Escape
2 Reencontrando o passado
Notas iniciais
“Por que uma hora ou outra o passado sempre dá as caras? Por que quando a vida está se ajeitando, algo aparece para bagunçar tudo? Por que enquanto a vida de algumas pessoas simplesmente da certo, a de outras pessoas tende a sempre dar errado? Será que carma existe mesmo? Ou é só o tal do destino cumprindo seu detestável papel?
Talvez exista alguém em algum lugar controlando a vida da gente. Controlando cada ação, cada passo, cada sentimento. Talvez sejamos apenas meras marionetes, nas mãos de alguém muito impiedoso.”
Regina estava absorta em pensamentos, enquanto aguardava na pequena fila, sua vez de tirar as malditas fotos.
“Alguns filósofos sonhadores, dizem que o passado a gente deixa no passado. Idiotas!”
A morena trincou os dentes, pensando em tal absurdo em que acreditou até alguns dias atrás.
“Por mais que você fuja, se esconda, tente esquecer, faça de conta que não existiu, ele volta. Ele sempre volta. Volta para escancarar os seus erros. Volta para jogar merda no ventilador. Volta para cobrar sua dívida. E isso sim deveria ser uma sábia filosofia.”
– Próxima! — A mulher estava tão perdida em seus pensamentos que não ouviu a voz autoritária do policial lhe chamar. — PRÓXIMA! — Ordenou ainda mais alto.
Regina continuou sem ouvir, e acabou assustada quando um par de mãos se chocou nada delicadamente conta suas costas a empurrando para que andasse. O empurrão a trouxe de volta a realidade e ela viu que não tinha mais ninguém em sua frente. Não sabia se já podia ou não, ir até a parede branca, onde tiraria as fotos para a posteridade prisional, então levantou a cabeça pedindo ajuda silenciosa para o policial fotógrafo, que a olhava sem paciência.
– Quer um convite especial? — Indagou em tom sarcástico, enquanto sua cabeça apontava em direção da parede.
Antes de ganhar um outro empurrão do policial mau humorado que cuidava da fila, ela fez seus pés se moverem rapidamente, caminhando até o paredão, (que em pensamentos ela apelidou de the wall, nome do seu disco favorito do Pink Floyd).
Quando pensou em dar uma ajeitada nos cabelos, a placa com seu nome e alguns números, de algum jeito já tinha sido colocada em suas mãos. Assim que levantou a cabeça para pedir que o fotógrafo esperasse, foi fotografada.
– Eu não estava preparada. — Reclamou e ganhou um sorriso debochado em troca.
– Você está em uma prisão, não em uma sessão de fotos, doçura. — O lembrete debochado dele a fez balançar a cabeça concordando. — Agora vire para a esquerda. — Avisou e fez sinal com o dedo para que ela virasse. Fechou a cara e obedeceu, sem mais se importar em como sairiam a droga das fotos. Afinal, elas não seriam postadas em nenhuma rede social e caso fossem, nem seu melhor sorriso, maquiagem e cabelo arrumado, a deixariam bonita dentro daquela roupa laranja horrorosa. — Direita. — O policia fotógrafo voltou a ordenar e s em pestanejar ela obedeceu. — PRÓXIMA! — Ele berrou tão alto, que mesmo sem querer, a mulher encolheu os ombros e aquilo a irritou.
Ela não podia ser fraca, não mesmo. Prometeu a si mesma mesma que a partir do momento em que pusesse os pés dentro daquele lugar, deixaria todas as suas sentimentalidades lá fora. Não havia espaço para sentimentos naquele lugar. Quanto ela menos sentisse, menos se envolvesse, menos convivesse por ali, melhor seria.
Uma pedra bateria no lugar do seu coração. Era esse o combinado. Esse o trato que fez consigo. Só que, por algum motivo, alguma parte idiota do seu cérebro, não entendeu muito bem aquilo. Essa era a única explicação plausível, para a vontade absurda de chorar que ela estava sentindo.
Treze meses naquele lugar? Ela perguntou-se se realmente aguentaria. Estava ali não fazia nem uma hora, e já não suportava mais.
O cheiro de mofo, as paredes cinza, frias e sem vida. A iluminação fraca, a falta de educação, as pessoas a olhando como se ela fosse de marte. Tudo ali de uma certa maneira lhe apavorava, desanimava, e a fazia sentir como se realmente fosse de marte.
Prometeu tantas vezes não sentir e já sentia, e como sentia. Além de sentir vontade de chorar, ela já sentia também, uma saudade absurda do filho e do marido. Se perguntava de que jeito iria aguentar tanto tempo sem eles. Tudo bem que ela poderia vê-los, durante uma hora, todos os domingos, mas uma hora? Uma hora era quase nada. O que seria dela nas 23 horas restantes? O que seria dela de domingo a sexta? O que seria dela naquele um ano e um mês?
Há um dia, jurava que um ano, poderia passar em um piscar de olhos, mas ao colocar os pés naquela prisão, percebeu que não era bem assim. Um ano e trinta dias era um tempo absurdo, muitas coisas aconteceriam na vida dos homens que ela amava. Tinha uma preocupação especial com Herry. O menino estava quase completando treze anos, era quase oficialmente um pré-adolescente. Um pré-adolescente sem mãe. Nada lhe causava mais angustia do que pensar sobre aquilo. Pré-adolescentes são criaturas teimosas, irritadas, instáveis e quase incontroláveis. Regina não sabia se Robin, conseguiria lidar sozinho com aquela nova fase do filho, e tinha certeza absoluta de que, se ele não conseguisse, jamais tocaria naquele assunto com ela.
Ficava irritada sempre que pensava sobre aquilo. Tinha vontade de se estapear, arrancar os cabelos, bater com a cabeça contra a parede. Se perguntava por quê? Por que, foi se meter com aquilo? Por que, foi tão burra? Tão cega? Tão estúpida?
Por fim se perguntava, por quê foi traída de tal forma? Qual o motivo de sua ex melhor amiga, ter feito aquilo? Pensar sobre a ex amiga traidora, fazia sua raiva triplicar.
Regina foi enganada, abandona, ignorada, deixada de lado. Foi usada. O dinheiro do tráfico de drogas que ela carregou uma única vez em sua mala de viagem, era da sua amiga traidora. Ela apenas fez um favor e foi delatada por isso. Delatada pela ex melhor amiga e dona do dinheiro das drogas.
Tudo bem, Regina, não era totalmente inocente, sabia exatamente o que carregava e sabia também de onde tinha vindo aquele dinheiro. Com toda certeza também sabia que aquilo podia acabar mal, mas mesmo assim fez, fez pela amiga. Fez pela camaradagem. Fez pelas madrugadas insones que passavam juntas. Fez pelos porres que tomavam. Fez pelos planos que faziam. Fez pelo sorriso de felicidade da loira. Fez pelos sentimentos confusos que há um certo tempo, a amiga lhe causava. Fez pelo olhar penetrante e instigante que ganhava cada dia com mais frequência. E acima de tudo, fez pela amizade. A amizade que ambas em uma noite de bebedeira, juraram em um pacto de sangue, ser para sempre.
– Hey! — Regina balançou a cabeça algumas vezes, se livrando da imagem da amiga traidora, e então viu dedos estalando na frente dos seus olhos. Estava tão perdida que ficou concentrada no estalar de dedos. — Sangue azul, volte para terra. — Ao tirar a atenção dos dedos e levantar a cabeça procurando a dona da voz, viu sua colega de prisão. Era a motorista prisioneira daquele lugar. Foi ela quem transportou Regina da recepção até a ala prisional e depois levou ela e as outras novatas até o policial fotografo. E de algum jeito, lá estava a ruiva de novo.
– Desculpe-me. Eu não ouvi. O que disse? — A prisioneira motorista, sorriu enquanto tentava decifrar um pouco daquela mulher. Ela parecia forte. Parecia rica. Parecia educada. Parecia fina. Parecia assustada. Parecia abalada. Parecia triste. Parecia perdida. Parecia tantas coisas, que no fim, acabava parecendo uma incógnita.
– Seu crachá. — A ruiva lhe estendeu o dito cujo e Regina, pode enfim contemplar a foto que tinha tirado minutos atrás. Boca aberta e olhos arregalados, foi desse jeitinho que ela saiu na foto. Resolveu que não mostraria aquilo para ninguém e jamais comentaria sobre tal foto com Robin. Levou o crachá até o bolso de sua calça ridícula. Ela o esconderia lá e de lá ele jamais sairia, mas antes que o pudesse esconder, sua colega segurou seu braço.
– Se não quer conhecer a solitária já no seu primeiro dia de prisão, sugiro que você pendure esse crachá em um lugar bem visível aos olhos e jamais o tire de lá. — A morena não sabia exatamente o que era a solitária, mas pelo tom grave de voz que a colega usou, deduziu que coisa boa não deveria ser. Então decidiu deixar o bolso da calça para lá e pendurou o crachá ridículo ao lado esquerdo do peito. — Você é esperta, realeza. — O tom claro de pele, junto com os cabelos negros perfeitamente cuidados, a postura impecável, e o olhar de superior de Regina, faziam com que a ruiva, a colocasse no perfil de pessoa que se encaixava em alguma família real. Até a pequena cicatriz que Regina, carregava no lábio superior, parecia elegante naquela mulher.
– Obrigada! — Agradeceu a dica. — Por favor, me chame de Mills. — Pediu educadamente. Sua intuição dizia que o apelido “realeza”, não cairia nada bem por ali.
– Regina Mills. — Sua colega, (que Regina achava se chamar Ruby, graças ao nome que a mesma tinha escrito no crachá) leu o que estava escrito no crachá da realeza. — Sou Ruby Hood! A propósito. — Resolveu se apresentar. — Agora vem comigo! — Convidou ao começar a andar. Regina nada disse, só limitou-se a acompanhar a maluquinha. — Então, por que está aqui? — Hood, indagou.
– Acredito que pelo mesmo motivo que você. — Ruby, olhou para o lado, encarando a colega, que caminhava com classe, de cara fechada, cabeça erguida, sem olhar para os lados.
– Que seria? — Regina, não tinha cara de cleptomaníaca.
– Infligi uma lei ou duas. — Limitou-se a responder. Ruby Hood, viu que não arrancaria mais nada de Regina Mills, pelo menos não naquele momento. Então resolveu se calar e guiou a novata até a enfermaria, sem dizer mais nenhuma palavra.
Regina ficou um pouco assustada com a enfermaria, que pelo estado acabado e enferrujado em que se encontrava, estava mais para um açougue macabro, ou um lugar onde se doava tétano a vontade. Pensou em reclamar sobre o estado daquele lugar com o policial enfermeiro, mas engoliu a reclamação ao lembrar-se que tinha acabado de chegar ali. Como dizem por aí, a primeira impressão é a última que fica. E tudo que ela menos queria era que tivessem a impressão de que ela era uma mulher fútil, mimada e fraca.
Ao olhar para o lençol sujo, da maca em qual o enfermeiro a mandou sentar, ela deixou escapar um semblante de nojo, mas tal semblante durou apenas segundos, então ela recuperou sua cara de indiferença, mentalizou um lençol branco de seda, cheiroso e limpinho e sentou-se.
O enfermeiro quis saber se ela era alérgica a alguma coisa, se tinha problemas cardíacos, se já tinha se submetido a algum tipo de operação, se tomava algum medicamento e se tinha tatuagens. Por fim, ele fez um exame de tuberculose e elogiou os braços da novata ao constatar que não tinha nenhuma marca de agulhas por lá. Regina agradeceu e saiu de lá satisfeita por ele não ter lhe perguntado a cor da calcinha que estava usando, ou quantas vezes tinha transado antes de se entregar.
O tur pelo seu novo lar continuou e ela foi encaminhada até a sala de Graham Humbert, seu conselheiro prisional.
O homem lhe sorriu, a mandou entrar e fez sinal com a cabeça para que ela sentasse. Sem pronunciar uma palavra, ela o obedeceu. Sentou-se, cruzou as pernas, descansou as mãos sobre os joelhos e esperou pacientemente Humbert, ler sua ficha criminal. Ao terminar de ler, o homem suspirou, jogou os papeis em cima da mesa e mirou Regina. Ele lançou um sorriso simpático para a novata, com intuito de ser amigável, sorriso esse que não foi retribuído.
– Então, Mills, conte-me como veio parar aqui. — Pediu com seu tom de voz mais educado e gentil.
– O senhor estava lendo minha ficha, então acredito que saiba como vim parar aqui. — A resposta nada educada dela, fez o homem arregalar os olhos em sinal de surpresa, e fez ela se arrepender de ter usado um tom de voz tom rude e uma resposta tão ignorante. — Desculpe-me. — Pediu logo em seguida. — Estou uma pilha de nervos. — Explicou-se. Então suspirou e resolveu contar o que ele com certeza já sabia. — Há treze anos atrás, transportei dinheiro de tráfico de drogas na minha bagagem. — Soltou com o ar. — As drogas não me pertenciam. O dinheiro não era meu. Fiz porque uma amiga pediu e eu resolvi ajudar. — Enfatizou. — Para não ter que ir parar em um tribunal e correr o risco de parar em uma prisão de segurança máxima, meu advogado achou melhor fazermos um acordo e então eu vim parar aqui. — Ela não acho necessário falar a palavra “fim”, acreditou que seu conselheiro conseguiria entender sozinho que ela tinha terminado.
Humbert, que tinha os olhos presos na mulher, enquanto sua mão brincava com uma caneta, demorou alguns segundos para entender que ela tinha terminado sua “longa” história.
– Mas a senhora sabia o que estava transportando. — Concluiu e ela concordou.
– Sim. — Foi tudo o que respondeu.
– E transportou mesmo assim. — Ela conteve a vontade de rolar os olhos.
– Pois é. Por isso estou aqui. — Tentou sorrir, mas podia apostar que seu sorriso estava mais para um rosnar silencioso do que outra coisa.
– E valeu a pena? — Regina fechou a cara, ao tal pergunta.
– Com toda a certeza do mundo, NÃO valeu. — Humbert arqueou as sobrancelhas ao perceber o tom de amargura e ódio na voz da novata.
– Bom, espero que tenha servido de aprendizado. — De novo ela precisou conter a vontade de rolar os olhos. Não tinha mais idade para ouvir sermões, ou lições de moral e tudo piorava quando essas coisas vinham de alguém que nem a conhecia.
– Serviu. — Respondeu de mau gosto. Ao perceber que a mulher era um tanto quanto fechada e quem sabe também um pouco arrogante, Humbert, resolveu ir direto ao ponto. Deixou sua caneta de lado, juntou os papéis que tinha jogado sobre a mesa, os guardou em uma pastinha e voltou-se para Regina, que continuava com a mesma postura ereta, pernas cruzadas, mãos apoiadas nos joelhos, cabeça erguida e os olhos presos em algum lugar da mesa dele. O homem tinha absoluta certeza de que ela não tinha se mexido 1 centímetro, desde que sentou-se ali. Só tinha certeza que ela fazia mesmo parte do mundo dos vivos, porque conseguia ver o peito da morena subir e descer, ou seja, ela respirava.
– Ouça-me, Mills, não se meta em encrencas e tudo ficará bem. — Ao ouvir tal conselho, Regina teve vontade de levantar-se dali e sair. Era para aquele tipo de conselho que servia o tal conselheiro? Até seu cachorro se soubesse falar, diria para que ela não se metesse em encrenca. Era mesmo necessário ouvir aquilo? Mentalmente se perguntou se existia algum jeito de desistir do conselheiro. Antes só, do que mal acompanhada. Não é isso que dizem por aí? — Você me parece uma pessoa inteligente, então ouça o que eu vou lhe dizer, Não. Se. Meta. Com. Elas. — Falou tudo pausadamente e por fim apontou para fora da sala. — Parte do seu tempo, você vai gastar trabalhando, mas ainda assim irá sobrar algumas horas vagas no seu dia. — Finalmente suas palavras e o tom grave de voz que usou, conseguiram despertar um pouco da atenção da morena, que tirou os olhos da mesa empoeirada de seu conselheiro e o encarou. — Leia, escreva, caminhe, corra, cante um mantra. Tanto faz o que vai fazer. Só não se meta com elas. Isso não é uma colônia de férias. Elas não são suas amigas e nem precisam ser. — Regina concordou com a cabeça. — Conviva o mínimo possível com elas e tudo acabará bem. — De novo ela concordou. Afinal, aquilo já fazia parte do seu plano inicial. — Alguma pergunta? — “Já posso ir para casa agora?” Era o que ela mais queria perguntar.
– Me deram cobertor, lençol e travesseiro. Mas não ganhei sandálias, escova de dentes e sabonete. — O homem lhe lançou um sorrisinho.
– Isso são coisas que você terá que comprar. Tem uma espécie de comércio aqui, onde você pode comprar algumas coisas. Basta alguém enviar um cheque em seu nome, e então você pode começar a comprar. — Aquilo era mesmo sério? Ela teria mesmo que pagar para ter coisas básicas, que deveriam por obrigação, ser oferecidas pela prisão, já que tais coisas faziam parte da higiene básica?
Sim, ela sabia do tal “comércio” que tinha ali dentro, seu marido saiu dali prometendo que depositaria o tal cheque naquele mesmo dia. Só não imaginou que teria que usar o dinheiro para comprar coisas que deveria ganhar. — Alguma outra pergunta? — Sim, ela tinha algumas perguntas, perguntas bem mal-educadas, então resolveu deixar para lá.
– Não senhor.
– Então já pode ir. Provavelmente a senhorita Hood, já está lhe esperando ali fora. Você já a conhece, certo? A motorista? — Regina confirmou com a cabeça. — Ela vai lhe encaminhar até sua cela. — A morena se pôs de pé e resolveu se retirar sem agradecer ou dizer tchau. — Ah, senhorita Mills? — Ela já estava com a mão na maçaneta da porta, quando o homem a chamou. Como estava de costas para ele, se permitiu rolar os olhos. Ficou parada esperando ele falar o que tinha para falar, mas não se virou para ele. — Aconteça o que acontecer, não se misture com as lésbicas. — Ouvir aquilo em um primeiro momento lhe deixou paralisada, depois em choque e por último mais não menos importante, a irritou. Respirou fundo e voltou-se para o homem.
– Em primeiro lugar, é SENHORA Mills, senhor Humbert. Eu sou casada. Casada com um HOMEM. Em segundo lugar, eu não sou lésbica. — Ela sentiu necessidade de enfatizar a palavra homem.
O conselheiro acabou achando graça, já que ela pareceu visivelmente ofendida.
– A maioria não é. Pelo menos não, quando chegam aqui. Mas conforme os dias vão passando, a solidão começa a aparecer e é nessa parte que as lésbicas entram. E elas nem precisam insistir muito. Se é que a senhora me entende. — Dessa vez, Regina, não se importou em rolar os olhos na frente do conselheiro. Não, lésbica nenhuma a convenceria a queimar bombril. Mulheres com certeza não faziam o tipo dela.
Ok, uma vez lá no passado, talvez pudesse ter acontecido. Não podia ter certeza daquilo, já que nunca de fato houve alguma coisa, mas enfim, foi a única mulher pela qual ela sentiu um certo desejo. Graças a Deus e a uma psicóloga, o passado já tinha sido superado, a amiga virou inimiga, as duas não tinham mais contato de tipo nenhum há anos e a única coisa que Regina ainda sentia a respeito de tal mulher era ódio.
– Posso morrer de solidão, mas não, não vou me envolver com nenhuma mulher. — Afirmou com convicção, fazendo seu conselheiro sorrir satisfeito com sua resposta.
– É assim que se fala. Pode ir agora. Tenha um bom dia! — Regina murmurou um, “igualmente”, por cima dos ombros e antes que pudesse ouvir mais algum tipo de absurdo, abriu a porta rapidamente e saiu de lá.
Sim, a senhorita Hood, já estava lhe esperando do lado de fora, junto com as outras novatas. A ruiva carregava as roupas de cama que Regina, acabou esquecendo na enfermaria.
– Vamos andando, já está quase na hora da contagem. — Foi o que Ruby, disse ao entregar as roupas a Regina.
Conforme o corredor da administração ia ficando para trás, as vozes e risadas das detentas iam ficando cada vez mais audíveis, o que fez Regina, mesmo sem querer, diminuir os passos. Mesmo tendo se preparado para aquele momento, ela se sentia completamente despreparada. Suas mãos suavam frio e seu coração começava a bater mais rápido do que o normal, foi então que mesmo sem querer, sua mente acabou vagando até seu primeiro dia de aula.
Flashback
Regina era uma menina magricela, desajeitada, que usava um óculos fundo de garrafa e carregava consigo um cicatriz enorme no lábio superior, feita pelo cachorro do vizinho.
Tinha medo de não ser aceita, medo de ser rejeita, medo que fossem rir dela. Tal medo fez com que ela perdesse toda a primeira semana de aula, mas nem seu choro compulsivo e sua cara de cão sem dono, conseguiram convencer seus pais a deixa-la faltar mais um dia que fosse.
Mesmo seu pai lhe prometendo que tudo iria dar certo e que ela iria gostar daquele lugar e daquelas pessoas, ela empacou por uns bons dez minutos na porta de entrada, enquanto decidia se encararia ou sairia correndo.
– Não precisa ter medo. — Regina não sabia como, mas uma menina loira, com olhos azuis expressivos, descabelada, com o rosto cheio de sardas e com um sorriso que faltava um dente, estava parada em sua frente e sorria para ela. — Não é tão ruim assim. — A loirinha continuou.
– Eu... não sei... — Regina murmurou envergonhada, fazendo a menina sorrir.
– Não sabe o quê? — Questionou ainda sorrindo.
– Se vou gostar. — Os olhos de Regina, estavam concentrados em seus pés.
– Qual o seu nome? — A loira extrovertida estava naquele momento fazendo exatamente o que sua mãe lhe sugeriu que fizesse, ajudando quem tinha problema para se comunicar.
– Regina Mills. — Respondeu timidamente.
– Oi, Regina Mills! Meu nome é Emma Swan. Prometo que você vai gostar da escolinha. Você vai ficar na mesma sala que eu, se você quiser nós podemos ser amigas. — A menina falou tudo tão rápido, e de um jeito tão afoito, que arrancou um sorrisinho da morena.
– Como sabe que vou ficar na mesma sala que você? — Regina tomou coragem e levantou a cabeça. Pensou que a tal Emma Swan, fosse sair correndo ao ver a sua cicatriz, mas para a sua surpresa, a loira abriu um sorriso de orelha a orelha.
– Porque a tia chamou seu nome várias vezes na semana que vem. — De novo, Regina sorriu, ao ver que a mais nova e até então, única amiga, fez confusão ao falar sobre a semana.
– Passada. Semana passada. — A corrigiu. Emma, bateu com a mão na testa.
– Isso. Essa coisa de semana dá nó na minha cabeça. — Se explicou.
– Eu posso ajudar você a entender isso. — Regina se ofereceu e sem perceber, começou a andar ao lado da amiga, entrando finalmente na escola.
– Obrigada! Você tem a maior cara de inteligente. Hey, a gente pode ser uma coisa de duas. Tipo, você é o cérebro e eu a pessoa falante. — A sugestão de Emma, fez Regina arquear as sobrancelhas e a encarar sem entender.
– Uma coisa de duas? — Precisava de mais informações para tentar entender aquilo.
– É. Uma pessoa sozinha, é uma pessoa. Duas pessoas, quando se juntam para fazer alguma coisa, tem um nome que mamãe me falou, mas eu esqueci, então chamo de coisa de duas. — Explicou, arrancando uma risada da amiga.
– Seria dupla? — O rosto da loira se iluminou e ela sorriu largo.
– Isso! Você é mesmo inteligente. — Emma, elogiou. Regina, até pensou em contar que era superdotada, mas resolveu não fazer. Primeiro, porque pessoas superdotadas eram vistas como esquisitas. Segundo, talvez Emma, não fosse entender muito bem o que significava aquilo.
– Obrigada! Você também é. Podemos ser uma dupla então. — Para a felicidade da loira, Regina concordou.
– Legal! Hey, depois você tem que me dizer, como conseguiu essa cicatriz maneira. Também quero ter uma assim. — E assim começou uma amizade. Emma, foi tagarelando sem parar, fazendo Regina rir e esquecer o tão temido primeiro dia de aula.
– HEY, MILLS! — Pela segunda vez naquele dia, Regina, balançou a cabeça para apagar a imagem da amiga traidora de lá, e levantou a cabeça, encarando Ruby. — Qual o problema? Vai ficar aí parada? — Assim como o primeiro dia de aula, Regina, não tinha escolha. Ela tinha que entrar. Chegava a ser irônico a lembrança que tinha acabado de ter. Estava entrando na prisão, graças aquela mesma menina espevitada, que lhe ofereceu amizade.
A novata nada disse, só sorriu sem humor, fez suas pernas voltarem a andar e finalmente alcançou o fim do corredor, começando oficialmente, sua vida na prisão.
A morena foi apresentada ao refeitório, a sala de reuniões, ao pátio e por fim, ao banheiro, (lugar que a deixou com uma imensa vontade de chorar). — Se perguntou onde se encontrava privacidade por lá. Aonde estavam as portas dos sanitários? E por que diabos não tinha nenhuma cortina nos chuveiros? Aquilo era constrangedor, humilhante, desumano.
Pensou em abrir a boca para reclamar, mas do que adiantaria reclamar para uma detenta? Com certeza ela não resolveria nada. Então fez uma nota mental de assim que possível, voltar a sala de seu orientador e reclamar com ele.
Estava saindo daquele lugar horripilante que por algum motivo chamavam de banheiro, quando graças as coisas de cama que carregava, (que a impossibilitavam de enxergar muito a frente), — a fizerem esbarrar em uma detenta que estava entrando no mesmo.
– Desculpa! — Disseram em uníssono. Foi então que o coração de Regina, disparou e suas pernas bambearam. Poderiam passar anos e mais anos, mas a morena jamais esqueceria daquela voz.
Regina, esperou tanto pelo dia que aquele reencontro aconteceria, ensaiou tantas palavras, tantas grosserias, e treinou tantos tapas na cara. Estava tendo a chance de finalmente colocar tudo em pratica, mas não conseguia. Tudo que ela realmente estava desejando era sair correndo para longe dali, mas suas pernas mal conseguia a manter de pé. Suas mãos estavam tremulas, na verdade todo o seu corpo tremia. Pela primeira vez na vida, Regina, não fazia ideia do que fazer.
Respirou fundo algumas vezes, antes de tomar coragem e levantar a cabeça, dando de cara com, ninguém mais, ninguém menos, do que sua ex melhor amiga, a mulher pela qual ela estava ali naquele inferno. Emma Swan.
Ao contrario de Regina, Emma, não parecia assustada, nem estava paralisada, mas assim como o coração de Regina, o coração da loira também batia acelerado e suas pernas também estavam bambas. Aquela era a primeira vez, desde que entrou na cadeia, que Emma, teve o sentimento de felicidade, afinal, apesar dos pesares e das circunstâncias, depois de muitos anos, Regina, estava ali, parada em sua frente, olhando dentro dos seus olhos, como se estivesse vendo sua alma. Então outro sentimento tomou conta de Emma. Saudades. Ah como ela sentiu falta daquele olhar. Sabia que aquele era um olhar de irritação, mas era o olhar que Emma, mais gostava. Era intenso, assustador e sexy ao mesmo tempo.
– Hey, Regina Mills! — A saudou, ao lhe lançar um sorriso de orelha a orelha.
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