*Near*

Lentamente comecei a recobrar os sentidos. Minha visão, apesar de embaçada, me permitia assimilar três silhuetas: Mello, com o pescoço envolto por um enorme braço; o dono do braço, Kelvin, olhando fixamente para uma terceira pessoa; e a terceira pessoa: Matt, segurando algo que eu não conseguia ver com clareza. Olhando mais atentamente, percebi meu agressor caído em uma poça de sangue e possivelmente morto. Walter, deitado em uma posição incomum, com uma faca na testa e os olhos e boca muito abertos. Mas não tive tempo para me acostumar com o que estava vendo. Ouvi um disparo. O som ecoou por todos os lados. Uma ferida redonda foi aberta na garganta de Kelvin e ele tombou para o lado. Mello caiu de joelhos e respirava com dificuldade. Dentro do saguão do hotel ao lado, as pessoas ficaram em silêncio durante alguns segundos após o disparo. Agora, com uma fresta da porta branca aberta, eu podia ver cerca de 40 pessoas andando discretamente até onde nós estávamos. Corri até onde Matt ajudava Mello a se levantar.

-Eles vão estar aqui em 47 segundos. – Meus cálculos sempre foram extremamente precisos. – Precisamos fugir. Agora.

40 segundos até nós acharem.

-Pra onde nós vamos? – Matt parecia tão descontrolado quanto eu.

Fomos até a calçada e atravessamos a rua, praticamente carregando um Mello inconsciente.

31 segundos.

-Psiu! Near,Matt. Venham aqui agora! – Uma voz próxima nos chamou. Virando a cabeça, percebi que vinha de uma mulher que estava a 10 metros de onde nós nos encontrávamos. Ela se esgueirou para fora de casa. – Aí não é seguro. Entrem rápido!

Matt e eu nos entreolhamos. Não deveríamos confiar em ninguém, mas ela tinha razão. Era extremamente perigoso ali fora. Assim que os traficantes chegassem ao beco a frente, certamente procurariam nos arredores.

E nós só tínhamos 23 segundos.

A aparência sombria da mulher, com uma grande capa preta sobre os ombros e o rosto envolto em um capuz, nos gerava dúvida. Contudo ela sabia nossos nomes e veio nos prestar socorro em um momento de necessidade.

-Watari me pediu. Agora venham! – Ela gesticulava com a mão para nos aproximarmos.

Seu conhecimento sobre Watari e a aparência cada vez pior de Mello foi decisivo para que confiássemos nela. Assim que entramos e a porta se fechou atrás de nós, eu ouvi. Gritos, exclamações e choro do outro lado da rua. Tinham encontrado Fred, Walter e Kevin. Todos mortos.