Escape
31 Não desligue
Notas iniciais
O primeiro mês longe da prisão passou arrastando-se, quase em câmera lenta. Por mais que tivesse voltado para o trabalho, para as horas-extras, aulas de yoga, boxe e se dedicasse ao filho, ainda sobravam muitas horas vagas no dia de Regina. Na verdade, sobravam muitas horas vagas nas noites de Regina. Depois das 22hrs quando Henry, ia dormir, a vida da ex-presidiaria tornava-se um tormento. Por mais que tentasse assistir suas séries, ler seus livros, ou simplesmente fechar os olhos e dormir, ela não conseguia, sua mente buscava Emma.
Estava sendo mais difícil do que imaginou que seria. As vezes fantasiava que a amiga ligaria a qualquer momento, e elas passariam horas conversando. Tinha noites que tinha tanta esperança que aquilo fosse acontecer, que adormecia com o celular nas mãos e todas as manhãs quando acordava, seu coração acelerava com a possibilidade de uma ligação perdida. Respirava fundo algumas vezes antes de tomar coragem e olhar para a tela do celular, e em momentos assim, a esperança dava lugar a decepção.
Emma nunca ligou e não ligaria, sabia que não, na carta que deixou a loira, ficou claro que elas não poderiam mais se falar, então não tinha nem motivo para se decepcionar com o silêncio da ex-namorada, Emma só estava fazendo a sua parte, e Regina tinha certeza que ela continuaria a fazendo com perfeição. Os muitos anos que passaram sem se falar deixava claro, mas aquilo não impedia seu coração idiota de ter esperança.
Sentia tanta falta daquela loira estúpida, cada dia a saudade parecia crescer mais. Daria tudo para pelo menos ouvir a voz da amiga lhe chamando de Regina Mills. Tinha saudade da voz de Emma, e tinha medo de não lembrar com exatidão o timbre da voz que tanto lhe fazia bem. Tinha saudade dos abraços, dos beijos, das conversas, das juras de amor, tinha saudade até dos pés e mãos geladas da loira.
Estavam longe há 30 dias, não era muito, mas para Regina, 30 dias parecia ser uma eternidade. Sabia exatamente onde Emma estava, sabia como fazer para falar com ela, sabia como chegar até ela, mas simplesmente não podia. Achava tais coisas uma piada de muito mal gosto. Cômico, se não fosse trágico.
Há pouco mais de um mês, sabia tudo de Emma, sabia sobre seu dia, sobre o que a loira fazia ou deixava de fazer, sobre os sonhos ou pesadelos que tinha a noite, até sobre o que ela estava pensando, e em um piscar de olhos já não sabia de mais nada. Aliás, até sabia, já que Ruby ligava toda a semana e passava um relatório semanal sobre a vida da loira, mas era um relatório sem muitos detalhes.
Segundo a ruiva, Emma estava relativamente bem. Depois de ter fugido da enfermaria para ir até a “janela da despedida”, Ruby e French, conseguiram a arrastar de novo para o lugar, onde ela passou mais dois dias e depois foi liberada para o convívio com as outras detentas. Desde então estava se alimentando direito e trabalhando muito. Passou a ser a primeira a chegar no trabalho e a última a deixa-lo. Preferia fazer suas refeições sozinhas, sempre escolhendo a mesa mais afastada das pessoas e suas felicidades insuportáveis. Não participava mais dos cinemas de domingo. E seus fones de ouvido tornaram-se seus melhores amigos, os usava sempre que possível, assim não precisava ouvir nem falar com ninguém. Todas as noites antes de dormir, acabava lendo a carta que a morena deixou e sempre chorava. Dormia abraçada as folhas de papel e a foto de Henry, e quando acordava, voltava a reler a carta. Aos domingos continuava recebendo visita dos pais, onde passava toda a uma hora os ouvindo falar, sem esboçar muita reação. French, tornou-se uma das únicas pessoas que conseguia conversar com a loira, conversas essas que nem Ruby, sabia o assunto. Já a ruiva, Emma só procurava quando precisa muito de um abraço.
Então não, Emma não estava bem. Regina tinha certeza que não tinha sobrado muito da amiga, e aquilo era o que a deixava mais agoniada, preocupada, que a fazia perder o sono. Queria poder fazer alguma coisa, mas estava de mãos atadas, não podia fazer nada. Ruby dizia que com o tempo a loira melhoraria, na verdade, segundo ela, já estava melhorando, devagar, mas estava, então tudo que restava a Regina, era esperar.
Tinha acabado de desligar o telefone, estava parada em frente a enorme janela de vidro que tinha em seu quarto, seus olhos estavam perdidos no céu estrelado, enquanto sua mente estava perdida em Emma.
Estava tão longe daquele lugar que nem percebeu que já não estava mais sozinha. Robin estava a observando há algum tempo, chegou quando Regina ainda estava no telefone com sua amiga detenta, e mesmo não tendo ouvido a mulher tocar no nome de Emma, soube que elas estavam falando sobre a mesma.
Sinta cada vez mais raiva daquilo, daquela situação e de Emma. Já tinha se imaginado acabando com aquela mulher insuportável de várias formas diferentes, e se não fosse preso por tal coisa, com certeza já teria feito, mas como não podia, decidiu mudar sua tática.
Atacar a maldita loira definitivamente não estava dando certo, só estava afastando Regina mais e mais, então decidiu que bancaria o marido bonzinho e compreensivo. Tinha certeza que daquele jeito, teria Regina de volta.
Pôs um semblante de tristeza na cara, e lentamente começou a se aproximar.
– Por que você está me castigando desse jeito? – Sussurrou, com tom de pesar.
– Eu não estou. – Regina soltou com o ar, sem se mover ou tirar os olhos do céu. O homem postou-se atrás dela e seus braços envolveram a cintura da mulher o que a deixou visivelmente desconfortável.
– Está sim. Viu? Você repele qualquer contato físico. – Continuou sussurrando.
– Eu só... – Balançou a cabeça em sinal de negativo e respirou fundo. – Acho que preciso de um tempo. – Também sussurrou. Tudo que menos queria era que começassem outra discussão, coisa que fizeram e muito durante aquele mês. Estava cansada de brigar com o marido. Aquela situação estava se tornando insustentável. – Preciso pensar. – Continuou.
– Pensar no quê? – Não que ele não soubesse a resposta, só queria ouvir da mulher. Aquilo fazia parte do seu plano de ser bonzinho e compreensível, além de atencioso e preocupado.
– Em tudo, Robin, em tudo. – Solto com o ar e levou as mãos ao rosto o esfregando.
– Regina, olha para mim. – Pediu. Regina permaneceu exatamente como estava. – Olha para mim, por favor? – Voltou a pedir. A morena suspirou e sem vontade fez o que lhe foi pedido, voltou-se para o marido. Pensou que veria um semblante irritado, possesso, irado, mas o que viu foi seu marido com lagrimas nos olhos e testa franzida, tentando não chorar.
– Sinto muito. – Murmurou para o homem, que fechou os olhos por alguns segundos. Se tinha uma coisa que deixava a morena compadecida, essa coisa era lágrimas. Então com certeza ele arrumaria algumas.
– Eu também sinto. Sinto todas essas discussões. Principalmente a que tivemos no dia em que fui busca-la na prisão, e sinto ter sido grosso e apertado seu pulso. Sinto ter mencionado você sabe... – Não conseguia falar o nome de Emma e aquilo era verdade. – Eu só estava com raiva, aliás, eu tenho estado com raiva nesse último ano. – Suspirou e abriu os olhos. – Essa raiva, esse ciúme, me fizeram esquecer de você, eu, nossa história, e atacar. Se eu não tivesse sido tão chato, se não tivesse falado tanto sobre ela, se tivesse apenas sido quem eu costumava ser, talvez vocês não tivessem tido um caso. – Seu tom de voz não podia ter soado mais arrependido.
– A culpa não é sua, querido. Você é um bom homem, você foi um bom marido durante todos esses anos, você foi mais o que eu mereci. Me sinto culpada pelo que fiz, me sinto muito culpa, mas eu quero que você saiba que era algo inevitável. Mesmo que nós nunca tivéssemos brigado, discutido, batido boca, mesmo assim, eu teria me envolvido com ela. – Suspirou. – Não estou dizendo isso para lhe magoar, para lhe ferir, não. Só estou dizendo porque é a verdade, não quero que se sinta culpado pelo o que aconteceu. – O homem teve vontade de sorrir, ao ver que Regina estava caindo no seu papo de bom moço.
– Por que, Regina? Por que ela? Por que depois de tudo que ela fez você passar, você se envolveu com ela? – Regina sabia que aquela conversa não era fácil para o marido. Sabia que estava o magoando ainda mais.
– Robin, por favor, nós não precisamos falar sobre isso. – Tentou poupa-lo.
– Não, tudo bem. Eu aguento, por favor responda. – Ela suspirou e concordou com a cabeça.
– Porque eu a amo, Robin. Eu sempre amei. Menti para mim durante todos esses anos que não a amava mais, que a odiava, que não queria mais vê-la. Menti porque a mentira era mais confortante do que a verdade. – Admitiu. — Então nós nos encontramos e meu coração estúpido, ele bateu forte aqui dentro quando depois desses anos todos, meus olhos encontraram com os dela. – Ao ouvir a mulher se derreter por uma outra mulher, Robin quase não conseguiu manter o seu teatro. – Por um tempo, continuei mentindo, continuei me enganando, continuei me dizendo que não, que eu não a amava, não mais. Mas então a mentira que por todo esse tempo usei para me enganar, começou a se tornar mais insuportável do que a verdade. Ela já não confortava mais, ela estava me sufocando. – Inspirou o máximo de ar que pôde e o soltou lentamente. – Ela foi tudo que eu tive na infância e adolescência, ela me consolou, me ouviu, me abraçou, me fez promessas que não dependiam dela e mesmo assim as cumpriu. Emma esteve comigo nos dias mais tenebrosos da minha vida. Ela me achou no meio da multidão. Eu era só uma menina desajeitada, desajustada, estranha e assustada, que tinha uma cicatriz enorme e horrorosa, o que fazia as outras crianças rirem e olharem com nojo, menos ela. Emma me escolheu, me protegeu, me consolou e acolheu. – A honestidade da mulher fez Robin sentir uma imensa vontade de meter a mão na cara dela. Se Regina tivesse o mínimo de respeito possível, não estaria lhe dizendo aquelas coisas. Ok, ele perguntou, mas ela não precisava mesmo ser tão honesta, podia com certeza poupa-lo, mas não, Regina e a maldita verdade sempre foram melhores amigas.
– E depois ela foi embora e destruiu você. – Jogou na cara da mulher, que concordou com a cabeça.
– E depois ela foi embora e me destruiu. – Repetiu. — E você me remendou. – Tentou sorrir para o marido.
– Você foi feliz comigo, Regina? – Mesmo com medo de ouvir a resposta, perguntou. Tinha medo de não conseguir se controlar, caso ganhasse uma resposta negativa.
– Mas é claro que eu fui feliz com você, Robin, claro que eu fui. Nós temos uma história juntos, temos Henry. Querido, eu fui muito feliz com você. – Ouvir tal coisa o fez esboçar um sorriso.
– Você me amou? – De novo ela afirmou.
– Amei, acredite em mim, eu amei, amei muito. – Falou o olhando nos olhos.
– Mas não ama mais. – Concluiu, ao ver a mulher desviar os olhos dos seus, teve certeza daquilo e de novo teve vontade de matar Emma.
– Me desculpe. – Sussurrou.
– Você sabe o que vai acontecer se você ficar com ela. – Regina afirmou.
– Eu não vou ficar com ela. – Afirmou.
– Então para que precisa de um tempo? – Indagou. Estavam finalmente chegando onde ele queria.
– Porque não é justo com você! Não é justo eu ficar com você pensando nela. – Foi sincera.
– Seja honesta, por favor e me responda, você ainda gosta de mim, nem que seja um pouquinho? – Regina pensou sobre aquilo.
– Sim, eu gosto. – Não o amava, mas tinha carinho pelo marido.
– E isso não é suficiente para você? – Ela suspirou.
– Para mim talvez seja, mas e você Robin? Você não merece isso. – Ele segurou o rosto da mulher entre as mãos.
– Lembra quando eu encontrei você? Não foi amor à primeira vista. Você não me dava muita moral. Você estava quebrada. Mas aos poucos, como você mesma disse, eu remendei você. Me deixa fazer isso de novo, querida. – Pediu. – Me deixa conquistar você de novo. Sei que posso e vou conseguir, você só tem que me deixar tentar. – Regina sabia que aquilo era errado, sabia que não deveriam continuar com aquilo, pelo menos não naquele momento, precisavam de um tempo, precisavam pensar, porque sabia que se continuassem, iriam se machucar ainda mais, ela iria magoar o marido ainda mais, mas então lembrou-se de Henry, lembrou-se do desejo dele de continuarem sendo uma família e por fim disse a si mesma que a única pessoa por quem com certeza desistiria de tudo, não estava ao seu alcance, então em um ato de egoísmo suspirou e lentamente deu um aceno com a cabeça, concordando com o marido.
– Ok. Vamos tentar. – Sussurrou, o que fez Robin abrir um sorriso enorme, um sorriso vitorioso, antes de juntar os lábios aos da mulher.
– Obrigado! Obrigado, querida! Prometo fazer você feliz. – Falou entre os beijos. Regina achava aquilo tão errado, tão asqueroso que por algum tempo Robin beijou uma boca inerte. Ela não conseguia corresponder aquilo, na verdade, estava forçando suas pernas a não saírem correndo dali. Robin estava tão feliz por seu plano ter dado certo, que sequer percebeu aquilo. Pegou a mulher no colo e a levou até a cama, ato que a deixou apavorada. Assim que ele livrou-se do pijama, Regina concluiu que não conseguiria, não naquele dia, provavelmente se fizesse qualquer coisa, ela faria chorando.
– Robin. – Murmurou quando o marido voltou a beija-la. – Robin. – Falou um pouco mais alto. Quando as mãos do homem pararam nas alças da sua camisola ela as agarrou com força. – Robin! – Enfim tinha conseguido a atenção dele. – Por favor, querido, hoje não. Estou cansada, física e emocionalmente, por favor, nós podemos adiar isso? Você não vai gostar de fazer isso hoje, tenho certeza que não. – O homem a olhou nos olhos por alguns segundos, antes de suspirar e rolar para o lado da esposa. Paciente, tinha que continuar fazendo seu papel de marido paciente. Já estava sem sexo durante aquele tempo todo mesmo, então um dia a mais ou a menos, não faria tanta diferença assim.
– Ok. – Soltou com o ar. – Sinto muito, eu só estou... oh querida, estou a quase um ano sem sexo. – Um pouco frustrado, passou a mão pelo rosto tentando se acalmar. – Mas vamos com calma. – Disse a si mesmo. – Eu vou levar você para jantar, algo como, um primeiro encontro. – Não, não, aquilo a lembrou Emma. Não conseguiria mesmo sair para jantar com o marido sem lembrar-se da ex-namorada. Provavelmente se aquilo acontecesse, terminaria a noite chorando.
– Eu prefiro almoço. – Falou rapidamente. – Me leve para almoçar. – Pediu. As noites, as noites sempre seriam de Emma.
– Ok, almoço então. Amanhã? – Negou. Não, precisava pelo menos de mais alguns dias para se preparar psicologicamente para o que viria depois do almoço. Não conseguiria aquilo do dia para a noite.
– Não, amanhã não, querido. Essa semana é semana de pagamento, então vou estar muito enrolada com a cafeteria, você sabe disso. – Ele concordou.
– Domingo, o que você acha de domingo? – Domingo não estava muito longe. Então domingo não era uma boa ideia.
– Domingo estava pensando em visitar meu pai, nós temos nos falado ultimamente, mas do que nos falamos durante todos esses anos. Ele nos chamou para um almoço. – Almoço que Regina tinha praticamente negado, mas devido as circunstâncias, tinha acabado de mudar de ideia.
– Então que dia você sugere, querida? – Tentava se manter calmo.
– No outro domingo? – Não era muito, mas era melhor do que no domingo que se aproximava.
– Ok, no outro domingo então. – Robin sabia que não adiantaria insistir, então não lhe restava outra alternativa a não ser concordar. — Vamos almoçar e depois vamos nos divertir e matar a saudade. – Regina não achou sua voz para responder aquilo, então só concordou com a cabeça e tentou sorrir.
(...) No quarto ao lado, Henry estava deitado em sua cama, jogando uma bola de baseball contra a parede enquanto pensava em Emma. Há pouco mais de um mês não falava com a loira. Não porque queria, nem porque estava obedecendo as ordens da mãe, mas sim porque Emma estava descaradamente o ignorando.
Mandou cartas para ela, pedindo que lhe ligasse ou pelo menos escrevesse, como nunca ganhou uma resposta, resolveu apelar para amiga presidiaria de sua mãe. Um dia sem que Regina percebesse, o garoto lhe roubou o celular e foi para o seu quarto, esperar a ligação da tal Ruby, quando a mesma ligou, a fez prometer que faria Emma o ligar. Cinco dias tinham se passado desde então, e Emma continuava sem fazer contato.
Estava pensando em de novo afanar o celular da mãe, para falar com Ruby e lhe pedir para que colocasse seu nome na lista de visitas do próximo domingo, assim teria acesso a sala de visitas, o que o levaria até Emma, e lá ela não poderia fugir dele.
Estava tão absorto em seu plano, que pulo de susto quando seu celular começou a tocar. Deixou sua bola de baseball de lado e rapidamente tirou o celular do bolso. O número desconhecido que viu lá fez seu coração acelerar e quando atendeu e a telefonista disse que era da prisão, ele abriu um sorriso largo.
– Até que enfim! – Foi assim que saudou a amiga.
– Hey, Henry! – Pela primeira vez desde que conheceu Emma, ouviu o tom desanimado de voz dela.
– Henry? O que aconteceu com meu apelido? – Indagou e a ouviu suspirando.
– Garoto, estou ligando para dizer que não posso ligar, nem responder suas cartas. – Meio que avisou, meio que desculpou-se.
– Por que não?
– Vários motivos, e todos eles, prejudicariam você. – Explicou.
– Eu não acredito nisso.
– Pode acreditar. – Foi tudo que respondeu. – Eu não vou mais ligar para você. – Voltou a avisar.
– Você não quer mais falar comigo? – Chateou-se com a voz fria da amiga.
– Não é isso, se pudesse, ligaria todos os dias, mas eu não posso, Henry, e eu tenho certeza que você também não pode falar comigo. – Ele suspirou.
– É, eu não posso, mas ninguém precisa saber sobre essa ligação, pode ser outro segredo nosso. – Sugeriu e de novo ouviu Emma suspirou.
– Garoto, se seus pais descobrem... – Antes que pudesse terminar a frase, Henry a impediu.
– Eles não vão. É só você me ligar a noite, na mesma hora que está ligando agora que é quando já estou no meu quarto e eles no deles. E só por garantia, vou passar a chamar você de Kristen, assim não corremos risco de sermos descobertos. Você pode me colocar um outro nome se quiser. – Emma acabou esboçando um sorriso com a empolgação e a ideia do garoto. Não queria e não podia mais se envolver com ele, mas era difícil quando ele estava disposto a não cooperar. Gostava de Henry, muito mais do que deveria, seu plano inicial era só ligar e pedir que ele parasse de insistir, mas já tinha mudado completamente de ideia, queria saber quem era a tal Kristen.
– Kristen? Eu não sei se tenho cara de Kristen. – Ao ouvir a tentativa de piada, Henry abriu um sorriso largo.
– Sim, você tem. – Avisou.
– Quem é Kristen? Sua namorada? – A pergunta repentina o deixou com as bochechas vermelhas.
– Não. – O não nada convincente fez Emma rir.
– Além de você ser um péssimo mentiroso, eu sou ótima em saber quando estão mentindo. – Debochou, o deixando ainda mais envergonhado.
– Eu não tenho namorada. – Defendeu-se.
– Então ela é sua paquera. – Henry fez careta ao ouvir aquela palavra.
– Paquera, que palavra mais obsoleta. – Debochou.
– Está por um acaso me chamando de velha? – Se fez de incrédula.
– Você não, mas o seu vocabulário, totalmente. – Respondeu rindo.
– Então me diz que palavra vocês adolescentes usam, para uma pessoa que beija outra de vez em quando? – Pediu.
– Eu não beijo ela. – Defendeu-se. – Oh, para com isso! Eu não vou mesmo falar sobre esse assunto com você. – Respondeu envergonhado.
– Pensei que éramos amigos. – Emma tentava não rir da vergonha do garoto.
– Ok, então por que você não me conta como é beijar a minha mãe? – Ouvir tal pergunta deixou Emma tão sem jeito, tão sem reação que ela sentiu o rosto arder. Henry riu do silêncio que se fez presente entre eles. – Tem alguém aí? – Indagou rindo.
– É ótimo, uma das melhores coisas que já fiz na vida. – Admitiu. Ao perceber que Emma não tinha achado graça daquilo, e tal pergunta tinha devolvido a voz um tanto quanto triste da loira, Henry resolveu se redimir.
– Sinto muito, por tudo! – Murmurou, sem saber exatamente o que dizer.
– É, eu também. – Ela soltou com o ar.
– Como você está? – A indagou.
– Bem. – Sua resposta não soou nada convincente. – Você?
– Minha mãe voltou para casa, então, estou bem de verdade. – Respondeu sorrindo e de novo o silêncio se fez presente entre eles. – Você não quer saber como ela está? – De novo houve silêncio antes de Emma abrir a boca para responder. Sim, ela queria muito saber sobre Regina, queria desesperadamente saber sobre a amiga, mas não podia, não podia mesmo. O quanto mais afastada ficasse, melhor seria.
– Não. – Sussurrou. – Eu só... – Desistiu do que ia falar. – Eu... – De novo perdeu-se nas palavras. – Eu não posso. – Falou finalmente, na verdade, lamentou-se.
– Ela está com saudades de você. – Contou. – No dia em que ela chegou em casa, me mostrou uma caixa de fotos, fotos velhas. Você fazia parte da maioria delas. Ela me contou várias histórias. – Ao ouvir tal coisa, Emma fechou os olhos e fez silêncio, controlando-se para não chorar. – Ela tem tocado piano todos os dias. Beatles tem sido o repertório favorito. – De nada adiantou fechar os olhos, ao ouvir aquilo, lágrimas traiçoeiras escaparam. – Emma? – Henry chamou quando e a ouviu fungando.
– Não faça isso comigo, garoto. Não conte isso para mim. – Pediu com o a voz embargada.
– Por que não? – Indagou.
– Porque eu não posso saber. E porque dói. Dói muito ouvir isso. É angustiante ouvir essas coisas e saber que nunca mais vou vê-la, que nunca mais vou ter oportunidade de ouvi-la tocar, saber que nunca vou ter oportunidade de ver essas fotos com ela, de junto com ela contar as histórias para você. Isso machuca, Henry. Deus, como isso machuca! – Henry teve vontade de atravessar o telefone e abraçar a loira das tatuagens.
– Ela ama você, ela me contou. – Tentou animar a amiga, e tudo que conseguiu foi ouvi-la chorar mais. – Não chora. – Pediu, já com vontade de acompanha-la naquilo.
– Desculpa! – Pediu, enquanto tentava livrar-se das lágrimas estupidas. – Desculpa! – Repetiu.
– Tudo bem, você não precisa pedir desculpas.
– Olha só garoto, eu posso ligar para você as vezes, mas por favor, quero, preciso, que não falemos sobre a sua mãe, pelo menos por enquanto. – Henry balançou a cabeça concordando.
– Ok, sem problemas, mas se algum dia você quiser saber, é só me perguntar. – Avisou.
– Okay! – Foi tudo que respondeu. Henry percebeu o quanto aquele assunto a deixava triste.
– Eu não beijei ela, ainda. – Resolveu mudar de assunto. — Kristen. Quer dizer, não é dela que eu gosto, e sim da amiga dela. Mas parece que ela gosta de mim. – Emma esboçou um sorriso.
– Um triangulo amoroso, isso é uma merda. – Limpou a garganta, tentando recompor a sua voz. – E como é o nome da amiga dela? – Indagou.
– Anna. – Respondeu, não acreditando que falaria sobre aquilo com Emma.
– Anna. – Repetiu. – Bonito nome. – Elogiou. – Bom, acho que você deveria dizer para Kristen, e para Anna de quem você gosta de verdade. – Sugeriu. – Você acha que ela também gosta de você?
– Não. – Coçou a cabeça. – Quer dizer, não sei. Eu sou só um nerd, que ajuda ela com as provas de matemática. – Emma sorriu.
– Então use a matemática ao seu favor. – Deu a solução.
– Como?
– Faça a matemática a fazer ficar na escola depois da hora e de repente decida que você está cansado de estudar na biblioteca, que quer fazer isso lá fora, debaixo de alguma arvore, mais isolado dos outros. Quanto você ver que ela já não está entendendo mais nada, desista da matemática e faça algum comentário idiota. – Henry juntou as sobrancelhas.
– Isso ajuda?
– Se ela gostar de você, ajuda com certeza. Aliás, é desse jeito que você vai descobrir se ela está afim de você também. Caso seu comentário idiota a faça rir, caro amigo, chegue junto e beije. – De novo se sentiu envergonhado.
– Eu nunca beijei ninguém. – Admitiu.
– Sempre existe uma primeira vez. – Respondeu despreocupada. Foi impossível não pensar o que Regina acharia daquela conversa. Certamente estapearia a amiga, por estar falando e incentivando o garoto com aquilo.
– Como é? – A curiosidade de Henry superou a vergonha e ele decidiu se entregar de vez ao assunto.
– Nojento, totalmente nojento. – Foi sincera. – Garoto, vou lhe dizer uma coisa, quero que preste atenção. – Henry concordou.
– Sou todo ouvidos.
– A primeira vez é sempre horrível. Não caia nessa história que é lindo e blá, blá, blá. Pode até ser romântico, mas não impede de ser ruim. Sabe por dizem que a primeira vez é inesquecível? Porque é horrível. Qualquer coisa que você faz pela primeira vez é horrível, com o beijo não é diferente. É muita saliva, você não sabe direito o que fazer com a sua língua, seus olhos não sabem se ficam abertos ou fechados, suas mãos não sabem como agir, enfim, é um desastre. – Contou.
– Nossa! Animador. – Se já tinha medo antes, ao ouvir tal coisa, o medo piorou.
– Mas é legal no final das contas. Quer dizer, é tudo uma questão de pratica. Só estou contando porque se você achar horrível, vai saber que é algo normal, mas não tenha medo, apenas deixe-se levar, não pense muito. – Sugeriu.
– Eu não sei, não quero que ela ache isso horrível. – Sua voz preocupada fez Emma sorrir.
– Ela não vai. Henry, o comentário idiota, tudo depende dele. Se ela estiver na sua, não importa a quantidade de saliva que vocês troquem, nem o quão desajeitado seja o beijo, ela simplesmente vai amar. – Explicou. – Mas se você quer treinar antes, use Kristen. – Deu a solução.
– Cafajeste! – A acusou, o que a fez rir.
– Só estou lhe mostrando as opções que tem. – Defendeu-se.
– O que você faria no meu lugar? – Quis saber.
– Ficaria com a Anna. – Respondeu sem pestanejar.
– Mas e se ela não gostar?
– Ela vai, cofie em mim. Meu primeiro beijo foi com um menino que eu idolatrava, foi horrível, mas na época achei a coisa mais linda do mundo. E além disso, já beijei muitas garotas, muito mal beijado, e elas amaram. – Henry riu e fez vomitar.
– Sua modéstia me faz ter vontade de vomitar. – Emma riu.
– Faz parte do jogo. Não importa o quão vulnerável e inseguro você esteja se sentindo, você nunca, nunca pode demonstrar isso, entendeu? Mulheres não gostam de caras assim. – Henry balançou a cabeça muitas vezes, enquanto fazia uma nota mental de tudo que tinha aprendido.
– Ok. – Antes que ele pudesse continuar o papo sobre conquistas, três batidas na porta o atrapalharam, ao olhar para mesma, viu a mãe adentrar em seu quarto, o que fez seu coração acelerar.
– Que tal um ataque a geladeira antes de dormirmos? – Convidou, indo de encontro ao filho. Ao ouvir a voz de Regina, o coração de Emma bateu mais frenético do que o de Henry. Ela estava ali, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Podia simplesmente pedir a Henry que passasse o telefone a ela, e matar a saudade que a sufocava cada dia mais. Ouvir só um “oi”, só isso já lhe deixaria melhor. Mas não podia, naquele momento não era sequer Emma, era só Kristen, a amiguinha de Henry.
– Ótima ideia! Já estou indo lá. – Tentou fazer com que a mãe fosse na frente, só que ao invés de se retirar, ela sentou-se ao pé da cama.
– Eu espero. – Respondeu tranquilamente.
– Kristen, er... preciso desligar.
– Kristen? Quem é Kristen? – Regina indagou ao ouvir um nome novo.
– Mãe! – Henry a repreendeu, fazendo Emma sorrir.
– Desculpa! – Ela sussurrou ao levantar as mãos.
– Nos falamos amanhã? – Pediu.
– Eu não sei se é uma boa ideia, garoto. – Emma sussurrou, com medo de ser ouvida.
– Por favor? – Regina fazia de conta que estava prestando atenção nas unhas, enquanto ouvia o filho todo dengoso para cima da tal Kristen.
– Ok! – Soltou com o ar. – Espero que amanhã quando eu ligar você já tenha resolvido o assunto com a sua paquera. – Avisou.
– Hey, vamos com calma! – Ao ouvir tal coisa, Regina levantou a cabeça e olhou para o filho.
– Beije ela, Henry! – Ordenou.
– Vou tentar. – Prometeu. – Boa noite!
– Boa noite, garoto Netflix. Durma bem, um beijo. – Antes que Henry resolvesse desligar, Emma voltou a falar. – Henry, você pode por favor não encerrar a ligação? Faça de conta que desligou, mas não desligue. – Pediu. Emma queria ouvir Regina, Henry não precisava entender muito sobre sentimentalidades para saber daquilo.
– O que aconteceu com a história desse assunto machucar? – A indagou. Não fazia muitos minutos que a loira pediu para que não falassem sobre Regina, e agora ela estava querendo ouvir a amiga, mesmo que indiretamente.
– Sou masoquista. Talvez essa dose de sofrimento me faça dormir melhor essa noite. E tecnicamente não vamos estar falando sobre ela. – O garoto sorriu e concordou.
– Ok, até amanhã então. Um beijo. – Fez desligar o telefone, e o colocou em cima do seu peito. Ao olhar em direção a mãe, encontrou com os olhos curiosos dela em cima de si.
– Quem é Kristen? – O indagou, o fazendo sorrir e fazendo Emma sorrir, pelo tom de ciúme estampado naquela pergunta.
– Uma amiga. – Foi tudo que respondeu.
– Sei... – Murmurou desconfiada. – Eu conheço? – Ele negou.
– Não, mãe. É aluna nova. – Ela concordou com a cabeça.
– Aluna nova... Então amanhã quando eu for buscar você no colégio, vou conhecer. – Henry negou.
– Não, mãe, não. Presta atenção, você vai ficar quietinha dentro do carro me esperando como sempre faz, combinado? – Pelo olhar da mulher, Henry temeu que Regina o esperasse no portão e perguntasse para todos os seus amigos quem era Kristen. – Combinado? – Indagou de novo, a fazendo suspirar e desistir.
– Combinado. – Respondeu sem vontade. – Por que eu não posso saber quem ela é?
– Você pode, mas não precisa ir atrás dela para isso. Mãe, deixa de ser paranoica, não é nada disso do que você está pensando. Kristen e eu somos amigos, apenas amigos, nada mais do que amigos. – Regina o lançou um olhar desconfiado.
– Amigos que não se beijam, certo? Até porque você não tem idade para isso. – As bochechas do garoto ficaram vermelhas, mas ele não se deixou abalar.
– Amigos que não se beijam. Afinal, não sou eu quem beija e ama a melhor amiga. – Ao ouvir tal comentário, Regina sentiu-se muito desconcertada, enquanto na prisão, Emma tampava o aparelho com a mão, para que do outro lado da linha não a ouvissem rindo. Estava rindo não só pelo ciúme de Regina e a vergonha de Henry por estar falando sobre aquilo com a mãe, estava rindo também por de um certo modo, estar participando daquilo, daquela conversa dos dois, por estar ouvindo a Regina mãe, por saber como eles interagiam em casa. E principalmente, por Regina ter falado para o filho sobre elas, estava rindo muito, rindo de felicidade.
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