparecer. Música, comida e bebida, queima de fogos à meia noite. Mas ela não se sentia exatamente em clima de festas naquele dia.
Era o primeiro fim de ano de Katie no acampamento; o pai havia viajado a negócios e ela passara os últimos dias, recesso das aulas, no acampamento, que tinha um ar totalmente diferente durante o inverno. Estava quase vazio, sem a presença de todos os campistas de verão. E estava frio. Mesmo o clima sendo magicamente controlado, havia uma fina camada de neve sobre os telhados dos chalés. Ela não estava nem um pouco animada de ter que sair do conforto quentinho de seu chalé pra uma festa ao ar livre, na praia, de noite.
Deixou o convite na mesinha ao lado da porta, pra que os irmãos a vissem, e se retirou para os dormitórios. Seu pai viria na tarde seguinte, era a hora de fazer as malas.
Pegou a mala, esvaziou sua parte do armário e se sentou no chão. Não demorou muito, alguém mais entrou no quarto.
– Uau, que bagunça!Está difícil escolher a roupa pra festa? – Miranda balançou o convite.
– Ah, não. Na verdade, estou arrumando as malas pra amanhã... Você sabe, vou embora e tal. Não vou à festa. – Ela deu de ombros.
– O quê?Mas por quê não?
– Não estou com humor pra isso.
– Mas Katie, é ano novo!E se vai embora amanhã, é o jeito perfeito de se despedir do acampamento por enquanto. E você sabe quem vai estar lá...
Miranda usou um tom provocativo na última frase.
– Se você estava tentando me animar a ir à festa, acabou de estragar tudo.
Miranda riu.
– Estou só brincando. Vamos, Kate. Vai ser divertido. Ou você prefere passar a noite aqui sozinha?Que sem graça.
– Ai, grande coisa. Ano novo.
– Ah, vamos!Eu quero ir, mas não sozinha. Faça isso por mim. Vocês não precisam nem se falar, vai ter mais gente lá além de vocês dois, né.
– Mas Miranda...
– Não, é sério. Vamos?
Katie soltou um suspiro. Miranda não pararia de insistir até que ela topasse.
– Ta. Pode ser. Mas se ele vier de gracinha eu volto pro chalé e não falo mais com você.
...
Mais tarde, as duas se dirigiram juntas à praia. Já eram mais de oito horas, e todo mundo estava por lá. Havia uma mesa enorme num canto perto da entrada, com todo tipo de comida e bebida (menos alcoólica, claro, já que Quíron estava por perto). A noite estava com um clima ameno, e as ondas quebravam lentamente perto dali. A música, animada, tocava alto e a praia toda servia como pista de dança. Fincados na areia até onde se podia ver nas extremidades da praia, estavam um tipo de cones, que soltariam a chuva de prata à meia noite.
– Caramba. Eles capricharam. – Miranda observou.
– É, ficou bem legal...
Katie continuaria a falar, mas alguém chamou Miranda, à distância.
– Ahm, Katie, já volto.
Ela saiu de perto e Katie, sozinha, olhou à sua volta, procurando alguém com quem pudesse conversar. Infelizmente, olhou pro lado errado. Travis e Connor conversavam e riam perto dali. Os olhares deles se encontraram, e Katie desviou rápido, mas não o suficiente. Lá vinha Travis.
– E aí, se divertindo?
Ela não olhou pra ele.
– Não mais.
Ele foi para sua frente, pra entrar em seu campo de visão.
– Ei, não precisa ficar com essa cara emburrada pra sempre, sabia?
Ela não respondeu.
– Ah, qual é, Katie?Foi só uma brincadeira! – Ele disse, referindo-se a um pequeno incidente acontecido uns dias atrás.
– Brincadeira?Bem, não foi nada engraçado pra mim.
– Você tem que aprender a levar as coisas na esportiva.
Katie sentiu o rosto queimando e o humor, piorando.
– Só que há algumas coisas que não dá pra levar na esportiva!Você é que tem que aprender que não dá pra fazer piada com tudo. Se parasse um momento de rir da sua própria piada idiota e olhasse à sua volta, veria que nem todo mundo acha você tão engraçado.
Ela disse e se afastou. Ele a seguiu.
– Ei, Kate, espera. – Ele não estava mais sorrindo.
– Me deixa em paz, Travis.
– Não, é sério. – Ele suspirou. – Olhe... Me... Me desculpe, ok?Eu não sabia que você ia ficar tão chateada.
– Mas fiquei.
–... Tudo bem, há algum jeito de eu compensar isso?
– Na verdade, tem sim: saindo de perto de mim.
– Essa opção não está disponível... Ah, já sei: vou compensar aquela noite com a de hoje!Que tal?
– Não mesmo!
– Qual é, Katie!Já pedi desculpas. E ofereci uma solução. O que você quer?
– Que você vá embora. – Ela disse, distraída, tentando localizar Miranda.
– Só me dê uma chance!
– Porque você está tão insistente?
– Porque eu quero provar que posso ser legal. Já vi que você está sozinha aí, então, por que não?
Ela suspirou.
– Você não vai desistir, não é?
– Não.
–... Uma dança. Uma dança e você cai fora. Essa é a chance que eu vou te dar. Nada mais.
– Tudo bem! – Ele sorriu e a puxou pela mão onde havia mais gente dançando.
Os dois estavam um tanto travados, já que não eram exatamente amigos, e ficavam um tanto sem graça de tentarem agir normalmente.
Quando a música terminou, Katie estava pronta pra se afastar, mas Travis segurou sua mão.
– Ei!Já vai?
– Eu disse uma música.
– Ah, fala sério, Katie. Vai me abandonar aqui na pista?Achei que estivesse se divertindo.
–... – Ela estava pronta pra dizer que não, mas ele começou a fazer uns passos muito estranhos, tipo old school, e ela não conseguiu evitar sorrir. – Para com isso!As pessoas estão olhando. – Ela disse, rindo da cena de ridículo que ele estava fazendo.
Ele parou e sorriu.
– Ahh, você está rindo!Eu consegui!
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.
– Você é um idiota.
– É, eu sei. – Ele balançou a mão à sua frente, insistindo. – Vamos lá, Katie. Sua mão não vai cair se você aceitar a minha.
Ela revirou os olhos. Relutante, aceitou a mão dele e voltara a dançar.
Com o passar das horas, eles dançaram, comeram e conversaram. Travis mostrou que podia realmente ser legal quando não estava tentando pregar peças em ninguém. E então, de repente, eles ouviram um som alto, um estouro seguindo outro, e a chuva de prata caiu sobre eles.
– FELIZ ANO NOVO!
Ouvia-se essa frase por todo lado, e os casais à sua volta trocavam o tradicional beijo da meia noite. Eles se olharam, corando. Estavam suficientemente perto, mas Travis limitou-se a sorrir, e foi a primeira vez que viu o garoto ficar sem graça.Ela fez o mesmo, secretamente desapontada.
– Feliz ano novo.
– Feliz ano novo.
Ela desviou o olhar e viu enquanto o primeiro dos fogos estourava, lá em cima, com um estouro alto e cores vibrantes. Logo vários outros o fizeram. Ela estava encantada.
– Ei, Kate. – Ele a chamou. Ele estava bem perto dela agora. Quando se virou, sentiu os lábios se encontrarem. Num primeiro momento, a surpresa a fez se afastar, mas logo depois, voltou a se aproximar e relaxou, deixando-se levar pelo momento e pelo beijo de Travis.
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