Escolhida
26 Quando eu era humano.
Notas iniciais
POV KLAUS.
Estou tentando pensar nos motivos que levaram os lobisomens a estarem tão perto de nossa residência, mas nada plausível, no entanto.
Eu deveria fazer uma ronda furtiva ao redor da casa, próximo ao rio e talvez de volta a casa de Emily, na expectativa de encontrar alguém ou algo útil, mas devo confessar que estou tendo mais dificuldade de me concentrar do que esperava.
Fico imaginando como um metro e sessenta e cinco, morena, se encaixariam perfeitamente contra meu corpo enquanto eu...
Ok. Isso está ficando ridículo. Concentre-se.
Mas, por algum motivo, eu me encontro vagando em frente a porta de seu quarto. Não uma ou duas vezes, mas cinco vezes, até finalmente me render e entrar.
Eu não preciso acender a luz para ver seu corpo diminuto no centro da cama. Eu também não preciso me aproximar da cama para ouvir seus batimentos cardíacos ou mesmo sentir seu perfume, mas eu me aproximo.
Seus cabelos não estavam em volta de seu rosto de forma harmoniosa, mas de um jeito selvagem denotando seu sono inquieto, como se não bastasse os lençóis estarem enrolado em sua perna e parte da coberta se encontrar no chão para demonstrar isso.
Nunca fiquei tão obcecado por alguém assim. Pelo menos não um simples ser humano.
O que tem essa garota? Ela é só uma garota. Um ser humano.
E o objeto de minhas fantasias e meu desejo obsessivo.
Durante toda a semana eu me mantive afastado na esperança de que meus sentimentos por ela desaparecesse ou ao menos diminuísse e tudo que eu obtive foi ficar mais enredado com sentimentos em relação à garota.
Sentimentos que eu não sabia nomear, no qual vem me dando nos nervos.
E o que foi aquilo que eu senti quando a beijei?
Não tenho ideia.
Alguma coisa mudou em meu interior. Então o que faço agora, maldição?
Estou me segurando para não entrar debaixo dos lençóis e aninhar seu corpo junto ao meu.
Apesar de estar bem tentado eu não faria isso. Se eu iria estar em sua cama seria a seu convite ou permissão.
Fecho os olhos e tiro o rosto dela dos meus pensamentos. Eu a substituo com os problemas recentes com os lobisomens.
Concentro-me no pensamento, esperando que com isso eu ganhe um novo foco, dando lugar ao objeto do meu desejo.
E isso quase funciona. Sinto a raiva me inundar ao pensar nos lobisomens. Por mais de dois mil anos ficamos em guerra.
Poucos vampiros podia se lembrar da guerra, já que muitos deles nem existiam. Aqueles que lembravam não sabia o motivo que a desencadeou.
Minha mente é inundada com lembranças.
Lembranças de quando eu ainda era humano...
Flash back on
O bosque era fresco com folhas molhadas cobrindo o chão, embora não tivéssemos uma tempestade recentemente. As folhagens eram tão fartas que podíamos ver apenas pequenos pedaços do céu azul.
Continuamos a cavalgar até chegarmos à clareira.
Meu pai já se encontrava no local com seu cavalo devidamente amarrado em uma árvore.
A clareira era marcada por um conjunto de pedras disposta em um círculo rudimentar, acima do qual as árvores ao redor nos proporcionava uma janela natural para o céu.
Todos sabiam que a clareira era onde os meninos iam para brincar e as meninas fofocar e era onde todos vinham contar seus segredos.
Era também onde o conselho se reuniam para tomar decisões referente a comunidade.
O conselho era formado por quatro homens, sendo que meu pai era um deles.
Nesse momento meu pai lançava a Jasper e eu um olhar de desaprovação ao ver nossa chegada tardia.
– Hoje será noite de lua cheia. – disse meu pai sem preâmbulos, olhando o céu.
Segui seu olhar esperando ver o vislumbre da lua, mas só vendo o céu imaculadamente azul. Era dia no fim das contas e o crepúsculo estava ainda longe de chegar.
– Estamos cientes disso. Por que não podemos ir nos divertir em vez de falar e ouvir coisas em que todos estão cansados de saber? – Damon perguntou de forma jocosa como nada fosse o que fez nosso pai estreitar seus olhos em sua direção que por sua vez olhou em outra direção.
Tive que reprimir o riso.
Geralmente era eu a questionar o nosso pai, fazendo com que travássemos uma guerra verbal até que ele perdesse seu temperamento e brandisse sua espada me incitando a lutar com ele.
Algo que eu não faria. Eu jamais lutaria com ele dessa forma. O fato de não lutar com ele o deixava mais furioso, me dizendo que eu era um fraco, que desistia antes mesmo de tentar.
Minha mãe sempre intercedia por mim nessas horas. Dizendo que era coisa da juventude.
Ah pobre de minha mãe. Não havia criatura mais doce ou mais submissa do que ela. Tudo que meu pai dizia ou fazia era sagrado. Ela o colocava em um pedestal, nem mesmo quando ele trouxe à dez anos seus dois filhos com outra mulher em uma de suas viagens diminuiu sua devoção a ele.
Ela ainda tratava como um dos seus. Eu amava meus irmãos, eram meus irmãos acima de tudo e não foi a mim que meu pai havia traído. Damon e Edward fazia parte da minha família como se estivesse ali desde o começo.
Eu não conseguia compreender o motivo dela ter aceitado tão bem a situação. Quando perguntei a ela, tudo que ela disse foi que eles eram apenas crianças, inocentes que nada fizeram para ela, mas ela não culpava meu pai.
Fiquei olhando de um para outro assistindo à reação de meu pai as palavras ditas por Damon.
Eu esperava que meu pai gritasse, mas ele foi até uma das pedras e os joelhos estalaram quando ele se curvou para se sentar.
Pela primeira vez percebi que ele estava envelhecendo.
Ele olhou em volta dando uma boa olhada em mim e Jasper e mesmo ele não dizendo as palavras eu podia ouvi-las com precisão.
Nós éramos uma má influência para os outros irmãos.
Olhei Jasper nesse momento e ele me dava um sorriso sabendo. Talvez um dos motivos de sermos mais próximos do que os outros.
Não sei por que eu deveria ficar surpreso com tal reação, aparentemente ele só reservava sua falta de temperamento a Jasper e eu.
Damon recentemente começou a questionar nosso pai, que não deixou de dizer quem ele culpava por tal comportamento.
Eu podia ver Edward sentado ao lado de nosso pai. O filho perfeito. Ele parecia beber as palavras proferidas pelo nosso pai e não consigo deixar de me perguntar... até quando?
Meu pai começou seu discurso habitual em como a guerra nos fez sair de nosso país e de como fomos agraciados de encontrar uma terra onde pudéssemos nos estabelecer.
O fato de esse lugar ser habitado por criaturas sobrenaturais que atacavam seres humanos não era relevante, uma vez que eles só apareciam durante a lua cheia. Eu nunca vi tal criatura ou conhecido alguém que já tenha visto. Para mim não passava de fantasias tolas.
Meu pai olhava em volta para se assegurar que todos prestavam atenção a suas palavras.
Minha mãe sentava ao seu lado segurando meu irmão Joshua de seis anos que se encontrava adormecido. A meu ver alguém que não estava tendo que aguentar ouvir tais tolices.
Olhei ao redor, toda comunidade estava presente. Eu podia ver minha irmã Rebekah sentada junto com suas amigas.
Meu pai falava agora sobre as mortes no último mês.
– De novo essas histórias de lobisomens? – Bufei. — Os ataques ao qual se refere nada mais é do que ataques de lobos que não passam de cachorros grandes. Não tem nada ver com criaturas sobrenaturais. Os senhores querem nos fazer acreditar em suas tolas fantasias.
Ele me fuzilou com o olhar.
– Entendam, por favor... Existem demônios que andam entre nós, eles já existiam no velho país.
– Se eles existem de fato devemos mata-los e não ficar nos escondendo rezando para que nenhum mal recaia sobre nós.
– Klaus! Vou ignorar seu atrevimento e seus argumentos infantis. Não podemos lutar com criaturas imortais.
Antes que eu pudesse retrucar suas palavras sinto uma mão recair em meu ombro detendo minhas próximas palavras.
Jasper.
Algo em seus olhos abranda minha raiva.
Voltei meu olhar ao nosso pai que me olhava com indulgência.
– Que bom! – assentiu meu pai. – Precisamos ter cuidado. É como se eles sentissem o cheiro de sangue. Vão para casa e certifique-se que as portas sejam bem seladas.
Voltei para casa. Eu queria ver tais criaturas. Eu não acreditava em sua existência e iria provar para todos essa noite.
O crepúsculo chegou e esperei que todos estivessem em seu quarto.
Desci furtivamente a escada, abri a porta dos fundos e segui, na ponta dos pés, para a grama, já molhada de orvalho. Fui mais cauteloso do que de costume, uma vez que havia tochas cercando a propriedade e eu não queria alertar meu pai sobre minha escapadela, sabendo que ele não ficaria satisfeito com tal ato e eu não queria ter que confronta-lo, pelo menos não essa noite.
Entrei na floresta e fui em direção ao Sul onde ficavam as cavernas de Fell Church. Uma caminhada de aproximadamente trinta minutos.
Chegando lá me encaminhei para a maior delas.
No interior da caverna as paredes eram ásperas e irregulares, o chão gasto e empoeirado. As paredes e o teto eram castanho-escuros e eram crivados de buracos rasos.
A beirada dos buracos mostravam-se desgastada, outros mais acima pareciam ter bordas afiadas.
Havia vários corredores em seu interior dando a aparência de um labirinto.
Avancei lentamente em seu interior tentando ouvir algum barulho, mas estava mortalmente quieto dentro da caverna.
Foi quando gritos estrangulados se fez ouvir. Um som meio humano e meio animal. Gritos de agonia que fizeram os pelos de meus braços se arrepiarem e um frio liquido descer pela minha espinha.
Minha mente gritava para que eu voltasse de onde tinha vindo, que eu fosse para casa para me manter seguro, no entanto minha curiosidade levou a melhor.
Logo o corredor se abriu em uma câmara tão ampla que por um momento não acreditei o que meus olhos estavam vendo.
No centro do teto da câmara havia abertura suficiente para ver o céu que agora exibia a lua em toda a sua glória.
A iluminação fornecida por ela era suficiente para que eu pudesse ver o interior da caverna.
Levou um momento para que meus olhos compreender todas as formas em seu interior.
Lobisomens em formação ou transformação se preferir. Não havia outra palavra para descrever o que acontecia diante de mim. Humanos se contorciam no chão e gritavam como se estivessem em grande quantidade de dor.
Eu podia ver seus membros se alongando e adquirindo formas de feras.
Eu estava atordoado de mais para fazer qualquer coisa além de contar, quinze... Dezessete, dezoito, dezenove...
Eu não me preocupei em quantos eles eram. Foi o que tentei dizer a mim mesmo. Não carecia vinte deles para me matar.
Parte deles já tinha se transformado enquanto que a outra estava em seu estágio final.
Dois deles olharam em minha direção e começaram a cheirar o ar chamando atenção dos demais.
Era a hora de minha partida. Dei meia-volta e corri rumo ao corredor. Eu ainda não havia chegado em metade do caminho quando vi sombras vindo em minha direção.
Minha saída estava bloqueada. Voltei meu corpo ao primeiro corredor a vista me deslocando mais depressa na esperança de encontrar outro ponto de fuga.
Está tão escuro.
Não estou enxergando nada. Não consigo enxergar nem mesmo minhas mãos diante de mim.
Corro as cegas e tento ouvir a perseguição que posso sentir atrás de mim, mas meu coração bate tão alto, que abafa qualquer som.
Eles estão bem atrás de mim agora. Alto e perto.
Estou perdido.
Acabou.
O medo assola meu ser e sinto minhas pernas pesadas e por um momento penso em desistir.
“Você nem ao menos tenta. Você é um fraco.” Eu ouço as palavras de meu pai em minha mente e mesmo suas palavras sejam ditas com escarnio, elas me forçam a ir em frente.
Um tênue jorro de luz, vindo de sei lá de onde, brilha no fim do corredor.
Uma onda de alivio flui através de mim enquanto corro adiante.
Estou fora da caverna e mesmo ainda sendo noite a claridade me atordoa.
Eu continuo correndo, me apressando em meu caminho.
Em minha corrida meu pé bate num obstáculo e tropeço, caindo de joelhos. Estendo as mãos para me proteger, e elas foram tombando, rangendo e crepitando.
Escuto um baque surdo a minha queda, ao mesmo tempo presto atenção em alguma reação a minha ruidosa queda, mantendo-me absolutamente imóvel na escuridão.
Não houve nada.
Nenhuma reação, nenhum som, estava apenas úmido e abafado como sempre.
Cuidadosamente começo a me erguer, tentando fazer o menor barulho possível, avaliando o ambiente.
Os lobisomens de alguma forma não me seguiram.
Meu pé esquerdo estava preso em alguma coisa. Dou um puxão para soltá-lo, reconhecendo os contornos tão conhecidos...
Ao mesmo tempo tentando negar o que meus olhos me mostrava...
O corpo de meu irmão Joshua.
Flasch Back off
Abro os olhos de repente me sentindo sufocado. Preciso saber por que Isabella é tão importante e o que eles planejam para ela.
Eu não poderia perder mais alguém para eles.
Isabella sabia alguma coisa sobre eles, chegando ao ponto de defendê-los, mas é claro que ela não diria nada para nós e para comprovar tal fato depois de mencionados os lobisomens ela se manteve silenciosa e passou a nos ignorar. Era como se não estivéssemos ali.
Eu queria arrancar as informações que ela retinha, mas pelo pouco que a observei ela não diria nada por pura teimosia. Ela era tão teimosa quanto o Damon, talvez mais. Eu não ficaria surpreso.
Gostaria de me preparar mentalmente, sobretudo se tiver que lidar com tais criaturas. Sempre preferir enfrentar o que quer que fosse com a cabeça erguida e poderia fazer isso melhor se eu tivesse a oportunidade de me preparar.
Suspirei.
Volto meu olhar à figura diminuta na cama, tentando lê-la. Não estou certo se isso faz parte da minha estratégia ou não. Estou achando muito difícil olhar para qualquer outro lugar.
Eu a desejo mais do que posso descrever, eu a desejo de todas as formas.
Estava cada dia mais difícil me manter longe dela. Eu não queria nutrir sentimentos por ela. É claro que até mesmo eu sabia que era uma batalha perdida.
Voltei para meu quarto quando o dia se deu inicio.
Escuto a porta de meu quarto se abrir. Eu não preciso me virar para saber quem estava ali, portanto continuo a olhar pela janela.
– Klaus você não pode continuar a evita-la.
– Edward está certo. Se quisermos que isso de certo você vai ter que se envolver mais com ela. Não podemos pedir que ela seja mais receptiva se nós não somos.
– Jasper eu...
Interrompo-me com a chegada de Damon ao quarto.
Ele iria leva-la para passear, para se conhecerem melhor.
Deixei-me levar pelos meus pensamentos enquanto Damon dizia aos outros o que ele tinha planejado para o passeio com Isabella.
Nem por um momento eu acredito que ela facilitaria nosso entendimento. Admito que tenha começado com o pé errado, mas não era como se estivéssemos maltratando ela.
Precisamos reivindicá-la como nossa companheira. Talvez alguns passeios ajudem ou podemos sempre continuar a investir em luxúria... Certo?
Ela parecia mais receptiva a isso. Ela não era indiferente a nós. O que me levava a crer que havia alguma coisa mais em sua relutância.
Greta nesse momento estacionava o carro em frente à entrada saindo cheia de sacolas rumo ao interior da casa. Momento depois saiu Isabella. Ela se aproxima do carro lentamente e pega duas sacolas em seu interior e para olhando para a casa.
Ela parecia contemplar algo.
O que ela tinha nas mãos?
Com velocidade espantosa ela joga as sacolas dentro do carro, entrando em seguida fechando a porta com estrondo.
Escuto um rosnado se formando em meu peito. E não sou o único.
Garota teimosa!
Rapidamente estava em frente a porta principal encarando suas orbes chocolate que por alguns segundos me encararam de volta.
Ela sai do carro e de alguma forma cai no terreno sem mesmo tropeçar em algum obstáculo que não seja as próprias pernas.
Desastrada.
Mesmo constatando tal fato, meu fascínio por ela não diminui.
Ela levanta com determinação em seus olhos com seu rosto ainda denotando seu embaraço pela queda.
Sua determinação era impressionante se eu pudesse pensar sobre isso nesse momento, mas eu estava muito irritado para isso.
Ela para a cerca de quatro passos de onde estamos.
– Onde você acha que vai? – Edward praticamente rosna para ela.
Ela, no entanto não vacila seu olhar nem por um instante, o único a trair seu estado é seu coração que bate em grande velocidade.
Eu a amava.
Amava?
Isso me atinge como um raio, um pouco de vertigem, sentimento furioso, estonteante em sua intensidade, me fazendo querer fugir. Fugir de Isabella. Ou para ela. Não sei qual dos dois.
Ela abre a boca para responder e fecha novamente.
Um vento sopra seus cabelos nesse momento trazendo um cheiro intoxicante.
Cheiro de sangue.
Sangue de Isabella. De alguma forma ela havia se cortado em sua queda.
Sinto minha mente nublar e posso sentir meus olhos escurecer.
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