Escolhas

8 Inspira, expira, Respira


Notas iniciais
Espero que estejam gostando dos capítulos e do rumo que a vida da Maya está tomando! :*

Janeiro de 2010

—Maya,Maya – ouço a minha mãe me chamando,e sinto ela me sacudindo pelos ombros.

— Senhorita Maya?-ouço o médico, mas para mim parece que eles estão em uma caixa e o som de suas vozes fica distante.

Posso estar com tumor no útero, posso estar com tumor no útero, posso estar com tumor no útero... é só o que eu consigo pensar repetidas vezes, mas como? Eu não tenho familiares que morreram de câncer, que eu saiba, vai começar por mim? Pelas próximas gerações na minha família, carregarão o meu gene cancerígeno? Eu me alimento direito, conforme o possível, fiz até atividades físicas ultimamente, porque eu? Porque começar por mim? Logo agora que estava me ajeitando no trabalho e estava bem financeiramente, agora vou ficar confinada a um hospital tomando quimioterapia e perdendo meus cabelos. Consigo ouvir as vozes dos dois médicos falando algo sobre eu não me preocupar que eles têm que fazer exames adicionais e saber se realmente é um tumor, olho para a cara de preocupação de minha mãe e olho para Helena segurando o braço de minha mãe, que está quase desmaiando.

— Maya? Você pode me ouvir? — ouço a voz da Dr Carla,suave, olho para ela em resposta – Escute,nós vamos coletar seu sangue e vamos fazer um ultrassom, mas não se preocupe, apenas os exames específicos podem nos confirmar as suspeitas.

— Eu posso ir para casa hoje? -perguntei, não quero ficar neste hospital, a única coisa que quero agora é ir para casa.

— Depois que coletarmos tudo o que for necessário, daremos alta para você e marcaremos uma consulta com a nossa médica oncologista a Dr.Elisa, ela é ótima e te dará todas as informações de que precisa. – respondeu Carla.

— Antes de você sair nós colocaremos a sua bota ortopédica – falou Felipe –não podemos esquecer da sua perna que está se recuperando e é um processo de cerca de três meses,sugiro que você tenha alguém para acompanha-la em casa.

— Tudo bem. – falei, quase um sussurro, com essa situação eu quase me esqueci da minha perna – Eu quero mesmo é ir para casa.

***

Arrumei minhas coisas, algumas roupas, chinelo e escova de dentes que minha irmã pegou no meu apê, em uma bolsa. Ela foi lá e deu uma ajeitada nas coisas para quando eu voltasse, disse que o bichano fez a maior bagunça e que estava miando muito quando ela chegou, que saudade dele, isso que foram dois dias fora de casa, mas quando se passa em um hospital parecem anos. Helena já fora embora, não podia deixar Antonio por muito tempo com o marido sem sal dela, nossa mãe é quem ficou para me levar embora. Dra Carla apareceu no quarto e minha coisas já estão todas arrumadas, vejo que ela está com o papel da minha alta na mão.

— Oi Maya, aqui estão seu papel da alta hospitalar e seu horário de consulta com a Dr Elisa será daqui a duas semanas, todos os exames já estarão prontos e ela vai te diagnosticar – falou ela me entregando os papéis e tocando de leve no meu ombro. – Vai ficar tudo bem.

— Obrigada, Carla, mande um tchau para o Dr. Figueiredo, Dr Felipe – falei e sorri parecendo otimista.

— Vocês estão liberadas agora. – respondeu ela sorrindo para nós.

Eu e mamãe vamos caminhando pelos corredores do hospital, com dificuldade pela bota ortopédica que estou usando, esse troço é pesado, fizemos o percurso em silêncio, nenhuma das duas queria comentar sobre o assunto. Chegamos à recepção e eu entrego a folha de alta e vamos para o estacionamento. Sabemos que devemos conversar e não entrar em pânico, já vi vários documentários sobre as pessoas que vencem o câncer e tem vidas normais, sei que é difícil e que a doença é conhecida como o mal do século, mas sempre tem um jeito, tenho que manter forte e não pensar no assunto durante essas duas semanas, que serão longas.

Na estrada vou olhando pelo vidro as arvores e os prédios passarem depressa, no som toca Michael Jackson Man in the mirror, uma das minhas prediletas dele, minha mãe adora as musicas dele tem todos os CDs, essa melancolia no ar me sufoca, minha mãe não deu uma palavra ao longo do caminho e eu não puxei assunto, ela está me dando espaço, estamos nos dando espaço, para pensar nos ocorridos. Ela suspira, é minha deixa para falar algo, tento mas engasgo e começo a chorar, as lagrimas escorrem quentes sobre meu rosto, olho para minha mãe e ela chora também.

— háháhaháhá – começo a rir descontroladamente.

— Para com isso Maya! O que é tão engraçado? – fala ela ficando irritada com as minhas gargalhadas repentinas.

— háháhá – respiro fundo – ai, dona Rosa, até ontem a senhora estava brigando comigo por que eu fiquei grávida, coisa que eu nem sabia, e não te contei, por eu ficar saindo com qualquer homem que me de bola no bar. – falei engolindo o riso e o choro que se embolaram na minha garganta – achava que eu era um monstro por eu falar que não queria filhos e agora estamos aqui chorando por uma coisa que ainda não temos certeza.

— Não disse que você era um monstro – respondeu ela com os lábios colados – e você tem razão, não tem nada certo, vamos esquecer isso durante essas duas semanas e focar na recuperação da sua perna.

Sabemos que será difícil ignorar que meu sangue e um pedaço dessa massa no meu útero foi levado para analise, difícil ignorar que os exames podem dar positivo, difícil ignorar que minha vida pode ter uma mudança em duas semanas, difícil ignorar que essas semanas parecerão meses. A fisioterapia por causa da perna vai ajudar a passar o tempo, conversar com alguém que não tenha nada haver com úteros e biopsias.

Estamos chegando ao meu apartamento, pela janela vejo a senhora passeando com seu cachorro como todos os dias, vejo a dona florista sentada em frente à loja papeando e vejo a fachada do meu prédio e seu João, o porteiro, sorrindo a me ver através do vidro do carro, retribui o sorriso. Minha mãe estaciona o carro, e eu a espero para me ajudar a descer, não sei andar muito bem com essa bota pesada ortopédica, e muito menos com as muletas que dizem servir para ajudar.

— Você consegue pegar as minhas coisas no porta-malas mãe? – perguntei pegando as muletas das mãos dela.

— Consigo sim, você precisa de ajuda com essas muletas?Posso chamar o seu João para ajudar com as malas – sugeriu.

— Não, tudo bem, eu consigo aqui. – eu não quero seu João cheio de perguntas para cima de mim, sem contar que devo satisfações sobre a bicicleta que deve ter ficado em frangalhos.

Fomo passando pela porta da garagem que dá para a entrada do prédio, seu João veio em nossa direção oferecendo ajuda, o que recusei, sei que ele gosta de ser simpático, mas também que sei que é fofoqueiro, então não quero dar assunto a ele. Fomos de elevador, impossível eu ir de escada, subimos, subimos, no silencio parecia uma eternidade para chegar ao meu andar. “Plim”, finalmente, as portas do elevador se abrem e já ouço o bichano miando enlouquecidamente dentro do meu apartamento. Olho para minha mãe e ela me olha de volta e começamos a rir.

— Parece que ele está sentindo a sua falta. – disse ela sorrindo.

Entramos no apartamento e apesar de Helena ter dado uma ajeitada, almofadas estavam no chão, o pote de bolacha estava aberto derrubado e todas as bolachas devoradas, sem contar o cheiro de xixi e cacas de gato. Bichano veio correndo e se esfregando em mim, miando de um jeito engraçado, pego ele no colo e ele morde meus dedos, como quem diz “onde você esteve?”. Logo minha mãe, neurótica por limpeza, abre as janelas e começa a ajeitar as coisas no apartamento, eu me sento no sofá e fico acariciando o gato, só quero descansar um pouco.

— Mãe! Não precisar limpar tudo agora, vem cá. – disse fazendo sinal para que ela sentasse ao meu lado – Vamos descansar um pouco, você ficou sentada naquela poltrona do hospital, merece um lugar bom para deitar agora.

— Mas, o seu apartamento precisa de uma geral, ta fedendo aqui – respondeu ela abanando na frente do nariz.

— Que ta fedendo eu sei, culpa desse gato malvado aqui –falei colocando o bichano no chão- só que o nosso descanso é mais precioso, senta logo aqui, essas suas olheiras estão iguais aos dos pandas.

— Ta bem, mas mais tarde iremos... – diz ela olhando para minha perna – eu, vou limpar isso tudo aqui.

— Podíamos ligar para o sushi, estou com fome. – falei para ela sorrindo e pegando o meu celular.

Enquanto minha mãe vai até no térreo pegar nossos pedidos, fico lembrando do que passei no hospital, acho que fui rude com os médicos, mas não era para menos eles mal olham para nós, de alguma forma eu tinha que chamar a atenção deles, nem que seja pela antipatia. Agora passando na minha cabeça os momentos, lembro que enquanto estava entre o sono e a vigília ouvi uma voz masculina, mas não reconheci estava meio grogue, acho que ele perguntou como eu estava porque ouvi minha irmã dizendo que eu estava bem mas tinha que fazer mais uma cirurgia, depois disso ferrei no sono. Minha mãe está voltando, demorou mais que o necessário, já que o motoboy já havia chegado, acho que ela tem alguma coisa com o porteiro.

— Chegaram nossos sushiiiis – diz ela imitando uma voz engraçada de um japonês. Ela se senta no sofá e começamos a nos deliciar com a comida japonesa.

— Mãe, quando eu estava no hospital foi alguém me visitar, além de você e Helena? – pergunto, quero saber quem era aquela voz masculina, ou se era sonho meu.

— O homem que te atropelou foi ver como você estava. – responde ela comendo um temaki.

— Por um momento eu achei que tinha sonhado, como ele era?- pergunto.

— Disse que você simplesmente apareceu na frente do carro, e não deu tempo de desviar- responde ela – mas foi sua irmã que falou com ele, eu fiquei ouvindo.

— Como apareci? Não brotei da terra. – zombo

— Você devia estar correndo, “a pressa é inimiga da perfeição” – essa ultima parte falamos juntas. Rimos. – Ele tem cabelo encaracolado preto igual à pele, um sorriso branco que parecia ter pintado de esmalte.

— Fora essa repugnância sua, parece muito com um cara que conheci. – digo – devo ter tido um vislumbre do meu atropelador antes de apagar.

***

Ainda é terça – feira da segunda semana de espera, essa espera está me matando, os dias estão se arrastando, as horas fazem tic — tac em câmera lenta. Fui a duas sessões de fisioterapia que foram um saco, a fisioterapeuta é um amor, mas não estou com animo para fazer os exercícios propostos, tento ser otimista e não pensar no pior só que tá difícil. Minha mãe vai continuar aqui em casa, mesmo que eu tenha falado para ela ir para casa ver como estão às coisas por lá, ela diz que a casa é bem material eu sou bem mais importante, e eu lógico me sinto lisonjeada. Agora ela não está em casa, deu uma saída ao mercado e bem que está demorando. Levanto-me do meu ou companheiro dessas longas semanas, o sofá, sou toda desajeitada com essa porcaria de bota, alcanço as muletas e tento dar a volta na mesa de centro que fica na sala, tenho que ir ao banheiro. Dou passos de tartaruga, a muleta idiota bate na quina da mesa eu bato com a perna na muleta e caio quase cara no chão, me viro a tempo para cair meio sentado meio deitada. Bato meu braço no chão, que doeu muito, fico um segundo estática, me sento e começo a rir, um risada estrondosa sai de dentro de mim que não consigo me controlar. As risadas vão diminuindo lagrimas começam a cair dos meus olhos, o riso de torna choro, e começo a soluçar, estou chorando tudo o que não chorei durante os dias no hospital e o pós- choque, jogo as muletas longe, que bate no braço do sofá e cai no chão fazendo um barulho oco, minha ficha caiu, eu estou em casa com a perna numa bota idiota, esperado resultados que podem mudar tudo. Eu posso estar com câncer. Me desabo num choro incontrolável, paro apenas quando ouço o elevador parar e abrir em frente ao meu apartamento, minha mãe voltou, recomponha-se Maya, recomponha-se. Respiro, limpo meus olhos, devem estar vermelhos agora. Barulho de chaves na porta. Me levanto e com um muleta me equilibro até o sofá de novo, até perdi a vontade de ir ao banheiro.

—Maya, cheguei e trouxe bolo de chocolate com recheio de coco. – diz

— Oba! – tento parecer animada e convincente.

— O que aconteceu? – mães sempre sensitivas.

— Nada ué!- digo.

— Como nada? Tem um muleta jogada aqui nesse sofá – diz apontando para muleta no chão que do lado sofá mais distante de mim. – e você está neste sofá ai com a outra muleta apoiada bem pertinho.

— Talvez eu tenha ficado irritada e jogado ela ai. — digo com ironia, ela sentado meu lado colocando as sacolas no chão.

— Maya, tudo bem se irritar, tudo bem chorar, eu estou aqui se você precisar, não precisa ser forte sempre – diz me abraçando, e eu choro de novo.

Limpo meu rosto e agradeço a ela por tudo o que está fazendo, e sei que mais está por vir.

— E se forem positivos os resultados mãe? – pergunto.

— Temos que pensar que não são positivos, otimismo. – responde.

— Eu sei, mas e os resultados forem positivos? O que vou fazer? Não quero ficar num hospital fazendo quimioterapia e perdendo meus cabelos, ficando magra, perdendo o gosto pela vida. E se a quimioterapia não funcionar e o câncer se alastrar e... digo num desepero e ela me interrompe.

— Melhor parar por ai, não sabemos o futuro, e vamos passar por tudo o que vier e superar. – diz ela me acalmando – e agora pega seu bolo.

— Obrigado mãe. – agradeço de novo – na verdade eu joguei a muleta ali, porque eu cai tropeçando nela.

Ela me olha e olha para muleta, volta a olhar para mim, começamos a rir até nossos ossos da face doerem.

***

Estou suando frio, hoje é o dia da consulta com a Dr. Elisa meus resultados de exames já estão nas mãos dela, ela é médica no hospital então ela tem todo o meu histórico médico. Estou apreensiva com o que pode ter nesses resultados, tentei não pensar nisso mas era inevitável, e se forem positivos? Ficarei careca e perderei peso, e ficarei careca e perderei peso, é só no que consigo pensar, evitei procurar sobre o assunto na internet, sei que tem milhões de resultados no Google sobre câncer de colo de útero, mas evitei abrir cada vez que procurava sobre o assunto, essas buscas só contribuem para te afligir mais.

— Está preparada? – pergunta minha mãe com um sorriso encorajador no rosto

— Queria estar! – respondi

— Pensamento positivo Maya. – disse ela entregando minhas muletas, quase já consigo andar sem elas, mas a bota ortopédica é pesada.

Saímos do apartamento, deixei o bichano trancado na dispensa para que eu não tenha surpresas quando voltar. Fico grata pela minha mãe ter ficado comigo essa semana, não sei o que seria de mim sem ela, sou muito desajeitada com essas muletas e bota, além de ela manter a minha mente ocupada, e eu a dela com certeza, conversamos muito durante essa semana coisa que não fazíamos um bom tempo, eu trabalhava e saia o tempo todo e às vezes evitava ligar para ela por que sei que teria sermões e perguntas sobre os caras com quem saio. Passamos pelo porteiro que cumprimentou a minha mãe com entusiasmo um tanto estranho, ele sempre foi simpático, mas a troca de olhares que trocaram me deixa intrigada. Entramos no carro e eu não posso deixar essa passar despercebido.

—Mãe, o que foi essa troca de olhares entre você e o seu João? — perguntei sem enrrolação.

— E... eu? Seu João? – respondeu ela ficando vermelha – você está vendo coisas.

— Ahã, ele te cumprimentando todo bobo agora, você falando com ele pelo watsapp, pensa que não sei é? –perguntei achando graça.

— Você andou pegando o meu celular? – indagou ela se entregando.

— Ahá, você esta se engraçando com o seu João – ela ficou toda sem jeito – Tudo bem mãe, você pode sair com outros homens.

— Que outros homens Maya?Eu e seu João só trocamos algumas mensagens, nada de mais. – falou ela irritada de um jeito engraçado.

— Não precisa ter vergonha disso mãe, varias mulheres da sua idade encontram outros amores. – falei dando uma força para ela seguir em frente depois da morte do meu pai ela não saiu com ninguém – eu e Helena não nos importamos se você sair com outros homens, se divertir um pouco, você é adulta e pode seguir a vida.

— Faz um tempo que penso em sair com outro homem, não homens como você diz não sou promiscua, e seu João me pareceu um homem decente. – respondeu ela.

— Sair com outros homens não te faz ser uma vaca mãe, é bom ter opções até achar o cara certo- respondi, ela não aceita que eu tenha vários parceiros sexuais – Seu João deve ser um homem decente sim, vocês já transaram?

— Maya?! Isso é pergunta que se faça para sua mãe? – respondeu ela ficando roxa, eu achei graça.

— Usaram camisinha né? – perguntei rindo, pelo menos esta conversa está nos distraindo pelo caminho até o consultório.

— Maya! – disse ela batendo na minha perna – pelo amor de Deus, nós só conversamos e nos cumprimentamos.

— Mas vocês pretender fazer sexo né? – perguntei quase gargalhando, ela estava ficando envergonhada e irritada comigo, e eu achando tudo muito engraçado.

— Maya!! – ela bate de novo na minha perna e sela os lábios, brava – vamos parar com esse assunto. – ela me olha de esguelha e eu estou rindo, muito – e pare de rir de mim!

Achei graça dessa situação, mas imaginei minha mãe e o João porteiro “namorando” e foi nojento, eca. Estamos no estacionamento do hospital que também é onde fica o consultório da médica, volto a suar e sentir um calafrio na espinha. Saímos do carro e vamos caminhando devagar, com essas muletas só indo devagar mesmo, sinto que minha mãe está nervosa também, mas tenta não transparecer para me acalmar, acredito eu.

A sala de espera tem uma mesa de vidro no meio com revistas que ninguém lê, revistas de moda que servem para as crianças rasgarem as páginas ou os adultos ficarem folheando sem prestar atenção. Chamaram meu nome, respira Maya e positividade, entrando no consultório tem uma mesa e brinquedos infantis num canto e penso que crianças também podem ter câncer, meus olhos marejam, me recupero rápido. A dr. Elisa é de pele clara – fiquei um pouco aliviada, não aguentaria outra cena como a que aconteceu com o Dr. Felipe — e com cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo.

— Olá, Maya – disse ela estendo a mão para mim, em cumprimento – tudo bem?

Nem tanto, penso.

— Sim, tudo certo! – respondo.

— Então Maya dei uma olhada no seu histórico do hospital, e você sofreu um acidente de carro, está tudo bem com a sua perna?- porquê ela está me perguntando isso, sem delongas doutora.

— Eu estava de bicicleta na verdade, a perna está se recuperando. – respondo com um sorriso nervoso.

— Que bom – diz ela com serenidade.

Minhas mãos começam a ficar suadas e tento seca-las na minha blusa, ela está me preparando para noticias ruins, está enrolando para falar dos exames. Minha mãe coloca a mão de leve na minha perna, a perna boa, eu a estava balançando freneticamente sem perceber.

— Você tem ido à fisioterapia? – pergunta ela olhando com os olhos claros e acalentadores para mim.

— Tenho sim. – respondo, anda logo doutora fala a bomba que tem para soltar.

— Maya, olhei os seus exames de sangue e o resultado de sua biopsia – ela olha para mim, e sinto o pesar em seus olhos – eu sinto muito, mas deram positivos para câncer de colo de útero, causado pelo vírus HPV.

Começo a transpirar e a ventilar, minha mãe segura a minha mão apertando de leve, e olha para mim, sabíamos que podia ser más noticias, nos preparamos à semana toda para ouvir o pior, mas no fundo esperávamos que fosse uma má interpretação dos médicos do hospital.

— Querida – diz a médica – você não precisa se desesperar, vamos com calma está bem?

— Certo! – repondo, tenho perguntas a fazer.

— Como podemos ver nesse exame que você fez, o seu tumor está em estágio 2, que quer dizer que está invadindo o seu colo do útero. – disse ela me mostrando o ultrassom.

— Você disse que ela pegou pelo HPV – falou minha mãe, interrompendo a doutora – esse é aquele que passa na TV que pode ser pego , aan, fazendo sexo sem proteção?

— Bom, ter múltiplos parceiros e não se prevenir corretamente, pode ocorrer a transmissão deste vírus. – reponde a dr. Elisa, recebo um olhar de repreensão da parte de minha mãe.

— E quais são os tipos de tratamento doutora? – perguntei, quero evitar o olhar da minha mãe, e saber que rumo minha vida vai tomar.

— Bem, como você está em estagio dois, — ela me mostra um desenho que representa a minha situação — nós temos a opção de fazer sessões de quimioterapia, para a eliminação das células cancerígenas, os quimioterápicos não só atingem as células más que estão no corpo, ela atinge as boas também, não distinguem elas. – disse dr. Elisa – isso acarretaria em alguns efeitos colaterais.

— Já sei, queda de cabelo, perda de apetite, ficaria branca que nem vela e vomitaria – falei e a doutora sorri – você disse opção, quer dizer que existe outra?

— Sim, uma outra opção seria a histerectomia total, que seria a retirada do seu útero, isso mandaria embora toda essa massa tumorosa, e a recuperação e efeitos colaterais seriam mais tranquilos, por assim dizer. – me responde ela, olhando nos meus olhos e aguardando a minha reação.

— Mas se ela retirar o útero todo não vai poder ter filhos! – respondeu minha mãe apavorada.

— Sim, essa seria uma consequência, por isso você –disse ela voltando o olhar para mim – tem que pensar qual desses procedimentos quer fazer.

Me sinto atônita, fazer quimioterapia me dá pavor, já assisti documentários, filmes e seriados que as pessoas tem câncer e vi como são retratados, pensar em ficar daquela forma me dá arrepios. Por outro lado, fazer a retirada total do meu útero, resultaria em não poder dar netos para minha mãe, não que eu queira isso agora mas num futuro ou sei lá. Dar netos para minha mãe, mas eu quero ser mãe? Quero gerar uma criança no futuro? Realmente não sei, acho que não seria boa nisso, nunca me imaginei tento filhos, acredito que teria só para dar outro neto a minha mãe. Helena sempre fora melhor nisso do que eu, quando éramos crianças e brincávamos de “casinha” ela era a mamãe das bonecas, e eu o cachorro da casa ou a faxineira, ou até mesmo o pai – o que eu não gostava muito, mas ela sempre era a mãe que mandava na brincadeira. Então acho que ser mãe, cuidar de crianças, sei lá, nunca esteve nos meus pensamentos, dizem que quem quer ser mãe vem desde a infância, assim como casamentos.

— Maya – disse a doutora me tirando do meu devaneio – você tem que pensar bem, pois isso interfere no seu futuro, caso você opte por quimioterapia iniciaremos logo, para que não avance. Mas, se você precisa de um tempo para pensar você tem alguns dias, não quero que tome nenhuma decisão precipitada.

— E se você fizer a cirurgia não poderá ter filhos – disse minha mãe – minha filha, nós podemos aguentar a quimioterapia, eu estarei do seu lado.

— Mãe, EU vou ter que fazer as sessões, EU vou aguentar a perda de cabelo e vômitos, não a senhora. – falei tentando não alterar a voz – talvez EU não queira ter filhos mãe, eu nunca vou se como a Helena, ela sabe ser boa no que faz.

—Eu sei que não sou eu quem vai ter os efeitos colaterais, mas vou estar do seu lado, sempre. – disse minha mãe.

— Você estará do meu lado mãe, eu sei, como está agora, mas essa decisão é minha. Eu sinceramente não sei se seria boa mãe, a senhora fala em querer outros netos, mas não posso querer filhos só para satisfazer a sua vontade em ser avó outra vez. – respondi segurando a mão dela – Acho que quero fazer a histectomia doutora.

— Você tem certeza Maya? – pergunta à médica – você pode pensar mais um pouco, e conversar mais com a sua mãe, a decisão eu você tomar pode mudar seu futuro.

Olho para minha mãe que se entristeceu com a minha decisão, volto meus olhos para a doutora e suspiro. Acho que estou tomando a decisão certa. Estou suando frio, minhas mãos estão molhadas de suor, me sinto enjoada, e se não for a decisão correta a ser tomada? Eu não aguentaria a quimioterapia, essa é a decisão correta.

— Tenho – respondo.

— Ok, amanhã encontro você no hospital. – diz a doutora.

***

Estamos no estacionamento indo em direção ao carro, minha mãe não deu uma palavra no elevador e esta com os lábios colados desde o momento em que decidi sobre a cirurgia. Não consigo ficar aliviada com essa decisão, acho que minha fica não caiu ainda, mas sei que fiz o certo. Agora fico pensando que a culpa é minha, eu devia ter me cuidado mais, usado camisinha em todas as transar e não ter ido para cama com o cara do sorriso bonito que encontrei no pub, ou nos aplicativos de encontros, como pude ser tão estúpida com todos os avisos na televisão e a gente não se cuida. Droga, bota ortopédica idiota, tropecei na muleta e deixei ela cair. Minha mãe me ajuda com as muletas e a entrar no carro, ainda calada, ela bate a porta. Respiro fundo e fecho os olhos. Ouço o som do motor do carro ligar e abro os olhos, minha mãe está me olhando de esguelha.

— Mãe, eu tomei a decisão certa – falo quebrando o silencio – eu sei que você acha que é a errada, que eu não vou poder ter filhos e que sou nova, mas fazer a histerectomia me pareceu a melhor opção para a minha vida atual.

— Tudo bem – ela respondeu.

— Você tem que me enten... – me interrrompi, ela disse tudo bem?

— Minha filha, você é nova mas sabe o que quer da vida, não posso ficar te controlando- ela falou calmamente – bom, desde que você saiu de casa para morar em outra cidade eu perdi meu controle sobre você e percebo, agora, que cresceu, você tem 25 anos e é mulher feita e sabe tomar as próprias decisões, mesmo que eu não concorde com isso.

— Por que você então implicou comigo no consultório? Se pensava assim o tempo todo? – indaguei.

— Eu não pensava assim – respondi ela, e eu aguardo a sua conclusão – foi na saída do consultório e na descida do elevador, que percebi que você realmente é uma mulher, e não a minha menina.

— Obrigado por me compreender mãe – respondo, colocando a mão no seu ombro – e se um dia eu mudar de opinião, sempre se pode adotar, existem varias crianças querendo uma família, mas isso vai demorar, tenho que pensar no amanhã.

— Acho que agora poderíamos tomar café! – diz ela, sorrindo para mim e não retrucando meu pensamento.

***

Na cafeteria fico observando as famílias com seus filhos, tomando café ou um milkshake todos juntos. Olho para minha mãe que também está pensativa, olhando pela vidraça o lado de fora da cafeteria. Deve estar pensando no que disse para mim, fico feliz que ela tenha mudado de opinião, percebo que estava olhando para ela, quando ela olha para mim e sorri. Nossos cafés chegam fumegantes.

— Você sente falta do papai mãe? – pergunto, não sei por que pensei nisso agora.

— Sinto saudades da época em que vocês eram pequenas, que tudo estava no controle, não imaginávamos o futuro das duas. – diz ela tomando um gole do café.

— Você não fugiu do controle mãe, só que agora eu e Helena temos o controle nas nossas vidas, e você da sua. – digo.

— Tens razão, sinto falta do seu pai, passei parte da minha juventude de vida adulta com ele, era um grande homem. – diz – ia ficar do seu lado com certeza, era seu puxa saco. — Ri.

— Era nada – digo rindo.

— Mas sabe aquele seu porteiro até que é legal! – diz ela.

— Ele é simpático mesmo, só por que você sente falta do pai não quer dizer que não pode tocar a barca para frente mãe – digo – tenho certeza que ele fica feliz em ver você seguindo feliz.

Terminamos os nossos café, jogamos mais papo fora, minha mãe até mandou mensagem para o seu João marcando um encontro, minha mãe com encontros nunca imaginei, estamos crescendo. Saímos e fomos para casa, que amanhã será um longo dia.

***

Pós-cirurgia

Estou extremamente cansada, hospitais cansam, pós-cirurgias cansam, a cirurgia foi tranquila sem complicações ou sustos. A doutora me passou uma lista de alimentação para a recuperação, de começo posso tomar apenas líquidos ou pastosos, para depois evoluir para alimentação normal, será enjoativo, mas se tenho que fazer para melhorar logo, eu faço, sem contar a lista de medicamentos que devo tomar. Minha mãe vai ficar mais uns dias aqui comigo e final de semana Helena vai passar aqui com meu sobrinho, disse que não precisava, mas pelo visto elas têm medo que me desregre ou não saiba cuidar de mim mesma. Ando com dificuldade, dói meu corpo todo, vou interromper a fisioterapia, não posso fazer esforço e nem se eu pudesse conseguiria.

Trouxe a TV pro quarto, onde vou passar a maior parte do tempo, to assistindo um filme de Zombies, é meio tosco, mas gostei. Tv, cama, seriados e fimes serão meus companheiros nessa recuperação, fico um pouco tonta e enjoada quando levanto ou caminho, mas a Dr disse que é normal.

— Trouxe uma sopinha para você! – mãe

— Sopa, queria mesmo é um sushi, um milkshake, chocolate quente. – reclamo

— Seu primeiro dia de recuperação em casa e já tá reclamando, come logo essa sopa de legumes que fiz. – diz ela me entregando a tigela de sopa fumegante.

— Pelo menos o cheiro está bom! – digo

— Como pelo menos?! Minha sopa é ótima! – diz ela se sentando ao meu lado.

— Hmm, tá uma delicia – digo experimentando uma colherada, da sopa pastosa – mas ainda prefiro um milkshake, é liquido também!

— Quando melhorar pode comer milkshake – diz ela como se eu tivesse 10 anos e estivesse com gripe.

Termino de comer minha sopa, tomo meu comprimido para dor, deito-me ao lado da minha mãe e continuo a assistir o filme. Olho para o lado e minha mãe está roncando, literalmente. Pego meu celular na cabeceira da cama, tem uma mensagem de um numero desconhecido.

“ Espero que esteja se recuperando bem, sinto muito pelo acidente!”

Só, era isso que estava escrito, eu não fazia ideia de quem é esse numero, vou mandar uma mensagem para ver se tenho respostas.

“Obrigada pela preocupação, mas, de quem é este numero.”

Pronto, agora espero por resposta. Deixo o celular de lado de novo e coloco outro filme para começar, um desenho, adoro desenhos animados. Sinto meus olhos pesando e pego no sono. Alguns minutos ou horas depois acordo e minha mãe não está mais deitada do meu lado, sinto cheiro de café quentinho sendo preparado, meu estomago se revira. Droga, nem posso tomar café. Pego meu celular e vejo se obtive alguma resposta, nada. Devo ligar? Melhor não, deve ser alguém da família que minha mãe contou do acidente.

— Mãee! –chamo

— Olha quem acordou, fala. – responde ela.

— Quero esse café que a senhora está fazendo! – grito do quarto.

— Tem suco de soja de uva, e fique contente. – responde ela debochando de mim.