Escolhas
9 Mudança de habito
Agosto 2008
Já vai fazer dois anos que estou morando na casa da Aline, agora que estou com estabilidade financeira acho que está na hora de ir morar num apartamento só meu, nos formamos final do ano que vem e não quero acabar a faculdade e não ter onde morar, também não quero voltar para casa da minha mãe. Pensando em dois anos atrás em como cheguei arrasada na casa dela e ela me comprou chocolates e bebemos vinho, fiquei bêbada de novo, mas não dormi com ninguém, pelo menos naquele dia. Mês de agosto me faz lembrar daquele dia e parece que ouço as palavras do imbecil na minha cabeça, minha sorte é que a universidade é grande e eu quase não esbarrava com ele pelos corredores. Olho o relógio pendurado na parede do pub, de garçonete fui promovida a caixa e barista, pelo menos recebo mais do que antes, dá pra me manter viva. Agora fico atrás da bancada servindo drinks e dando em cima dos caras, sexo fácil. Olho o relógio de novo, faltam alguns minutos para eu ir para casa, são 0:49, trabalho até a uma da manhã e hoje só quero dormir, estou exausta, semana de provas. Ouço a sineta da porta de entrada tilintar, o pub está vazio e me arrepio pensando ser um assaltante ou sei lá o que. Olho para porta e é Aline andando torta, em plena quinta-feira.
— Pensei que estivesse dormindo uma hora dessas. – debochei
— Eu estava no O Bar e pensei que pudéssemos ir juntas para casa – responde ela com fala arrastada.
— Nossa você ainda frequenta esse lugar – falei, depois de um tempo comecei a odiar aquele lugar – e como você veio até aqui, não é muito perto para vir a pé.
— Sabe que eu não lembro da viajem, haha – responde ela bêbada – mas foi o Matheus bartender que me fez a gentileza.
— Ele ainda trabalha lá? – me lembrando de quando fiquei bêbada e quis que ele transasse comigo – Ele é um fofo mesmo.
Olho pro relógio 1:00, que felicidade, hoje parece que o dia passou devagar e enfim posso ir para casa e dormir. Acordo Aline que em questão de segundos adormeceu sentada na cadeira, ela vai andando cambaleando até o estacionamento, abro a porta do carro e praticamente ela se joga no banco, fecho a porta com um baque. Dou partida e Aline vomita no banco e nela mesma. E eu pensando que dormiria, a noite será longa.
***
Em casa coloco Aline sentada no vazo sanitário para que eu consiga tirar a sua roupa e dar um banho nela, nossa ela ta fedendo a vomito e a álcool. Jogo as roupas dela no chão, amanhã coloco na maquina para lavar.
— Muiiitcho oobrigadjo amig – balbuceia ela
— De nada, de nada, agora fica quieta. – repondo alçando ela do vazo para o chuveiro.
Peguei uma cadeira de plástico para colocar ela sentada, me sinto como aquelas enfermeiras que cuidam de pessoas acamadas. Espero que ela não vomite mais, acho que tem um remédio para enjoo no armário, vou fazer ela engolir. Ligo o chuveiro com água gelada para amenizar essa bebedeira dela. O pior eu já consegui, arrasta-la até dentro de casa, ela está praticamente inconsciente. Desligo o chuveiro. Seco ela o melhor que posso e coloco uma camisola, mais fácil de vestir.
— Aline – chamo – Aline, me ajuda ir com você até na cama.
Ela acena com a cabeça, mal consegue falar. Coloco ela na cama com uma coberta por cima. Vou até a cozinha e acho o remédio, pego um copo com água. Tento fazer com que ela tome o remédio e com esforço ela engole.
— Agora pode dormir – falo para ela que já estava dormindo.
Tenho que limpar a sujeira no carro, se não amanhã vai estar com um fedor insuportável. Vou pela por ta frente até o carro e vejo que nosso vizinho Andersom acabou de chegar, ou será que está saindo? A uma da manhã? Acho que não. Ele está dentro do carro mexendo no celular, será que tem namorada? Nunca o vi com mulheres na casa, só se nunca a trás para cá. Ele é gato, tem cabelos encaracolados escuros como a sua pele, o sorriso mais branco que já vi. Não nos falamos muito, trocamos uma ou duas palavras, sempre simpático quando nos esbarramos saindo de casa. Ele olha para mim e tento disfarçar tentando abrir a porta do carro e me embasbaco toda deixando a chave do carro cair. Olho de novo para ele e percebo que ele saiu do carro e esta vindo na minha direção, sinto meu rosto avermelhar.
— Olá, noite longa? – pergunta ele.
— Muito- respondo.
— Chegando do trabalho? – indaga sorrindo.
— Ahãm – respondo abrindo a porta do carro – Já vi você algumas vezes lá no pub.
— A é, lugar bom lá. – responde ele, ele está bem próximo e sinto cheiro de cerveja misturado com perfume.
—É sim – respondo – e você chegando de alguma festa? – o que é isso, estou flertando enquanto minha amiga está inconsciente jogada na cama.
— Na casa de um amigo do trabalho. – diz ele sorrindo, que no meio da noite brilha.
Percebo que ele olha para dentro do carro, observando a sujeira deixada pela Aline, fico um pouco sem graça e vou logo me explicando.
— Minha amiga vomitou ai, agora vim limpar- explico.
— Ah! – exclama ele – eu estava olhando seu livro da saphire, Preciosa, ótimo livro.
O livro, claro que está jogado no banco de trás, terceira vez que estou lendo ele.
— É, é sim. – respondi sem jeito, o que ele tinha que saber do vomito da Aline? Quanta deselegância Maya, quanta deselegância.
— Já que mencionou, esta tudo bem com a Aline? – pergunta ele, já que se conhecem a um tempo.
— Está sim, já coloquei ela para dormir. – sorrio e coloco a chave do carro na fechadura.
— Bom, vou indo nessa. – diz ele tocando no meu ombro e meus pelos se arrepiam – você quer entrar? – pergunta ele.
Que? Eu ouvi direito? Ele me convidou para ir até a casa dele, mesmo eu falando de vomito e gaguejando. Olho para a janela do quarto que estava iluminado pela luz que deixei acesa, penso na Aline lá deitada e que precisa de mim para vigia-la. Olho para ele que ainda está com a mão no meu ombro, sorrio, e respondo o que devo responder.
— Não posso, tenho que limpar essa bagunça e cuidar da minha amiga – sorrio e toco no braço dele.
Ele olha para mim, e chega bem próximo. Começamos as nos beijar, seus lábios quentes e carnudos, estou arrepiada, ele me agarra na cintura e me prensa contra o carro. Fico sem fôlego, ele tem pegada. Paramos, respiramos e nos despedimos.
***
— Perdi uma transa por sua culpa. – falei enquanto Aline me trazia um café e sentava ao meu lado no sofá.
— Minha culpa? Eu estava dormindo como te impedi? – disse ela debochando – Obrigado por cuidar de mim amiga.
— Tudo bem, amigas são para isso. – falei tomando um gole de café.
— Espera um pouco ai! – exclama ela- que transa que você perdeu ontem aquela hora da madrugada?
— Alguém que eu já estava trocando mensagens antes de você aparecer no pub – menti, não quero ela pegando no meu pé por causa do vizinho bonitão.
— Hmm, sei! – ironiza ela.
— Você não tem que ir trabalhar agora, não? – pergunto.
— Mandei uma mensagem dizendo que to com virose.
— Ressaca agora mudou de nome? – brinco – Álias, você me deve uma limpeza geral no carro, por aquele cheiro asqueroso não vai sair assim tão fácil.
— Ai, amiga você é tão prestativa cuidando de mim quando estou bêbada – diz ela me abraçando – eu mando limpar seu carro na melhor lavação, prometo!
Sinto-me bem com a minha amizade com Aline, vou sentir falta dela andando pela casa e batendo nas quinas dos moveis, vou sentir falta até da bagunça que ela faz por todos os cômodos, não sou a mais organizada, mas ela ganha de mim. Tenho que falar com ela sobre me mudar de cassa, ter meu lar, preciso da ajuda dela pra me orientar por onde devo começar a procurar. Ela levanta, e vai correndo para o banheiro, ouço ela vomitar. Lá vamos nós de novo. Vou atrás dela no banheiro e vejo ela jogada no chão abraçada ao vaso sanitário.
— Achei que já tínhamos passado dessa fase. –falei puxando seu cabelo e amarrando em um rabo de cavalo.
— Vou vomitar as tripas – diz ela limpando a boca – você é uma grande amiga Maya.
Ela vomita de novo, eu ajudo ela a levantar. Dou a ela um remédio para o estomago, e voltamos para cama. Afinal não vamos trabalhar hoje, nada melhor que dormir até meio dia.
***
Voltamos a acordar e são 12:30, nunca dormi tanto na vida. Pedi uma marmita para nós duas que acabou de chegar. Vou até na porta buscar, pego a marmita e dou o dinheiro pro entregador, olho para casa do vizinho e ele está lá na porta trancando, ou será que está abrindo? não importa. Ele acena e eu aceno de volta. Volto para dentro com um sorriso besta na cara. Que Aline logo percebeu.
— Que sorriso besta é esse na tua cara? – pergunta – o motoboy era gatinho, era?
— Sim, o motoboy, era bem gatinho- digo.
— Droga quando é comigo é aquele velho pançudo. – reclama.
Comemos nosso almoço no sofá mesmo, Aline dispensa etiquetas, principalmente quando está de ressaca. Está na hora de dizer que vou me mudar, ela não vai ficar brava comigo, assim espero.
— Aline, precisamos conversar – digo.
— O que? Fiz alguma coisa de errado? – pergunta ela – mais alguma coisa, quero dizer- ri.
— Não, não fez mais nada – sorrio- é que eu acho que está na hora de eu arrumar a minha própria casa.
— Mas por quê? Nos damos tão bem juntas – afirma ela
— Eu sei que nos damos bem juntas, eu adoro morar aqui, fosse uma grande amiga quando me quis – sorrio
— Então por que quer ir embora? – pergunta
— Por que já vamos nos formar e eu não posso ficar aqui para sempre, uma hora ou outra eu vou ter que sair daqui e ter meu canto, minha casa. – digo.
— Ta bem, se é o que você quer – diz ela – mas vou sentir sua falta.
— Eu também vou sentir a sua – digo abraçando ela.
— Para! Se não eu vou chorar e você ainda nem foi- rimos.
***
Dois meses depois
— Tô subindo com a ultima caixa – grita Aline da escada, para a nossa sorte o elevador está em manutenção.
Ela chega na porta e larga a caixa no chão e suspira. Estamos cansadas, subir e descer essas escadas nos deixou “mortas”. Meu novo apartamento está uma bagunça, caixas para todos os lados, e vão ficar por ai, pelo menos até amanhã, o dia já está escurecendo e não estou a fim de arrumar tudo isso.
— Podíamos sair para comer alguma coisa – sugiro.
— hmmm, um x-salada caprichado – concorda ela.
— Depois de subir e descer essas escadas to morrendo de fome – digo.
— Então vai tomar um banho, que você ta parecendo uma porca suada. – ela ri e eu jogo uma almofada nela.
Nossa, nunca desejei tanto um banho, estou realmente suada, eca. Fiz uma maratona com essas escadas, carregando peso ainda, será que vale por um mês de academia? Acho que não, mas bem que podia. Ligo o chuveiro à água morna desce pelo meu corpo e sinto como se toda a tensão e cansaço estivesse caindo pelo ralo, água que renova. Tomo um bom banho, desligo o chuveiro e escuto Aline batendo na porta, será que ela ta ai batendo a muito tempo? Não sei, não percebi os minutos passando.
— Vai ficar toda enrugada com esse tempo todo no chuveiro. – brinca ela.
— Tá! Eu já to saindo! – grito
— É bom andar logo por que minhas lombrigas estão brigando de fome aqui! – zomba.
— Vai logo tomar um banho que você está suada feito porca. — brinco abrindo a porta do banheiro.
— Há há, se não tivesse demorado tanto eu já estaria pronta! – responde ela.
***
Fomos à lanchonete e comi um cachorro quente e Aline o x-salada caprichado que ela queria. Bebemos algumas cervejas deixei ela em casa, conversamos mais um pouco sentadas na calçada, nos abraçamos e nos despedimos, não que nunca mais fossemos nos ver, ainda temos que terminar a faculdade, quase chorei quando sai de lá, foram dois anos de pura amizade e companheirismos, e agora é provável que ela arrume outra pessoa para dividir as despesas com ela.
Abro a porta do meu apartamento e tudo está uma bagunça. Suspiro. Amanhã eu arrumo tudo isso, ou boa parte. Ainda estou parada na porta e sinto algo nos meus pés, que não seja um rato, penso. Olho para baixo e é pequeno como uma ratazana, mas é um gatinho, me abaixo e acaricio seu pelo.
— Oi amiguinho, de onde você veio? – falo como se ele fosse me responder.
Ele ronrona e o pego no colo, que coisa mais fofinha, Poe ser uma boa companhia para mim. Procuro sinal de alguma coleira, mas não encontro, não deve ter dono. E se tiver é muito relaxado porque esse gatinho está infestado de pulgas.
— Vem gatinho, vou dar um banho em você. – olho para ele que mia – Bichano. Fecho a porta e vou com meu novo companheiro.
***
Agosto de 2009
— Bom dia flor do dia! – diz ele para mim.
— Bom dia – falo com preguiça.
Ele mexe no meu cabelo, gosto como ele faz isso pela manhã. Mas não quero que se torne um habito, não quero entrar em um relacionamento sério, prometi a mim mesma que não entraria em uma fria de novo. Namoro está fora de cogitação, gosto do nosso relacionamento casual e sem compromisso, às vezes deixo ele dormir aqui no meu apartamento, principalmente quando tenho trabalho pela manhã, assim não temos que passar muito tempo juntos e não nos apegamos. Estamos nessa há alguns meses, ele veio no meu apartamento buscar as chaves do meu carro, ele o comprou — tive que vender para pagar as contas — ele entrou , comentou que era um belo apartamento, nos olhamos e quando eu entreguei as chaves na mão dele, me puxou e no agarramos ali mesmo, na sala.
— Quer um café?- pergunta ele.
— Não tudo bem, eu compro no caminho para o trabalho. – olho para o relógio, está na hora. – tenho que ir.
Me levanto e ele fica me observando, sinto seu olhar nas minhas costas nuas. Coloco minha camisa do uniforme, visto as minhas calças e ele ainda me observa.
— Para de me olhar. – digo.
— É que você é tão linda de manhã.
— Então tá né. Linda? Toda descabelada e com bafo. – digo com tom zombeteiro – você só pode estar com falta de vista, conheço um bom oftalmologista.
— Ou apaixonado! – exclama e eu gelo.
Fico estática, uns segundos. Como assim apaixonado, eu não dei espaço para isso, não deixei claro que era só casual, sexo e às vezes, quando está muito tarde, poder dormir aqui? Esses homens, porque tem que complicar? o que eu faço agora?. Maya! se mexe, não demonstra o choque e deixa tudo em pratos limpos.
— Para de brincadeira. – digo tentando descontrair. Vou atrás dos meus sapatos. Calço eles.
— Não estou brincando. – diz ele. Para por favor, penso – eu fico pensando em você todos os dias, gosto de ficar aqui e te acordar pela manhã, gosto do sexo, mas quero mais que isso.
— Pensei que sexo fosse o ultimo ponto para se conquistar – digo, não quero que a conversa se torne séria, mas quero que ele entenda que isso não passa de sexo.
— Para de brincar Maya! – diz ele se sentando na cama e chegando mais próximo de mim, que a este ponto já estava sentada na beirada da cama olhando para ele. – Eu estou falando sério, sinto que estou me apaixonando por você.
— Por favor não diz isso, e..eu. – não sei o que dizer, ele é um cara legal – Olha, no momento eu não quero um relacionamento sério, não quero namorar, não estou pronta para isso.
— Nós podemos tentar, se vemos que não dá certo paramos, eu sei ser um bom namorado. – diz ele fazendo graça.
— Olha, eu não tenho boas lembranças do meu ultimo namorado, ele me magoou me traindo, eu não estou pronta para entrar nessa de novo – explico.
— Não serei como aquele cara, eu não te magoaria ou trairia – interrompe ele.
— Andersom, eu sei que você seria melhor que ele. – digo — mas eu não quero um namoro ou algo mais que isso que temos agora. Acho melhor nós paramos com nosso lance casual, não podemos afetar os dois.
— Tudo bem – responde ele já vestido para ir embora — acho então que isso é um até mais.
— Até mais!- respondo e ele me beija.
— Sabe – diz já na porta do quarto – acho que isso poderia dar certo no futuro.
Não respondo, apenas sorrio e ele vai embora. Escuto a porta do apartamento se fechar. Olho para o relógio e está na hora de ir trabalhar.
Fale com o autor