No portão da escola, Felipe e Erick se despediram dos outros amigos e foram caminhando lentamente para o ponto de ônibus, apenas alguns metros dali. Apesar de irem juntos, os dois têm destinos diferentes.

— O que vai fazer hoje à tarde? — perguntou Erick.

— Vou ser obrigado a cuidar da minha irmã… minha mãe avisou que vai trabalhar até tarde, então, o corno aqui vai fazer tudo. — Os dois riram. Felipe continuou: — Mas e você, vai fazer o quê?

— Nada, estou de bobeira… Você podia ir lá em casa, igual naquele dia.

— É… — Felipe sorriu, sem graça. — Hoje não vai rolar, mas podemos deixar para uma próxima, se você quiser… quer dizer, quando não estiver tão ocupado.

— Tranquilo! É só me mandar mensagem, Fê. — Ele fez uma pausa e olhou para a rua, avisando o ônibus dele se aproximando. — Vou indo nessa, até depois!

Felipe ficou pensando por alguns minutos na conversa, analisando cada palavra. O pensamento levava-o voando para diversos lugares, passando por todas as escolhas de vida até chegar ali, aterrizando quando conheceu aquele grupo de amigos.

Há menos de dois anos, a família de Felipe mudou-se da zona sul para a região norte da capital paulista. Os tempos das vacas gordas haviam acabado, e a contenção de gastos da mãe divorciada obrigou ele sair da escola particular e ingressar na pública — um pesadelo dentro do filme de terror que era sua vida.

Seu jeito tímido e taciturno nunca ajudou-o a fazer novas amizades, então, abandonar toda sua vida social do outro lado da cidade foi algo doloroso e difícil. Na cabeça dele, passaria os últimos anos do ensino médio solitário no canto da sala de aula; ou, pior, sofrer bullying por não saber se impor.

Já no primeiro dia de aula, diferente do que imaginava, foi muito bem recepcionado por um grupo de quatro adolescentes amigáveis. Caio, Erick, Thaís e Vinícius acabaram se tornando sua nova âncora, fazendo-o até esquecer que tivera outro ciclo social uma vez.

Claro, o grupo brigava e tinha suas intrigas, mas no final acabavam fazendo as pazes e a harmonia reinava novamente. A única pessoa com quem Felipe nunca havia brigado era Erick. Uma pessoa muito querida e próxima, talvez, o único que Felipe realmente gostasse do grupo; talvez, o único que queria por perto para sempre.

Os pensamentos saíram do passado e trouxeram-no de volta ao presente, sentado naquele ponto de ônibus sozinho. Você podia ir lá em casa, igual naquele dia. Aquelas palavras ecoavam em sua mente como gritos numa caverna. E ele queria gritar agora, mas se segurou e começou a pensar se Erick pensava daquele mesmo jeito, algo para sempre.

Ele agradeceu quando o seu ônibus curvou a rua e os pensamentos dissiparam. Fez sinal de parada e embarcou na viagem de quinze minutos, aproveitando para ouvir seu álbum favorito da Ane Brun — o aleatório havia acertado em cheio: I do remember that I already knew: it was the last time; the last time for first positions, the last time you’ll be mine¹.

O ponto final ficava em frente ao seu condomínio. Desembarcou despedindo-se do motorista (conhecido de vista dos últimos anos), cumprimentou o porteiro ao entrar e subiu até o quarto andar de um dos prédios.

O apartamento estava em silêncio quando entrou. Ele suspirou em alívio, sinal que sua irmã de sete anos estava dormindo, e ele esperava que ela continuasse assim até o jantar. Felipe jogou a mochila no sofá e foi para a cozinha preparar seu almoço: pão com presunto e queijo.

O relógio marcava meio-dia quando ele sentou na frente da televisão com seu sanduíche em mãos e começou assistir os últimos três episódios da série Scream. A maratona foi divertida, mas achou o final fraco. Levantou-se às três e meia, indo para o quarto da irmã.

— Dormindo parece um anjinho… — disse, sendo interrompido pela vibração do celular em seu bolso. — Alô, mãe? Sim, sim, já estou em casa — sorriu, atendendo a ligação.

Alguns gemidos do outro lado, outros da parte de Felipe. O assunto da ligação era a ordem da casa, o que ele deveria fazer e como sua irmã mais nova precisava de atenção e carinho. Ele já sabia de tudo aquilo, afinal, não era a primeira vez que ficava sozinho porque a mãe trabalhava até mais tarde.

— E como estão as coisas por aí? Ah, sim… sim… imagino que seja chato mesmo… e o seu chefe? Vai voltar às onze, igual da outra vez? Talvez mais tarde? Minha nossa, isso é quase trabalho escravo, mãe. É, uma comissão bem gorda é o que espero mesmo — ele riu, se despedindo e desligando o telefone.

Tudo estava bastante calmo. Felipe sentou no sofá por alguns minutos e nem percebeu quando caiu no sono, nem percebeu se havia sonhado ou não, quando acordou quatro horas depois com sua irmã puxando-o pela blusa.

— Dormi demais? — perguntou retoricamente, levantando-se e sorrindo para a pequena Manuela. — E você, está com fome?

— Sim! — respondeu, emendando: — Cadê a mamãe?

— Está trabalhando, ela vai chegar bem tarde hoje… vamos lá, vou preparar algo pra você. O que vai querer?

Ela tagarelou algumas coisas e ele preparou uma gororoba, que Manuela comeu bem feliz. Felipe ficou encostado na pia, com as pernas entrelaçadas e olhando as mil notificações do seu celular. Havia quase mil mensagens no grupo entre seus amigos, enquanto, no privado: duas de Erick e uma de sua mãe.

“Como estão as coisas aí?”, dizia a mensagem da mãe. Ele respondeu o que havia acontecido até o momento e voltou para as conversas do grupo, mas não se importou em ler todas — em sua maioria falando do retorno de Ana Clark —, marcando tudo como lido e indo responder Erick.

“E aí, como estão as coisas com sua irmã?”, dizia a primeira mensagem. “Eu comecei a assistir aquela série que você recomendou”, dizia a segunda acompanhada de um emoji sorrindo. Felipe achou fofo aquela atitude, mas antes de conseguir responder, sua irmã chamou-o para colocar vídeos infantis na televisão do quarto.

— Vai voltar a dormir, Manu? — ele perguntou.

Ela não respondeu, antes mesmo dele selecionar o primeiro vídeo ela já estava aconchegada na mesma posição de antes, dormindo como nunca. Felipe suspirou em alívio mais uma vez.

O celular vibrou em seu bolso, mas não conseguiu desbloqueá-lo: o aparelho havia descarregado. Procurou o carregador e colocou na tomada da sala de estar, esperando atingir a carga mínima de cinco por cento para ligá-lo.

Não conseguiu esperar até lá. O dia estava calmo e a rua silenciosa como seu apartamento, acabou caindo no sono naquela mesma posição e acordando às seis da manhã do dia seguinte, coberto e numa posição mais confortável — sinal que sua mãe já havia chegado.

O primeiro ato foi ligar o celular, aquela altura carregado completamente. Uma pequena travada com o volume de notificações e agora ele presta atenção e lê as mensagens do grupo: a morte de alguma professora, pelo que parece, ainda está confuso do sono.

Duas mensagens no privado, uma de Thaís e outra de Erick. A última não é relacionada ao assunto: “Nem me respondeu… fiz algo de errado?”. A primeira mensagem, no entanto, soa como uma confissão de Thaís: “Acho que o Caio fez merda…”, enviada há pouco.

Ele olha com cuidado todas as mensagens e descobre a morte da professora de matemática Ana Clark na madrugada daquele dois de fevereiro. Felipe não consegue pensar ou digitar, ele suspira e deixa os dedos tocarem o teclado: “Que loucura tudo isso…”.

— Que loucura tudo isso… — repete, largando o celular e olhando para os primeiros raios de sol invadindo o apartamento.

Notas finais
¹: Eu lembro do que eu já sabia: foi a última vez. A última vez para as primeiras posições, a última vez que você vai ser meu.