Escrúpulos
2 Capítulo 2
“Deu-me o destino seu capricho
Para finalmente me rebuçar
Entre as caçambas de lixo
Sob o inquietante brilho do luar
Com a corda no pescoço
Sem vontade alguma de rir
Deparei-me com este moço
Eu por fim pude desoprimir
Como um recipiente que vaza
Angústias e expiações eu libertava”
-Eu acabei de fugir de casa. Evadi por estar extremamente insatisfeita. Estava correndo por não querer ser vista por ninguém da família. Meu desejo é que eles não me sigam. Somente preciso de um tempo para mim, sem que eles encham a minha cabeça de coisas banais e descartáveis. – Apoiei meus braços em meus joelhos.
-Que tipo de coisas são essas? Não entendi.
-Minha mãe estava sentada no sofá com a vizinha. Minha tia estava na poltrona. Todas as noites elas se reúnem ali na sala a fim de ficar jogando conversa fora. Elas fofocam sobre a vida das pessoas na vizinhança. Elas comentam se a Carla engordou, julgam se a Renata pulou o muro, invejam se Joice foi promovida no emprego.
-Hm... Eu entendo. Isso não é legal, mas não consigo ver isso como um motivo para você fugir de maneira tortuosa.
Mas a final, a luz que vem da lua nem é mesmo dela. Ela pega emprestado do sol. Eu fiquei em silêncio por alguns instantes. Sim, realmente. Aquilo não era motivo para eu ter saído correndo daquele jeito. Não foi somente por causa disso, pra ser sincera...
-Eu... Eu me sentia como elas. Foi horrível. – Fui capaz de ver um grande ponto de interrogação na cara do garoto. – Essa comodidade em que elas se encontram me assusta. – É meio egoísta o que eu vou dizer, mas elas ofuscavam o meu brilho!
-Pode explicar mais sobre isso? – O jovem colocou sua enorme mochila no chão e se sentou na escada em frente à porta dos fundos de uma residência, bem ao lado do muro.
-Vou citar a minha mãe como exemplo, mas eu acredito que a grande maioria das pessoas seja assim. Ela acorda cedo todos os dias. Leva meu irmão menor pra escola e de lá vai direto para o trabalho numa oficina de costura. Quando chega, pelo final da tarde, faz a janta enquanto escuta o rádio podre que ganhou do último namorado. Depois disso, senta na sala ou calçada e fica fazendo aquilo que eu te falei.
-A minha vó tinha uma vida parecida com a da sua mãe. A diferença é que eu não tenho um irmão. – Eu sabia que ele não iria me entender. – E é incrível como ela aceita isso tão facilmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – É, ele tá me surpreendendo.
-Sim, exatamente! Sendo que não é! – Pelo meu alto tom de voz, com certeza dava pra ver que eu estava indignada. – Cara, olha pra tudo isso! O fato de estarmos aqui só se deve tudo por uma infinidade de combinações complexas que foram se definindo em sei lá quantos “lhões” de anos.
-Então você é contemplativa do evolucionismo?
-Não sou nada. Isso se aplica ao criacionismo também. Quem definiu toda a estrutura do universo não pode ter sido Deus? Não são estruturas infinitas que vão além de nossa compreensão? As escolhas de nossos antepassados não foram definindo através dos anos o que somos hoje? Eu mesma zombei dos “lhões” de anos que a ciência aponta, porque eu não sei, não tenho certeza.
-Eu não esperava por isso...
-O que é? Acha-me louca por falar disso? Eu vou embora. – Ameacei levantar.
-Não, claro que não! – Recuei. – Na verdade acho peculiar.
-Peculiar como você gosta de usar essa palavra...
-Essas bolsas que carrego comigo, são minhas roupas e pertences. Estava indo em direção à rodoviária quando você passou correndo em frente a minha porta. Vou à capital, realizar meu sonho e cursar uma faculdade de botânica. E justo nessa hora eu encontro você, uma garota com nome de flor.
-Realmente isso é peculiar, senhor universitário. Mas eu não entendi qual a relação disso com o que eu acabei de te falar.
-Seja paciente, sim? Você não vai entender de imediato, por isso preciso te explicar antes. Os seres capazes de sintetizar seus próprios alimentos a partir de substâncias inorgânicas simples são chamados de autótrofos, como é o caso das plantas.
-Queria ser um ser autótrofo pra não gastar dinheiro com comida.
-Isso seria estranho! – Riu do meu comentário. – Devemos muito as plantas, principalmente as primeiras que existiram. Nos primórdios, não havia mesmo de onde tirar alimento, então essa aptidão foi extremamente útil.
-É bonitinho.
-Sim, é lindo se pararmos pra pensar. Uma vez que elas garantiram a sua existência, foram capazes de realizar a fotossíntese!
-Aquele troço que elas transformam gás carbônico em oxigênio, não é?
-Sim. Vejo que não anda cabulando as aulas de ciências. – Melhor elogio até agora. – Então, concluímos que se não fosse pelas plantas e esses detalhes mínimos, não teríamos oxigênio para respirar, logo não existiríamos e não estaríamos aqui conversando nesse exato momento.
-Assim como você disse, realmente “é lindo se pararmos pra pensar”. O problema é que pessoas como a minha mãe não param pra pensar nisso. Ela nem faz ideia de que foi preciso inúmeros acontecimentos para que ela estivesse ali ignorando tudo.
-Agora sim você entendeu aonde eu queria chegar. Não precisamos ir para muito longe e pegar exemplos distantes para explicar a razão de estarmos aqui juntos hoje. – Eu estou começando a gostar desse garoto. – Se na sua fuga de casa, por impulso, você tivesse virado uma rua diferente, não teria me encontrado. Se tivesse encontrado um farol aberto para os carros, teria que esperar ele fechar, então provavelmente eu já teria partido para a rodoviária e você não me encontraria aqui. Se eu tivesse decidido puxar a água do banheiro depois do banho, ainda estaria dentro de casa no momento que você passasse por aqui e também teríamos nos desencontrado.
-Exatamente. Se tudo é coincidência, isso é uma grandiosa coincidência. Se formos colocar tudo em números, a possibilidade de tudo acontecer exatamente como aconteceu nesses últimos minutos, seria uma porcentagem extremamente ínfima. Menor ainda seria se formos pegar tudo que já aconteceu desde que o tempo existe.
-E é por isso que a menor das porcentagens sempre tem chances de acontecer!
-Hm... Gostei do seu exemplo, menino da botânica. Da sua aula de biologia também. – Dei um sorriso.
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