Escape
32 Verdades
Notas iniciais
Um ano e três meses depois
Regina acordou irritada, na verdade, nem dormiu. Passou a madrugada fugindo do marido, das suas mãos e do seu corpo que insistentemente tentaram de todas as formas uma aproximação. Lembrou-se de quando falava que cama do seu quarto era grande demais, seria cômico se não fosse trágico. A mesma cama uma vez enorme, tinha se tornado minúscula, se tornado pequena demais para duas pessoas. Sempre que Robin deitava ao seu lado, sentia-se esmagada, espremida, pressionada. Deitar ao lado do marido era como deitar ao lado do inimigo.
Dar uma nova chance ao casamento foi uma das coisas mais erradas que fez na vida. Soube que provavelmente não daria certo quando adiou por dois meses o encontro com o marido, e teve certeza absoluta sobre aquilo, quando ele lhe tomou o corpo e tudo que ela sentiu foi uma enorme vontade de chorar, e foi o que fez, assim que o marido caiu ao seu lado e começou a roncar.
Como a boa masoquista que tinha se tornado, as horas em que passava trancada no banheiro chorando depois do sexo, era de Emma que lembrava. Recordava-se de como se sentia bem quando depois de transarem, Emma a puxava para si, acarinha seu braço, enquanto com uma voz baixa e preguiçosa fazia planos para o futuro. Sempre que pensava que todos os planos que fizeram não se concretizariam, tinha vontade de se descabelar, e tudo piorava quando se dava conta de que tudo que tinha lhe sobrado de Emma eram lembranças, apenas lembranças.
De uma coisa tinha certeza, seu futuro com Robin era tão inexistente quando ao com Emma. Não conseguia mais, definitivamente não conseguia. Há quase seis meses estava fugindo das investidas do marido. Não existia mais dor de cabeça e indisposição que pudesse inventar. Sabia que ele estava cada dia mais impaciente, e tinha razão de estar.
Não conseguiu fechar os olhos um minuto sequer aquela noite, mas enfim tinha se decidido, colocaria um fim ao casamento, de preferência ainda naquele dia.
Queria libertar-se, queria sua cama de volta, queria conseguir dormir, e não passar a noite encolhida no canto da cama com medo de ser tocada, queria não ter que fingir mais, queria paz. Queria também que o marido encontrasse alguém que lhe fizesse feliz, como ela sabia não ser mais capaz de fazer.
– Mãe? – Henry estava parado há alguns minutos, ao lado do sofá em que a mãe estava deitada. Ficou esperando que ela o visse ali, mas como os olhos dela continuavam fixos no teto, não lhe restou outra alternativa a não ser chama-la.
– Sim? – Respondeu meio perdida, sem saber se o filho tinha lhe dito mais alguma coisa ou apenas a chamado.
– Você está bem? – Perguntou ao aproximar-se.
– Sim. – Tentou sorrir. – Estou bem e você? – Ele lhe lançou um olhar duvidoso, e sentou-se na beira do sofá.
– Estou bem também. – Pela coberta e o travesseiro que faziam companhia para Regina, Henry concluiu que mais uma noite ela foi parar no sofá.
– Dormiu aqui de novo? – Perguntou só por perguntar.
– Eu estava sem sono, resolvi assistir um pouco de TV e acabei aqui. – Balançou a cabeça negativamente e levou a mão até os cabelos da mãe, os tirando da frente do rosto.
– Mãe, você acha mesmo que ainda é tão fácil me enganar? – Indagou, a fazendo sorrir sem graça. – O que está acontecendo com você? – Regina o olhou nos olhos, suspirou e resolveu contar sua decisão. Afinal, queria que o filho estivesse ciente do que aconteceria.
– Henry, eu vou pedir o divórcio. – Foi direto ao ponto, como sempre fazia quando o assunto era importante.
– Ok. – A resposta do garoto e a feição tranquila em seu rosto, fizeram Regina juntar as sobrancelhas.
– Ok? – Indagou um pouco incrédula pela simples aceitação do filho.
– Ok. – Respondeu de novo.
– Só ok? – Ele afirmou.
– Se você vai voltar a dormir na sua cama, se vai ter menos dor de cabeça, e se vai voltar a jantar em casa, então ok. – Deu de ombros.
– Sinto muito, sei que tenho sido uma mãe ausente. – Lamentou-se.
– Eu sei que não faz de propósito. – A tranquilizou. – Sei também que todo o mal humor do meu pai não é de propósito. Eu entendo vocês.
– Então tudo bem se nós três não formos mais uma família? – A pergunta de Regina fez o filho suspirar.
– Mãe, nós já não somos isso há algum tempo, só vocês dois que ainda não perceberam. – Regina esboçou um sorriso e balançou a cabeça concordando.
– Meu Deus, Henry! Você não é mais uma criança. – Voltou a lamentar.
– Acho que não. Quer dizer, não que praticamente quinze anos seja uma idade muito avançada, mas acho que não serve mais para criança. E olha para esse rosto lindo. – Apontou para si. – Tenho carinha de dezoito. – Ao ouvir tamanho absurdo Regina riu alto.
– Você tem carinha de bebê. Não sei como já beija na boca. Kristen deveria escolher alguém da idade dela. – O ciúme da mãe fez Henry rolar os olhos.
– Como sou dois anos adiantado, mentalmente eu tenho a idade dela. – Beijou o rosto da mãe. – E para você parar de implicar com Kristen... – Respirou fundo não acreditando que diria aquilo a mãe. – Anna, é a boca dela que eu beijo. – Ao falar aquilo em voz alta para a mãe, sentiu as bochechas queimarem. – Agora eu vou para o colégio, você não precisa me levar. Fique e resolva o que tem que resolver com o meu pai. – Antes que a mãe pudesse lhe fazer um interrogatório sobre Anna, seus sentimentos por ela e a saliva que trocava com a mesma, Henry deu as costas para a mãe e praticamente correu dali.
Incrédula e um pouco enciumada com a mais nova descoberta, Regina balançou a cabeça em sinal de descrença, suspirou e sentou-se.
– Anna. – Murmurou. – Ele tem mesmo uma namoradinha? – Murmurou consigo. – Ah Deus! Depois de amanhã ele faz quinze anos. Ano que vem se forma no colegial e vai embora e além de tudo está namorando, ou sei lá o termo que usam hoje em dia. – Continuava balançando a cabeça negativamente. – Não bastasse isso você vai se separar, Regina. Essa casa enorme só para você. Desse jeito vai terminar sua vida sozinha. – Seus olhos procuraram pelo seu cachorro, que estava deitado no sofá ao lado. – Algodão! – O chamou e prontamente ele se pôs de pé e foi de encontro a dona. – Algodão, você está proibido de arrumar uma namorada, fugir e principalmente morrer, está me entendendo? – Questionou com ele enquanto afagava seus pelos. Como resposta ganhou uma lambida no rosto. – Que bom que entendeu. – Suspirou. – Futuramente seremos só você, eu e essa casa enorme. Ok, você vai poder dormir no meu quarto. – O cachorro latiu, a fazendo rolar os olhos. – Ok, na minha cama. – De novo ele a lambeu. – Agora você fica aqui embaixo, vou lá em cima pôr um fim ao meu casamento. – Algodão lhe lançou um olhar compadecido. – É eu sei, também sinto muito, mas infelizmente não posso mais, e além disso, você vai ficar com um lado da cama. – Tentou anima-lo e pôs-se de pé. – Falando com cachorro, Regina. Além de terminar seus dias sozinha, vai terminar também louca. Quem sabe você arrume também uns sete gatos. – Resmungou consigo, enquanto subia as escadas.
Ao chegar ao quarto, Robin já não estava mais na cama, pelo barulho do chuveiro, concluiu que ele estava no banho. Como ainda tinha que ir trabalhar depois de conversar com o marido, pegou uma toalha, suas roupas e foi tomar banho no quarto de Henry.
Pedia a Deus que Robin aceitasse facilmente o divórcio, porque era sexta-feira e sextas-feiras a cafeteria sempre se tornava um caos, e naquele dia tudo tinha a piorar, já que um dos seus funcionários não iria trabalhar.
Quando voltou ao quarto, Robin ainda não estava por lá, provavelmente estava se vestindo, já que o chuveiro não estava mais ligado. Foi até o criado mudo e pegou o anel e os brincos que tinha deixado lá na noite passada. Pegou também a corrente de prata, que carregava o anel que Emma tinha lhe dado. Seus olhos estavam fixos no cisne, enquanto sua mente lembrava do dia que o ganhou, quando Robin se materializou em sua frente.
– Querida, nós precisamos conversar. – Falou com tom de voz bastante sério. Regina concordou com a cabeça.
– Sim, nós precisamos. – Seus olhos de novo pararam no cisne, antes de colocar a corrente.
– As coisas não estão nada bem entre nós e eu estava pensando em um jeito de resolver isso. – Regina esboçou um sorriso. Robin iria lhe pedir o divórcio, no final das contas não seria tão difícil quanto ela imaginou que poderia ser. – E Cheguei à conclusão que precisamos ter outro filho.
– O quê?! – Regina arregalou os olhos, incrédula com o que tinha acabado de ouvir.
– Um filho, vamos ter um outro filho. – Robin repetiu.
– Você está louco? – A mulher continuava incrédula. Foi do céu ao inferno em míseros segundos. Não podia mesmo estar ouvindo aquilo.
– Louco por quê? Henry já está quase saindo de casa, temos uma vida financeira instável e já passamos dos trinta, acho que está mais do que não hora de termos outro filho. – Regina balançou a cabeça em sinal de negativo. Na verdade, estava esperando o momento em que o marido fosse começar a rir e dizer que só estava fazendo uma piada de mau gosto, mas não aconteceu.
– Robin, eu sei que você sabe e sabe muito bem, que as coisas entre nós não vão nada bem, você mesmo disse isso, então não, não está na hora de termos outro filho. Aliás, mesmo que estivesse, eu não quero um outro filho. Então por favor, esqueça essa ideia maluca. – Pediu.
– Quando tivemos Henry, as coisas entre nós ficaram perfeitas. Henry nos uniu. – Regina negou.
– Querido, isso foi há anos. Eu não sou mais aquela Regina, e você não é mais aquele Robin. Nosso casamento sofreu um desgaste e não é uma criança que vai salva-lo. – Suspirou. – Sabe o que eu acho? Que precisamos de um tempo. Eu preciso de um tempo. Você precisa de um tempo. Nós não estamos dando certo, Robin, definitivamente, não estamos. O melhor para nós dois é o divórcio. – Ao ouvir a sugestão da mulher, Robin sentiu o sangue ferver nas veias. Tinha sido um bom marido durante todo aqueles anos, principalmente durante o último ano, foi paciente, compreensivo, amoroso e atencioso, e o que ganhou em troca além de desprezo? Nada. Se não estava dando certo daquele jeito, então faria dar certo do seu jeito.
– PORQUE VOCÊ NÃO COLABORA. – Gritou e apontou em direção a mulher, que assustada com a mudança de humor, recuou uns passos. – VOCÊ NÃO FAZ O MÍNIMO ESFORÇO PARA COLABORAR. – Continuou aos berros, enquanto se aproximava dela, que continuava se esquivando. – VOCÊ ME IGNORA DE TODAS AS FORMAS POSSÍVEIS. EU MAL CONSIGO ENCOSTAR EM VOCÊ. E QUANDO TRANSAMOS, O QUE NÃO ACONTECE HÁ MESES, MAS QUANDO MILAGROSAMENTE EU CONSIGO FAZER ISSO COM VOCÊ, VOCÊ AGE COMO SE ESTIVESSE FAZENDO OBRIGADA! – Tinha encurralado a mulher contra a parede, que com um certo receio pensou por um momento em encerrar a discussão, mas acabou decidindo por não fazer. Não podia mais adiar aquilo, tinha que fazer o que deveria ter feito há um ano, precisava terminar aquilo, então prendeu os olhos nos olhos irados do marido, respirou fundo tomando coragem e resolveu falar.
– É como eu me sinto. – Admitiu. – Obrigada. Eu não quero mais transar com você, Robin, não quero mais beijar você, simplesmente não quero mais. Perdi a vontade, perdi o tesão. Não existe mais química. Quando olho para você, tudo que vejo é um amigo. A única coisa que sinto por você é carinho, nada mais. – Desabafou. Não fez aquilo com intenção de magoar, apenas não conseguia mais, não podia mais com aquilo. A verdade é que se sentia como uma prostituta sempre que o marido tomava seu corpo, mas ao contrário de uma, não recebia por aquilo. – Desculpe. – Pediu, sem desviar os olhos dos olhos furiosos e marejados do marido. – Desculpe! – Repetiu. Assim que tentou passar por ele para sair dali o homem a puxou pelo braço, e a jogou contra a parede, antes que ela pudesse esboçar alguma reação, sentiu a mão dele atingir seu rosto em cheio e mais uma vez não teve tempo de reagir, as mãos de Robin foram de encontro ao pescoço da mulher. Fez com que a cabeça dela batesse contra a parede, antes de apertar as mãos em seu pescoço.
– Se você não quer ser minha, Regina, então não vai ser de mais ninguém, está me ouvindo? – Sua voz soou fria e ameaçadora, enquanto suas mãos continuavam apertando o pescoço da mulher, que em vão, debatia-se tentando livrar-se das mãos que estavam a matando. – Nós poderíamos ser felizes, mas você prefere sofrer por uma mulher. Você não vai me trocar por ela, Regina, não mesmo. Antes eu acabo com você e depois faço o mesmo com ela. – Robin estava louco, alucinado, a raiva tinha o transformado. Regina estava aterrorizada, suas mãos tentavam em vão, tirar as mãos do marido do seu pescoço, enquanto seu corpo continuava se debatendo, em uma tentativa de escapulir. Ele a esganaria até a morte, via aquilo nos olhos dele. Sentia-se cada vez mais sufocada, precisava urgente de ar. Sentia a força se esvaindo se seu corpo, enquanto seu coração batia forte e rápido, se pudesse falar, ela estaria gritando por ajuda, se fosse possível, Regina estaria fazendo o mesmo. Precisava agir ou certamente acabaria morta. De algum jeito o pavor que estava se sentindo, transformou-se em calma, ela parou de se debater, subiu as mãos até os pulsos do marido e cravou suas unhas ali, o que o fez grunhir de dor. – VAGABUNDA! – Praguejou contra ela. Tirou uma das mãos do pescoço da mulher, para de novo lhe atingir o rosto. Dessa vez Regina reagiu rápido. Concentrou toda a força que ainda tinha em seu joelho esquerdo, o dobrou e o acertou entre as pernas do marido, que instantaneamente a soltou e curvou-se de dor.
Sentia vontade de novo acertar-lhe no mesmo lugar, até acabar com todas as chances que ele tinha de ter filhos, mas como sabia que ele era mais forte, resolveu não brincar com a sorte e correu até o banheiro, trancando-se lá.
Tossiu muito em busca de ar, fez aquilo muitas vezes. Assustada com o som que emitia sempre que tentava respirar fundo, começou a chorar. Um asmático em uma séria crise, se sentia assim.
– ABRE ESSA PORTA! – Pulou de susto ao ouvir a voz do marido, e as mãos do mesmo chocando-se contra a porta. A raiva que tomou conta de si, a fez esquecer a história do asmático em crise, e ela precisou controlar-se para não abrir a porta e encara-lo. Livrou-se das lagrimas com os braços e assim como ele fez segundos atrás, socou a porta.
– NÃO! – Tentou gritar, mas graças a tentativa de enforcamento, sua voz saiu rouca e falha. – CINCO MINUTOS, ESSE É O TEMPO QUE VOCÊ TEM PARA SAIR DAQUI, SE NÃO FIZER ISSO, VOU CHAMAR A POLÍCIA. – Sua voz piorou ainda mais, mas teve certeza que o marido entendeu.
– Regina, abre a porta, vamos conversar. – Pediu, abandonando o tom raivoso.
– A partir de hoje só converso com você através do meu advogado. – Avisou. – VÁ EMBORA! – Esbravejou. – VÁ E NÃO OUSE VOLTAR. – Robin não disse mais nada, ainda furioso com a mulher e com tudo que estava acontecendo na vida deles por culpa de Emma, fez uma promessa silenciosa de acabar com a vida da loira. Quebrou tudo que encontrou no quarto e se foi.
Ruby que estava parada em frente à casa da morena, esperando a mesma para que lhe desse uma carona até o trabalho, viu quando o homem saiu de casa cantando pneus. Ao concluir que certamente os dois tinham brigado, rolou os olhos e xingou o tal Robin, graças aquilo certamente todos os funcionários passariam a sexta-feira ganhando bronca.
Apertou a campainha da casa da amiga e esperou pacientemente ela aparecer, como sempre fazia, mas por algum motivo, aquilo não aconteceu. O que fez Ruby tocar a campainha de novo e de novo. Quinze minutos depois, resolveu ligar para a amiga, mas a mesma não atendeu sua ligação. Pensou que por algum motivo Regina pudesse ter ido para a cafeteria mais cedo, então ligou para lá. Começou a ficar preocupada quando Nathalie disse que a morena ainda não estava por lá. Mais uma vez tentou a campainha e o celular da morena, como não obteve êxito, decidiu que entraria sem ser convidada.
Ao levar a mão a maçaneta e tentar abrir a porta, seu coração acelerou. A porta estava aberta, então certamente Regina estava em casa. Então porque não lhe atendeu? Ao adentrar paralisou, e teve vontade de sair correndo, mas o medo não a deixou. O monstro enorme que Regina carinhosamente chamada de algodão, estava parado a poucos metros de si.
– Calma, garoto! Sou eu, Ruby! Sei que você não gosta de mim, sei que você sabe que já fui uma ladra, mas juro que não vim roubar. Só quero saber se Regina está em casa. – Falou devagar, enquanto levantava as mãos, tentando pedir calma a Algodão. Normalmente o cachorro ou rosnava para ela, ou a ignorava completamente, porém não foi isso que fez. Ele começou a latir, e a correr de onde estava, até as escadas. Fez isso algumas vezes até Ruby entender que ele queria que ela o seguisse. Foi o que fez, subiu as escadas atrás do cachorro.
– Regina? – Chamou, parando ao lado do cachorro em frente ao provável quarto da amiga. – Regina? – Voltou a chamar e ao não obter respostas bateu na porta entreaberta, antes de pôr a cabeça para dentro do quarto. Assustou-se com o cenário de destruição que viu. – REGINA? – Praticamente gritou ao entrar no quarto. Seu coração batia acelerado, enquanto pensava no que teria acontecido por ali. Quando abriu a boca para de novo chamar pela amiga, ouviu a porta do banheiro ser destravada. Esperou a morena sair lá de dentro, mas não aconteceu. Preocupada, Ruby foi até lá, antes de abrir a porta do lugar, tirou o celular do bolso e digitou o número da polícia, se por um acaso não fosse Regina dentro daquele banheiro, já estaria preparada para agir. Respirou fundo tentando inalar coragem, e abriu a porta. Deparou-se com a amiga sentada no chão, chorando abraçada aos joelhos. Sem dizer nada, aproximou-se e ajoelhou-se em frente a ex-detenta. Esperou que Regina levanta-se a cabeça e lhe encarasse, mas não aconteceu, o que a fez levar a mão até o rosto da amiga. – O que aconteceu? – Sussurrou a pergunta e a fez levantar a cabeça. Seus olhos cresceram ao ver a marca de dedos no lado esquerdo do rosto da morena, e escoriações e hematomas ao longo do seu pescoço. – O que aconteceu? – Voltou a questionar, dessa vez com tom de voz firme. Só precisava de uma confirmação para ligar para a polícia e denunciar Robin.
– Nada. – Ruby assustou-se ainda mais ao ouvir a voz, ou a falta de voz da amiga.
– Nada? Então me dê um bom motivo para essa marca no seu rosto, para o branco dos seus olhos estar vermelho, para essas marcas e hematomas no seu pescoço e para a sua voz. – Regina baixou os olhos. – Vou chamar a polícia. – Avisou ao tirar novamente o celular do bolso.
– Não. – Regina a impediu, segurando sua mão.
– Não? Por que diabos não? Ele tentou estrangular você. Regina, você não pode fazer de conta que nada aconteceu. – Esbravejou.
– Eu sei. – Deixou mais algumas lágrimas caírem. – Mas eu não quero falar com a polícia, pelo menos não agora. – Seus olhos tristes e cheios de lágrimas fizeram Ruby suspirar e desistir do celular.
– Você precisa consultar um médico, pode ter tido algum ferimento interno. – O comentário preocupado de Ruby, não abalou a morena.
– Estou bem, foi só um susto, não preciso de médico. Só preciso que você fique aqui comigo um pouco. – Pediu. Ruby suspirou, balançou a cabeça em reprovação, sentou-se ao lado da amiga, e a puxou a fazendo deitar a cabeça sobre suas pernas.
– Mills, não foi só um susto, foi o seu marido tentando matar você. – Murmurou enquanto lhe afagava os cabelos.
– Mas não aconteceu nada.
– Porque aparentemente você conseguiu fugir e trancou-se aqui dentro, se não teria acontecido e eu sei que você sabe disso. – Regina fungou.
– Eu só... ainda não consigo acreditar. – Estava em choque, o homem com quem dividia um filho e uma vida há anos, era um monstro, um monstro da pior espécie. Quando lembrava do olhar de satisfação dele enquanto tentava lhe matar, sentia nojo, não só dele, mas de si também, por ter se deixado enganar todo aquele tempo.
– Mas você precisa. Regina, esse homem é um doente descontrolado. Você precisa ir à polícia, precisa denuncia-lo, porque se não fazer isso, posso lhe afirmar com toda certeza do mundo que ele vai voltar, e você pode não ter a sorte que teve hoje. – Continuava afagando os cabelos negros da amiga. – Acredite em mim, tive um pai assim, sei exatamente como funciona. Ponha um fim nisso, antes que sobre até para o seu filho. – Regina fechou as mãos em punho quando pensou na possibilidade de Robin encostar as mãos em Henry.
A princípio pensou em não ir até a polícia justamente pelo filho, para que ele não sofresse pelos atos do pai, mas as palavras de Ruby serviram como um chocalhão. Precisava proteger o filho, se Robin teve coragem de fazer aquilo com ela, certamente poderia fazer o mesmo com Henry. Não queria magoa-lo com aquela história, não queria que ele soubesse o que o pai fez, mas acima de tudo queria protege-lo, então secou as lágrimas com os braços e balançou a cabeça, finalmente concordando com Ruby.
– Okay, você tem razão. Eu preciso ir até a polícia. – Mais uma vez, Ruby tirou o celular do bolso.
– Não, você não precisa ir até lá, eles virão até aqui. – Avisou ao iniciar a ligação.
Não demorou muito até uma viatura da polícia estacionar em frente à casa da morena. Ruby foi a responsável por recebe-los e leva-los até o banheiro, já que Regina recusava-se a sair de lá. A ex-detenta relatou todo o acontecido, desde o início da discussão, até o momento em que ela conseguiu atingi-lo e correr para o banheiro.
Os dois polícias bateram foto do que tinha sobrado do quarto, indicaram o médico legista ao qual a morena precisaria ir para fazer exame de corpo delito. E explicaram que depois de tal coisa iriam atrás de Robin com um mandato de prisão, mas sendo réu primário, certamente ele pagaria fiança e seria livre, porém teria uma ordem para que não se aproximasse mais dela. Antes de irem embora pediram para que ela passasse as próximas 24 horas longe de casa, sugeriram que fosse para um lugar onde Robin não pudesse vir a encontrá-la.
Sem nem ter chances para argumentar, Ruby a fez arrumar uma pequena mala e a intimou para que ela e o filho passassem o final de semana em sua casa.
Graças a toda aquela confusão, as duas acabaram perdendo toda a manhã de trabalho, quando chegaram na cafeteria a mesma estava um caos, e como não há nada de ruim que não possa piorar, Tinker também não foi trabalhar, graças a uma virose que lhe colocou no hospital. Regina acabou parando no caixa, e teve que recrutar o filho para ajudar Nathalie, a atender as mesas, enquanto Ruby preparava os cafés.
Regina conseguiu cobrir a marca em seu rosto com maquiagem, e usou uma echarpe para cobrir o pescoço, mas não pôde fazer quanto a sua voz, e seus olhos ainda um pouco avermelhados. Sabia que Henry pediria explicações sobre aquilo, na verdade já tinha pedido e a morena prometeu dá-las assim que chegassem em casa. Foi então que Ruby convidou a amiga e o garoto para uma competição de videogame, sutilmente a lembrando que eles não iriam para casa.
No final do dia estava exausta, seu corpo doía, sua cabeça doía, seu pescoço doía e sua garganta incomodava e muito, podia jurar que ainda sentia as mãos do marido lhe apertando. A echarpe que usava estava começando a lhe sufocar.
Finalmente o expediente tinha acabado, o último cliente tinha saído e a morena estava concentrada contando o dinheiro que tinha no caixa. Quando ouviu a sineta da porta tocar, avisando que alguém tinha acabado de entrar, bufou e xingou-se por não ter passado a chave na mesma.
– Desculpe, mas já fechamos. – Avisou sem tirar a atenção do que fazia. Voltou a bufar ao ouvir passos se aproximando ao invés de dar meia volta e ir embora. – As maquinas já estão desligadas. – Sua atenção continuava nas notas de cinquenta.
– Eu estava pensando que talvez você pudesse me vender uma água. – Ao ouvir aquela voz, o corpo de Regina entrou em choque. Suas pernas amoleceram, seu coração acelerou, a caneta que estava em sua mão caiu e as borboletas adormecidas em seu estomago, acordaram com força total. Lentamente Regina levantou a cabeça, e deparou-se com Emma paradinha a poucos metros de si. A loira trajava um jeans rasgado, uma camiseta preta, e tinha um camisão xadrez pendurado na cintura. Seus pés que estavam dentro de um par de all star sujo e surrado, faziam seu corpo subir e descer, mostrando o quanto ela estava nervosa, e suas mãos dentro dos bolsos traseiros da calça só confirmavam aquilo. Regina queria muito dizer alguma coisa, mas além de surpresa, estava tão nervosa quanto Emma. – Eu posso pagar. – Emma voltou a falar, tirou cinco dólares do bolso traseiro e mostrou para Regina, que apenas concordou com a cabeça e sem saber direito como, conseguiu caminhar até a geladeira de refrigerantes. Ao voltar, colocou a água sobre o balcão e pegou o dinheiro, o guardando no caixa, em seguida entregou o troco a loira, que juntou as sobrancelhas e encarou a amiga.
– Você paga para as pessoas tomarem água? – Regina lhe lançou um olhar de interrogação.
– Como? – Xingou-se por sua voz estar daquele estado.
– Eu dei cinco dólares e você está me devolvendo cinquenta. – Apontou para nota.
– Desculpa. – Pediu. Nervosa, devolveu a nota de cinquenta ao caixa. Já não lembrava mais nem o preço de uma água, então com certeza não saberia dar o troco, o que a fez pegar a nota de cinco e devolver a Emma. – Cortesia da casa. – Tentou sorrir.
– Faço questão de pagar. Dou o troco para a caixinha dos funcionários. – Regina apenas assentiu e voltou a guardar o dinheiro. – Você está gripada? – Indagou. – Sua voz... – Com certeza de todos os assuntos que poderiam ter, aquele não era um.
– O que você está fazendo aqui? – Indagou.
– Não se preocupe, não tem ninguém atrás de mim, ninguém me seguiu e nem sabe que estou aqui. Juro. – Emma tinha entendido errado, não foi aquilo que a morena quis perguntar.
– Você não deveria estar presa? – Reformulou a pergunta.
– Sim, ainda estou, quer dizer, ganhei um final de semana de liberdade. – Tentou explicar. – Minha avó estava doente, eu pedi para visita-la... – Tropeçou nas palavras. – Enfim, quando meu pedido foi aceito, já era um pouco tarde, ela morreu ontem. – Surpresa, Regina arregalou os olhos.
– A mãe da sua mãe? – Pergunta idiota. Claro que era a mãe da mãe dela, afinal, era a única avó até então viva, de Emma.
– Sim. – Confirmou.
– Eu sinto muito. – Emma concordou.
– É, eu também. – Prendeu os olhos nos da amiga por alguns instantes e resolveu fazer o que tinha ido fazer. – Regina, será que nós podemos conversar? – Pediu com o coração a mil, pensando que poderia ganhar uma resposta negativa. – Por favor? – Por um tempo Regina apenas concordou com a cabeça.
– Sim. – A resposta positiva fez Emma sorrir. – Podemos ir até o meu escritório, mas antes preciso esperar meu pessoal ir embora, para poder fechar tudo. – Explicou.
– Posso esperar aqui? – Indagou e mais uma vez a morena assentiu.
– Sim. Claro. – Emma lhe lançou um sorriso nervoso, e sentou-se em uma das banquetas. Apoiou os cotovelos no balcão e desajeitadamente abriu sua água. Deus! Estava nervosa, tão nervosa que suas mãos estavam tremulas. “É só Regina”, repetia para si mesmo, tentando livrar-se do nervosismo, mas não era só Regina. Era a Regina de fora da prisão, a Regina que há anos não via, e Deus! Como aquela Regina tinha se tornado perfeita.
Gostava do casaco preto que a morena trajava, ele ficava um palmo acima dos seus joelhos e era transpassado na cintura. Perguntou-se se por baixo dele tinha mais alguma peça de roupa ou se aquilo era tudo. Uma meia-calça preta cobria as pernas da morena, junto com uma bota de cano alto também da mesma cor. Tinha uma echarpe vinho estava envolta ao pescoço, que combinava perfeitamente com o batom que lhe cobria os lábios.
Emma sentiu vontade de pular por cima daquele balcão e alcançar Regina, para que pudesse beijar-lhe e arrancar-lhe as roupas, mas não podia, certo?
– Gostei da sua roupa. – Tentou disfarçar a conferida que dava na amiga.
– Obrigada! – Agradeceu um tanto quanto envergonhada. – A sua também não está nada mal. – Céus, não sabia o que dizer, seu corpo ainda não tinha se recuperado da surpresa, e sua mente continuava em colapso para que conseguisse formular uma frase descente.
– Isso não é verdade. – Descordou. – Essas são roupas de quando eu ainda era adolescente, menos a calça, a calça é da minha mãe. – Explicou. – Foi o que achei de melhor no meu antigo guarda-roupas. – Regina sorriu.
– Por que eu acho que a Emma adulta tem o mesmo gosto para roupas do que a Emma adolescente? – A pergunta fez a loira sorrir sem graça.
– Bom, eu visto dois números a mais agora, essa calça está um pouco apertada. E eu tenho algumas jaquetas de couro, e gosto de camisetas com mangas compridas, quando estou com calor é só dobra-las até os cotovelos... e as vezes eu uso botas no lugar de all star, e... – O jeito encabulado com o qual estava contando aquilo, fez Regina rir. – Deus! Por que eu estou contando isso para você? – Escondeu o rosto entre as mãos.
– Não faço a menor ideia. — Regina deu de ombros, ainda rindo. – De qualquer jeito, não imagino você com roupas diferentes. – Emma a espiou entre as frestas dos dedos.
– Você gosta de mim, mesmo eu me vestido assim certo? – Regina arqueou as sobrancelhas, como se quisesse perguntar “tenho mesmo que responder a esse absurdo? ”
– Eu não imagino você de vestido no seu cotidiano. – Ainda ria.
– Obrigada. Quer dizer, você é a mulher dos vestidos, prefiro usa-los só em ocasiões especiais. – Regina concordou com a cabeça. – Não que essa não seja uma, quer dizer... – Xingou-se muito mentalmente, estava nitidamente tropeçando nas palavras, sendo insegura, tudo que não podia ser.
– Entendi. – A amiga tranquilizou. Se não estivesse de frente com Emma, acharia que a loira estava no mínimo mais nervosa do que ela.
– Obrigada! – Tirou as mãos da frente do rosto. – Eu só... preciso mesmo falar com você. – Soltou com ar. Antes que Regina pudesse falar alguma coisa, elas ouviram vozes e risadas, e pela porta que ficava atrás de Regina saíram Ruby, Henry e uma cópia adolescente da própria Regina.
– Preparem-se para perder. – Henry implicou com as duas.
– Perder? Não existe essa palavra no meu vocabulário. – Nathalie, a irmã caçula de Regina, rebateu a provocação.
– Nem no meu. Nós duas vamos fazer você clamar por misericórdia. – Ruby continuou com a provocação, enquanto tentava bagunçar os cabelos do garoto.
– Mãe, fala para elas que ninguém me ganha no guitar hero. – Recorreu a mãe. Os três estavam tão entretidos na conversa que ainda não tinham percebido Emma por ali, ou se perceberam, não se deram conta de que era ela.
– Se esse ninguém incluí eu, então ninguém ganha de você no guitar hero. – Nathalie estapeou a cabeça do sobrinho.
– A mais velha é café com leite, se duvidar até o Algodão consegue ganhar dela. – Provocou mãe e filho.
– Enquanto umas entendem de guitar hero, outras entendem de matemática o que ajuda a não ter que repetir a mesma matéria pela quarta vez, e o que consequentemente também ajuda a não ter que conhecer todos os calouros do curso. – Rebateu a provocação, fazendo a irmã lhe mostrar a língua.
– Isso, esfrega sua inteligência na minha cara. – Emma riu, chamando a atenção de todos para ela.
– Regina Mills, sendo Regina Mills. – Comentou, arrancando um sorriso bobinho da amiga. Acabou prendendo seus olhos nos de Regina, enquanto lhe retribuía o sorriso bobinho. Foi tirada do transe em que se encontrava quando os braços de Henry a abraçaram sem cerimônia alguma.
– O que você está fazendo aqui? – Indagou, incrédulo com a presença da amiga ali.
– Meu Deus, como você cresceu! – Comentou espantada, enquanto abraçava o garoto agora bons centímetros maior do que ela. – Que saudades de você, garoto! – Henry a abraçou apertado e a tirou do chão. – Ah meu Deus! Você pode comigo. Estou realmente ficando velha! – Estava admirada, surpresa, espantada. Por mais que falasse quase todos os dias com Henry pelo telefone, a imagem que tinha dele, era de um pré-adolescente, menor, bem menor e mais magro.
– Acho que qualquer um pode com você. – Provocou ao devolve-la ao chão.
– Deixa eu ver você. – Pediu ao se desfazer do abraço e analisa-lo de perto. Ainda incrédula com o tamanho dele, balançou a cabeça em descrença. – Você está lindo. – Elogiou.
– Eu sei. – Emma riu.
– Modesto. – Implicou.
– Alguém uma vez me disse que isso faz parte do jogo. – Emma lhe sorriu largo e voltou a abraça-lo. Recostando a cabeça em seu peito. Seus olhos pararam em Regina, que assistia a cena com um sorriso largo no rosto, e o coração a mil.
– E de mim, você não lembra? Não mereço um abraço? – Ruby se fez de ofendida, o que fez Emma soltar Henry, e voltar-se para a ruiva. Tentou um semblante sério, mas não conseguiu.
– Não merece, porque me deixou sozinha com French e eu não aguento mais tanto mal humor. – Rolou os olhos, fazendo Ruby rir.
– Vem aqui, Swan! Sei que isso é desculpa para não admitir que sente falta dos meus abraços. – Abriu os braços, esperando por Emma, que nada disse, apenas a abraçou.
– Pela cor dos cabelos, pela comoção que causou em Henry e Ruby e pela sua cara, devo deduzir que essa é a famosa Emma, certo? – Nathalie tirou a atenção de Regina das duas amigas.
– O que tem a minha cara? – Indagou com a irmã que sorriu e balançou a cabeça negativamente. Regina nunca tinha lhe falado nada a respeito de Emma, mas sempre ouvia a irmã chorando pelos cantos com Ruby, quando o assunto era a loira.
– Nada. – Deu de ombros. – É ela?
– Sim, é ela. – Regina soltou com o ar.
– E ela é o que de Ruby, exatamente? – Indagou sem tirar os olhos das duas mulheres que se cutucavam e provocavam.
– Até onde eu sei, amiga. – Cruzou os braços e encarou a irmã. – E você, é o que de Ruby, exatamente? – Perguntou o que queria já ter perguntado há algum tempo. Sua irmã estava cada dia mais jogando gracinhas para cima de Ruby. Regina já tinha falado com a amiga sobre aquilo, a ruiva além de dizer que estava ciente sobre as investidas de Nathalie, garantiu a Regina que não existia nada entre elas. O problema é que Regina conhecia muito bem Ruby, e sabia que se a irmã continuasse insistindo a ruiva não iria se controlar.
– Nada. – Respondeu rapidamente. – Quer dizer... amiga. – Desviou os olhos dos da irmã, fazendo Regina balançar a cabeça em reprovação.
– E o que significa essas bochechas vermelhas? – Tal pergunta a deixou com as bochechas ainda mais vermelhas. Como não tinha o que responder, ficou quieta. – O que aconteceu com seu namorado? – Voltou a indagar. Afinal, Nathalie tinha desistido de estudar em outro estado, até mesmo em outra cidade, apenas pelo namorado que há não muito tempo atrás, ela dizia ser o amor da sua vida.
– Nada. Ele está bem. – Deu de ombros. – Estamos bem. – Garantiu.
– Se estão bem, devo deduzir que ele vai com você até a casa de Ruby, para esse tal campeonato de videogame. Afinal hoje é sexta-feira. – Nathalie suspirou.
– Não ele não vai. – Foi tudo que respondeu. Regina levou a mão até o queixo da irmã e fez a mesma lhe encarar.
– Espero que você saiba o que está fazendo, e espero que você fale comigo antes de fazer, afinal é sempre bom ter uma aliada. – A mais nova rolou os olhos.
– Regina, você pensa demais. – Resmungou. – Por enquanto não tem nada para você saber, até porque eu preciso fazer primeiro, para saber como é que é, depois eu penso no resto. – Regina balançou a cabeça em sinal de negativo.
– Garota estúpida! – A irmã lhe sorriu.
– Olha quem está falando. – Murmurou ao olhar em direção a Emma, que tinha os olhos nas duas. – Oi! – Tirou a mão da irmã do seu queixo, e sorriu para a “loira problema”, como Ruby se referia a mesma.
– Oi! – Emma lhe sorriu, sentia-se como se estivesse de frente com a Regina adolescente, o que a deixava um tanto quanto atordoada.
– Eu sou Nathalie, a propósito. – Deu alguns passos à frente, encostando-se no balcão e estendeu a mão a loira.
– Emma! – Respondeu ao apertar a mão da provável irmã da Regina.
– Eu sei. Já ouvi muito falar de você. – Comentou com Emma enquanto continuava balançando a mão da mesma.
– Nath! – Regina a repreendeu.
– Como meu pai não está presente devo representa-lo e perguntar a você, qual são as suas intenções com a minha irmã? – Tal pergunta pegou Emma totalmente de surpresa e a deixou muito sem graça. Já Regina desejou achar um buraco para enfiar a cabeça.
– NATHALIE! – Tentou esbravejar com a irmã, mas sua voz rouca e falha, não ajudou em nada.
– Então? – A mais nova fez não ouvir a irmã e voltou a indagar Emma, que coçou a garganta e a encarou.
– Avise a tio Mills que sãs melhores. – Sua resposta foi curta, mas a certeza nela fez o cosplay de Regina adolescente sorrir. – Meu Deus! Você é uma versão atualizada da Regina adolescente. – Deixou seu pensamento escapar.
– O que significa isso exatamente? Regina era o Windows 98 e eu sou o Windows 8? – Indagou ao juntar as sobrancelhas.
– Algo assim.
– E qual versão você prefere? – De novo Regina tentou chamar a atenção da irmã.
– Não me leve a mal, mas com toda certeza a 98. – Ao ouvir tal coisa Regina não conseguiu conter o sorrisinho.
– E você? – Nathalie tirou os olhos de Emma e encarou Ruby, que assim como Henry, prestava atenção na conversa delas.
– Eu... eu... eu não entendo nada de computadores. – Foi a melhor resposta que Ruby pôde dar. Ao ouvir tal coisa Emma olhou para trás, balançou a cabeça em descrença, voltou a olhar para a irmã de Regina e depois para a própria Regina.
– Sério? – Deixou escapar seu pensamento. Seu olhar incrédulo voltou a parar em Nathalie, que envergonhada resolveu recuar. Soltou enfim a mão de Emma e resolveu mudar de assunto, só não esperava que Henry fosse mais rápido.
– Sério o quê? E que olhares são esses? – O garoto indagou com todas elas, mas nenhuma lhe respondeu.
– Eu não faço ideia, só sei que temos que ir. – Ruby resolveu agir.
– Boa ideia, ainda precisamos parar para abastecer. – Nathalie concordou. – Tchau, mais velha! Até depois. – Foi até a irmã e a beijou.
– Tchau, mais nova, tenha juízo. – Murmurou o final da frase.
– O mesmo para você. – Lançou um sorriso sacana para a irmã, que apenas rolou os olhos.
– Você não vem? – Henry questionou com a mãe.
– Mais tarde, preciso resolver umas coisas aqui antes. – Deu a desculpa. Ele olhou da mãe para Emma e então sorriu, imaginando as coisas que ela precisava resolver.
– Ok, até depois então. – Jogou um beijo para a mulher, que imediatamente fez o mesmo. – Vejo você mais tarde? – Questionou com Emma. – Você vai com a minha mãe, certo? – Emma abriu a boca para responder, mas descobriu que não tinha uma resposta. Não sabia nem exatamente onde eles iam, mas sim, queria muito ir até lá com Regina, queria muito terminar aquela noite com ela, pouco se importava com o lugar e com as outras companhias, se Regina estivesse lá, então com toda certeza também queria estar, mas a verdade é que não fazia ideia do rumo que sua vida tomaria dali alguns minutos.
– Não... Talvez... Eu não sei. – Sua confusão fez Henry sorrir.
– Até depois, Emma! Caso não a veja mais hoje, espero ver no domingo, já que é meu aniversário. – Abraçou a amiga e a beijou, então seguiu para a rua.
– Tchau, Emma! Vou repassar suas melhores intenções para o meu pai. E só para esclarecer, não sou mais uma adolescente. Tenho vinte e um anos. – Antes que Emma pudesse dizer alguma coisa, Nathalie lhe beijou o rosto e em seguida foi atrás de Henry.
– Se você não for, me liga. – Ruby estava outra vez do outro lado do balcão, parada em frente a Regina.
– Ok. – Foi tudo que respondeu.
– Em hipótese nenhuma vá sozinha para casa. – De novo Regina concordou.
– Ok!
– Você promete? – A morena rolou os olhos.
– Prometo, mamãe! – Debochou.
– Ainda está doendo? – Murmurou a pergunta, referindo-se ao pescoço da morena.
– Um pouco. – Ruby suspirou.
– Tem certeza que não quer mesmo procurar um médico? Tipo, um médico de verdade, porque aquele lá mal olhou para você. – O olhar de censura que Regina a lançou a fez desistir do assunto. – Então, provavelmente, até amanhã! E não esqueça de me ligar. – Regina apenas concordou com a cabeça. Ruby beijou-lhe o rosto e foi até Emma, que lhe olhava com cara de poucos amigos.
– Por que eu acho que você também prefere o Windows 98? – Questionou com a ruiva que riu.
– Engano seu. O Windows 98 foi corrompido por um error chamado Emma Swan, e bom, não preciso ser perita para saber que não tem conserto. – Emma sorriu. – E o Windows 8 e toda sua tecnologia, estão definitivamente tentando me enlouquecer de todas as maneiras possíveis. – Admitiu, arrancando um gargalhada da loira.
– Está resistindo? – Ruby afirmou.
– Bravamente, só Deus sabe até quando. – Arriscou uma olhada para Regina, que balançou a cabeça negativamente.
– Se você a magoar, vai se ver comigo. – Avisou.
– Está consentindo? – Ruby a indagou com um sorriso nos lábios.
– E adiantaria não consentir? Apenas... não a magoe, não faça isso. – Não foi uma ordem, foi um pedido.
– Ouviu sua chefe, né? – Emma esbarrou a mão nos ombros da amiga. – Pega leve com a menina. – A ruiva balançou a cabeça concordando.
– Algo me diz que talvez eu acabe saindo magoada dessa história, por esse motivo também, estou resistindo. – Explicou.
– Está apaixonada? – Emma pegou no pé da amiga, que sorriu sem graça. – Apaixonada por uma criança, e pior, a irmã da minha... – Freou o que ia dizer.
– Da sua? – Ruby a provocou.
– Amiga. – Murmurou.
– Amiga, claro. – Debochou. – Até mais, Swan! – Abraçou a loira ao se despedir. – Espero não ver você e nem a sua amiga lá em casa na noite de hoje. – Soltou Emma e lhe beijou o rosto. – Caso não nos vejamos mais, diz para todas aquelas detentas lindas, que mandei um beijo. – Emma concordou.
– Deixa comigo, e boa sorte com a Windows 8, espero que não apanhe muito até dominar o sistema. – Debochou, fazendo Ruby lhe mostrar o dedo do meio. Sem trocarem mais nenhuma palavra a ruiva foi.
Emma tirou os olhos da porta e voltou-se para Regina, que fez sinal com a mão para que a amiga esperasse, depois apontou para a porta, pedindo que ela olhasse para a mesma, segundos depois Ruby a abriu e colocou a cabeça para dentro do lugar.
– Tenham uma excelente noite de amigas e não façam nada que eu não faria. – Não esperou resposta, dito aquilo, ela foi de verdade. Rindo, Emma foi até a porta e a chaveou. Virou a placa que estava pendurada na mesma, dizendo que o lugar estava aberto, trocando para fechado.
– Posso? – Só depois de já ter feito, pediu permissão a dona do lugar, que sorriu.
– Sim.
– Quer que eu baixe as cortinas? – Se ofereceu.
– Por favor! – Pediu. Sem dizer mais nada, Emma começou a baixa-la, enquanto Regina voltou a ficar nervosa. Perguntava-se o assunto que Emma tinha para falar com ela, e perguntava-se como terminaria aquela noite. Embora não pudesse ter esperanças sobre qualquer coisa, estava tendo e muita. A possibilidade de talvez reviverem alguma coisa não abandonava sua cabeça e aquilo estava lhe causando palpitação. Sem cabeça para fazer contas, apenas desligou o computador e ajudou Emma a baixar todas as cortinas, feito isso voltou-se para a loira, que a olhava atentamente, sem perder nenhum detalhe.
– Você está bem? Está doente? Não pude deixar de ouvir Ruby falando sobre médico. – Regina tentou permanecer o mais natural possível.
– Estou bem. – Sua tentativa de ser convincente, não enganou Emma.
– Gripe? – Tentou de novo.
– Apenas... – Pensou em algo. – Acordei sem voz. – Emma sabia que aquilo não era verdade, mas resolveu não insistir no assunto, pelo menos não aquele momento. – Vamos até meu escritório. – Convidou, e não esperou resposta, não restando outra alternativa a Emma a não ser segui-la.
Ao chegarem no mesmo, Regina lhe apontou a cadeira e foi até o pequeno bar que tinha ali.
– Quer beber alguma coisa? – Ofereceu.
– Não posso. Regras da prisão. – Lamentou-se, fazendo Regina concordar e desistir da dose de whisky que ia preparar. – Mas bebe você, acho que vai precisar. – Incentivou a amiga que lhe lançou um olhar curioso, antes de pegar um copo de whisky e fazer uma dose dupla. Com o copo em mãos, foi até sua poltrona, sentando-se de frente para Emma. Depositou a bebida em cima da mesa, cruzou as pernas e encarou a amiga.
– Então? – Incentivou para que começasse. Emma assentiu, respirou fundo e resolveu falar de uma vez. Estava na hora da verdade, literalmente a verdade.
– Não era por você ser inteligente, Vanessa não queria ser sua amiga por esse motivo, ela queria ser sua amiga porque gostava mesmo de você, menti dizendo que ouvi ela falando para as outras meninas que queria se aproveitar da sua inteligência, porque eu tive ciúmes, não queria que você tivesse outra amiga além de mim. – Admitiu a primeira mentira. Antes que Regina conseguisse falar qualquer coisa, resolveu continuar. – Menti também quando disse que Gabriel, não estava interessado em você, a verdade é que ele estava, estava tão interessado que estava apostando com os amigos que levaria você para a cama já no primeiro encontro, por isso eu disse para você que vi ele com outra menina. – Levantou os olhos encarando Regina, sentiu-se um pouco aliviada ao ver que ela parecia apenas surpresa, e não irritada. – No nosso baile de formatura, eu não estava bêbada, sequer tinha bebido, estava apenas com dor de cabeça, louca de vontade de ir para casa, como eu sabia que Seth tinha outros planos, me fiz de bêbada, fiz que ia vomitar, e ele não teve outra alternativa a não ser chamar você para cuidar de mim, como eu queria que você fosse para casa comigo, continuei me fazendo de bêbada. – Fez uma pausa para respirar. – Eu odeio American Pie, meu Deus, como odeio esse filme! Mas como era seu filme de comédia preferido, e como as suas gargalhadas me faziam rir, eu mentia que era minha comédia favorita também e aceitava assistir de novo e de novo. – Regina balançou a cabeça em reprovação. – Você acha que pode me desculpar por essas mentiras? – Seus olhos pidões e sua cara de arrependida fizeram a morena suspirar e assentir.
– Acho que posso. – Emma lhe sorriu agradecida.
– Obrigada!
– Tem mais? – Regina sabia que tinha mais, perguntou apenas por perguntar.
– Você está mentindo sobre estar bem. Não sei o que aconteceu com você, não parece estar gripada, mas não sei outro motivo para sua voz estar desse jeito, enfim, estou mentindo, fazendo de conta que acredito que está tudo bem, até você se sentir à vontade para me dizer o que tem. – Regina desviou os olhos dos da amiga. Praguejou mentalmente pelo fato de Emma a conhecer tão bem. – Me perdoa por isso também? – De novo Regina assentiu.
– Mais alguma coisa? – Emma passou os dedos pelos cabelos, em sinal de nervosismo. Tinha certeza que Regina não aceitaria tão bem a próxima mentira como aceitou as outras.
– Sim. – A morena pegou seu copo e Emma resolveu esperar ela beber antes de continuar, assim não tinha perigo de se engasgar com a bebida.
– Continue. – Regina pediu ao voltar a pôr o copo sobre a mesa.
– Sabe a surra que ganhei na prisão? – A morena assentiu e antes de continuar Emma desviou os olhos dos dela. – Ela me bateu porque eu pedi. – A confissão não passou de um murmurar, murmurar que Regina ouviu muito bem.
– Você o QUÊ? – Indagou perplexa.
– Eu combinei com ela antes. – Emma baixou os olhos e os prendeu nas suas mãos. – Você não queria saber de mim, eu não sabia o que fazer. Tudo que eu queria era conversar, mas você não me dava chances. Por isso pedi para ela me bater, suspeitava que se eu estivesse machucada, você pararia para me ajudar, ou pelo menos saber se eu estava bem. – O que tinha acabado de ouvir era tão absurdo, tão inacreditável que chegava até a ser um pouco doentio. Regina estava completamente sem reação, ainda incrédula com tal confissão. – E eu transei com ela um tempo depois, como “pagamento” por ela ter me ajudado. – Regina respirou fundo, e antes de dizer qualquer coisa, voltou a pegar seu copo de bebida o entornando. Estava enojada e com vontade de gritar com Emma.
– Deixa eu ver se entendi direito. Ela quase matou você, porque você pediu, e como recompensa você transou com ela. – Naquele momento Regina xingou Robin pelo o que tinha a feito, já que graças aquilo, não conseguia usar o tom de voz que queria.
– Você pode me perdoar? – Emma continuava olhando as mãos.
– Não! – Respondeu de imediato, o que fez a loira tomar coragem, levantar a cabeça e encara-la.
– Por favor? – Implorou. Regina bufou, pôs-se de pé e foi até o bar, fez outra dose dupla e então voltou para sua poltrona, dessa vez trazendo a garrafa de whisky consigo. – Por favor? – Emma insistiu.
– Não agora, preciso de um tempo para digerir. – Avisou.
– Ok. – Não tinha outra alternativa a não ser concordar. – Se serve de consolo até hoje minhas constelas ainda doem. – Regina balançou a cabeça negativamente.
– Nesse caso devo dizer, bem feito. – Deu outro gole em seu whisky. – E não, não serve de consolo. – Esbravejou. Se existia lugar no guines book para mentirosos, Emma certamente fazia parte dele.
– Eu sinto muito... – Murmurou. – Sei que é difícil ouvir, mas... eu... eu não quero mais mentir, não para você, Regina. Não quero nunca mais ter que ver você me odiando, me dando as costas, por culpa de uma mentira minha. Ver você... – Sempre que pensava no fatídico dia em que Regina descobriu a verdade, tinha vontade de chorar. – Eu só... não quero mais magoa-la e consequentemente não quero mais magoar-me. – Murmurou com lágrimas nos olhos. Ao ouvir tal coisa, ao ver quanto aquele assunto mexia com a amiga, Regina suspirou, já quase vencida. Maldita Emma, aquela mulher, como conseguia ser tão persuasiva?
– Tem mais alguma coisa que devo saber ao seu respeito? – Questionou morrendo de medo de ouvir a resposta.
– Tem. – Emma soltou com o ar, então fixou os olhos nos de Regina. – Gold. – Ao ouvir o nome do patrão da loira, o coração de Regina acelerou. – Ele está morto. Suicidou-se. Na verdade, eu o obriguei a fazer isso.
Fale com o autor