Escrúpulos
3 Capítulo 3 - Final
“As coisas que me formam
Formam você também
E as ruas que se dobram
Para me deparar com alguém
Um louco que pensa assim
Pode ser até demência
Mas sei dentro de mim
Que não é coincidência
E nessa noite harmônica
Alegro-me pela aula de botânica”
-Fico feliz com isso. Gosto de ajudar as pessoas, e seria bom se todos pensassem nessas coisas ao menos uma vez. Você pode tentar conversar com a sua mãe sobre esses fatos. Talvez ela possa se interessar. – Ele puxava uma pequena pelezinha que soltava de seu dedo.
-Ah, eu duvido. Ela não é nem um pouco aberta pra esse tipo de assunto. Parece que ela ligou o cérebro dela no automático e nunca mais voltou. Não consegue enxergar as maravilhas existentes nas coisas mais simples. Ela, assim como muitos outros, ignora tudo isso. Parece que ela nunca pensou diferente, assim como a gente.
-Claro que pensou. Disso eu tenho certeza! – Sorriu pra mim como se soubesse a verdade.
-Como você sabe disso? Não se ache demais.
-Em algum momento de nossas vidas, nós nos admiramos com o mundo ao nosso redor, mesmo que a maioria das pessoas não se lembre disso.
-Você tá dizendo que minha mãe já ficou filosofando assim? – Achei isso impossível. – É melhor você me dar uma boa explicação para isso, seu maluco. – É estranho, mas eu já me sentia com liberdade o suficiente para ofendê-lo de maneira carinhosa.
-Isso é uma das primeiras coisas que fazemos depois de nascer e chorar. Quando somos crianças, e vemos as coisas pela primeira vez, tudo é novidade. Então a cada acontecimento novo que vemos, nos surpreendemos. Não importa o quão simples possa ser para o pai ou mãe, a criança fica admirada. Pode ser um cachorro que ela vê na rua enquanto passeia num carrinho de bebê, pode ser as nuvens no céu, ou até mesmo uma garota correndo na rua a noite...
-Mas você não é uma criança pra ficar se impressionando com isso. – Eu gargalhei.
-Talvez eu seja! Ou então pelo menos a minha habilidade de me surpreender ainda não tenha ido embora. As grandes descobertas partiram de homens que assim como crianças, ficaram observando os mínimos detalhes das coisas simples. Como Gregor Mendel, que ficou observando durante sete anos simples ervilhas e conseguiu descobrir a hereditariedade.
A egoísta lua reinava no céu, usando um brilho que não era dela e intimidava as estrelas. Havia num cano ali perto, uma goteira que repetia os ruídos de gotas de água tocando na poça ao chão. Às vezes era possível escutar ruídos de carros passando na rua ali perto. O vento úmido e gelado soprava levemente em minha face, de maneira que meus cabelos bagunçassem em minha cabeça, bailando de modo sincronizado e sutil. Pela primeira vez me sentia mais calma e tudo aquilo que me atordoava, parecia fluir para fora de mim, junto com a brisa suave brisa e as palavras daquele rapaz. Ao menos manifestei desejo de conhecer um pouco mais aquele que me ajudava de maneira graciosa:
-Me conte de você... Além de querer cursar botânica, o que faz mais?
-Hum... Eu não tenho pai, não tenho mãe. Eles foram embora para o Reino Unido quando eu nasci, porque eles não planejavam ter filhos. Um lixo, eu sei. Desde então, cresci com minha a avó, que morava nessa casa aqui antes de falecer por velhice na semana passada. Eu não conheci meus tios, então não tenho contato com ninguém mais da família.
-Eu sinto muito... – E eu achava que a minha vida estava uma imundície.
-Tudo bem, sem problemas. Eu não enxergo a morte como algo horrível. É um ciclo natural da vida. É algo que tem que acontecer e não há como escapar. O sonho dela era me ver formado, por isso estava saindo agora mesmo para a capital. Não há esse tipo de curso aqui em Águas de São Pedro.
-Eu penso que quando morremos, descobrimos a verdade sobre a vida. Então acho que também não tenho tanto medo assim de morrer.
-Como assim? – Pela segunda vez eu conseguia colocar em seu rosto uma expressão de confuso.
-Não tem sentido a gente viver e depois morrer sem descobrir o significado disso tudo. Pra mim tem que ter uma enorme descoberta depois que atravessamos a fronteira da vida com a morte. Um esclarecimento sobre o porquê tudo isso existe. Descobriríamos a razão nas coisas, qual é a verdade, quais caminhos deveríamos seguir, qual religião é a certa. Se não tiver nada, eu confesso que ficarei muito decepcionada. Seria a maior sacanagem a gente viver e sofrer aqui e do nada tudo acaba sem razão nenhuma.
-Então você tem fé, isso é interessante. É fé em Deus?
-Eu não sei. Há tanta religião, tantas crenças, que é difícil acreditar em alguma delas. E se eu acreditar em algo, corro o risco de estar acreditando errado, então eu prefiro não acreditar em nada.
-Então você é ateia?
-Ér... Não exatamente. Eu acredito em Deus.
-Mas você acabou de me dizer que prefere não acreditar em nada a ser enganada. – Tá, agora ele tá voltando a me colocar em estado de duvida novamente. Gente, eu não ganho pra isso.
-Ah, mas tem exceções. É impossível você desacreditar de absolutamente tudo. Eu acredito na existência de Deus, talvez seja a minha única fé. Eu não sei se ele é o Deus do cristianismo, hinduísmo ou budismo. Mas que ele existe, disso eu sei.
-Como pode ter tanta certeza quanto a isso?
-Como posso ter tanta certeza que não? Basta olhar pra cima. – Nós dois olhamos para o céu quase que de maneira sincronizada. – Acredito que a própria estrutura do universo, tão complexa como é, é a prova de que existe um Deus criador. Desde cada minúsculo detalhe da imensidão do macrocosmo, até a perfeição do microcosmo. É surpreendente demais, alguém tem quer ter feito essa bagaça toda.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Até o barulho das goteiras haviam cessado. De tanto eu ficar sentada, meu corpo se cansou, então eu deitei naquele chão recém-molhado pela chuva, sujando ainda mais a minhas roupas. A minha mãe certamente vai reclamar, mas eu estou fazendo uma viagem pelas estrelas!
“Rabisque linhas ao horizonte
Em corações de papel
Voe pelas correntezas
Do rio chamado céu
Encontre as belezas
Por debaixo deste véu
Encontre o que você sabe encontrar
O que você quer encontrar”
-Você me surpreendeu, esponjinha-vermelha.
-Por quê? – Ele me surpreende dizendo que eu o surpreendi.
-Essa sua visão de Deus e do universo, eu nunca tinha parado pra pensar em algo assim, mas me surpreendeu porque até que faz certo sentido. Sua fé não estar completamente perdida é algo importante.
-É difícil surpreender alguém que te surpreende. Somos duas crianças surpresas. – Eu sorri. – Ainda sou ignorante. Eu estava completamente fora de mim e iria fazer algo terrível. Essa conversa me ajudou bastante, obrigada!
-Não tem de quê! Eu fico feliz em ajudar, especialmente quando são pessoas exageradas como você. – Sorriu pra mim também.
Sentado no degrau ao lado do muro, ele apoiou sua cabeça na porta de sua casa e ficou olhando para o céu junto comigo. Deitada ali naquele chão, percebi o quão assustador era notar que nós, num mesmo olhar, contemplávamos o infinito. O infinito que sempre esteve lá, acima de nossas cabeças, mas que acaba sendo esquecido.
Pela primeira vez, eu não me sentia mal por ter tantas dúvidas em minha mente. Apesar de elas serem muitas, eu aceitava aquilo. O certo e o errado se definiam na minha cabeça pela primeira vez depois de tanto tempo. Se eu vou morrer um dia desses, se não vou saber o que vai ter depois, pelo menos vou aproveitar o tempo que tenho agora, ao invés de ficar me preocupando com dúvidas que eu nunca vou desvendar. Quero extrair o máximo da vida, ficar com a consciência limpa e tranquila.
-Precisarei ir agora, se não perderei o ônibus. – Ele se levantou interrompendo o meu flutuar entre os astros. – Foi um prazer te conhecer, Caliandra Bergenthal. Fico realmente feliz por ter te conhecido.
-Oh, sim. Tudo bem. – Me levantei do chão. – Minha roupa está imunda. Minha mãe vai me matar.
-Diga para ela que possivelmente as mesmas partículas que estão na sujeira de suas vestes hoje, estavam na boca de um dinossauro há “lhões” de anos atrás. – Eu gargalhei junto com ele.
Depois de retirar um chapéu de sua mochila colocá-lo em sua cabeça, ele a pegou do chão e colocou em suas costas. Parecia pesada, mas ele estava contente em carregá-la. Ele vai realizar o seu sonho, pelo menos vai ser algo que gosta.
-Volte para casa agora e tome cuidado. – Ele me pediu gentilmente.
-Certo. Eu irei. Tome cuidado você também. Não vá se perder por aí. – Ele só acenou discretamente antes de virar a esquina da entrada do beco, por onde tinha entrado correndo de maneira nada circunspecta.
Eu fiquei parada ali por alguns minutos refletindo sobre tudo que havia acontecido. Encostada no muro, tomei percepção de que agora realmente estava ficando tarde. Eu deveria voltar ligeiramente, antes que minha mãe surtasse e chamasse a polícia. Com certeza ela deve estar preocupada.
No caminho de volta para casa, mais uma vez me senti grata aquele garoto. O que era muito estranho. Estranho porque talvez ele fosse enviado para fazer uma grande diferença na minha vida. Talvez eu nunca mais o veja de novo. Alguém que me salvou e não sei sequer o seu nome ou sua idade. Falamos de fé, mas eu não sei nem ao menos a sua religião. E ele nem se quer sabe que me salvou de um suicídio, que tentei outrora antes da minha fuga grotesca.
FIM.
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