Escrúpulos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Não poderia deixar de me sentir fula, naquela sala, rodeada de parentes que insistiam em tocar em assuntos toscos e cômodos. Não poderia deixar de notar a angústia que fazia as veias de meu pescoço pulsarem. Por dentro eu queria gritar, mas por fora estava muda como uma rocha úmida, pois suava copiosamente. Por favor, arremessem para longe o martelo que açoita minha cabeça!
Levantei-me do sofá caro de minha mãe e atordoada por vozes em minha mente, saí daquele recinto quase sem respirar, deixando ela a sós com minha tia e a vizinha. Ao cruzar aquela porta de madeira, pude descer os pequenos degraus que davam acesso à rua. Virando a esquina rapidamente, não deixei que os adultos da casa me vissem. Quando levantaram logo em seguida, preocupados e achando que eu fiquei maluca, eu já me encontrava distante.
Provavelmente é de se pensar que seria muito perigoso uma garota de 16 anos correndo durante a noite nas ruas de uma cidade do interior do estado de São Paulo, em plena década de 1970. Eu era bem jovem quando aconteceu. Eu era ingênua. Mas acreditava que aquela atitude fosse a melhor e mais aliviante que eu poderia tomar naquelas circunstâncias.
“Eu não aguentei
Viver como alteza
E com tudo que eu não sei
Preso em minha cabeça
No céu há uma lua
Que brilha e reflete
Destaca a poças da rua
Já eram dez pras sete
Eu fugi para de trás do muro
E vi alguém num beco escuro”
Era um jovem rapaz. Sua aparência é pouco perceptiva, apenas visível pela fraca iluminação do poste que destacava sua silhueta. Deduzo que ele seja mais velho que eu. Não muito, dois ou três anos, talvez. Seus cabelos de comprimento mediano e castanhos, cobriam um pouco de seus olhos escuros, por causa de uma pequena franja que ele usava. Vestia um longo casaco cinza e estava com uma grande bolsa, aparentava estar partindo para não voltar tão cedo.
Sempre fui pessimista, então pensei o pior. Eu corri quase um quilômetro e cheguei até uma parte da cidade não muito segura. Ali era uma zona pobre, na qual meus pais sempre disseram para eu manter distância. Talvez eu fosse estuprada ainda virgem. Talvez assassinada... Eram só dez pras sete, eu estou exagerando. Fazendo drama desde que meu pai se foi.
-Qual o seu nome? – Perguntou o rapaz após hesitar um pouco.
-Não interessa. – Respondi dando as costas e voltando ao rumo que seguia antes de ser interrompida pela presença daquele garoto.
-Não vai conseguir ir adiante por aí. Este é um beco sem saída. – Eu não precisava do aviso dele, iria descobrir sozinha. – Não precisa ser arrogante comigo e me ignorar, eu só quero te ajudar.
-É claro que vou te ignorar. Eu não conheço você e você não me conhece. É um estranho.
-Por isso eu perguntei o seu nome...
-Caliandra... Bergenthal. – Assim como ele, eu também hesitei.
-Esponjinha-vermelha. Combina com o seu cabelo ruivo. É peculiar, mas não só essa similaridade.
-O que mais é peculiar? – Eu voltava para de trás do muro.
-Seu primeiro nome ser de uma flor tradicionalmente brasileira, mas seu sobrenome me soa alemão.
-Minha mãe é brasileira. Meu pai era Alemão. – Eu não deveria me abrir assim.
-Era?
-Sim, não importa. – Agora melhorou.
-O que realmente importa? – Perguntou no ato de minha arrogância.
-Como assim “o que realmente importa”? – Minha voz se alterou na hora de imitá-lo, dando entonação à minha ironia.
-Eu não sei. Sem querer ser rude, mas a pergunta foi pra você. – Ele ficou em silêncio por alguns breves segundos. – É você quem está correndo, cansada e desesperada. Aparentemente fugindo de algo, ou alguém.
-A essa altura, talvez eu não tenha muito a perder. – Sussurrei.
No muro mal acabado, possuía uma pichação escrita "Faça mais do que existir". Me encostei nele de forma que a parte de trás de minhas roupas pudessem se sujar um pouco. Com este apoio, deslizei minhas costas até que estivesse sentada completamente no chão. Com certeza aquele rapaz notou em meu rosto a clara expressão de descontentamento que eu passava. Descontentada exatamente como as estrelas se sentem ofuscadas pelo brilho da lua no céu noturno. Era impossível não notar a minha face de desequilibrada.
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