Escarlate
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Castiel
O dia seguinte amanheceu mais frio do que eu previa. Meus lábios estavam roxos pelo frio da madrugada. Mal queria sair da cama e pela minha infelicidade acordei mais cedo do que programei o despertador. Revirei de um lado para outro em busca de uma posição quente e confortável, qual não encontrei de forma alguma. Dragon dormia na pomposa almofada todo embrulhado, nem parecendo o cachorro grande de sempre. Sentei com o edredom envolta de meus ombros e mergulhei no calor do tecido macio e aconchegante, puxei a cortina branca e encarei o tempo do lado de fora: céu nublado e denso. Pessoas cobertas com grandes e pesados casacos, tocas, calças, luvas e cachecóis, protegidas do tempo frio, tudo de que menos precisávamos era de uma epidemia de gripe. Atrevi-me a sair de meu casulo abafado.
A água do chuveiro tocava meu corpo e provocava arrepios de alívio, uma água quente era tudo que precisava naquele momento. Meus músculos relaxavam como se recebessem massagens acolhedoras e leves. Prendo a toalha na cintura, parando em frente ao espelho e enxergando minha imagem ensopada. Um lindo tomate. Algumas gotas desciam pelo meu pescoço com uma cor vermelha, meu cabelo já voltava a cor natural na raiz.
– Desbotando... idiota. — xinguei certo loiro, ao lembrar das agulhadas que recebi no dia passado
Me sequei e encarei as roupas que estavam socadas dentro do guarda-roupa. Será que alguma está limpa? Analisei por alguns segundos, até decidir o que vestir. Substitui o colete por uma pesada blusa de frio, uma toca e calcei uma luva que nem sabia que existia. Assim, já pronto, troquei a água e a comida de Dragon — qual preguiçoso ficou me observando sem sair do embrulhado quentinho e macio das almofadas.
A cidade estava mais movimentada que de costume, pessoas desesperadas me deixavam tão cansado... Minha barriga revirava de fome e o cheiro de café e cookies da cafeteria me despertava. Seria bom ter algum dinheiro no bolso em uma hora dessas. Encarei as vitrines das lojas, na tentativa de não ficar sofrendo ao encarar a cafeteria e isso quase funcionou, mas algum idiota na rua havia me empurrado.
– Desculpe-me.
– Filha da pu- encarei o loiro na minha frente pasmo, o mesmo me encarava com uma expressão farta. Fechei o punho e enruguei o rosto para aquele representante insolente.
– Já pedi desculpas, idiota. — ralhou antes de me dar a chance de quebrá-lo ao meio — Não tenho tempo de brigar feito criança com você, hoje. Amanhã talvez...
– Ora seu... — e novamente fui interrompido de lhe dar um belo soco na cara, mas dessa vez era apenas minha barriga, que me torturava loucamente com um ronco estrondoso de fome. E olhei para as minhas mãos sobre a barriga cabisbaixo e percebi que Nathaniel observava também, com uma expressão achatada e confusa — Aish! Deixe-me passar representante!
O empurrei com o ombro e segui em frente, sentindo o cheiro de café com leite espumado com uma gota de adoçante acompanhado de um pão com goiabada. Certo, não era exatamente esse cheiro, mas seria um ótimo pedido. E olha que nem sou muito exigente, mas á tempos não tomo um café da manhã e ontem, decidi de repente, não jantar e nem, ao menos, comer algum lanche. Agora, até aquela ração em forma de ossinhos do Dragon cairia bem... Antes de chegar na esquina algo tocou minha mão.
– É... — encarei Nathaniel surpreso, o mesmo segurava minha mão com as pontas dos dedos — ...vamos. — apontou a cafeteria com a cabeça e o encarei mais surpreso ainda. Notei-o desviar o olhar para o canto e ganhar um tom rosado nas maçãs do rosto, era fofo. Castiel! Foco!
"Está... falando sério?"
– Claro que estou, vamos. Não temos o dia todo. — respondeu-me a pergunta, qual pensei ter perguntado mentalmente.
Fui puxado, talvez Nathaniel não havia notado, mas ainda segurava minha mão. Percebi suas mãos pálidas e descobertas, sem nenhuma luva. O tempo não estava perdoando e a primeira reação que tive foi segurar sua mão e, junto a minha, colocá-la no bolso de meu casaco pesado. O mesmo não questionou, nem mesmo parou de caminhar, percebi um certo alívio em seus ombros. Nossas mãos unidas dentro do bolso, a minha coberta por uma luva e a dele enroscada a minha, roçando no tecido felpudo do bolso.
A cafeteria estava lotada, tivemos sorte ao toparmos com um casal deixando o local e abandonando uma das mesas. Senti um certo desconforto ao ter que liberar sua mão, para deixá-lo sentar a minha frente no sofá acolchoado com uma almofada vermelha de couro. O ambiente era quente e havia uma aura calma, sem contar o cheiro dos pães que estava me deixando louco.
– Nathaniel. — chamei-o, puxando sua atenção que estava na janela — Sua boca, está roxa. — falei e o mesmo comprimiu os lábios. Ri baixo e um sorriso quase imperceptível surgiu no canto de seus lábios, quase.
– Então você iria morrendo de fome para a escola? — perguntou, tomando uma posição séria — Castiel! E se você desmaiasse? — repreendeu e revirei os olhos, odiava receber broncas, principalmente de um garoto nerd mais novo que eu.
– Estou sem dinheiro. — apenas declarei, não querendo prolongar o assunto, coisa que não funcionou e resultou em outra bronca.
– Arrume um emprego de meio período, idiota! — falou nervoso — Se não passasse o resto da tarde dormindo, já estaria rico. — ri do seu exagero, enquanto sua bronca era interrompida por uma garçonete louca que vinha até nós — Peça o que quiser. Apenas um copo de leite quente para mim, por favor. — a morena escrevia no bloco de notas com um sorriso curvado no rosto.
– 10 pães com goiabada, um copo de café com leite espumado. 20 cookies de leite para levar. — disse empolgado. Assim que a moça se retirou ouvi uma risada, o loiro olhava para mim com um belo sorriso no rosto.
– Já leve seu jantar Castiel. — e riu novamente. Apenas revirei os olhos enquanto minha barriga continuava chorando.
Permanecemos em um silêncio agradável, apenas com risadas fracas vindas da parte dele seguidas de repreensões pela minha pressa ao comer. Ao pagar a conta algumas palavras trocadas, para não perder o hábito:
"Espero que não tenha feito isso com o pensamento de eu recompensá-lo algum dia".
"Relaxe. Já perdi as esperanças com você".
Rumamos juntos no caminho da escola, eu não me incomodaria de chegar com ele e pelo que percebi, o mesmo também não estava se importando. Não chegamos a compartilhar o mesmo bolso novamente, nem trocamos olhares. Apenas andávamos, eu mirando o final das ruas e ele encarando o chão.
[...]
– Não corra tanto Nathaniel! — gritei para o loirinho enquanto tentava acompanha-lo — Não vou te alcançar desse jeito!
Ouvi sua risada ao longe e sorri com isso, era bom vê-lo feliz. Desde que meus pais decidiram que voltariam á trabalhar me deixaram aos cuidados da minha tia. Ela morava distante da cidade, em uma vilinha passiva. Eu apenas voltava para a cidade quando meus pais também voltavam, era demorado. Todas as vezes que eu voltava Nathaniel agia de forma diferente, falava pouco, mal sorria, respondia tudo com tanta educação que era estranhável. Até mesmo se mantinha de cabeça baixa e aceitava tudo que lhe diziam, sem expor o que pensava — algo que sempre fazia, já que tinha uma língua afiada. Sempre ia para casa com uma expressão séria e pontualmente no mesmo horário. Apenas quando ele novamente se acostumava com a minha presença é que se soltava, e voltava a ser o mesmo loiro de sempre.
As ruas estavam calmas, havia mais pessoas nas calçadas que andando nos carros. Isso era raro. O comércio geralmente atraía diversas pessoas ou empresários que viviam rodando de carro, para conhecer mais das lojas. E eu só conseguia encontrar Nathaniel no meio daquele emaranhado de gente pelos fios loiros, quais eram os únicos e saltavam para cima. Quando finalmente o alcancei percebi o quanto seu rosto estava corado e suado, em seu pescoço algumas veias saltadas. Ele olhava diretamente para uma caixa de papelão suja e amassada em um beco, seus olhos estavam atentos e fixados naquele ponto.
– Nath? — chamei-o que virou pra mim com um sorrisinho de canto.
– Hey... Cassy... — surpresa maior foi sentir sua mão segurando a minha. A mão do loiro era tão macia e quente. Ele me puxou em direção a caixa, mas não conseguia desgrudar meus olhos de nossas mãos, unidas, juntas. Confuso? Sim, eu estava confuso. Não entendia o que estava sentindo, mas era uma sensação dolorida e... boa?
"Meow"- o som frágil me despertou e dentro da caixa uma bolinha de pelo se encolhia assustada no canto.
– Quem o deixou aqui? — perguntei agachando junto a Nathaniel, sem soltar nossas mãos.
– Algum desgraçado sem coração. — disse ríspido e não evitei em sorrir, o garoto continuava um tanto rebelde. Aproximou a mão livre do bicho felpudo que o arranhou, fazendo-o recuar e me assustando.
– Ei, você está bem? — o loiro sorriu pra mim afirmando com a cabeça
Novamente levou a mão ao gatinho que nos olhava com aqueles grandes olhos brilhantes. Seu pelo amarelado estava fosco e sujo com terra grudada. Era óbvio que seus olhos, de uma cor dourada conhecida por mim, demonstravam terror, havia sido abandonado em condições desesperadoras. Nathaniel o tocou com cuidado, acariciando levemente sua cabeça e logo levando a mão para sua barriga, o pegando no colo e levando até o peito. O gato me encarava curioso e sua pata deslizava no queixo de Nathaniel que sorria satisfeito. Nossas mãos ainda estavam unidas, sem perceber apertei ainda mais sua mão e o mesmo me encarou.
– Aish! — exclamei — Vocês se parecem!
[...]
Voltei de meu devaneio e percebi o quanto Nathaniel andava a minha frente. Apressei-me em acompanha-lo até perceber que não havia motivos para eu andar perto do representante. Mas, eu queria. Querer é um motivo? Ou uma boa desculpa? O cachecol azul que rodeava seu pescoço estava um pouco frouxo e pude ver sua nuca com leves marcas arroxeadas e alguns pelos loiros arrepiados . Relembrando agora, na cafeteria, enquanto Nathaniel tomava seu café, seus lábios estavam mais avermelhados e inchados que de costume. Não que eu tenha reparado, apenas... olhei por engano. Parecia que o mesmo havia mordido os lábios de forma brusca. O loiro estava imerso em pensamentos, seus olhos abaixados enquanto encarava o chão que pisava. Suas mãos hora ou outra se esfregavam, em busca de calor. Poderia eu me aproximar novamente, lhe catar as mãos e cobri-las com as minhas, mas seria muito suspeito de minha parte.
Parando pra pensar... eu sempre fui suspeito. E isso não seria um motivo para eu não fazer o que eu mais queria: Abraçar Nathaniel.
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