Espírito de Revolução
6 Histórias do Passado
Notas iniciais
— Este desenho de que você fala é simplesmente o símbolo de uma poderosa sociedade, que várias vezes definiu o curso da História humana: a Irmandade dos Assassinos — contava Achilles. — Agora ouça, muitos que conhecem a Irmandade pela primeira vez pensam que sua tarefa é apenas matar e espalhar o caos. Mas os Assassinos não são meros assassinos. Sua tarefa é preservar o bem mais valioso da humanidade: sua liberdade. Mas qual tipo de liberdade, você deve se perguntar.
Eu não disse nada. Apenas permaneci quieto em minha cadeira, enquanto as gotas de chuva batiam nas janelas e a lareira aquecia a nós dois.
— É a liberdade de pensamento. Os Assassinos procuram ensinar aos homens que não existe uma verdade absoluta predefinida. Cada “verdade” tem mais de um, às vezes vários pontos de vista diferentes. E cabe ao indivíduo pensar por si próprio para descobrir qual é o caminho certo a se seguir. E, mesmo assim, compreender que esse caminho, no entanto, não é totalmente certo, do mesmo modo que os outros não estão totalmente errados.
— Mas... — Eu perguntei, tímido. — Se nada é totalmente certo, por que buscar qualquer objetivo então?
Achilles me observou, ajeitou as costas e voltou a discursar.
— De fato, garoto, a perfeição é inatingível. Depois de tudo que vi nessa vida, posso confirmar isso. Mas qualquer um concorda que, se não a buscarmos, acabaremos regredindo, não é mesmo?
Assenti.
— A Irmandade dos Assassinos já tem no mínimo 600 anos, embora alguns acreditem que ela date de muito antes. De qualquer modo, a Irmandade tinha como base um grande castelo na vila de Masyaf, no meio do Velho Mundo, e atuava na região conhecida como Levante, que hoje faz parte do Império Otomano. Os Assassinos vestiam mantos brancos e encapuzados, e usavam armas discretas para matar aqueles que a Irmandade considerava inimigos do livre-arbítrio humano. Dessas armas, a mais icônica é a lâmina oculta: um dispositivo preso ao pulso esquerdo do usuário, que liberava uma faca silenciosa quando acionado.
Achilles falava daquilo com uma convicção que me fazia ter certeza de que estudara muito o assunto. Era um homem bastante culto, e isso estava claro. Ele levava esse conhecimento a sério.
— E é por isso que se chamam Assassinos? — perguntei. — Porque sua tarefa é principalmente assassinar?
— De certa forma, sim. Mas a arma mais poderosa de um Assassino é a discrição em si. Um Assassino deve se esconder em meio ao povo, sem chamar atenção, para roubar informações valiosas ou, enfim, matar os inimigos.
— Mas que inimigos são esses?
— Ah, essa é uma pergunta importante — disse, esboçando um sorriso. — A Ordem dos Cavaleiros Templários. A grande antítese da Irmandade e seus maiores inimigos. Uma instituição tão antiga quanto, que busca apenas o controle da sociedade. Eles acreditam que a humanidade deve ser guiada; e as liberdades e identidades individuais das pessoas, reprimidas.
— Mas isso foi há séculos... o que aconteceu com os Assassinos?
— No século XIII, a Irmandade estava duplamente ameaçada. De um lado, os Templários ainda ocupavam a Terra Santa. Do outro, o Império Mongol se expandia com força incomparável. Altaïr Ibn-La’Ahad, o mais importante Mentor Assassino da história, viu nisso a oportunidade perfeita para fazer aquilo que ele buscava há seis décadas: esconder a Irmandade. A História diz que os mongóis extinguiram os Assassinos, mas a verdade é que a Irmandade apenas se ocultou. Altaïr transmitiu seus conhecimentos ao italiano Niccolò Polo, que se responsabilizou pelo crescimento da Irmandade. Escondidos nas sombras, os Assassinos secretamente se espalharam por todo o Velho Mundo, e desde então vêm interferindo na política mundial sem que ninguém o saiba. O único problema é que... bem, os Templários fizeram o mesmo, e continuam a ser uma pedra no sapato. Ou uma montanha, se preferir, já que, aqui nas colônias, são eles que detêm todo o poder.
— Como assim?
— Não há apenas uma irmandade, garoto. Cada país, cada reino e colônia tem sua própria divisão dos Assassinos. E a Irmandade Colonial do Norte passou por alguns... problemas tempos atrás.
— Quais problemas? Como está a Irmandade hoje?
Achilles se mexeu em sua cadeira, curvou-se sobre a bengala, e, me encarando, disse:
— Está olhando pra ela, garoto.
Ele percebeu que eu continuava sem entender.
— A Guerra dos Sete Anos. Naquela época, a Irmandade era enorme. Sob a minha liderança, nós éramos ativos em toda a costa, da Pensilvânia ao Quebec. Mas então... Os Templários chegaram à Nova Inglaterra, e nos atacaram até sermos exterminados. Os poucos sobreviventes abandonaram a causa. Quanto a mim... Permaneci aqui, sozinho no local que um dia foi nosso quartel-general.
Seu rosto ficou triste. Ele estava claramente abalado, como se os anos da guerra tivessem sido de fato traumatizantes.
— Eu... lamento. — comentei.
— Ora. Não lamente o que não foi culpa sua. Agora, deixe que eu faça as perguntas: o que exatamente o traz aqui?
— A líder espiritual de minha aldeia... Uma vez, ela me mostrou uma esfera brilhante, mágica e transparente. Quando eu a toquei, um espírito se mostrou pra mim. Ele me mostrou visões horríveis de pessoas morrendo e sofrendo. Me disse que... você me treinaria para que eu pudesse impedir que as visões se tornassem realidade. Você... sabe o que isso significa?
— Ah... sim, faço uma ideia. Esse espírito de que você fala provavelmente é... — Ele hesitou, como se estivesse prestes a cometer um erro. — Mas essa é uma outra história; talvez um dia eu a conte. O caso é que os Templários buscam tomar o controle das colônias. Se conseguirem, as visões que você teve de fato acontecerão.
— Então irei pará-los. Foi por isso que parti de casa. Para salvar meu povo.
— Ah, não tenho dúvidas de que você tentará.
Houve um silêncio no ar.
— Perdoe a minha curiosidade: como você aprendeu a falar Inglês tão bem?
— Minha... — Senti a dor das memórias. — Minha mãe insistiu em me ensinar. Dizia que eu precisaria algum dia.
Levei minha mão ao colar dela, sempre em meu pescoço. Nesse momento, lembrei-me do que a Mãe do Clã e Saksa:ri haviam dito.
— Por falar em minha mãe... Disseram-me também que...
Eu me silenciei.
— O que disseram?
— Disseram que o senhor já trabalhou com ela. É verdade?
Achilles ponderou por um momento.
— Você não é o primeiro de seu povo a vir aqui. Eu já tive aliados entre os indígenas. A julgar pelas suas vestes, você é da Confederação dos Iroqueses, não?
— Sim. Da nação Kanien’kehá:ka.
— Kanien’kehá:ka... — completou, com uma pronúncia imperfeita. — Qual é o nome de sua mãe?
— Kaniehtí:io.
— Ziio? Sim, de fato eu a conhecia bem. Era uma mulher forte, a sua mãe.
— Ela... era uma Assassina?
— Não. Apenas uma aliada e uma amiga. Há muito dela em você. — Ele permitiu-se abrir um sorriso. — Como ela está agora? Eu adoraria revê-la.
Engoli em seco.
— Ela faleceu. Nove anos atrás.
Achilles arregalou os olhos.
— Por Deus... Sinto muito, garoto. — Eu não disse nada, mas assenti para agradecer. — E seu pai? Eu o conheço?
— Duvido. Nem eu o conheci.
— Como?
— Desde que nasci, fui criado pela minha mãe. Ela nunca mencionou meu pai, mas eu creio que ele era europeu.
— Entendo... — Achilles ficou pensativo, como se estivesse ligando pontos. — Sua pele é de fato mais clara do que o normal para os iroqueses.
— Sim, já me disseram isso.
Nesse momento Achilles se levantou da cadeira, e começou a se dirigir para o corredor central da casa, sempre se apoiando na bengala.
— Venha comigo. Tenho algo a lhe mostrar.
Segui-o em seu ritmo lento. Ao sairmos da sala de jantar, chegamos ao corredor. Ele era relativamente estreito. À direita, uma escada levava para o piso superior. Nas paredes, candelabros acesos iluminavam o escuro daquela noite. O chão era composto por tábuas de madeira que rangiam alto conforme pisávamos.
— Tome cuidado — advertiu Achilles. — Eu não estava brincando quando disse que esse lugar poderia desmoronar.
— Então por que você não conserta? — perguntei.
— Pra quê? Essa casa não presta pra mais nada. E, além do mais, não tenho os materiais necessários para o serviço.
— Então compre-os.
— Há! Olhe para mim! Você acha que eu posso simplesmente ir entrando em alguma loja com uma bolsa de dinheiro e fazer compras?
— Sim... Por que não?
— Tão ingênuo...
Continuamos andando até a parte traseira da escada. Abaixo dela havia apenas pedra, formando duas paredes vazias. Ao menos era o que eu pensava, já que Achilles foi andando até um canto onde havia um candelabro. Com o braço direito, ele pressionou o objeto para baixo, e então ouvimos um barulho vindo de debaixo da escada. Quando Achilles empurrou a parede, percebi que não era uma parede: era uma porta. Uma porta discreta e muito bem escondida. Quando o velho a abriu, pôde-se ver uma outra escada, paralela à primeira, mas que levava para baixo. Achilles então segurou a vela do candelabro e começou a descer.
— Por aqui — disse ele.
Desci, seguindo-o, penetrando o porão escuro onde a única iluminação era a vela de Achilles. Ele a usou para acender dois candelabros, e então pude ver claramente.
O porão era empoeirado, grande e espaçoso. Em um canto havia armários e prateleiras com espadas, machados, pistolas e outras armas. De outro lado, uma larga escrivaninha com algumas cadeiras. Espalhados pelo piso havia alguns manequins de madeira, que eu supus que serviam para o treinamento de combate. Presa à parede estava uma roupa que me chamou a atenção. Era um manto bege com detalhes escuros. O manto fora feito para cobrir todo o torso do usuário e se estender até suas pernas. Como Achilles dissera, havia um capuz, com uma ponta em sua extremidade, simulando o bico de uma águia. Fiquei praticamente hipnotizado pela roupa. Ela dava uma sensação de poder. Aproximei-me dela, mas Achilles me repreendeu.
— Não pense que você pode apenas chegar aqui, vestir o meu antigo manto e dizer que é um Assassino. Ser um membro da Irmandade vai muito além disso.
— Eu... não... — disse, envergonhado. — Eu nunca me atreveria...
— Tudo bem. Eu entendo que ele tem um certo... apelo. — O velho contemplou o manto por alguns segundos, e em seguida completou: — Eu irei te treinar. E só então saberemos se você tem o direito de vestir esse manto.
— Obrigado, Achilles.
— Certo. Venha comigo! Há trabalho a ser feito!
— O que devo fazer?
— Comece tirando aquela tábua de cima da mesa.
Andei até a escrivaninha. Havia uma grande tábua quadrangular de madeira apoiada na parede. Retirei-a e a pus no chão. Quando o fiz, percebi cinco quadros pendurados, antes ocultados pela tábua. Cada um deles retratava um homem. Os cinco homens eram brancos e usavam roupas chiques, mas um deles especificamente me chamou a atenção.
Meu sangue pulsou em minhas veias conforme eu via o retrato. Um homem alto e magro com o cabelo preto penteado para trás, segurando um pequeno cachorro felpudo. Não pude deixar de reconhecê-lo, mesmo após tantos anos. Eu era uma criança na época, mas sua imagem estava fixa em minha memória. O nariz curvado, a testa franzida, o queixo protuberante... Mesmo sem bigode, eu o reconheci. Abaixo do quadro, li o nome do sujeito e então tive certeza: era ele mesmo. As memórias voltaram à minha mente como um tiro de pistola.
“Afinal, você é um nada! Um grão de poeira! Você e todo seu povo. Vivendo na sujeira como animais, isolados da civilização.”, ele dissera.
Charles Lee. O homem culpado pela morte de minha mãe, nove anos antes. Eu o havia conhecido apenas uma vez, mas já fora o suficiente para que eu o desprezasse com todas as minhas forças. Quando criança, eu havia jurado que o mataria. Ao longo dos anos, fui me esquecendo dessa promessa. No entanto, se Lee cruzaria meu caminho novamente... então não havia motivo para não cumprir o juramento agora, mesmo que matá-lo fosse dolorido para mim.
— Eu lhe apresento, garoto: — anunciou Achilles. — Os líderes do Rito Templário das Colônias Britânicas. Benjamin Church: Um cirurgião de Rhode Island, famoso na cidade de Boston por seu talento na Medicina. John Pitcairn: Um militar escocês, capitão respeitado nos fuzileiros navais britânicos. William Johnson: Um oficial irlandês, responsável pela diplomacia entre o exército e a confederação dos... — ele apontou para mim — ...índios iroqueses.
— Sim. Já ouvi falar dele em minha aldeia.
— Uma reputação boa ou má?
— No geral, boa. Soube que ele se aliou ao meu povo e liderou as tropas durante a Guerra.
— Exatamente. O próximo é Charles Lee. — E, quando Achilles falou esse nome fiquei duplamente interessado no assunto. — Um militar inglês e o segundo homem no comando dos Templários. Totalmente fiel às convicções da Ordem. Quase tão perigoso quanto o seu chefe. — finalizou, apontando para o último quadro.
— Haytham Kenway — eu li na parede — O líder deles?
Achilles ficou austero. Parecia que memórias ruins lhe vinham à cabeça.
— Haytham... O que há para explicar? Um nobre inglês. Grão-Mestre da Ordem Colonial dos Templários. Foi ele quem oficialmente trouxe os ideais templários à América Britânica, quando desembarcou em Boston quinze anos atrás. Depois disso ele e os outros Templários nos caçaram até o último homem. Ele promoveu uma ofensiva brutal contra os Assassinos. Perdi muitos amigos na época — concluiu, triste.
Observei o quadro que retratava o líder. Ele com certeza não parecia brutal. Seus olhos eram até convidativos de certa forma. Mas imaginei que era esse o seu disfarce. Provavelmente uma mente maligna se escondia por trás do rosto equilibrado, do cabelo liso e da barba completamente feita.
— Mas aparentemente ele te poupou. Por quê?
— Não estou isento de ferimentos — ele disse, tocando o joelho com a bengala. Abalado, prosseguiu: — Vamos apenas falar de outras coisas, sim?
— Não sobrou nenhum Assassino nas colônias além de nós?
O aparente ódio a Haytham mudou para ira quando ele me ouviu. Se antes estava sendo paciente comigo, agora estava visivelmente irritado.
— Ouça a sua petulância! “Nós”! Não há mais Assassinos, garoto. Eu sou um velho quebrado e resignado. Você é um iniciante que sonha com glória, mas lhe falta habilidade e experiência.
Eu murmurei, sentindo-me mal.
— Perdão. Não sou um Assassino, mas me sentiria honrado se um dia me tornar um. Talvez como Assassino eu possa ajudar meu povo. E foi por isso que eu vim mesmo...
O velho se acalmou, virou-se para mim e respondeu:
— Tudo bem, garoto. Apenas coloque em sua cabeça... — Ele apontou a bengala em minha direção. — ...que ser membro da Irmandade não é uma tarefa simples. Exige muita dedicação e sabedoria. Então não subestime isso. Se não estiver preparado, os Templários não hesitarão em te derrubar.
— Compreendo. — Fitei os quadros na parede. — Mas falando em Templários... o que eles querem afinal?
— O que eles sempre quiseram: controle. Eles veem uma oportunidade aqui na América Britânica. Uma chance para uma nova ordem, livre do caos do passado. É por isso que eles apoiam a Coroa britânica. Aqui eles têm uma chance para ilustrar os méritos de suas crenças: um povo inteiro a serviço da ordem e da estrutura.
— Eu já vi o que está pra acontecer se eles conseguirem. Eles devem morrer, não é mesmo? Todos os cinco.
— Sim. Cada um deles têm um papel diferente e essencial para a Ordem. Os Templários lentamente cairão se eles morrerem. Especialmente Haytham. É ele quem está no centro de tudo, mantendo a Ordem viva.
— Então entendi qual é minha missão. Mas o que devo fazer primeiro?
Achilles se virou e começou a subir pela escada que havíamos descido.
— O que fazer primeiro? Bem, já está tarde e eu sugiro dormir. Eu irei para a minha cama. Se quiser seguir meu conselho, há um quarto vago no andar superior.
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