Escolhida
49 Rebekah.
Notas iniciais
Agora vamos à estória...
Pov Rebekah.
O quarto está impregnado do cheiro de pedra molhada, o ar está úmido e terroso. Respiro fundo e ando nas pontas dos pés até a janela apenas para pressionar o nariz contra a superfície fria. Sinto minha respiração embaçar o vidro.
Um sussurro repentino me lembra de que eu não estou sozinha em meu quarto. Giro sobre meus pés como se tivesse sendo pega fazendo algo errado. Seus olhos esquadrinham a silhueta de minha estrutura e esse movimento vagaroso faz com que um gosto metálico e amargo se instale em minha boca. Era sempre assim. Eu o odeio... Mas ele não pode saber. Não é prudente.
Ele se move e meus olhos se estilhaçam em milhares de pedaços que ricocheteiam ao redor do quarto, capturando um milhão de coisas ao mesmo tempo. A cama com lençóis de linho intocada, a bolsa de sangue vazio na cômoda... O vestido rasgando com sangue seco jogado ao pé da cama, próximo ao criado-mudo. Eu aperto meus braços em volta de meu corpo coberto apenas com o fino roupão de banho como se assim fosse me proteger de seus olhos gananciosos.
- Ela está viva. – ele diz a ninguém em particular, perdido em seus próprios pensamentos.
Não importa quantas vezes ou o quanto ele odeia esse fato, isso não vai mudar nada... Ela está viva. Isabella Swan está viva.
Ela está salva e é tudo que importa.
- Me diga mais uma vez o que aconteceu. – ele está com raiva. Seus olhos relampejam antes de ele desviar o olhar e eu perceber a excitação em seus olhos.
- Greta acordou e mandou os lobisomens atacarem... – eu aperto meus lábios e volto a fitar a janela enquanto ele pragueja irritado e amaldiçoa a ex-bruxa por seu ato impulsivo.
Greta não tinha acordado nem há um dia e já tinha cometido a primeira infração perante os olhos de... Mikael.
Eu me recuso a reconhecê-lo como pai. Mas eu o chamo de ‘papai’ quando vejo que ele está a ponto de perder seu temperamento ou quando ele quer avançar mais um passo em minha direção com um olhar que... Um homem tem ao ver sua amada, mas que no rosto dele parece meio doentio. Eu sentia calafrios só de imaginar o que ele poderia fazer. Para minha sorte ele nunca avançou tais limites, nem mesmo um beijo... Ele mal me tocava, mas eu me sentia suja todas as vezes que ele me olhava. Eu sabia o que se passava em sua mente, os planos que ele tinha traçado para mim. Eu preferia a morte antes de qualquer um viesse a se tornar realidade.
Um pássaro cruza o céu nesse instante e por um momento eu o invejo. Ele tinha uma coisa que queria e ansiava cada dia mais... Liberdade. Eu me sentia fraca, minha garganta queima. Mikael nunca me deixava alimentar de forma satisfatória de modo que eu sempre estava fraca fisicamente. Era um de seus métodos para me controlar... O outro era ainda mais doloroso... Ele tinha Stefan. Eu não podia chegar perto de meus irmãos ou Stefan se mataria por causa da compulsão que meu... Que Mikael o induziu. Eu não poderia me alimentar para ficar mais forte pelo mesmo motivo...
Se eu estivesse mais forte eu não teria sido machucada por um lobisomem ao defender a menina... Ele estava tão perto de pega-la com suas garras afiadas, mas eu o abati antes. Ela nem sequer viu o perigo que se aproximava dela enquanto corria... Eu ainda podia me lembrar das batidas frenéticas de seu coração e seus olhos apavorados... Eu podia ver mesmo naquele instante o motivo de meus irmãos a amarem... Eu podia ver o quanto ela devia ser especial, ou o quanto seria fácil ama-la como uma irmã. Eu quis chegar perto dela e dizer que tudo daria certo no final... Mas no estado em que eu me encontrava somente a faria mais assustada.
Não. Eu não poderia me aproximar sendo uma loba branca... Eu não poderia... Pelo bem de Stefan eu tinha que manter distante. Pelo menos até que Mikael fosse morto.
Meu ombro latejava de dor pelo ferimento induzido pelo lobisomem que tentara atacar a menina... Foi difícil voltar a minha forma humana com a dor latejando por todo meu ombro. Eu não estava forte o suficiente e isso fazia com que a cura fosse demasiadamente lenta. Eu vi Edward saindo da caverna sendo seguido de perto por Jasper e a menina. Eles estavam bem.
Eu corri chegando ao apartamento antes de Mikael ou qualquer um notasse minha falta. Stefan não estava, pois tinha ido buscar alguma coisa a mando de Mikael e Mikael estava muito ocupado em punir Greta para notar minha ausência. Eu saio de meu devaneio ao sentir um toque em meu ombro.
Sua mão. Em mim.
Duas pontas de dois dedos roçam por menos de um segundo meu ombro coberto com o fino tecido do roupão de banho, cada tendão de meu corpo está carregado de tensão. Permaneço bastante quieta. Não me movo. Não respiro não que isso seja necessário, mas eu gosto de respirar mesmo ele não sendo necessário.
Impeço até mesmo a careta de desagrado se formar em meu rosto no qual mostraria o quanto eu o acho repulsivo. Parte de minha tensão se vai conforme ele se afasta. Minha pele está tensa, minha garganta, seca, desesperada por sangue, sedenta. Mas é uma coisa que eu terei que ignorar. Eu acabei de esvaziar uma bolsa de sangue e sei que Mikael não permitirá que eu beba mais nenhum pelos próximos três ou quatro dias... Se eu bebesse Stefan seria punido ou pior... Morto.
- Talvez não tenha sido uma ideia totalmente desperdiçada no fim das contas. Pelo menos agora temos um noção do que esperar de meus queridos filhos. Podemos ter mais sucesso na próxima vez. Podemos criar mais lobisomens... – Com o meu sangue. Eu penso vagamente.
Mikael estava criando vários lobisomens a parti do meu sangue. Transformando humanos em lobisomens. Mas por algum motivo eles não sobreviviam por mais de quatro dias. Na primeira hora ou assim eles eram fortes e rápidos, mas com o decorrer do tempo eles se tornavam mais fraco até caírem ao chão e secarem até a morte. O único que sobreviveu por mais tempo foi o pai da menina... A companheira de meus irmãos. Ele durou cerca de oito dias, quase nove e diferente dos outros ele se manteve racional durante todo o processo. Eu não pude conversar com ele por muito tempo. Mikael estava sempre à espreita... Apenas uma vez. Ele me contou sobre sua filha brevemente. Eu podia ver a preocupação e o amor que ele tinha por ela. Eu teria que dizer a ela algum dia o quanto ele a amava e o quanto lutou ao enfrentar Mikael mesmo quando ele já mal conseguia ficar em pé.
- Você é desprezível. – eu digo com meu corpo tremendo de ódio e repulsa, não conseguindo ficar mais tempo calada ao ouvi-lo decorrer como seria a morte de cada um de meus irmãos mais uma vez.
- Finalmente. – ele congratulou-se. – Ficava me perguntando quando você deixaria escorregar. Andei esperando o fogo que eu sei que deve estar queimando-a todo santo dia. Você está enterrada em ódio, não é mesmo? Raiva? Frustração? Coçando para fazer alguma coisa?
- Não. – eu nego, mesmo sabendo que eu não poderia voltar minhas palavras agora que elas foram ditas.
- Claro que você está. Você é exatamente como eu.
- Odeio você mais do que jamais entenderá.
- Faremos um casal excelente.
- Nunca seremos um casal. Você é nada para mim...
- Sei o que você quer. – ele se inclina, baixa o tom de voz. – Sei o que seu coraçãozinho sempre almejou. Posso lhe dar tudo que você sempre quis. Posso te dar mais do que Stefan jamais poderá.
- Deixe o Stefan fora disso. – eu digo irritada. – Você não sabe de nada que...
- Sei tudo sobre você, amor. – ele sorri malicioso. – Há muito tempo quero você. Sempre esperei que estivesse pronta. Não vou deixa-la ir tão fácil assim e quando seus irmãos estiverem mortos, você será minha em todos os sentidos. Não pense que eu não sei o que você fez essa noite. – ele diz sobriamente e um arrepio perpassa em minha espinha. – E eu a punirei devidamente no seu tempo. Agora seja uma boa menina que o papai...
- Você não é meu pai. Nunca foi. Meu pai é um homem honrado que teve a infelicidade de ser criado por você. – eu digo cega de raiva reprimida por tanto tempo. – Eu espero que meu pai e seus irmãos o mate... – e então eu paro percebendo o que eu acabo de falar. Percebendo tardiamente que acabo de dizer que sei que Niklaus é meu pai. Informação que eu tinha guardado com afinco por todos esses séculos... A única coisa que mantia minha segurança precária contra os avanços de Mikael.
Eu havia descoberto que Niklaus era meu pai ao completar treze anos ao ouvir as escondidas a conversa entre Jasper e Niklaus após um dos meninos da vila ter tentado roubar um beijo. Eu tinha ficado surpresa e confusa a principio e guardei a informação esperando que um dia Niklaus pudesse me explicar... Contar-me sua história. Nossa história, o que nunca chegou a acontecer. Eu olho para Mikael a minha frente que avança um passo de cada vez em minha direção.
Congelo. Hesito. Não consigo falar.
Um sorriso lento estende-se em seu rosto. Ele toca minha bochecha com seus dedos e, pegando meu queixo, inclina minha cabeça para cima, quando então recuo.
- Esse detalhe torna este jogo ainda mais fascinante.
- Você é doente, você é muito doente...
Ele ri e solta meu queixo apenas para catalogar as partes de meu corpo e eu me sinto mais uma vez suja e exposta antes que ele saia do quarto.
Um soluço escapa de meus lábios e antes que eu caio no chão, meu corpo é enlaçado pelos braços de meu amado Stefan.
- Vai ficar tudo bem. – ele sussurra contra meus cabelos. Eu nada digo.
Eu escuto a água correr na banheira e deixo Stefan tirar o meu roupão, me colocando delicadamente na banheira.
- O que Mikael queria que você...
- Ele me pediu para buscar alguém. – ele diz com lábios apertados.
- Quem?
- Alice.
- Fica comigo. – eu peço quando ele faz menção de se levantar.
- Sempre.
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