Escape
16 Não era você
Notas iniciais
Regina lançava um olhar incrédulo para o marido, que pelo jeito estava prestes a ter um surto de ciúmes. Antes de responder ela fechou os olhos, massageou as têmporas, contou até dez, respirou fundo e voltou a olhar para o ciumento.
– Não, Robin, não estamos tendo um caso. — Soltou o ar lentamente.
– Então me dê um bom motivo para aquela filha da mãe, desgraçada, estar com os olhos fixos aqui. — Grunhiu sem tirar os olhos de Emma. Muito sem paciência, Regina resolveu responder.
– Querido, eu gostaria muito de poder ler mentes, mas infelizmente eu não consigo. Então eu não sei o motivo de ela estar olhando para cá. Talvez ela e Henry estejam falando sobre nós. Ou talvez ela só esteja olhando porque você praticamente gritou e apontou na direção dela. E não fale da mãe dela desse jeito, a tia Mary não tem nada a ver com isso. — O homem abriu um sorriso debochado, daqueles que Regina odiava.
– Oh que bonitinha! Está defendendo a titia. — Ouvir tal provocação foi a gota d'água para morena, que totalmente sem controle fechou as mãos em punho e as chocou contra a mesa, fazendo que os dois se tornassem novamente o centro das atenções.
– Chega! Se seu intuito era me aborrecer e irritar, você conseguiu, parabéns! — O acusou. — Agora se você não tem mais nenhum absurdo para dizer, talvez seja melhor ir embora. — A morena apontou em direção a saída. Ao ver o quanto tinha irritado a esposa, Robin respirou fundo tentando voltar a si, e resolveu tentar se desculpar. Regina só o mandava sair do jeito que tinha feito, quando estava muito magoada, e bom, ele não queria magoa-la.
– Me desculpe. — Tentou tocar o ombro da mulher, mas ela rapidamente tirou a mão dele de lá. — Eu não tive a intenção de duvidar de você. — Ouvir tal coisa a fez lhe dar um sorriso sarcástico.
– Não, claro que não, imagina se tivesse tido. — Cuspiu as palavras.
– Eu só tenho medo de... — Tinha tanto medo de perder a esposa para a loira desgraçada que não conseguia nem falar aquilo em voz alto. — Você sabe... Você sabe o quanto gostou dela um dia. O quanto eu penei para conquista-la. Se eu não tivesse tido sorte de a camisinha ter furado, Henry não teria nascido e eu tenho certeza que você teria me deixado para ir atrás dela, mesmo ela não querendo saber de você. — A cada coisa nova que ouvia sair da boca do marido, mas indignada ficava a morena.
– Quando eu penso que você se superou nos absurdos, você abre a boca para um novo recorde. — Murmurou ao voltar a massagear as têmporas. — Olha só, Robin, contrariando as suas expectativas, lhe dou minha palavra que quando meu tempo aqui terminar, eu não vou fugir feito uma adolescente apaixonada com Emma, se é essa a sua preocupação. — Falou de olhos fechados. Aquela maldita conversa tinha lhe dado uma dor de cabeça.
– Promete que aconteça o que acontecer, você vai voltar para casa? — Pediu ao agarrar as mãos da mulher. Ela suspirou e abriu os olhos o encarando.
– Prometo que por mais que Emma e eu venhamos a nos divertir, viajar, badalar, festar, vou voltar para casa quando meu tempo na PRISÃO acabar. — Fez questão de enfatizar a palavra prisão.
– Debochada! — Resmungou. — Deixa eu refazer meu pedido. — Pediu. — Promete que por mais que vocês venham a se envolver, você vai voltar para casa? — Regina abriu a boca para cuspir meia dúzia de palavras malcriadas contra o marido, mas ele foi mais rápido. — Não me prometa que vocês não vão se envolver, não faça isso com você. Só quero que prometa que vai voltar para casa. Só isso. — Cansada daquele assunto a morena suspirou e concordou.
– Eu vou voltar para casa, Robin. Aconteça o que acontecer, eu vou voltar. — Prometeu olhando nos olhos do marido, que mesmo triste por saber o que aconteceria, ficou satisfeito com a promessa, já que Regina sempre cumpria com elas.
– Já acabaram de discutir? — Henry estava de volta e tanto Regina quanto o marido, não faziam a mínima noção do quando daquela conversa o garoto poderia ter ouvido.
– Se seu pai já resolveu por fim as teorias idiotas, sim, nós acabamos. — A morena respondeu ao fuzilar o marido com os olhos.
– Vou buscar uma Coca-Cola para você. — Robin ofereceu a mulher, ao levantar-se dali.
– Light. — O lembrou ao baixar a cabeça e deixar sua testa bater contra a mesa. Ficou um tempo lá daquele jeito tentando amenizar sua dor de cabeça. Sorriu ao sentir a mão do filho afagar suas costas.
Henry não entendia absolutamente nada sobre relacionamentos amorosos, mas pelo tanto que ouviu chegou a conclusão que seu pai estava aparentemente com ciúmes de Emma. Tinha planos de perguntar para a mãe o porque daquilo, mas ao ver o quanto ela estava chateada, resolveu deixar para lá.
– Tudo bem? — Questionou com ela, que suspirou e levantou a cabeça o encarando.
– Tudo. — Usou sua voz mais convincente e puxou o filho para os seus braços.
– Você é uma péssima mentirosa, mãe. — A acusou, a fazendo rir.
– Vai ficar tudo bem se você ficar assim abraçadinho comigo enquanto me conta com muitos detalhes sobre o seu natal. — Pediu.
– O natal foi hilário. — Contou rindo. — Minha vó deu um jeito de atacar novamente, e a noite terminou com o pai no banheiro. — Ao ouvir tal coisa Regina riu, e mergulhou toda sua atenção na história do filho.
(...) Graças a carta com palavras bonitas, difíceis e educadas que Regina foi praticamente obrigada a escrever para o diretor geral do presídio, as detentas acabaram conseguindo convencer o homem a deixa-las fazer uma pequena confraternização na última noite do ano.
A morena estava alheia ao hip-hop horrível, que ecoava naquele refeitório, assim como estava alheia a conversa animada e risadas das detentas que dividiam a mesa com ela. Seus olhos estavam fixos no seu prato de comida praticamente intocado e seus pensamentos, seus pensamentos estavam na sua casa, mas precisamente em seu marido.
Desde o último domingo as coisas entre eles não iam nada bem. Sempre que ligava para casa, eles acabavam dando um jeito de discutir. Na maioria das vezes, discutiam por motivos bobos. Tudo ficou ainda pior quando Robin passou a não atender mais o telefone. Nos últimos dois dias quem atendeu ao telefone de casa foi Henry, e questionado sobre o pai, o garoto inventou nítidas desculpas. Regina tentou também o celular, mas não foi atendida em nenhuma das tentativas.
Prometeu ao marido que ao fim da sua sentença voltaria para casa, e sem sombra de dúvidas, realmente voltaria, só não sabia se o encontraria mais por lá. Pensar tal coisa a deixava triste, afinal de conta eles passaram treze anos juntos, e mesmo naquele momento ele não merecendo, ela o amava. Talvez não amasse o tanto que ele gostaria de ser amado, mas amava o tanto que podia amar e esse tanto era o suficiente para que passassem o resto da vida juntos.
– Você está bem? — Ruby questionou ao ver a morena lá paradona, sem ao menos piscar.
– Sim. — Limitou-se a responder.
– Emma já volta, só foi atrás de uma bebida ilegal. — Sorriu sem humor. Por que associavam tudo a Emma? Questionou-se.
– Preciso de ar. — Murmurou ao levantar-se dali. Depois de despejar sua comida no lixo e colocar sua bandeja no seu devido lugar, foi em direção a rua. Ganhou um olhar de reprovação da detenta chefe de cozinha, mas a mesma não a impediu de sair.
Ao sentir o frio que fazia na rua, passou as mãos pelos braços, tentado se aquecer. Não fazia ideia de quanto estava a temperatura, mas podia apostar que estava alguns graus abaixo de zero. Foi até o banco que costumava compartilhar com Emma, e sentou-se sobre o encosto. Suspirou e mirou o céu, então um sentimento de solidão acabou apossando-se de si, trazendo lágrimas aos seus olhos.
Não ficou muito tempo sozinha, ao ouvir de Ruby, que Regina saiu falando que precisava de ar, a loira deixou a amiga falando sozinha e foi em busca de Regina. Para conseguir chegar na rua, teve que prometer para cozinheira chefe que ela e Regina não fariam nada, além de conversarem.
Sorriu ao ver a morena sentada sobre o banco que já tinha virado delas, e então foi até lá.
– Achei você! — Foi desse jeito que anunciou-se ao sentar ao lado da amiga. Suspirou ao ver que a morena estava chorando. — A festa está tão ruim a ponto de fazer você chorar? — Regina esboçou um sorriso com aquela tentativa de piada e com as mãos livrou-se das lágrimas. Emma prendeu os olhos no rosto da amiga por algum tempo, tentando fazer com que Regina a encarasse, ao constatar que a morena não faria aquilo, levou as mãos até uma mecha dos cabelos negros dela que estavam caídos sobre seu rosto e carinhosamente os colocou para trás.
– Se continuar aqui, você vai congelar. — A morena a advertiu em um fio de voz.
– É, provavelmente eu vou. — Concordou. Embora estivesse usando sua jaqueta mais grossa e um gorro quentinho, o frio que estava fazendo ali fora era absurdo.
– Melhor você entrar antes que isso aconteça. — Foi aconselhada, mas negou-se a ir.
– Não. Vou ficar aqui com você. Se eu congelar, vai ter sido por algo que valeu a pena. — Ao ouvir tal coisa a morena esboçou um sorriso e então o silêncio voltou a se fazer presente entre elas. — O que foi? — Ao perceber que Regina não contaria o problema, Emma não arrumou outra solução a não ser questiona-la.
– Nada e tudo. — Respondeu com a voz embargada. Pacientemente, a loira esperou em silêncio a amiga continuar seu desabafo. — Sabe quando você sabe que está perdendo alguém e não pode fazer nada a respeito? — Sim, Emma sabia e como sabia.
– E quem você acha que está perdendo? — Muito embora soubesse a resposta, resolveu questionar mesmo assim. Passou o braço em volta dos ombros da morena e a puxou para perto.
– Robin. — Foi tudo que respondeu.
– Se marido é louco por você, Regina. — Infelizmente aquela era a verdade. Nunca tinha trocado mais de três palavras com ele, mas estava estampado na cara do homem.
– Não é essa a questão. O fato é que nós não conseguimos mais conversar sem discutirmos. A sensação que eu tenho é que há um abismo cada vez maior entre nós. — Emma queria aconselhar Regina a mandar o marido para o inferno, mas ao invés de tal coisa, resolveu ajuda-lo. É isso que pessoas apaixonada fazem não é? Colocam a pessoa que amam em primeiro lugar.
– Regina, aqui dentro as coisas parecem maiores do que realmente elas são. Tenho certeza de que quando você sair daqui tudo vai voltar a ser como era. — Não falou mais do que a verdade.
– E se isso não acontecer? — Emma suspirou.
– Se não acontecer é porque ele não merece, então você chuta ele e arruma outro. — Deu a solução óbvia. — Agora para com isso. Para de sofrer por antecedência. Coisa feia chorar assim faltando minutos para o seu aniversário. — A morena voltou a secar as lágrimas e então deitou a cabeça no ombro da amiga.
– Só em pensar que estou ficando mais velha, já tenho vontade de chorar de novo. — Admitiu.
– Regina Mills, como não entendo nada sobre vinhos vou comparar você a whisky, quanto mais velha melhor fica. — Ao ouvir tal coisa a morena riu. — Se a gente estivesse fora desse lugar, eu levaria você a um show de rock. — Compartilhou seu pensamento.
– E como seria isso? — Interessou-se em saber.
– O show ou a nossa noite? — Indagou.
– A nossa noite. — Respondeu sem pestanejar.
– Bom, eu buscaria você as 19:00, e nós seguiríamos até um restaurante de massas. Você escolheria os pratos porque a única massa da qual eu entendo é macarrão instantâneo. — Ao ouvir tal coisa a morena gargalhou. — Se estivesse assim frio, acho que tomaria uma dose dupla de whisky, e para você pediria uma garrafa de vinho. A mais cara da casa e com nome bem difícil. Na verdade, você pediria. Eu me limitaria a assistir você pronunciando com perfeição o nome do vinho — A loira fez uma pausa para respirar. — Sem perder nenhum detalhe eu assistiria você degustar o vinho. Ah Deus! É melhor eu nem pensar muito sobre isso. — A última frase foi murmurada, mas Regina a ouviu muito bem, e não conseguiu conter um sorrisinho. — Durante o jantar tagarelaríamos sem parar e riríamos por qualquer coisa, e então a uma certa altura, você já meio alterada pelo vinho, me olharia como olhava há anos e me daria um sorriso cheio de significados. — Houve outra pausa para Emma organizar as ideais. — Depois do jantar a gente iria para um show de rock. Em um pub qualquer, assistiríamos a uma banda cover, que tocaria todas as nossas músicas favoritas. Sairíamos de lá quando o bar já estivesse para fechar, e bêbadas, completamente bêbadas. E aí você lembraria que um dia você amou cigarros e me faria comprar um caixa para relembrarmos os velhos tempos. Iríamos andando, tropeçando e fumando até o central park, e com muita sorte, encontraríamos um daqueles lagos congelados, você me arrastaria para o meio dele e me faria deitar lá e mesmo morrendo de medo de repente o gelo rachar, eu iria com você. Ficaríamos lá vendo as estrelas e fazendo desenhos nelas, até o dia ganhar a noite. — Ao terminar seu relato os olhos da loira voltaram-se para amiga. Se surpreendeu ao ver que ela tinha voltado a chorar. — Foi tão ruim assim? — Indagou preocupada. Regina negou e então levantou a cabeça e a encarou.
– Pelo contraio, foi ótimo. E sabe o que é pior? Imaginar que poderia ter sido assim. — Lamentou-se. — Por que, Emma? Por que você teve que ir embora? — Indagou olhando nos olhos da amiga. Ouvir tal pergunta e ver a morena daquele jeito, fez Emma sentir vontade de chorar também.
– Já disse, por covardia. — Sua voz embargou. — Porque eu sabia que se ficasse com você, eu não conseguiria mais deixar você ir. — Respondeu ao deixar a primeira lágrima cair.
– Ir aonde, Emma? — A morena tinha um olhar triste. — Eu jamais iria a lugar algum. — Ouvir aquilo fez mais lágrimas descerem dos olhos da loira.
– Como você sabe? Você tem marido e estava até agora se lamentando por ele. Quando você conhecesse ele, iria me deixar. — Regina negou.
– Eu amo Robin, Emma, mas acho que amo pela metade, sabe? Já você... — A morena suspirou, e passou as mãos pelo rosto. — Droga! — Praguejou. Iria admitir aquilo, não só para Emma, mas também para si. — Droga, Emma! — Voltou a Praguejar. — Eu desconfio que você tenha sido a porra do amor da minha vida. — Admitiu entre lágrimas. Então por um tempo elas só choraram. Choraram pelo passado e pelo futuro. Choraram pelos erros, covardias, mágoas, ressentimentos. Choraram por saberem que não tinham mais como desfazer o passado, e graças a ele, não tinham esperanças sobre o futuro.
– Se isso existe mesmo, Regina, eu não desconfio, eu tenho certeza que você é o meu. — Emma declarou-se em meio às lágrimas. — Eu amo você, amo. Todos esses malditos anos eu passei amando você. Meu Deus! Eu procurei desesperadamente alguém para amar. Alguém para substituir você, mas eu não encontrei, Regina. Eu inventava várias desculpada para cada relacionamento fracassado, e olha que não foram poucos, mas a verdade é que nenhum deles era você e em todos eles era você quem eu procurava. — Tentou secar as lágrimas com as mãos. — Mas eu mereci, não é mesmo? Foi esse o preço que paguei por ter ido embora. — Regina tinha os olhos fixos na loira, que olhava para longe dali. Aquela foi sem dúvida a declaração mais sincera que um dia recebeu. Sentiu vontade de abraçar e beijar a amiga, de dizer que tudo ficaria bem, que elas dariam um jeito em tudo. Se viu tentada a fazer tais coisa. Mas e depois? Poderia mesmo ficar tudo bem? Seria certo fazer aquilo com elas? E quando chegasse o momento de ir embora? Muito provavelmente elas sairiam ainda mais machucadas.
– Eu não sei o que dizer. — Sussurrou por fim. Emma respirou fundo e encarou a amiga.
– Fica comigo! — Fez o pedido sentindo o coração bater na boca. Ao ouvir tal pedido o coração de Regina também acelerou. Sentiu uma imensa vontade de concordar com aquilo, sentiu tanta vontade que chegou a abrir a boca para aceitar, mas sua razão acabou falando mais alto, a fazendo desistir.
– Isso só nos machucaria mais. — Lamentou-se.
– Eu sei que quando seu tempo aqui acabar, você vai voltar para sua família. Eu entendo e prometo não cobrar nada, mas enquanto isso não acontece, fica comigo. — Praticamente suplicou. — Me deixa ter um pouco de você, me deixa saber como é estar com você. Me deixa mostrar o quanto eu amo você. Por favor, Regina, me deixa fazer isso.
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