I

As madrugadas costumam ser calmas no vigésimo distrito policial. No entanto, naquele dois de fevereiro, um chamado especial apareceu no computador central da delegacia: “150 — Invasão de domicílio”.

O endereço e as poucas informações do caso foram informadas à dupla Omega, formada pelo cabo Gabriel Richard e o soldado Rodrigo Santos. Os dois, claro, já estavam acostumados com casos assim, e na maioria das vezes nunca era nada demais — algum adolescente arruaceiro, drogado, sempre tentando invadir uma casa e fugindo ao ouvir a voz do dono da residência.

Ao chegarem no local, os dois sentiram um pequeno frio na espinha. Diferente de outras ocasiões, somente as luzes dos vizinhos estavam acesas, enquanto a casa da ocorrência encontrava-se em absoluta escuridão.

— Algo deu errado lá dentro... talvez seja melhor pedir reforços. — Disse o cabo Richard, pegando o rádio e solicitando viaturas e uma ambulância.

Os dois entraram com armas em mãos. Por questões normativas, anunciaram duas ou três vezes o nome da polícia, porém, não houve nenhuma resposta ou sequer gemido. Avançaram pelo quintal até chegar na porta da cozinha, agora derrubada no chão.

A casa não era grande, com a maioria dos cômodos no térreo. Os dois policiais observaram bem a cena antes de entrarem e gritarem por ordem e autoridade, por fim, cessaram os gritos ao verem uma poça de sangue escorrendo pelo corredor: um homem alto, forte e careca estava de bruços.

— Alô, central — Disse o soldado Rodrigo, puxando o rádio do bolso —, temos um possível 157 ou 121. Homem ferido gravemente, mas ele tem pulsação. Nenhum sinal da mulher ou criança.

Uma voz respondeu algo indecifrável do outro lado da linha e desligou a transmissão.

— Ela deve estar escondida com a criança em algum lugar — sugeriu o soldado.

— Ouviu nossos gritos e não saiu? Meu amigo, acho que o pior aconteceu nessa casa. — O cabo respondeu, avançando pelos cômodos.

Ao entrarem no quarto do filho do casal, enfim, encontraram o primeiro sinal de vida. A criança levantou da cama, olhou para os dois policiais e pensou ser seus pais, voltando a dormir em seguida.

— Coitadinho, nem ouviu nada. Isso está muito estranho, Richard… nada parece fora do lugar e a mulher sumiu. Não pode ser 157, nada foi roubado, talvez tenha sido algo planejado para levar ela… sequestro, 148?

— Isso cabe aos detetives resolverem, soldado.

Uma grande comoção começou do lado de fora da casa, os reforços haviam chegado e mais giroflex vermelhos iluminavam a rua. Antes dos outros policiais e da perícia entrarem, os paramédicos começaram o atendimento no homem, identificado como Marcelo da Cunha Silva, agora já consciente e confuso.

— O senhor lembra de algo? — perguntou um dos paramédicos.

— Ana… cadê a Ana? — Ele movimentava a cabeça, procurando pela esposa.

— Sr. Marcelo, você não pode se mexer, você está ferido e precisa repousar. Vamos te levar para um hospital, está entendendo? — outro paramédico interveio.

— Eu… eu não entendo… — disse, desmaiando novamente.

— Ele vai ficar bem? — indagou o cabo Richard.

— Sim, sim, apesar de ter perdido muito sangue, com muita sorte, nenhum órgão vital foi atingido. Ele só precisa repousar e ficará bem novamente, agora sobre a esposa dele…

— Ela foi sequestrada — a fala do paramédico foi interrompida por um homem baixinho, musculoso e de cavanhaque. — Boa noite, senhores, sou o Adrian, investigador da Polícia Civil. Estava conversando com alguns vizinhos e eles dizem que a mulher… deixe-me ver… Ana Clark, foi levada num carro azul. A mãe dela está lá fora, desesperada querendo ver a filha e o neto, mas conseguiu informar que está tendo uma festa na escola hoje à noite. — O investigador voltou-se para o cabo Richard e perguntou: — Sua equipe conseguiria ir até lá e levá-los até a delegacia, para uma conversa?

O cabo assentiu e levou o soldado Rodrigo com ele. Enquanto saíam pela porta da cozinha derrubada, uma dúzia de peritos entraram com equipamentos e câmeras fotográficas. Naquela madrugada, a noite na casa do Silva foi mais longa que o comum.

II

A escola não ficava tão longe da casa da vítima, os três quilômetros e meio do percurso foram feitos em quinze minutos. A porta da diretoria foi aberta por uma mulher simpática e que já estava sabendo das notícias pela edição especial do jornal sensacionalista “Cidade Fatal”.

— Terrível, terrível. — Ela repetia, enquanto acompanhava os policiais até a sala da diretoria. — Colocamos uma televisão lá, parece que foi bem brutal, não é? O pobre marido…

— Onde está o diretor, senhora? — indagou o cabo Richard.

— Ele está na sala dele, falando ao telefone. Assunto importante, eu acho, faz alguns minutos que está lá… o pobrezinho nem soube da notícia ainda.

Naquele instante, o diretor saiu de sua sala cabisbaixo. Ele parecia um pouco confuso, todavia, abriu um sorriso e fechou-o ao ver todos professores falando baixo e assistindo à televisão. Ao ouvirem os passos dos três chegando na sala, todos voltaram suas cabeças para a porta e viram a mulher acompanhada pelos dois policiais.

— Sinto muito em dizer isso, mas a professora Ana Cleia acaba de ser sequestrada por alguém e nós precisamos saber se ela pode estar aqui. — disse Rodrigo.

— Impossível, eu acabei de falar com ela no telefone! — disse o diretor.

— Pode nos falar qual foi o telefone, senhor? — Perguntou Rodrigo, enquanto seguia o diretor até a mesa do telefone.

— Ela ligou para dizer o quê? — perguntou Marcelo.

O diretor, já trêmulo, gaguejou ao responder a pergunta:

— Para pedir sua demissão.

— Como foi isso? Muito estranho toda essa situação… soldado Rodrigo, passe um rádio e informe o ocorrido. Obrigado, diretor…

— Ah, sim, perdão… chamo-me Luís de Azevedo.

— Certo, obrigado. Eu vou pedir para todos ficarem na outra sala, enquanto cuidamos aqui, pode ser?

O diretor concordou e retirou-se da sala. O silêncio mórbido dos dois policiais experientes só foi quebrado quando o investigador Adrian chegou no escritório acompanhado de um técnico da Polícia Civil.

— Ele vai conferir o telefone e tentar rastrear o número… como é um telefone fixo, já estamos em contato com a operadora também, e vocês sabem como é, vai demorar séculos com aquela má vontade. Eles podem ligar novamente… — explicou Adrian, apossando da cadeira acolchoada.

Muitas horas se passaram naquele cubículo sem nenhuma novidade. O sol começava a raiar na janela quando o toque do celular de Adrian despertou todos os presentes na sala.

— Sim… entendo perfeitamente… correto… estamos aqui, eu, o técnico, o cabo Richard e o soldado Rodrigo… entendo, certo, tchau! — E desligou a ligação, continuando em tom sereno: — Encontraram um corpo a vinte quilômetros, acham que é dela. A família já foi informada e fará o reconhecimento no IML, após a perícia do local.

— Quem a encontrou? — perguntou Rodrigo.

— O vigia da manhã encontrou o corpo no Galpão Slater. Três facadas fatais: duas nos rins e uma no peito. Ela morreu já na primeira, o resto foi só para finalizar o serviço. Vamos para lá agora mesmo...

Os homens saíram da sala e encontraram os professores adormecidos pelas cadeiras e sofás. Apenas o diretor estava acordado, acompanhando as últimas atualizações na televisão: “Professora morta a facadas — corpo encontrado em galpão”.

— Os malditos abutres! — disse o cabo Richard, saindo do local.