I

Madrugada do dia 02 de fevereiro de 2016, na casa de Ana Clark Silva;

Ana Clark da Silva dormia junto ao seu marido numa espaçosa cama de casal. Apenas alguns metros dali estava o quarto do seu filho de oito anos, que acabara de entrar no décimo ciclo do sono.

Uma batida no vidro não é o suficiente para acordar os três moradores da casa. A segunda, um pouco mais forte, faz seu marido revirar-se na cama e suspirar. Somente na terceira e última batida, junto ao som da porta sendo arrancada, é que o casal acorda em desespero.

Um pedaço de madeira e o celular é tudo que eles pensam em pegar, antes de irem para o quarto do filho. No caminho, o marido de Ana telefona para a polícia e informa à invasão da sua casa. O invasor está por perto, eles sentem, os passos começam a ficar agitados e os poucos metros entre os dois quartos se tornam quilômetros.

Uma cabeça mascarada surge vindo da cozinha. O marido de Ana prepara-se para defender sua esposa com o pedaço de madeira, mas é acertado com uma facada na barriga e cai inconsciente sem poder fazer nada — a próxima é Ana, àquela altura gritando desesperada por ajuda.

Ela tenta correr em direção ao quarto do filho, mas a cabeça mascarada a segura com força. Ela treme e esperneia, tentando se livrar do assassino, mas está fraca depois do choque de ver seu marido cair na sua frente; acaba cedendo e para de lutar, deixando a cabeça mascarada colocar um pano de cozinha úmido na sua boca e nariz.

O silêncio na casa dos Silva é perturbador. O filho não demonstrou sinais de ter acordado e o marido continua inconsciente no chão. O invasor toma seu tempo para amarrar e colocar Ana Clark em seu ombro, sem nenhuma preocupação ao sair carregando ela por onde entrou.

Somente cerca de uma hora desde a ligação do marido de Ana para a polícia, a primeira viatura chegou ao local e encontrou a cena. Os policiais entram na casa e pedem reforços, informam de um homem vivo, porém, gravemente ferido dentro da casa e entram no quarto do filho do casal.

Ele, finalmente, acordou. Ele vê duas sombras contra a luz entrarem no quarto e inocentemente pergunta:

— Mamãe? Papai? — E voltou a dormir.

II

O carro azul de placa clonada rasga as ruas vazias da cidade deserta em alta velocidade. A casa de Ana Clark já está distante, assim como a consciência da mulher, ainda dopada do flunitrazepam.

Depois de algumas horas, o carro estacionou num galpão escuro e sujo. A cabeça mascarada retirou o corpo de Ana do banco traseiro e a posicionou em algum canto no meio dos ferros-velhos.

— Acorda, acorda, princesa — disse, dando tapas na cara de Ana.

— O quê? — Ela respondeu, tentando levantar a cabeça e sentindo todo peso da gravidade contra si.

— Como alguém pode causar tantos problemas em tão pouco tempo, fala sério. Nem doze horas…

— O que você está falando? O que quer de mim? Não me machuque, por favor, eu tenho um filho e um marido! Meu marido... — A confusão mental estava passando e ela começava a se lembrar da sequência de eventos.

— Eu não quero te machucar, eu quero algo bem peculiar. Tudo isso poderia ter acontecido de maneira pacífica, sabia? Eu só quero uma coisinha, bem pequena, sua demissão da escola.

— O que… eu… eu não entendo…

— Vai entender… ligue agora na escola e se demita! — exigiu a cabeça mascarada.

— Digamos que eu teria o que é meu de volta — E riu, entregando um celular com o número da escola em número privado já digitado.

— São duas da manhã, não tem ninguém na escola! — respondeu.

— Aí que você se engana, minha cara... a festa dos professores pelo retorno do ano letivo é hoje, estão todos lá!

III

O telefone da escola tocou algumas vezes até ser atendido pelo próprio diretor, um pouco bêbado. Empossou a voz para tentar disfarçar isso e começou a conversa:

— Alô, quem fala?

— Alô, é o diretor Luís? Aqui é a professora Ana Clark, de matemática — disse a voz do outro lado do celular.

— Ah, pois não? Aconteceu alguma coisa? Por que você não veio para nossa festinha? Só você e… quem é ela mesmo? Bom, só faltaram duas pessoas do nosso corpo docente na festa.

— É que era muito tarde e não pude ir, tive que cuidar do meu filho… do meu marido… Ah, mas estou ligando por outra coisa.

— É para falar o quê? — O diretor percebeu a voz trêmula de Ana, mas suspeitou ser apenas sono. Ele também estava bêbado demais para intervir em algo.

— É que estou numa situação complicada e estou me demitindo da escola... me desculpa, é que arranjei uma vaga melhor. — Ana engoliu em seco.

— Mas o quê? Bem, tudo bem. Depois vem aqui pegar seus papéis.

— Tudo bem... — E parou de falar. Antes de desligar o telefone, o diretor ouviu um choro incontrolável, como se fosse a última coisa que faria em sua vida.

O diretor desligou o telefone e voltou para a festa, onde estavam todos olhando para a TV e depois para a porta. Dois policiais entraram na sala da direção.

— Sinto muito em dizer isso, mas a professora Ana Clark acaba de ser sequestrada. Teriam alguma informação para nos dar? — indagou um deles.

— Impossível, eu acabei de falar com ela no telefone! — disse o diretor.

— Pode nos falar qual telefone, senhor? — Perguntou o policial, enquanto seguia o diretor até a mesa do telefone.

— Ela ligou para quê? — perguntou o outro policial.

O diretor, já trêmulo, gaguejou ao responder a pergunta:

— Para pedir sua demissão.

IV

De volta ao galpão, a voz do sequestrador foi ficando cada vez mais fina, até ficar como se tivesse engolindo gás hélio. Ana Clark continuava a soluçar em choro, e isso fez a pessoa mascarada mostrar a faca suja de sangue.

— Parece que você não é tão mais útil assim, não é mesmo? — disse.

— Não, por favor, não! — implorou.

— Será rápido, você nem notará — disse, rindo.

— Por favor, não! — gritou ela, pela última vez.

O silêncio tomou o lugar. Uma, duas, três facadas. A ponta já estava cheia de sangue, e Ana estava debruçada no chão. O assassino havia entrado no carro azul, do lado de fora, e fugido do local. Ana Clark estava morta.