Notas iniciais
Bom dia, boa tarde e boa noite a todos! Sem mais delongas, aqui está o capítulo de hoje. Como o título já entrega pra quem pegou a referência, este é um capítulo bem importante. Aproveitem e boa leitura! :)

Não consigo evitar que minha memória me leve ao dia fatídico. O dia em que tudo mudou. O dia em que eu conheci Charles Lee, o segundo homem no comando dos Templários. Sim, creio que devo descrever o dia. Era Novembro de 1760, e eu tinha quatro anos de idade. Estávamos em pleno outono, e, como eu costumava fazer na época, eu havia saído para brincar com meus amigos enquanto minha mãe ficava na aldeia, trabalhando nas plantações de milho.

Após o almoço, eu estava em casa revisando algumas das lições de inglês que minha mãe me passara. Eu estava incrivelmente entediado, lendo e repetindo a pronúncia das palavras no idioma estrangeiro. A sintaxe do inglês não me parecia ser muito lógica (embora na época eu sequer soubesse o que era sintaxe) e, como sempre, eu estava emburrado. Desse modo, quando ouvi um assobio vindo de fora da casa, parei imediatamente o estudo. Levantei meus olhos do caderno para ver quem havia assobiado: era Kanen’tó:kon, na porta da casa.

— Ei, Ratonhnhaké:ton! Quer sair para brincar?

Fiquei dividido. Eu queria sim, mas minha mãe havia me dito para terminar aquela lição. Desobedecê-la era uma ideia arriscada. Ela era carinhosa, mas conseguia passar um sermão quando necessário. Ela poderia ficar furiosa comigo se eu largasse a lição. E se tinha uma pessoa que eu não queria ver furiosa, essa pessoa era minha mãe.

— Não posso, Kanen’tó:kon. Minha mãe me mandou terminar isto.

— Ah, não pode fazer depois? Todos nós vamos pra floresta, só falta você.

— Ela não deixaria...

— Mas ela não está aqui, está?

Pensei por um momento. Ela realmente não estava lá. Sendo uma criança pequena, eu queria de fato aproveitar essa oportunidade.

— Está bem. Mas não vamos demorar muito!

— Ótimo! Vamos lá! Os outros garotos já estão esperando.

Saí correndo pra fora da casa, passando pelo espaço central da vila, onde os habitantes de Kanatahséton viviam suas vidas. As casas, feitas com troncos de madeira e palha, se espalhavam pela aldeia, cessando apenas em seu centro, onde havia uma grande fogueira reservada para situações especiais. Crianças brincavam com cachorros, jovens esculpiam lanças e outras armas, e os chefes da aldeia cuidavam dos poucos cavalos que tínhamos. Os limites de Kanatahséton eram delimitados por muros altos de madeira, periodicamente intercalados por aberturas com portõezinhos pequenos, para que todos pudessem ir e vir. Nos limites também ficavam as plantações, onde as mulheres administravam as colheitas de milho, feijão e abóbora. Não muito longe estava o lago, afluindo do rio Mohawk, que banhava a região. Lá, mães nadavam com seus bebês e outras crianças brincavam.

Isso tudo eu vi enquanto eu corria com Kanen’tó:kon para um dos portões externos. Foi para o meu espanto, no entanto, que eu vi homens chegando na vila. Um deles era Saksa:ri, segurando a carne de algum animal, e conversando com uma mulher — minha mãe. Tentamos passar discretamente por eles, mas ele fez questão de nos saudar quando passamos perto.

— Ei, crianças! Aonde vão?

Minha mãe fitou-me. Fiquei parado por um breve instante.

— Nós estávamos apenas indo brincar. — Kanen’tó:kon afirmou, calmo mas ligeiramente preocupado. — Nós... podemos?

Minha mãe me encarou com seus olhos castanhos. Seus cabelos negros, como de costume, estavam presos em tranças, caindo por sobre seu vestido de peles animais. Seu rosto era magro, o que ressaltava seus lábios e maçãs do rosto salientes. Suas feições eram bonitas, mas lhe davam uma seriedade grande.

— Talvez, Kanen’tó:kon. — Ela respondeu ao meu amigo. — Ratonhnhaké:ton, você terminou as lições de inglês que te passei?

— Eu... Ahn... — respondi, apreensivo.

— Apenas responda, filho.

— Bem, eu... não. Parei de estudar quando Kanen’tó:kon me chamou para brincar.

Fiquei quieto, à espera de um sermão. Mas o sermão não veio. Minha mãe apenas sorriu e se agachou ao meu lado.

— Repita o que você acabou de dizer... em inglês.

Eu obedeci, traduzindo a curta frase para o idioma dos colonos britânicos. Quando eu o fiz, ela me parabenizou.

— Você está mesmo fazendo progresso, Ratonhnhaké:ton! — Ela me abraçou. — Pode ir brincar com seus amigos, filho.

— Eu... posso?

— Claro. — Ela completou, dando-me um beijo na testa. — Apenas não vá muito longe, certo?

Assenti com a cabeça. Quando eu e Kanen’tó:kon tornamos a caminhar, Saksa:ri nos advertiu, num tom brincalhão:

— E nem mexam com os alces. Há uma manada grande passando pela região. Não querem levar uma chifrada, né?

— É deles que você tirou essa carne? — perguntou meu amigo, apontando para a coxa que Saksa:ri segurava.

— Ah, sim. Eu e os outros caçadores saímos justamente para pegar alguns. No ritmo atual, não teremos escassez de provisões no inverno.

— Sim, vocês vão matar todos os alces, não vão?

Saksa:ri e minha mãe soltaram uma risadinha.

— Não é assim que funciona, Kanen’tó:kon. — Ela disse.

— A Mãe Natureza é bondosa em nos oferecer animais para nos alimentarmos. Mas no fim somos iguais a eles. Nós temos que tomar apenas o que é necessário em vez de nos crer superiores e caçar a torto e a direito.

— Como fazem os europeus — adicionou minha mãe.

— De fato. Mas vejo que vocês cansaram dessa baboseira. Podem ir brincar, crianças!

Ao ouvir isso, nos despedimos e saímos correndo floresta adentro para nos encontrar com os outros. Houve tempo para ouvir minha mãe me dizer:

— Fique bem, Ratonhnhaké:ton! Eu te amo!

Não respondi. Agora pensando em retrospecto, eu deveria ter dito a ela que a amava também. Eu não teria outra chance nunca mais.

Estávamos numa clareira no meio do bosque, rodeado pelas características árvores de carvalho com folhas alaranjadas devido ao outono. Não devíamos estar a mais de um quilômetro da aldeia. Éramos em seis: além de Kanen'tó:kon e eu, estavam presentes Kanieh:tiron, Atón'wah e os dois gêmeos (Não me lembro de seus nomes).

— Então, do que vamos brincar? — perguntei.

— Que tal de esconde-esconde? — Kanen'tó:kon sugeriu.

— Esconde-esconde é uma boa ideia. Vamos! — disse o gêmeo da esquerda.

Kanieh:tiron pegou alguns gravetos do chão e quebrou-os ao meio. Segurou todos os pedaços em sua mão e disse:

— Vamos escolher no pauzinho! Aquele que pegar o graveto menor será o primeiro a contar.

Cada um pegou um dos gravetos. Como o meu era o menor, eu me encostei em uma árvore, fechei os olhos e comecei a contar até cem. Eu sempre fora muito bom em rastrear tanto pessoas quanto animais. Creio que isso faz parte dos meus sentidos aguçados. Por essa razão aquela rodada de esconde-esconde havia sido muito injusta: por mais que os outros se escondessem bem, eu tinha vantagem. Podia perceber as pegadas frescas, e sentir por onde as outras crianças haviam passado. Foi muito fácil seguir as pistas e encontrá-los.

Continuamos brincando, e, após meia hora, chegou a vez de Kanieh:tiron contar. Pensei no esconderijo perfeito: em uma clareira ali perto, havia algumas rochas grandes que formavam uma fenda, larga o bastante para que eu me entocasse lá. Fui até a clareira em questão, e entrei no esconderijo. Aquele lugar era perfeito. Ninguém passava por lá, e mesmo se passasse, a fenda era escura e eu não seria visto. Eu podia até imaginar a cena: meus amigos me procurariam por bastante tempo, até eu finalmente voltar para eles e me revelar para o alívio geral.

Fiquei agachado entre as pedras por alguns minutos, até o momento em que vi pernas passando em frente à abertura da fenda. Não eram meus amigos: aquelas eram claramente pernas adultas. Um par delas passou direto por mim, mas um outro parou em minha frente. Eu deveria ter feito algum barulho digno de investigação. Desse modo, o dono das pernas se agachou e me fitou. A primeira coisa a me chamar atenção nele era sua pele branca. Era claramente um colono britânico. Seu rosto era marcado por uma testa grande, pelo cabelo marrom em volta dela e pela barba que cobria toda a sua mandíbula. O homem esboçou um pequeno sorriso cínico. Ele cumprimentou-me no idioma Kanienké'ha:

— Saudações, pequeno. — E, em seguida, falou em Inglês para outras pessoas do lado de fora: — Venham ver o que encontrei!

Dito isso, o homem puxou-me violentamente para fora da fenda. Cambaleei, caí no chão e, quando olhei para cima, vi um homem ainda mais pálido, sem barba e com cabelo claro. Ele estava me apontando uma arma fina e longa. Eu nunca havia visto uma arma de fogo na época, mas já havia ouvido histórias, e sabia que não teria chance de sobreviver caso o homem disparasse o mosquete que tinha em mãos.

— Ora, ora, ora. O que temos aqui? — disse ele, em Inglês.

Com muito medo, me levantei e saí correndo deles. Um segundo depois, dois outros homens brancos surgiram em minha frente, e um deles levantou o pé para que eu tropeçasse. Caí com minha cara no chão, mas depois não fiz mais nada: talvez eles fossem embora se pensassem que eu estava morto. Era exatamente isso que os gambás da floresta faziam. Mas meu plano não deu certo. Logo após, um dos homens me virou, olhou para mim e me disse:

— Seu rosto é... familiar. Onde foi que eu já te vi antes?

Ele tinha cabelos pretos e um bigode encorpado. Tinha uma aparência jovem e uma expressão calma. No entanto, sua expressão calma sumiu quando cuspi em seu rosto.

— Que nativo ousado, não? — falou um homem de chapéu com uma arma na mão. — Você vai deixar que ele faça isso?

— Isso não foi muito legal, garoto — disse o homem de bigode, enquanto limpava a face. Em seguida, ele agarrou meu braço e começou a me arrastar.

Me solte! — gritei, enquanto me debatia.

— Veja isso, ele sabe inglês! — Ele respondeu.

— É esperto para um selvagem! — disse o de chapéu.

— E espirituoso também! — respondeu o de bigode.

O homem de bigode me segurou, botou as mãos em volta de meu pescoço e me segurou contra uma árvore. Eu tinha dificuldade para respirar. Ele começou a falar enquanto eu sufocava.

— Nós temos perguntas a fazer para seus anciões. Apenas nos diga onde é a sua vila, garoto, e você poderá ir.

O homem de barba, que aparentemente sabia falar muito bem minha língua materna, se aproximou e me disse:

— É melhor fazer o que ele diz, garoto. Onde está sua aldeia?

Eu não queria dizer nada para ele, mas, mesmo se quisesse, não poderia falar nada enquanto era estrangulado. O homem de bigode prosseguiu pausadamente:

— Você sabe, não sabe? Você sabe que eu poderia esmagar seu pescoço agora mesmo. Só mais um pouco de pressão e ""! A pequena e triste chama da sua vida morreria. E ninguém nem se importaria! Claro. Afinal, você é um nada! Um grão de poeira! Você e todo seu povo. Vivendo na sujeira como animais, isolados da civilização.

Eu continuava calado, apenas sufocando e gemendo. Nunca havia sentido tanta raiva em minha vida. Cada palavra dita por aquele homem pálido me dava vontade de matá-lo. Mas, obviamente, se alguém iria morrer naquela hora, não seria ele.

— Os mais sábios entre vocês reconhecem como será o futuro. Reconhecem seus superiores. Eles curvamse aos nossos pés e imploram por misericórdia. Mas não você, pelo que parece. Não. Você se prende desesperadamente a seus costumes, ignorante demais para perceber sua própria estupidez! — Ele fez uma pausa e apertou meu pescoço ainda mais forte. Minha visão começou a embaçar e eu me preparei para a morte. — Mas para a sua sorte eu não sou cruel.

Ele me soltou, eu caí, e me senti como se meus pulmões transbordassem de tanto ar. O homem tornou a falar, de pé enquanto me fitava jogado ao chão.

— E, portanto, eu te pouparei. Para que possa levar a mensagem a seu povo. Diga que quanto mais cedo vocês nos derem o que procuramos, mais cedo vocês poderão voltar para suas vidas... patéticas e vazias.

Eu continuava tentando me recuperar do estrangulamento. Respirava com dificuldade, e meu coração estava acelerado.

— Uma troca justa, não acha? — prosseguiu o homem de bigode.

Um breve silêncio se instaurou. Eu tomei fôlego e perguntei-lhe, em Inglês, uma das primeiras frases que aprendi nas aulas de minha mãe.

— Qual... é o seu nome?

— Meu nome?

O homem de bigode riu. Ele se agachou, olhou para mim, e disse:

— Meu nome é Charles Lee.

Sim, Charles Lee. Apenas quando eu conheci Achilles nove anos mais tarde é que eu descobri que aquele homem que me abordara violentamente e proferira insultos ao meu povo era ninguém mais ninguém menos que um dos líderes do Rito Colonial da Ordem dos Templários, que já naquela época era responsável por incontáveis mortes ao longo da Guerra Franco-Indígena. Mesmo que na época eu não pudesse desconfiar das intenções sinistras que ele tinha naquele dia, eu já o odiava com todas as minhas forças.

Naquele momento, ele, um arrogante britânico, olhava de cima para baixo a uma criança iroquesa ferida, curvada e de joelhos, uma cena igualmente apreciada por seus colegas. Ele estava adorando essa sensação de superioridade. Eu, no entanto, iria contestá-la.

— Por que pergunta, garoto? — Ele prosseguiu.

Encarei-o com fúria nos olhos. Pude ver nele uma leve apreensão, misturada com arrogância sádica. Respondi-lhe:

— Para eu poder te encontrar.

Ele se virou para seus amigos, rindo cinicamente. Voltando-se a mim, disse:

— Mal posso esperar por isso, garoto.

Charles Lee se virou de costas, saiu andando e fez um sinal para o homem de barba, que pegou o mosquete que carregava e bateu sua coronha com força em minha testa. Desmaiei na mesma hora.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse pequeno flashback. Não se preocupem, eu sei que ele parou no meio mas ainda retornaremos a esse dia fatídico, haha. Na semana que vem, o treinamento de Ratonhnhaké:ton na Irmandade! :D