Escape
42 Não desista de nós
Notas iniciais
Sabe aquelas datas que você não gosta de jeito nenhum? Sem ter um motivo, uma razão ou um porquê? Que se pudesse você ficava em casa, trancada, inacessível, até tal dia passar? Regina odiava Halloween, não via graça nenhuma em ter que abrir a porta de casa incontáveis vezes e dar de cara com crianças mal-educadas, perguntando se ela queria gostosuras ou travessuras. Gostava muito menos dos adultos macabros que encontrava por aí. Não sabia porque tal data causava tanta comoção, porque era tão comemorada. Deveria ser no máximo, uma brincadeira de crianças, nada além disso. Mas não, adultos idiotas também comemoravam e muito, o tal Halloween. Por tal motivo, muitos acidentes aconteciam em tal data, o número de assassinatos também era maior, e o de roubo também. Não existe data melhor para ser bandido, Regina tinha certeza que não.
Arrependida da sua teimosia, bufou ao lembrar que recebeu claros sinais, que não deveria ter sequer cogitado a hipótese de ter saído de casa naquele dia, recebeu sinais até enquanto dormia.
Os olhos de Emma estavam fixos no lustre do quarto, enquanto ela ouvia os pássaros cantando, Regina resmungando e seu estomago reclamando. Sabia que tinha que levantar, se ajeitar, fazer o café, e o mais difícil, acordar a namorada, não necessariamente nessa mesma ordem, mas estava se divertindo com o sonho da namorada, que já tinha chamado tanto por seu nome, que a fez acordar antes que o despertador pudesse fazer aquilo. Não sabia exatamente o que Regina estava sonhando, mas pelo que dava de entender, a morena estava fugindo de alguém.
Esticou o braço e pegou o celular em cima do criado-mudo, quando o despertador do mesmo, começou a tocar.
– Regina foi mais eficiente. – Comentou com o aparelho, ao desligar a triste música de acordar. Sorriu para a imagem da amiga, que enfeitava sua tela, antes de abrir o aplicativo de mensagem instantânea, para checar quem já estava lhe perturbando de manhã cedo.
Juntou as sobrancelhas ao ver o número desconhecido e balançou a cabeça negativamente, ao ver que tal número, estava lhe desejando feliz Halloween. Provavelmente era algum dos seus colegas de curso. Quando pensou em perguntar aquilo, o sonho de Regina definitivamente acabou tornando-se pesadelo e ela começou a gritar, o que fez a loira deixar o celular de lado e acudir a namorada.
– Regina! – Sussurrou enquanto a chocalhava. – Regina, acorda. – Tentou de novo. – Regina, está tudo bem, você só está sonhando, está tudo bem. – Repetiu aquilo algumas vezes, até por fim conseguir acordar a namorada, que lhe lançava um olhar assustado. — Tudo bem? – Indagou, enquanto analisava a amiga.
– Eu estava sonhando. – Seu coração ainda batia alucinado. Mesmo tendo acordado, mesmo vendo Emma ali, bem, tranquila, e diante de si, continuava apavorada.
– Coisas ruins? – Questionou com voz baixa e tranquila, tentando acalmar a amiga.
– Alguém perseguia você, queriam matá-la, esquarteja-la e come-la. – Emma assoviou e riu.
– Isso é o que chamo de pesadelo. Está vendo no que dá assistir a essa sua série de terror? – Aquilo soou como uma bronca.
– Eu nunca sonho com essas coisas, você é quem tem problemas com isso. – Defendeu-se. – Parecia tão real. – A loira lhe afagou o rosto.
– Bom, bem-vinda ao meu mundo! Se serve de consolo, passei a noite em claro pensando naquelas coisas macabras que você me fez assistir. – Contou. — E você passou a noite resmungando, provavelmente sonhando com isso também. – Beijou a testa da namorada e em seguida os lábios. – Bom dia, preguiça! – Desejou, antes de rolar para fora da cama e se pôr de pé. – Algodão! Não acredito que você dormiu em cima da minha calça! – Reclamou com o cachorro folgado, enquanto tentava recuperar seu jeans. – Agora vou passar o dia com o cheiro desse seu perfume enjoado. – Voltou a reclamar enquanto pulava para entrar na calça. – Regina, você tem que dizer para o seu cachorro, que ele não pode dormir em cima das minhas roupas. – Reclamou também com a namorada, que tinha puxado o travesseiro para cima da cabeça.
– A culpa é sua, que deixa as roupas jogadas no chão. – Saiu em defesa do cão.
– Minha? Por um acaso quando você tira minhas roupas, você me dá a opção de ao menos tentar junta-las? – Defendeu-se.
– Por um acaso você pensa em tentar junta-las? – Rebateu, fazendo a loira rolar os olhos e desistir. Juntou o resto de suas roupas as pôs e voltou-se para a namorada.
– Temos menos de meia hora para sair de casa, então agiliza. – Acabou suspirando ao ver a imagem nua de Regina, de bruços, abraçada ao travesseiro. Sentou-se na beira da cama, e puxou o lençol, cobrindo a amiga. Beijou-lhe os ombros e lhe afagou os cabelos que lhe escondiam o rosto. – Regina? – Chamou.
– Não veio. – A voz preguiçosa respondeu.
– Nós vamos nos atrasar. – Avisou.
– Não quero trabalhar hoje. – Emma sorriu, voltou a lhe beijar os ombros e se pôs de pé.
– Tudo bem, como você é a chefe, acho que pode se dar a manhã de folga. Mas eu não posso chegar tarde na aula, então preciso correr para pegar o metrô. – Avisou ao caminhar em direção ao banheiro.
Ao parar em frente ao espelho do mesmo, balançou a cabeça negativamente, observando suas olheiras. Resolveu culpar a maldita série macabra que Regina a fez assistir, e não o tempo que passaram acordadas depois, quando Regina atirou suas roupas para Algodão.
Riu, ao ouvir a amiga praguejar contra alguma coisa. Nada, nada mesmo deixava a morena com mais mal humor, do que a história de acordar cedo todas as manhãs. Emma demorou algumas semanas, até dar-se conta que o melhor que podia fazer por si e por ela, era não falar muito.
Estava escovando os dentes, quando a namorada adentrou o banheiro.
– Que droga! Tropecei nos seus tênis e acabei virando o pé. – Reclamou, enquanto mancava em direção a loira.
– Sinto muito. – Desculpou-se do jeito que pôde, já que a espuma e a escova em sua boca, não colaboravam com uma conversa. – Estava debaixo da cama, Algodão deve ter tirado de lá. – Se defendeu.
– Vou conversar com ele. – Prometeu e Emma concordou com a cabeça. — Odeio acordar cedo! – Reclamou, ao abraçar a amiga por trás e deitar a cabeça em suas costas.
– Eu sei!
– Odeio ter pesadelos. – Fez uma nova reclamação.
– Eu também sei.
– Odeio Halloween. – Emma cuspiu a espuma da pia, lavou a boca e voltou-se para amiga reclamona.
– Também sei sobre isso. – Descansou as mãos na cintura da namorada. – Tire a manhã de folga. – Sugeriu. – Descanse, durma bastante e sonhe com unicórnios coloridos. – Voltou a sugerir.
– Não, vou superar a preguiça e vou trabalhar. – Emma sorriu, todos os dias Regina reclamava para acordar, todos os dias Emma lhe sugeria que ficasse em casa, todos os dias a morena negava.
– E qual o plano para a noite? Vamos ou não, no jantar do seu pai? — Regina ainda não tinha decidido sobre aquilo.
– Não sei. – Respondeu o que vinha respondendo há uma semana.
– Acho que deveríamos ir, afinal, você me comprou um vestido e saltos, usando a desculpa do tal jantar. – Opinou. – Mas caso você opte por não irmos, podemos ir na festa da minha sala, o que você acha? – Achou a ideia ainda pior do que ir no jantar do pai.
– Acho que não tenho mais idade para festas universitária. – Resmungou, fazendo Emma suspirar e lamentar aquele mal humor matinal.
– Você não quer ir na festa do seu pai, não quer ir na festa da minha sala, o que quer fazer então, mulher difícil? – Regina lhe lançou um olhar pidão, antes de lhe abraçar.
– Ficar em casa com você. – Emma sorriu e afagou as costas da namorada.
– Você não vai gostar de ficar em casa hoje, as crianças vão bater muitas vezes na sua porta atrás de doces, você sabe disso. – A morena suspirou.
– Então você decide. – Pediu.
– Okay, então nós vamos no jantar do seu pai, depois passamos na festa da minha turma e então viemos para casa, para assistir algo de terror que não seja aterrorizante. – Passou a programação.
– Tipo o quê?
– American Horror Story. O que você me diz? – Deu de ombros.
– Por mim, tudo bem. – Respondeu com um tom de voz nada animado.
– Então faça uma cara de tudo bem. – Regina forçou um sorriso, fazendo a amiga rir e puxa-la para si. – Você é tão insuportável quando acorda. – Fez uma falsa reclamação, ao beijar-lhe os lábios.
– Mesmo assim você insiste em acordar comigo. – Provocou.
– Se eu durmo com você, nada mais justo do que acordar com você, não acha? – De novo ganhou um dar de ombros.
– A essas horas, eu não acho absolutamente nada. – Resmungou de mal humor. – Aliás, acho. Acho que odeio esse dia, e odeio o ciúme que meu cachorro tem de você. – Soltou-se da namorada e caminhou em direção ao box. – E odeio seus tênis no meio do caminho, e odeio acordar cedo, e odeio as festas do meu pai, e odeio as suas colegas de turma. – E a extensa lista de reclamações se estendeu durante o banho. Como sabia que não deveria mesmo se meter naquele monologo, Emma se limitou a rir e a ouvir todos aqueles tristes lamentos.
Deveria ter seguido sua intuição e ter ficado trancada em casa o dia todo, deveria também, ter amarrado sua namorada mentirosa no pé da cama. Mas não, decidiu mandar sua intuição para o inferno e viver o maldito dia, como se fosse um dia comum. Resumindo, estava na rua em plena madrugada, na parte nada nobre do seu bairro.
Casualmente esbarrava em algumas “aberrações”, enquanto com todo cuidado para não ser percebida, perseguia Emma.
Suas pernas estavam tremulas, assim como suas mãos, e seu coração batia acelerado, enquanto mil coisas passavam pela sua cabeça. Tinha certeza absoluta que não queria saber onde Emma estava indo, tinha certeza que não gostaria do que iria ver, mas mesmo assim, continuava sua caminhada.
Ao pensar no que provavelmente veria, sentiu raiva, e apertou sua mão esquerda na arma que carregava no bolso da jaqueta. Parou em seco, quando Emma parou em frente a um casarão abandonado.
Encostou-se em um muro onde a má iluminação da rua não a tornava visível e esperou. Viu a loira checar o celular, antes de tirar os olhos do mesmo e passa-lo pelo casarão. Viu também quando ela forçou a porta do lugar para abri-la, e antes que conseguisse passar pela mesma, resolveu interferir.
– Emma! – Chamou ao se fazer visível, o que fez a amiga pular de susto.
Não, não, Regina não estava ali, não podia mesmo estar ali. Por que diabos ela não estava dormindo? Desde quando tinha se tornado tão imune aos efeitos do vinho? Regina quando caía no sono, era praticamente impossível de acordar, e tudo ficava muito pior, quando tomava uma quantidade considerável de vinho, então não tinha explicação para ela estar ali.
Não contava com aquele imprevisto, não fazia ideia do que diria para a namorada. Talvez, devesse contar tudo de uma vez, mas não fazia ideia de como Regina reagiria a tal coisa. E se ela quisesse chamar a polícia? Não, não podia de jeito nenhum chamar a polícia. Polícia não era uma alternativa, ou seja, precisava convence-la, ou achar um lugar para tranca-la até resolver aquilo tudo.
Suspirou, e sem saída, voltou-se para a namorada, que caminhava em sua direção.
– O que você está fazendo aqui? – Para não ter que ver o olhar de decepção da amiga, manteve os olhos no zíper da jaqueta da morena.
– O que eu estou fazendo aqui? Não sei! – Deu de ombros. – Me diga você, o que eu estou fazendo aqui? – Sua pergunta soou ácida.
– Você não tem nada para fazer aqui, deveria estar em casa dormindo. – Regina sorriu sem humor.
– Você bem que tentou que eu ficasse em casa dormindo, não é mesmo? Tentou me embebedar para que isso acontecesse. – Acusou. — Tomei duas taças de vinho, até perceber que você mal tinha tocado na sua, o que achei estranho, já que você levava a taça a boca de minuto a minuto. – Contou. – Desconfiada, fui até a cozinha e substituí o vinho por suco de uva. – Balançou a cabeça negativamente ao ver que Emma nem tentaria ao menos se defender. – Juntando isso, ao problema que você diz ter, mais você ter me arrastado para cama, para literalmente dormirmos, me fizeram ter certeza que você aprontaria alguma coisa ainda hoje. – Suspirou. – Acho que não precisei esperar quinze minutos, até você sair da cama, pôr sua roupa, pegar algo na sua mochila que suspeito ser uma arma, e sair do quarto. – Bufou, desejando estapear a namorada mentirosa. – Como você pode ver, decidi seguir você. – Resolveu ocultar a parte que resolveu também trazer a arma que Emma tinha lhe dado há um tempo.
– Regina... – Deu um passo à frente, enquanto pensava no que dizer, o que fez Regina recuar.
– Por que estamos aqui? Tem a ver com o problema que você prometeu contar amanhã? – A loira balançou a cabeça afirmando.
– Sim. – Foi tudo que respondeu.
– O que você vai fazer lá dentro? – Foi direto ao ponto.
– Nada! – A resposta de Emma a fez sorrir sem humor e tirar o celular do bolso direito da jaqueta.
– Nada. – Voltou a sorrir. – Então você não se importa de eu chamar a polícia para nos acompanhar nesse “nada”, certo? – Antes que conseguisse ligar o display do celular, Emma o pegou.
– Você não pode fazer isso. – Avisou. Regina balançou a cabeça negativamente, levou as mãos a cintura, voltou a sorrir sem humor e lançou um olhar decepcionado para mulher à sua frente.
– Eu sou muito estúpida mesmo! – Esbravejou consigo. – Depois de tudo que você me fez, eu continuo acreditando nas suas mentiras, continuo acreditando que você pode ser uma pessoa melhor, que você pode mudar, que pode parar de mentir, pelo menos para mim. – Ao ouvir tais coisas, Emma levantou os olhos, e procurou pelos da amiga, vendo o que não queria ver, decepção, raiva, rancor.
– Não é nada disso que você está pensando. – Defendeu-se.
– Não? – Debochou. – Então me diz o que é? Me diz que não é um maldito traficante quem está esperando por você lá dentro. Me diz que essa não é a porcaria do seu problema. – Pediu, e ganhou silêncio e um desviar de olhos como resposta. – Há quanto tempo você voltou a traficar? – Emma suspirou, e negou com a cabeça.
– Eu não voltei. – Sussurrou. Respirou fundo e voltou a encarar a amiga. – Eu não voltei, juro para você que não. Não é isso Regina, eu não estou mentindo. – Defendeu-se. – Estou no máximo, omitindo, mas amanhã, amanhã eu juro que conto tudo. – Prometeu. – Agora por favor, pela sua segurança, volte para casa. – Implorou.
– Quem está lá dentro? – Indagou, nada abalada com a voz de boa moça e cara de coitada da namorada. – Eu não vou voltar para casa, Emma. Se eu sair daqui, vai ser para chamar a polícia. Então você tem duas opções, me contar, ou encarar a polícia. Qual vai ser? – Emma levou as mãos ao rosto suspirou. Vendo-se sem saída, resolveu falar a verdade. Levou as mãos a cintura e olhou para o céu, antes de encarar a amiga teimosa.
– Gold. – Soltou com o ar. – Ele está lá dentro. – Ao ouvir tal coisa, os olhos de Regina cresceram, e suas pernas fraquejaram. Esperava ouvir qualquer nome, menos aquele. Até onde sabia, o homem estava morto. Não só Emma lhe contou aquilo, como vários jornais da cidade. Até então, tinha a certeza que Emma descobriu a fórmula do crime perfeito, já que todos trataram a morte do homem, como suicídio mesmo. Mas não existe um crime perfeito, se o morto continua vivo, certo?
– Gold está morto. – Foi tudo que conseguiu sussurrar.
– Ou, era o que ele queria que pensássemos. – Lamentou-se. — Eu pensava assim, até hoje de manhã, segundos depois de você me deixar em frente ao campus.
Enquanto Regina dirigia, xingava a mãe de alguns motoristas, e reclamava muito do trânsito e dos turistas mal-educados que não respeitavam a sinalização, Emma prestava atenção nas infinitas reclamações da namorada com um ouvido, enquanto ouvia a música que saía do seu fone com o outro. Mexia no seu celular tentando organizar a playlist, e cantava mentalmente junto com Ramones. Ao ver que tinha recebido uma nova mensagem instantânea, a abriu. Era o mesmo número desconhecido, o que a fez rolar os olhos.
“Bom dia para você também!” – Era o que dizia a mensagem.
“Quem é você?” – Respondeu e recebeu a resposta de imediato.
“Um velho amigo que quer lhe ver.” – Voltou a rolar os olhos.
“Não tenho amigos. Nem novos, muito menos velhos. Você está falando com a pessoa errada.”– Enviou. Seus olhos ficaram fixos no número que estava escrevendo uma mensagem.
“Venha me ver hoje à noite, Emma.” – Junto com a mensagem, ele mandou o endereço.
“DESCULPE, MAS NÃO TENHO INTERESSE ALGUM EM LHE VER. PARE DE ME INCOMODAR.” – Mandou em caixa alta.
“Tenho certeza que com uma foto, posso fazer você mudar de ideia.” – A resposta a fez bufar.
“Nem que você seja o Leonardo DiCaprio. Me deixe esclarecer uma coisa, EU GOSTO DE MULHER.” – Ao ver que o número estava escrevendo outra mensagem, voltou a bufar e travou a tela do celular.
– Com quem você conversa tanto aí? – Olhou em direção a Regina por cima dos óculos escuros.
– Um idiota qualquer. – Reclamou ao tirar o fone do ouvido.
– Que atende pelo nome de? – Emma deu de ombros.
– Não sei. É um número desconhecido. Me mandou a primeira mensagem antes de você acordar, me desejando feliz halloween. Agora me desejou bom dia, disse que é um velho amigo e que quer me ver hoje à noite. Além de tudo é insistente. – Reclamou.
– Admirador secreto? – Regina questionou de sobrancelhas arqueadas.
– Deve ser um desses adolescentes que se acham adultos que estudam comigo. Por culpa de um trabalho, tive que passar meu número para muitos deles. – Lamentou-se.
– Espero mesmo que seja “um desses” e não “uma dessas”. – Resmungou, fazendo Emma balançar a cabeça negativamente.
– Regina, ao contrário da sua amiga Ruby, eu não tenho paciência para sequer manter um diálogo decente com essas pessoas que recém abandonaram a adolescência, imagina então me envolver com uma delas.
– Quer dizer que não se relaciona com uma, só porque não tem paciência? – Ao ouvir tamanho absurdo, a loira bufou e tirou os óculos.
– Claro, Regina. Só não me relaciono com uma porque não tenho paciência, apenas por isso. Eu ter uma namorada estúpida e idiota, que eu amo desde sempre e que tem um mal humor horrível todas as manhãs, e adora desconta-lo em mim, não tem absolutamente nada a ver com isso. – Esbravejou.
– Desculpe. – Pediu envergonhada, ao estacionar o carro em frente ao campus de Emma.
– Desculpe também, não queria ter falado alto desse jeito. – Suspirou. – Você quase nunca demonstra ter ciúmes de mim, e quando demonstra, eu acho até bonitinho, menos quando você insinua que eu possa ter alguma coisa com pessoas quase vinte anos mais jovem. Isso é quase uma ofensa, desse jeito parece que você não me conhece. – Reclamou. Ao voltar-se para a namorada para continuar com sua reclamação, viu que a mesma não parecia prestar atenção. Regina estava estática, com um semblante sério e os olhos fixos em um ponto a sua frente. — Regina?! – Estalou os dedos na frente do rosto da amiga, tentando chamar sua atenção. – Regina?! – Tentou de novo. – Regina, terra chamando! – Por fim, sacudiu os ombros da namorada, ganhando em fim sua atenção. – Qual o problema?
– Eu não sei, por uma fração de segundos tudo pareceu quase parar, como se o mundo estivesse em câmera lenta. Algo como, um mal pressentimento. – Explicou, enquanto tentava entender o que tinha acabado de acontecer.
– Mal pressentimento sobre o quê? – Emma indagou, analisando atentamente a amiga.
– Não sei. – Deu de ombros. – Acho que deveríamos voltar para casa e só sair de lá amanhã. – Sua opinião sincera, fez Emma sorrir.
– Regina, eu sugeri que você ficasse em casa e você decidiu que iria trabalhar. – A lembrou.
– Sim, mas isso foi antes de eu realmente acordar. – Defendeu-se. – E eu não quero ficar sozinha em casa, quero que você fique lá comigo. – Continuou.
– Preguiça, está tudo bem. Você só não gosta muito do dia de hoje. Juntando isso com o seu pesadelo e o pé que você virou quando tropeçou nos meus tênis, deu nisso. – Tentou tranquiliza-la.
– Pode ser. – Tentou convencer-se que era aquilo mesmo.
– Preciso ir, você vai ficar bem? – Indagou sorrindo e ganhou um balançar de cabeça afirmativo.
– Vou. – Tentou responder com convicção.
– Mesmo? – Não tinha confiado muito naquela resposta.
– Sim, vou ficar bem. – Respondeu com mais convicção.
– Certo. – Mesmo não tendo certeza daquilo, Emma concordou. — Qualquer coisa, você me liga, me manda mensagem, sinal de fumaça ou coisa assim, okay? – A gracinha da loira, a fez sorrir e concordar.
– Okay. Boa aula! Preste atenção. – Emma assentiu e beijou-lhe os lábios.
– Vou prestar. Até de tarde, chefe Mills! – Voltou a beijar a amiga, e então tentou se afastar, mas foi impedida pelas mãos de Regina.
– Eu amo você! – Sentiu uma necessidade inexplicável de declarar-se.
– E eu amo você! – Regina sorriu em concordância e puxou a namorada para mais um beijo. Soltou um suspiro de pesar, quando Emma se afastou.
– Vai ficar tudo bem. – Prometeu, ao ver que a amiga continuava preocupada.
– Espero que sim. – Tentou sorrir.
– Okay, vamos para casa. – Emma desistiu da aula, ao ver que Regina continuava abalada.
– Não. Não. Vá para a aula. – Pediu. – Sério, eu vou ficar bem, prometo. Prometo sobreviver sem você até as 14:00 hrs. – Emma tinha os olhos fixos na morena, enquanto decidia se ia ou não. – Vá para a aula, Emma. Nós não vamos voltar para casa. – A loira suspirou e concordou.
– Okay, mas quando chegar na cafeteria, me avisa. E mande mensagens constantemente, até eu chegar lá, Okay? – Regina sorriu e concordou.
– Okay. Assinarei como admiradora secreta. – Debochou, fazendo a loira sorrir.
– Marque um encontro comigo essa noite, admiradora secretária. – Voltou a se aproximar, e beijar a namorada.
– Está marcando. – Respondeu sem desfazer-se do beijo. – Depois de encontrarmos meu pai, e a as pessoas da sua turma, teremos um encontro só nós duas. – Prometeu.
– Gosto da parte que envolve só nós duas. – Com um certo pesar, afastou o rosto do da amiga. – Até de tarde, Regina Mills! – Despediu-se.
– Até de tarde! – Emma lhe deu um último beijo, antes de afastar-se de vez, abrir a porta do carro e sair. Olhou para trás e acenou para namorada, que acenou de volta, lhe mandou um beijo e começou a manobrar o carro.
Com as mãos dentro dos bolsos da calça jeans, ficou parada, sua atenção toda no carro da namorada, até o mesmo sumir de sua vista. Suspirou, sorriu pensando na amiga e tirou o celular do bolso da jaqueta. Bufou, vendo que tinha recebido mais mensagens.
– Eu vou bloquear você, seu idiota. – Avisou ao abrir as mensagens. Ao checar a foto que tinha recebido, suas pernas fraquejaram, a fazendo recorrer ao primeiro banco que encontrou pelo caminho. Alguém a estava vigiando. De queixo caído e com o coração acelerado, levantou a cabeça, procurando por um suspeito, mas tudo que viu foi um carro dobrando a esquina.
Seus olhos voltaram a parar na foto que recebeu, o beijo que trocou com Regina a minutos atrás. Antes que conseguisse voltar a raciocinar com clareza, recebeu uma nova foto, dessa vez de Henry.
“Quem é você e o que você quer?” – Escreveu de imediato.
“Entenda isso como um aviso, não como uma ameaça. Meia noite, no endereço que lhe enviei. Desarmada, e sem polícia, ou, você sabe... Espero você! Do se velho amigo, G. – Um fantasma, era como se Emma estivesse vendo um fantasma. Ficou bons minutos se recuperando do choque, antes de conseguir raciocinar com clareza e começar a agir.
Henry, rapidamente fez a ligação, e bateu os pés impacientemente contra o chão, quando a primeira tentativa caiu na caixa. Ficou ainda mais impaciente quando a segunda teve o mesmo destino. E estava quase se descabelando, quando a terceira estava chegando ao fim e ele continuava sem atender.
– Minha mãe por um acaso está na forca? – Teve vontade de dizer que era praticamente aquilo.
– Onde você está? – Questionou com seriedade.
– No meu dormitório, por quê? O que aconteceu? – Pelo tom de voz da amiga, teve certeza que algo tinha acontecido.
– Ouça, não tenho tempo para uma explicação. Estou indo até aí buscar você. Quero que você pegue um táxi e vá até a delegacia mais perto. Sente-se lá, e me espere. Se alguém questionar alguma coisa, diz que você está esperando a sua mãe, que tem o lugar como único ponto de referência, entendeu? — Falou tudo rapidamente.
– Isso é sério?
– Seríssimo. Faça isso, Henry. Depois eu explico, agora tudo que eu preciso é que você faça isso. Tudo bem? – Pediu.
– Okay. – Mesmo sem entender, concordou. – Minha mãe está bem? – Questionou com preocupação.
– Sim, sua mãe está bem. Se ela ligar para você, não fale em hipótese nenhuma sobre essa ligação, muito menos sobre eu estar indo até aí buscar você. Faça de conta que essa conversa nunca existiu, Okay? – Voltou a pedir.
– Depois você me explica. – Falou mais consigo do que outra coisa.
– Exatamente. Quando chegar na delegacia, me mande a localização e em hipótese alguma, saia de lá. Combinado?
– Combinado. – Sabendo que não ia arrancar nada da amiga por telefone, apenas concordou.
– Okay, ligo assim que estiver chegando aí. Tchau! – O esperou se despedir e encerrou a ligação.
Respirou fundo, pensando nos próximos passos. Precisava avisar Regina que não iria trabalhar a tarde, e precisava de uma desculpa para tal coisa. Precisava alugar um carro. E precisava fazer outra ligação. Abriu a agenda do celular e fez a chamada, que para seu alivio foi rapidamente atendida.
– Gostaria que você me dissesse que está ligando única e exclusivamente por motivos de saudade. – Pediu.
– Daniel, eu preciso da sua ajuda.
Suspirou e tirou seu celular do bolso traseiro da calça. Abriu as ameaças que o número desconhecido lhe enviou durante todo o dia, e estendeu o aparelho para a namorada.
O sangue fugiu do rosto da morena à medida que ela foi lendo as mensagens. Estática e com o coração a mil, tentava digerir tudo aquilo. Suas pernas bambas quase lhe levaram ao chão, mas os braços de Emma foram mais rápidos e impediram que tal coisa acontecesse.
– Sinto muito, eu sinto muito. Me desculpe tê-los metido nisso. – Sussurrou, enquanto mantinha os braços em volta da cintura da amiga, a ajudando a se manter de pé. – Eu nunca vou conseguir dar um jeito na minha vida, Regina, infelizmente essa é a verdade. Pelo menos não, se continuarmos aqui. – Lamentou-se. – Ouça, eu vou entrar lá, e vou dar um jeito nisso, mas infelizmente vai ser algo temporário. – Os olhos apavorados da amiga, lhe faziam sentir vontade de bater-se. — E depois, nós vamos conversar sobre irmos embora daqui. Você, Henry e eu. Nós precisamos fazer isso, não vamos ter paz nesse lugar. Ir embora, esse é o único jeito de mantê-los a salvo. – Não foi daquele jeito que planejou contar tudo a namorada. Queria contar com tempo, tranquilidade. Queria passar confiança, otimismo, mas claro que não conseguiria tal coisa, afinal, era Emma, vulgo, a pessoa mais azarada do mundo.
Lembrou-se dos últimos acontecimentos. Do quanto assustou Henry, e enrolou Regina, e fez uma promessa muda de melhor e muito naquele quesito “família”.
– Okay, você me ligou cedo, disse que estava indo me buscar, me fez esperar por você na delegacia, exigiu que se minha mãe entrasse em contato, eu não falasse sobre nada disso com ela. – Fez uma pausa para respirar. — Falou em códigos em todas as ligações que recebeu, e olhou várias vezes com um semblante nada feliz para a tela do seu celular. Além de olhar um milhão de vezes pelo retrovisor do carro, como se estivesse com medo de estarmos sendo perseguidos. – De novo parou para respirar. – Acredito que você alugou um carro para ir me buscar, porque se pedisse o da minha mãe emprestado, você teria que dizer a ela, aonde estava indo. Acredito também, que por esse mesmo motivo, abandonamos o carro duas quadras antes de casa. Ou seja, ela não sabe sobre nada disso. Certo? – Emma apenas afirmou com a cabeça. – Por esse motivo, você quer que eu entre em casa escondido, como se fosse um ladrão, e que me tranque no meu quarto até amanhã, sem que minha mãe saiba que estou aqui. – De novo Emma afirmou. – Okay, até posso fazer isso, se você me contar o motivo. – Exigiu.
– Estão perseguindo você. – Resolveu contar de uma vez, já que já tinha perdido as contas de quantas vezes Henry lhe questionou aquilo. Como estava sem tempo, a saída mais rápida era aquela.
– O quê? Quem? – Questionou um tanto assustado.
– Não sei exatamente quem, só sei que é alguém do tráfico. – Soltou com o ar.
– De novo? Isso já tinha acontecido uma vez, e tanto você quanto a minha mãe, falaram que o problema estava resolvido.
– Estava, até hoje. – Contou. — Ouça, Henry, hoje mesmo eu vou resolver esse problema, mas para conseguir fazer isso, para não meter os pés pelas mãos, tenho que ter certeza que você e sua mãe, estão em segurança. Por isso você está aqui, por isso vai ficar aqui, por isso não vai pensar em sair daqui, está ouvindo? – Ainda assustado com a história de ser perseguido, o garoto apenas concordou com a cabeça. – Deixe seu telefone no silencioso. Fale com todos os seus amigos como se você ainda estivesse em Massachusetts. Se a sua mãe ligar, atenda, mas faça isso no banheiro, e pelo amor de Deus, não a deixe desconfiar de nada. Outra coisa, se você ouvir qualquer barulho suspeito, ligue imediatamente para polícia, Okay? – De novo ele concordou.
– Por que você não faz isso? Por que não vai até a polícia? – Emma sorriu pela inocência do enteado.
– Porque eu não quero que você, nem a sua mãe, morram. – De novo falou a verdade.
– Você vai resolver isso sozinha? Como? – Tinha medo por Emma também. Como assim ela os deixaria em casa, e sairia no meio da noite para resolver problemas com traficantes? Aquilo era quase um suicídio, não?
– Digamos que com uma pequena ajuda do meu irmão, eu consegui algumas coisas que vão me ajudar. – Tentou o tranquilizar. – Não tenha medo por mim, estou tranquila quanto a isso, sei lidar muito bem com esse pessoal. Você só precisa ficar aqui, o resto é comigo, Okay? – De novo afirmou. – Certo. Mais uma coisa, talvez tenhamos que mudar de nome e de país, você sabe em que outro lugar do globo sua mãe por um acaso gostaria de morar? – De novo seus olhos cresceram. Mudar de nome e de país? Estava cada vez mais assustado. Como assim mudar de nome e de país? Estava começando a se sentir dentro de um filme de ação, o problema é que não tinha como saber o final daquilo, e tal coisa estava o apavorando. O pior é que sabia que Emma não estava brincando, nunca tinha a visto tão séria. O jeito preocupado com o qual lhe olhava e falava, não lhe dava nenhum tipo de esperança de que aquilo não fosse real.
– Amsterdã, ela já falou uma ou duas vezes sobre morar lá em uma próxima encarnação. – Ótimo! Talvez tivessem que adiantar um pouco aquele plano.
– Okay. Amsterdã! – As pessoas gostam de café em Amsterdã, certo? Pesquisaria mais tarde sobre o assunto. – Agora vamos entrar, vou na frente para ter certeza que sua mãe não está por aqui. Aguarde meu sinal. – Pediu ao abrir a porta do hall de entrada.
Não trocaram nem uma palavra desde então. Graças ao bom Deus, nem Regina e nem Algodão, estavam no andar de baixo, então Henry conseguiu chegar até seu quarto, sem nenhum tipo de dificuldade. Antes que pudesse entrar no mesmo, Emma fez sinal com as mãos, dizendo que antes de sair, passaria lá. Trocaram mais um olhar e cada um entrou no seu devido quarto.
As luzes do quarto de Regina estavam apagadas, o que deixou Emma momentaneamente preocupada, pensando na possibilidade de a namorada não estar em casa. Checou seu celular a procurada de alguma mensagem da amiga, mas não encontrou nada. Ao conferir o tal do WhatsApp, viu que Regina tinha visualizado algo pela última vez as 17:34 hrs, ou seja, fazia um pouco mais de duas horas.
Se assustou quando ouviu o barulho de algo caindo, e percebeu que as luzes do closet estavam acessas. Pensou em chamar pela namorada, mas decidiu que era melhor ir até lá e em silêncio.
Pé por pé, e com um certo receio de quem encontraria lá, foi se aproximando do lugar. Soltou o ar preso em seus pulmões e esboçou um sorriso quando viu Regina. Como a morena estava de costas, não a percebeu ali. Afagou os pelos da cabeça de Algodão, que também estava por ali, e encostou-se no batente da porta. Ficou um tempo ali, admirando a amiga. Adorava os vestidos dela, adorava como eles vestiam bem nela, adorava o ar sério e ao mesmo tempo sensual, que eles lhe davam.
– De duas uma. Ou o preto foi feito para você, ou você foi feita para o preto. – Elogiou ao aproximar-se e abraçar a amiga por trás, a fazendo pular de susto.
– Quer me matar de susto? — Reclamou com a loira, que suspirou e beijou-lhe os ombros.
– Desculpa. Não tive a intenção. — Soltou com o ar. Algo na voz dela, fez Regina crer que havia algum problema. Voltou-se para loira e procurou por seus olhos. Teve certeza absoluta que tinha algo de muito errado quando Emma não sustentou seu olhar.
– O que está acontecendo? — Indagou, enquanto continuava analisando a amiga.
– O que está acontecendo? — Fez-se de desentendida.
– Qual seu problema? Não me diga que nenhum. — Emma suspirou, e mais uma vez no dia, pensou em falar a verdade.
– Estou cansada. — Deu a desculpa ao encarar a amiga. — Psicologicamente cansada. — O que não deixava de ser verdade.
– Ficou até agora na faculdade? — Emma afirmou. — Aposto que passou o dia sem se alimentar. — Sim, tinha passado.
– Minha cabeça estava cheia, acabei nem lembrando disso. — Os olhos de Regina fixos nos seus, estavam a perturbando, o que a fez largar a amiga e voltar para o quarto, indo até a cama e deitando-se lá.
– Tem o que sobrou da janta de ontem na geladeira. — Foi até a loira folgada e tirou seus tênis. Sentou-se na beira da cama e levou a mão até os cabelos loiros, os afagando. — Quer que eu esquente para você? — Emma negou.
– Estou sem fome. — O olhar de desconfiança de Regina, estava de volta.
– Você quer que eu acredite que seu problema é apenas cansaço? Você só fica sem fome quando está muito encrencada. — Acusou.
– Regina, eu tive um dia de cão. Tudo que estava desejando era chegar aqui na sua casa, me esparramar nessa cama com você, e assistir algo na TV. — Apontou para o seu vestido, com quem dividia a cama. — Cheguei, vi o vestido e lembrei da festa do seu pai.
– Hey, foi você quem quis ir na festa do meu pai. — Emma concordou.
– Me parecia uma boa ideia, antes do meu dia realmente começar. — Ainda não sabia exatamente a desculpa que daria para sair à meia noite, sem levar a namorada junto, caso seu plano A, não desse certo. — Você acha que até as 23:00 horas já estaremos em casa?
– Depende de quanto tempo você quer demorar na festa da sua turma. – Respondeu dando de ombros.
– Não, esquece a festa da minha turma. Sem condições. — Fingiu um bocejo. — Talvez eu durma no jantar do seu pai, então sem chances de ir à festa da turma.
– Vamos ficar em casa. — Regina que já não estava com vontade de ir, desistiu de vez ao ver o quanto Emma estava desanimada e cansada.
– Não, você já tomou banho, lavou e escovou os cabelos, se vestiu para matar e está toda cheirosa, ou seja, não é justo ficarmos. — Queria que ficassem, ficar fazia parte do plano A, mas sabia que Regina acharia estranho se simplesmente concordasse.
– Tomei banho, lavei e escovei os cabelos, e estou cheirosa e vestida para matar, única e exclusivamente para você, não para o meu pai. Vamos ficar, não estou com vontade de ir, e você está cansada. Vamos ficar, eu quero ficar e sei que você também quer. — Emma suspirou e levou uma mão até o rosto da namorada, o acariciando.
– Tem certeza? Por mim podemos ir. Só preciso de um banho e um café bem forte.
– Você precisa de comida, um banho e seu pijama. — A corrigiu.
– Você esqueceu um item muito, muito importante nessa sua lista. — Avisou, fazendo a amiga arquear as sobrancelhas.
– Que seria? — Indagou com curiosidade.
– Você, Regina Mills. — Trouxe o rosto da amiga de encontro ao seu e lhe beijou os lábios. — Vem aqui. – A puxou para cima de si e a abraçou apertado. — Você tem razão, eu tenho um problema. — Confidenciou quando a amiga deitou a cabeça em seus ombros. — Mas eu não quero falar sobre ele hoje, podemos por favor falar sobre isso amanhã? — Regina suspirou, sabia que não era só cansaço, mas queria acreditar que eram. Enfim, a verdade é que tinha medo de tal problema, mas precisava encarar, certo?
– Amanhã de manhã? — Emma afirmou.
– Amanhã de manhã. — Prometeu.
– Tudo bem então. — Concordou. O Silêncio se fez presente entre elas. Enquanto Emma pensava em tudo que teria que resolver ainda naquela noite, Regina pensava na gravidade do problema. Várias possibilidades passavam por sua cabeça, mas quase nenhuma parecia plausível. — Envolve mulheres? — Questionou, ao lembrar que Emma passou o dia todo na universidade, provavelmente com alguma colega de curso. Ficou ainda mais preocupada ao lembrar da bela colega que Emma vivia conversando, sempre que Regina ia busca-la.
– Envolve eu. — Respondeu rindo, achando graça da preocupação da amiga. — E consequentemente, você. — Explicou. — Agora me diz, o que você acha de pedirmos uma pizza? — Resolveu mudar de assunto, antes que Regina exigisse saber sobre tudo.
– Acho uma boa ideia. — Concordou.
– E você pode abrir um dos seus vinhos. — A sugestão inesperada, fez a morena levantar a cabeça para encarar a amiga.
– Desde quando você gosta de um dos meus vinhos? — Não gostava e tinha certeza que continuaria não gostando, mas Regina gostava, e sempre que abriu uma garrafa, não conseguia tomar uma taça só. O plano era faze-la tomar uma quantidade considerável para que ficasse maleável e com sono. Sabia que quando seu bicho preguiça caía no sono, nem a terceira guerra mundial seria capaz de acorda-la.
– Não gosto, mas posso continuar tentando, certo? – Regina riu e concordou.
– Certo. Tenho fé de que um dia, você vai chegar lá. – Emma balançou a cabeça concordando.
– Ou morrerei tentando. – Prometeu. – Agora que tal você descer, pedir a pizza, abrir uma garrafa e se servir? – Sugeriu. – Vou tomar um banho e já desço. – Prometeu.
– Prefiro esperar você. – Okay, em outras circunstâncias, adoraria ser esperada, aliás, em outras circunstâncias, Regina tomaria outro banho, mas precisava de privacidade para usar o telefone.
– Baby, seja romântica! – Pediu. – Acho que você deveria descer, pedir a pizza e preparar sua sala de jantar para um jantar romântico e a luz de velas. – Sugeriu, fazendo Regina arquear uma sobrancelha.
– Por um acaso está tentando me seduzir? – Emma riu.
– Ainda não. Mas eu vou pôr esse vestido que você me comprou, vou pôr também os saltos, e vou me maquiar, então você pode apostar que sim, vou tentar seduzir você. – A voz sugestiva com a qual contou aquilo, fez Regina esboçar um sorrisinho sacana.
– Rum! Você tem um problema e vai me seduzir. – Lhe lançou um olhar desconfiado. – Ou seja, seu problema não é um problema, é um problemão. – Concluiu. – Mas eu gosto da parte de ser seduzida, então vou mesmo deixar para saber sobre isso só amanhã. – Suspirou, saiu de cima da namorada e se pôs de pé. – Agora vou pedir a pizza e preparar a sala para um jantar romântico. – Emma sorriu e concordou.
– Regado a muito vinho. – Regina não podia esquecer do vinho.
– Não demore. – Pediu e a loira concordou.
– Não vou, em no máximo meia hora, estarei lá embaixo. – Prometeu.
– Meia hora. – Regina concordou. – Não me faça subir atrás de você. – Deu o aviso, antes de dar as costas para a amiga e se retirar.
Emma esperou alguns minutos, levantou-se, foi até a porta do quarto e a abriu. Checou o corredor para ver se Regina tinha mesmo ido, voltou para dentro do quarto, chaveou a porta e foi em direção ao banheiro, onde também chaveou a porta e ligou o chuveiro, antes de discar o número do irmão. A demora em atender o telefone, a fez o chamar de nomes nada carinhosos.
– O que foi agora? – A voz mal-humorada do irmão, a fez bufar.
– Já me mandou as fotos? – Questionou.
– Você sabe que sim, já liguei avisando, é só você checar suas mensagens, que vai encontra-las. Emma, você tem mesmo certeza de que é ele? Acha mesmo que essa mulher e essa criança estariam morando no mesmo lugar, caso ele estivesse mesmo vivo e por trás disso? – Emma já tinha pensando sobre aquilo, tinha aquela mesma dúvida, mas não podia ser outra pessoa, além de Gold.
– Ele sabe que eu não sou a única que sei, provavelmente ele quer se armar, antes de agir. É a única explicação. – Comentou.
– Não vá até lá sozinha. – Ouviu aquele pedido pela décima quinta vez no dia.
– Ele não vai me matar, Daniel. Ele não vai me matar, porque ele tem medo de que fazendo isso, a consequência sobre para a família dele. – Não estava com nem um pouco de medo de encarar o ex patrão. Seu único medo era o que ele podia fazer com Henry e Regina. – Ouça, assim que seu contato entregar os novos documentos, compre três passagens nesses nomes para Amsterdã, Okay? – Pediu.
– Mamãe vai surtar com essa história, Emma. Você sabe disso, não sabe? – Emma suspirou.
– Um problema de cada vez. Eles são algo como, minha família, tenho que protege-los, você sabe disso. Tenho certeza que você vai saber consolar a mamãe. – Voltou a suspirar, ao pensar nos pais. – Ouça, tenho que desligar. Agilize esses documentos e não esqueça das passagens. Me ligue quando estiver tudo pronto. Tchau. – Desligou sem esperar uma resposta do irmão. Jogou seu celular sobre a pia e encarou seu reflexo no espelho, pensando no próximo passo, embebedar Regina.
– Nós vamos conversar? – Regina questionou com incredulidade. – Se você entrar lá, nós não vamos conversar. Aliás, se você entrar lá, nunca mais vamos conversar. Essa com certeza será nossa última conversa. – Falou o óbvio. – Você é tão ingênua a ponto de não ver que ele vai matar você? – Resolveu ignorar a parte de fugirem do país, pelo menos naquele momento. Tinham que resolver uma coisa de cada vez. Sabia que não podia culpar, nem brigar com a loira, pelo menos não por aquele motivo.
Sabia exatamente os riscos que corria, quando resolveu dar uma nova chance a Emma, então não podia, não tinha o direito de reclamar. Não queria deixar seu país, mas se fosse preciso, faria, porém, precisava de Emma para fazer tal coisa, ou seja, ela não podia entrar lá. Até porque, se iriam fugir, não tinha porque ela ir ao encontro de Gold.
– Ele não vai me matar. – Tinha certeza absoluta daquilo. — Ele sabe que eu sei do filho e da mulher dele, e sabe que eu não sou a única. Enquanto ele não descobrir quem mais sabe sobre o assunto, ele não vai me matar. – Garantiu. – Se ele quisesse me matar, não marcaria encontro, mandaria me matar e pronto. Aliás, se ele quisesse me ferrar, acabar com minha vida de verdade, ele teria mandado matar... – Balançou a cabeça, tentando apagar o pensamento. Não conseguiria terminar a frase. — Ele quer negociar. – Soltou com o ar e viu um balançar negativo de cabeça.
– Não. Você não pode entrar lá. Ele quer vingança pelo que você fez, não vai ter negociação. – Emma escorregou as mãos pelos cabelos da amiga, até chegarem em seu rosto, o segurou entre as mãos e tentou sorrir.
– Não existe uma escolha, Regina. Para conseguirmos fugir, eu preciso ir até ele hoje. – Explicou pacientemente. — Você viu as fotos que ele enviou do seu filho? Viu as fotos que ele enviou de você? Viu as fotos que enviou de nós? Elas são de hoje. Tem alguém nos perseguindo, e sinceramente? Não gosto nem de pensar no que ele pode fazer, caso eu só pense em não aparecer. – Acabou esboçando um sorriso. – Você deveria estar me odiando, não temendo por mim. – Regina sorriu sem humor ao ouvir tal coisa.
– Eu gostaria de estar odiando você, gostaria de não estar nem aí, gostaria de não me importar, mas como eu posso fazer isso? Eu escolhi você, e ao escolher você, eu escolhi também os seus problemas. – Sua voz beirava o desespero.
– E eu sinto muito por isso. Sinto muito ter insistido. Sinto muito ter colaborado para a sua escolha. – Esboçou um sorriso triste.
– Não sinta, não faça isso. Não sinta, porque eu não sinto. – Foi sincera. Apesar de estar aterrorizada, apesar de não fazer noção do que fazer, arrependimento por estar exatamente onde estava, era algo que não sentia. – Eu... eu... eu só, não sei o que fazer. Pela primeira vez na vida, acho que realmente não sei o que fazer. — Queria ter uma ideia brilhante, pensar em uma saída de mestre. Queria ao menos, continuar sendo racional, mas não sabia até quando conseguiria tal coisa. Angustia, medo, desespero, tais sentimentos estavam se apossando de si. – Decidir entre você e o meu filho, isso não é justo. – Lagrimas vieram a seus olhos, ao ver-se entre a cruz e a espada. Não queria de jeito nenhum que Emma entrasse lá. Mas queria menos ainda, alguém atrás do seu filho. Queria que pudessem ter uma chance de fugir.
– Você não precisa decidir, não existe uma decisão a se fazer. Eu sei que você me ama, e também sei o quanto você ama Henry. Eu não quero, nem nunca quis competir com seu amor de mãe, até porque não há como competir com esse sentimento. – Beijou a testa da namorada. – Fique aqui, eu vou voltar, prometo que vou. – Tentou ir, mas os braços de Regina a envolveram em um abraço.
– Me deixe chamar a polícia, por favor. – Implorou.
– Você sabe que não pode. – Sussurrou enquanto afagava os cabelos negros e inspirava o máximo que podia do cheiro bom da namorada. Tinha planos de voltar, mas se não voltasse, aquela seria uma boa última recordação.
– Vinte minutos, vou esperar vinte minutos. Se você não voltar nesse tempo, eu chamo a polícia e isso não é algo negociável. – Avisou. – Okay? – Sem saída, Emma acabou tento que concordar.
– Okay. – Desfez-se do abraço e encarou a amiga. – Vinte minutos, nem um minuto a menos. – Regina balançou a cabeça concordando.
– E nenhum a mais. – Emma também concordou. – Meu celular? – Pediu estendendo a mão.
– Nem um minuto a menos, Henry depende disso. – Deu o sutil aviso ao devolver o celular da amiga. – Amo você! – Declarou-se.
– Não quero que me ame agora. Deixe para me amar quando voltar. – Exigiu, recusando-se a devolver a declaração. Se não se declarasse, Emma voltaria, certo? Não podiam terminar daquele jeito.
– Certo. Você não vai ter nem tempo de sentir saudade, Regina Mills. – Sorriu, beijou os lábios da namorada e foi, sem ao menos olhar para trás.
Ao entrar no lugar, deparou-se com um corredor bastante escuro. A luz da lua que entrava pelo teto descoberto, era a única coisa que iluminava os passos de Emma.
Deveria estar com medo, na verdade estava com medo, mas não de quem ia encarar, não do que viveria dali alguns segundos, e sim de não voltar a ver Regina. Não queria morrer ali, não queria que tudo terminasse naquela noite. Não estava preparada para aquilo, não estava preparada para deixar de saber sobre a amiga, saber sobre o dia dela, sobre os sonhos engraçados. Não estava preparada para deixar de ouvir o mal humor matinal, as declarações, as broncas. Não estava preparada para abrir mão de Regina, dessa vez, para sempre.
Tinha medo de que quando desse seu último suspiro, tudo terminasse, tinha medo de esquecer da amiga, e tinha ainda mais medo de ser esquecida. Eram esses os medos que lhe acompanhavam enquanto caminhava rumo ao desconhecido.
O corredor deu lugar a um grande espaço vazio e malcheiroso. Quando pensou em se anunciar, refletores foram acesos. Os mesmos virados em sua direção, a deixaram momentaneamente cega. Colocou o braço na frente dos olhos, e caminhou para o centro do lugar, fugindo da luz forte. Piscou muitas vezes até começar a recuperar a visão, e quando viu o homem a poucos metros de si, ficou momentaneamente sem reação.
Estava completamente surpresa, tão surpresa que por alguns segundos, não conseguia pensar em nada. Toda a esperança e confiança que tinha de sair bem dali, começou a se esvair, enquanto encarava o ex-marido psicopata de Regina.
– Você! – Foi tudo o que escapou de sua garganta. O homem abriu um sorriso debochado, junto abriu também os braços.
– Surpresa! – Fingiu empolgação. – Decepcionada? Esperava outra pessoa? – Indagou com sarcasmo. – Gold, talvez? – Levou a mão a testa, fingindo lembrar de algo. – Ah, mas espera, você matou Gold, então ele não podia estar aqui. – Emma deu de ombros. Respirou fundo, e voltou a pensar, precisava de um plano B. Xingou-se por sequer ter cogitado a hipótese de encontrá-lo ali, graças a tal coisa, encontrava-se momentaneamente a mercê da sorte. Tinha se armado contra Gold, contra o tráfico, não contra o idiota.
– Não sei sobre o que está falando. – Robin riu.
– Você sabe exatamente sobre o que estou falando. Você ganhou um final de semana de liberdade. Exatamente o final de semana em que Gold, “suicidou-se.” – Emma esboçou um sorrisinho debochado.
– Coincidência, não?
– Coincidência. – Concordou. – Coincidência também seu irmão ter estacionado bem em frente ao prédio do falecido, exatamente no dia do pseudo assassinato.
– Está acusando meu irmão? – Se fez de desentendida.
– Não. Estou acusando a carona dele, que por um acaso, era uma versão morena de você. – Explicou. – Câmeras de segurança, amo elas. – Riu ao deixar a loira sempre tão debochada, sem palavras. – Você verificou se o prédio de Gold tinha câmera de segurança, mas não verificou a loja em frente ao prédio. – Balançou a cabeça, fingindo desapontamento.
– Então, por que me chamou aqui, ao invés de ter ido direto a polícia? – O sorriu maquiavélico que abriu e o olhar perturbado que lançou, fez Emma recuar um passo.
– Não tenho intenção de vê-la presa. – Contou o óbvio. — E antes que faça outra pergunta idiota, também não tenho intenção em entrega-la ao pessoal de Gold. – Esclareceu. Emma nada disse, tais “esclarecimentos” deixaram bem claro qual era a intenção do homem. – Não vai perguntar qual minha intenção? – Negou.
– Não. Você é um homem inteligente, acredito que não vá fazer nenhuma bobagem que o faça parar atrás das grades. – O homem riu alto ao ouvir aquilo.
– Não, você não acredita. Você só está tentando ganhar tempo, enquanto pensa em como fugir daqui. – Seu sorriso se desfez. – Posso responder isso para você, existe um jeito de você sair desse lugar, morta. – Emma recuou mais um passo, enquanto sua mente buscava desesperadamente uma saída. Pensou em sair correndo, mas desistiu, não teria chance caso desse as costas para ele. Pensou em correr em direção a ele, e tentar lhe tirar a arma, mas também morreria antes de conseguir. Lembrou-se dos vinte minutos que Regina esperaria. Precisava enrolar o homem, precisava fazer aquilo por vinte minutos, aquela com certeza era a chance mais plausível de sair viva de lá.
– Você acha que vale mesmo a pena, passar o resto da sua vida preso, só para me matar? – Indagou com calma, tentando ignorar a arma que ele apontava em sua direção.
– Quem disse que eu vou passar o resto da minha vida preso? – Questionou. – Sou um cara sozinho, que está morando em outra cidade. Aliás, tem uma mulher na minha cama agora, ela está meio dopada, mas quando acordar, eu estarei lá, então ela vai afirmar que passei a noite toda em casa. – Esclareceu. — Mas isso não vai ser preciso, sabe por quê? Porque nem vão investigar muito, vão achar que foi alguém do tráfico. – Emma continuava se odiando por sequer ter desconfiado dele. Por ter que ouvir aquilo tudo sem poder revidar. Por não poder demonstrar o quanto o odiava. Por ter que fingir que não estava sequer, abalada. A arma dentro do bolso interno de sua jaqueta, parecia lhe chamar, parecia implorar para ser usada, mas não seria rápida suficiente para tira-la de lá sem ser ferida.
– A polícia pode não descobrir, mas Regina vai, e vai odiar você para sempre. – De novo ele abriu um sorriso debochado.
– Já pensou que eu posso querer que ela saiba? Vai ser tão divertido vê-la sofrendo sem poder fazer absolutamente nada a respeito. – Levou a mão ao queixo, coçando a barba rala. – Talvez se eu oferecer meu ombro amigo nesse momento tão difícil, e prometer a ela que vou ajudá-la a pôr na cadeia, o infeliz que fez isso com você, ela até me dê outra chance. – Emma trincou os dentes ao ouvir tal coisa, e deu um passo à frente. Não conseguiria se manter indiferente diante a tal ameaça.
– Fique longe dela! – Esbravejou, apontando o dedo em direção ao homem.
– Ou o quê? Vai voltar do inferno para me assombrar? – Debochou. – Se ela for boazinha e bem-comportada, talvez eu não a agrida mais. – Fez pensar a respeito. – Mas não tenho certeza, não sei se vou conseguir me controlar, sempre que me lembrar que fui trocado por um lixo como você. – As mãos da loira estavam fechadas em punho, enquanto ela tentava se controlar para não correr em direção ao infeliz. Já não se importava mais em morrer, mas com certeza levaria Robin junto. Já não queria mais saber de esperar pela polícia, Robin não daria paz a Regina, não faria aquilo nem preso. Se a sua morte era a solução para a morte do infeliz, então morreria ali, mas com certeza o levaria junto.
– Você é tão, tão covarde, que me fez vir até aqui desarmada, enquanto você tem uma arma apontada em minha direção. – O acusou. – Seja homem pelo menos uma vez na vida, tenha uma luta justa, sem armas. – A sugestão o fez gargalhar.
– Está sugerindo mesmo o que eu estou pensando? – Emma afirmou.
– Você não se garante? – Provocou. – Me bata, me esfole, me esgane. Se quer me matar, faça isso com as suas mãos, não seja tão covarde a ponto de atirar contra alguém desarmada. Se você se garante, acho que deveria tornar essa uma luta justa. – Propôs.
– Você tem mais chances de sobreviver se eu usar a amar, do que seu eu usar as mãos. – Avisou. – Mas pensando bem, não é má ideia fazer você sofrer muito antes de matá-la. — Emma sorriu e abriu os braços.
– Então vem. – Chamou.
– Depois que você jogar sua jaqueta no chão. – Avisou. — Não subestime minha inteligência, sei que você não veio desarmada. – Emma acenou com a cabeça, livrou-se da jaqueta e a jogou entre eles.
– Sua vez. – Exigiu, enquanto descia literalmente dos saltos.
– Você vai sofrer, vai sofrer tanto, que no final vai implorar por um tiro de misericórdia. – Deu o recado sem abaixar a arma.
– Olhe nos meus olhos, Robin. – Sorriu de canto. – Olhe e me diga, você está vendo algum medo neles? – Indagou. – Já você, parece no mínimo receoso em largar essa arma e caminhar em minha direção. – Provocou. O Silêncio se fez presente entre os dois, encaravam-se, provocavam-se, como lutadores de MMA.
– Abaixe essa arma, Robin! A polícia está a caminho, acabou seu teatrinho. – A voz dura e firme de Regina, ecoou pelo lugar, antes de ela se fazer visível no mesmo.
Emma não pôde acreditar mesmo, que a namorada estava ali, não podia acreditar que ela foi tão estúpida a ponto de entrar ali. Balançou a cabeça em sinal de descrença, enquanto olhava desesperada para a amiga, tentando pensar no que fazer a partir daquele momento.
– Gold estar vivo não faz nem um pouco de sentido, mas como você não tem nenhum outro inimigo declarado, não me restou outra a alternativa a não ser também pensar que ele estaria aqui dentro. – Começou. – Tentando me distrair para o tempo quem sabe passar mais rápido, comecei a analisar as coisas lá fora, foi então que vi um carro parecido com o de Robin, estacionado a poucos metros daqui. E não sei, não consegui pensar em mais nada, a não ser que era ele aqui dentro. Caminhei até o carro para checar a placa e então decidi que não esperaria vinte minutos. – Explicou-se.
– Ótimo! – O homem aplaudiu. — Chegou quem faltava. Agora nossa festa está completa! – Debochou. — Eu até ofereceria uma bebida, mas bebi tudo antes de vocês chegarem. – Regina o fez desistir de uma luta limpa, o fez desistir de largar a arma, e o fez mudar a mira. A arma estava aponta em direção a ex-mulher, que estava parada ao lado de Emma, só que a alguns metros distante dela.
– Hey, a sua briga é comigo! – Emma tentou chamar a atenção do homem, que tinha os olhos transtornados fixos em Regina.
– A princípio, era com você. Como sou um ex-marido exemplar, resolvi deixar essa ingrata de fora, mas olha só onde ela está. – Riu. – Veio proteger a namoradinha? – Questionou.
– Você está louco! – O acusou. – Você é doente, precisa se tratar. – Continuou acusando. — Você tem no máximo quinze minutos para fugir, ou vai acabar preso. Então sugiro que baixe essa arma e vá embora. – A sugestão de Regina o fez gargalhar.
– Deixa eu esclarecer uma coisa para você, querida, fugir não está nos meus planos. – Sua voz ameaçadora e sombria, fez Emma dar alguns passos para o lado, tentando aproximar-se da namorada para protege-la. – NÃO SE MEXA! – Ordenou, antes de disparar a arma em um lugar qualquer, fazendo Emma parar e levantar as mãos. – Não ousem se mexer. – Avisou, enquanto apontava a arma de uma para outra.
– Você acha que vale a pena mesmo me matar e passar o resto da sua vida na prisão? – Regina queria desesperadamente correr até Emma, e se pôr em frente a ela. Robin estava completamente fora de si, e sua maldita intuição lhe dizia, berrava, que aquela noite não terminaria bem. Mas não podia mostrar que estava com medo, certo? A única chance de talvez, saírem bem dali, seria não demonstrando medo.
– Agora você se importa comigo? – Debochou. – Você não parecia nem um pouquinho preocupada com o que vale ou não a pena na minha vida, quando me deixou para ficar com essa daí. – Fez pouco caso. – E não diga que não me deixou por isso. Tenho informantes na prisão, sei que vocês estão juntas desde o dia em que ela ganhou uns dias de liberdade. – Contou.
– Você tentou me esganar. – O acusou.
– PORQUE VOCÊ MERECEU! – Gritou. – Você em momento algum tentou salvar o nosso casamento, em momento algum tentou conversar comigo. Você me usou esses anos todos, até reencontrar a amiguinha. – Esbravejou.
– Isso não é verdade. – A raiva que sentiu ao ouvir tal coisa, o fez de novo atirar sem direção.
– Não ouse dizer que não é verdade, ou eu acabo com você agora mesmo. – Ameaçou, fazendo a ex-mulher concordar com a cabeça. – A partir do momento que ela começou a mandar aquelas cartas, tentando entrar em contato com você, você começou a mudar. Você queimou a primeira, mas pensou antes de queimar a segunda, e só queimou a terceira, por pura insistência minha. – Balançou a cabeça negativamente. – A insistência dela, me deixou na obrigação de agir. Lembra da sua lista, querida? Lembra do dia em que nos conhecemos? Você foi até a delegacia se entregar e entregar Emma e seus “amigos”. Eu convenci você a não fazer isso, e depois de sair da lá, você atirou a maldita lista na primeira lixeira que encontrou na rua. Lembra? – De novo Regina apenas acenou. – Depois de me despedir de você, eu voltei lá, e resolvi ficar com a lista. Guardei ela por todos esses anos, muitas vezes pensei até em descarta-la, mas sempre desisti de última hora. – Contou. – Quando sua namoradinha insistiu em tentar fazer contato, recorri de imediato a lista. Todas aquelas pessoas, passei meses investigando todos, acumulando provas, para então entrega-las. – A confissão fez os olhos de Regina crescerem, já Emma sorriu sem humor, finalmente entendendo como uma “quadrilha” há muito tempo desfeita, foi descoberta. – Só não imaginava que iam delatar você. Que ela... – Apontou com a arma em direção a loira. – Iria entregar você. Mas aconteceu, e para minha infelicidade, você foi parar na mesma prisão que ela. – Bufou. – E aí, não deu três meses, você esqueceu tudo que essa infeliz fez para você, resolveu perdoar, e foi além, resolveu ter um caso com ela. – Incrédulo, indignado, esboçou um sorriso nervoso. – A princípio, não pude fazer nada, a não ser esperar. Esperar você cumprir sua promessa que no final da sua pena, você voltaria para sua casa, para mim, para sua vida. – Suspirou. – Mas à medida que o tempo foi passando, fui tendo cada vez mais certeza, que tal coisa não aconteceria. Você me trocaria por esse rascunho de gente. – Voltou a apontar para Emma. – De novo, me vi na obrigação de agir. Não precisei de muito para chegar até o novo patrão dela, Gold. – Sorriu. – Fizemos um acordo. Eu livrei três dos dele da prisão, e ele não abriu mão de Emma. – Raiva, lágrimas de raiva transbordavam dos olhos de Regina, enquanto ela tentava digerir tudo aquilo. Parte da sua vida, tudo que viveu com o marido, a pessoa que ela pensou que ele era, tudo aquilo, era uma completa mentira. Foi enganada durante anos, e nunca sequer suspeitou. Perguntou-se quantas mentiras mais, ele lhe falou durante aquele tempo, e sentiu-se enjoada, tão enjoada que apoiou as mãos no joelho e vomitou.
– Filho da puta! – Emma deixou escapar. Seus olhos preocupados estavam na namorada a poucos metros de si. Queria ir até ela e ajuda-la, mas não podia, e aquilo fazia seu ódio torna-se ainda maior. Mais uma vez na noite, sentiu vontade de correr em direção do infeliz, e esbofeteá-lo até matar. Tinha que ter um jeito, precisava chegar até ele. Robin não podia sair dali impune.
– Só que a sua namoradinha, deu um jeito em Gold, ela simplesmente, o matou. – Balançou a cabeça negativamente. – E eu sei que você sabe disso, sabe e continua com ela. Você foi até a polícia porque eu lhe agredi, e dorme na minha cama ao lado de uma assassina! – Esbravejou. Regina ergueu o corpo e fuzilou o ex-marido com o olhar.
– Você é doente! Eu tenho nojo de você! – Cuspiu as palavras. — Nojo de tudo o que eu vivi com você. Nojo, é tudo o que você vai ter de mim, e não é essa arma estúpida apontada em minha direção, que vai me fazer sentir outra coisa. Quer me matar? Vá em frente, Robin. Você perdeu! De qualquer jeito, você perdeu. Eu amo Emma, e vou morrer amando ela. Ah, e obrigada, querido! Graças a você, nós duas nos reencontramos, e ela me deu os melhores dias da minha vida. – Sorriu para o homem, que ao ouvir tal provocação, voltou a atirar, dessa vez perto da ex-mulher.
– Essas são as suas últimas palavras? – Tinha um sorriso perturbado no rosto.
– Na verdade, não. – Respondeu, antes de tirar os olhos dele, e procurar por Emma, que lançava um olhar desesperado em sua direção. – Eu amo você, sempre amei. – Lhe sorriu. — Obrigada por tudo, obrigada por ter feito a minha vida fazer sentido. – Lagrimas vieram aos olhos da loira ao ouvir tal coisa, balançou a cabeça muitas vezes, não querendo ouvir aquilo, querendo que Regina ficasse quieta e ouvisse tudo sem esboçar reação.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Cala a boca! – Deu um passo para o lado, se aproximando ainda mais da amiga. Não o provo... – Não teve tempo para terminar a frase, sentiu algo lhe atingir o estomago, logo em seguida ouviu o barulho do tiro, seguido da voz desesperada da namorada gritando seu nome.
A dor a fez cair de joelhos no chão. Levou as mãos até o local atingido, e depois as fez visível aos olhos, que ficaram fixos no sangue. Mais um tiro, que dessa vez acertou seus ombros, a levou definitivamente ao chão. O choque a fez desconectar-se daquele lugar, seus olhos pararam nas poucas estralas do céu, e sua mente ficou vazia.
Apavorada, Regina foi até a amiga, e caiu de joelhos ao lado dela. Chamou por ela algumas vezes, e ao não obter respostas, deixou o desespero lhe dominar. Deitou sua cabeça no peito da amiga, e em prantos pedias para que a loira falasse alguma coisa.
– Isso vai ser mais divertido do que eu imaginava. – Ouviu a voz debochada de Robin. – Meu ódio por você, chegar a ser maior do que meu ódio por ela. – Confidenciou. – Por isso decidi mudar meu alvo. Eu quero vê-la sofrendo, querida. Quero acompanhar seu desespero, enquanto você a vê agonizando. Quero ver você sofrendo, chorando, gritando, sem poder fazer absolutamente nada. – Ao ouvir tal coisa, Regina engoliu o choro, limpou as lagrimas, e esqueceu momentaneamente do que tinha acontecido com Emma. Estreitou os olhos e levou a mão esquerda até o bolso da sua jaqueta.
– Eu vou matar você! – Avisou, ao segurar a arma.
– Quando você quiser, estou esperando. – Jogou sua arma no chão. – Não preciso de uma arma, para dar conta de você. – Debochou. A morena levantou o corpo, lançou um sorriso ameaçador ao ex-marido e tirou a arma do bolso, fazendo os olhos do homem crescerem. Regina não hesitou em apertar o gatilho. Fez aquilo uma vez, duas, três, quatro e continuou disparando, até vê-lo jogado no chão, completamente imóvel.
Katy Perry – The One That Got Away
O barulho seguido de tiros, serviu para tirar Emma do transe. Assustada, temendo por Regina, tentou se levantar, e foi imediatamente impedida pelas mãos da amiga, que berrava com alguém no telefone.
– Não se mexa! – Regina a ordenou. Seus olhos apavorados estavam na quantidade de sangue que saía do corpo dela. Jogou o celular em qualquer canto, e levou as mãos até os cabelos loiros os acarinhando, enquanto pensava no que fazer. Respirou fundo, e obrigou-se a engolir o choro, só quando teve certeza que conseguiria se manter firme, foi que subiu os olhos até o rosto da namorada, que parecia perdida. – Emma! – Chamou, levando uma mão até o rosto da amiga. Viu uma lágrima solitária fugir dos olhos claros, antes dos mesmos procurarem por seus olhos. – Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. – Tentou sorrir, e livrou-se da lagrima estúpida da amiga.
– Você está bem? Ele machucou você? – Indagou com preocupação.
– Não, eu estou bem. Robin provavelmente está morto. – Contou.
– Os tiros... você? – A morena assentiu com a cabeça, e viu um pequeno sorriso se fazer nos lábios pálidos da namorada.
– Devo dizer que estou orgulhosa? – Regina nada respondeu, a adrenalina que corria em suas veias, não lhe permitia pensar com clareza no que tinha acabado de fazer. Talvez mais tarde, quando tivesse que contar para o filho o que fez, viesse a se arrepender de tal coisa, mas naquele momento, se Robin se mexesse um milímetro que fosse, voltaria a atirar. — Eu sinto muito. – Sussurrou, ao ver o quanto Regina parecia transtornada. – Sinto muito. – Voltou a repetir.
– Vai ficar bem, o socorro já está vindo. – Agarrou a mão ensanguentada da amiga e a levou até a sua boca, depositando um beijo lá. – Você vai ficar bem. – Prometeu não só para Emma, mas também para si. Ficaria tudo bem. Se acreditasse naquilo, tinha certeza que aconteceria. Pouco importava o quão ferida a amiga estava, ficaria tudo bem. Tinha que ficar.
– Você está com medo. – Sussurrou ainda mais baixo. – Seus olhos, eles estão aterrorizados. – Regina balançou a cabeça muitas vezes.
– Não, não estou com medo, só estou assustada com tudo o que aconteceu. – Mentiu, o que fez Emma esboçar um sorriso.
– Você continua uma péssima mentirosa. – Implicou. – Tudo bem você estar com medo, Regina. Você pode ter medo, acho que é uma boa hora para isso. – De novo Regina negou.
– Não. Eu não estou com medo, não preciso ter medo. Não preciso ter medo porque sei que vai ficar tudo bem. – Emma queria ter aquela certeza, mas não tinha nem um pouco dela. Deveria estar sentindo dor, não deveria? A princípio, assim que foi atingida, foi o que sentiu, mas de algum jeito, a dor foi embora sem que percebesse. Anestesiada, era desse jeito que se sentia, e não sabia se aquilo era bom.
– Quão ferida eu estou? – Indagou, fazendo Regina tirar os olhos dos dela, para de novo analisar aquilo. A quantidade de sangue que viu, trouxe de volta sua vontade de chorar.
– Se ombro foi atingido, o abdômen também. – Sua voz saiu falha, a mão que segurava a de Emma foi até o abdômen da loira, pressionando o ferimento.
– O que você acha de um pacto de sangue? – Lembrou-se do dia em que Regina lhe sugeriu aquilo, e como queria de algum jeito, acalma-la, tocou no assunto.
– Acho uma boa ideia, se você quiser, podemos renovar. – Como só uma mão não estava conseguindo conter o sangue, resolveu que precisava usar a outra também.
– Quero um pacto novo, com uma promessa nova. – De repente o ar, algo tão vital, mas que nunca tinha percebido tamanha importância, estava se tornando escasso.
– O que você quiser. – Emma levou a mão até o pulso da namorada.
– Olhe para mim. – Pediu, e prontamente foi atendida. – Estou com medo de perguntar se vou morrer. – Confidenciou. – Porquê dessa vez, acho que isso realmente vai acontecer. – Regina negou.
– Não, não vai. Não ouse abrir a boca para dizer uma coisa dessas. – Esbravejou contra a amiga.
– Não importa o que aconteça, você vai seguir em frente, vai ser feliz, vai arrumar alguém e vai morrer bem velhinha. Quando isso acontecer, eu vou estar esperando por você, juro que vou, nem que eu precise enganar o Diabo, vamos voltar a nos ver. É isso que vamos prometer. – Ao ouvir aquilo, as lágrimas que Regina tanto lutava para engolir, represaram.
– NÃO! – Voltou a esbravejou. – Não. Eu não vou prometer isso. Eu não quero ser bem velhinha sem você, não quero que você me espere em lugar algum. Você prometeu que dessa vez ficaria, então cale a maldita boca, e cumpra sua promessa. – Emma esboçou um sorriso tristonho e lhe deu um aceno de cabeça.
– Nós deveríamos mesmo ter ficado em casa, como você sugeriu no começo do dia. – Lamentou-se.
– Dá próxima vez, vamos dar ouvidos a minha intuição. – Avisou.
– Eu acho que você não deveria mais trabalhar de manhã. Dê-se as manhãs de folga, você as merece. – Inspirou o máximo de ar possível. – Arrume um outro cachorro, para fazer companhia para Algodão, o coitado passa muito tempo sozinho. Pare de assistir filmes e séries macabras. Sempre que quiser convencer alguém de alguma coisa, use o seu sorriso. Tome menos café, não é porque você é dona de uma cafeteria que precisar tomar café de hora em hora. Nas férias, vá para Califórnia com Henry, alugue uma casa em Malibu, façam Stand Up Pladdle nos finais das tardes e parem para ver o sol se pôr. – Regina tinha perdido a voz em meios as lágrimas. Queria gritar para que Emma calasse a maldita boca, que parasse de se despedir, mas a única coisa que conseguia fazer era chorar. – Sempre que lembrar de mim, lembre com alegria e não com tristeza. E por favor, lembre-se de mim. Lembre-se de nós. Da nossa infância, da nossa adolescência, dos nossos reencontros e até das nossas despedidas. – Pediu. — Lembre-se que apesar de tudo isso, nós fomos felizes, não pela quantidade de tempo que gostaríamos, mas fomos. Lembre-se disso, e sorria. Nunca, nunca deixe de sorrir. Nunca deixe de viver. Nunca deixe de acreditar. – Tossiu em busca de ar. — Pare de chorar, garota estúpida! – Levou a mão até o rosto da amiga, tentando secar suas lágrimas.
– Então pare com isso, para de se despedir. – Pediu em meio as lagrimas. – Por favor, pare com isso. Você não pode nem pensar em morrer, nós temos todos aqueles seus planos idiotas para pormos em prática. Nós ainda não fomos felizes coisa nenhuma, tivemos um lampejo de felicidade, então não ouse se despedir. Não me deixe aqui Emma, você não pode me deixar. – Ordenou, enquanto tentava conter o choro. – Você prometeu naquele pacto de sangue estúpido, que morreríamos velhinhas. – A lembrou.
– Você sabe que não depende de mim. – Sua voz soou tristonha e seus olhos encheram-se de lagrimas. Nunca teve medo de morrer, afinal, a morte é algo inevitável, então nunca perdeu tempo a temendo, mas estando ali, diante da namorada inconsolável, já não queria mais aceitar morrer, não queria ter que deixar Regina.
– Depende sim. – Fungou. – Lute, Emma! Lute pela sua maldita vida. Tenha medo, fique apavorada, chore, grite, se desespere, faça qualquer coisa, mas pelo amor de Deus, lute! Não se despeça, não desista. Lute, faça isso por mim, não desista da sua vida, não desista de nós. – O pedido desesperado fez as lágrimas caírem pelo rosto da loira. – Por favor, não desista de nós. – Voltou a implorar, fazendo Emma balançar a cabeça em concordância.
– Não vou. – Prometeu, sem fazer a menor ideia de como cumprir com tal promessa.
– Ótimo. – Regina fungou, e tentou lhe sorrir.
– Está ficando difícil de respirar. – Reclamou.
– Então cale a boca e apenas respire. – Ordenou, seu coração que já batia acelerado, piorou quando ouviu sobre a falta de ar.
– Não posso me calar. Eu não gosto do silêncio, ele me apavora. – Confidenciou.
– Eu estava pensando... – Respirou fundo, pensando em algo para contar a Emma, algo para acalma-las e distrair a amiga. — Quando você se recuperar disso, nós vamos em um show da Katy Perry, como você sugeriu nesses dias. Vou aprender todas aquelas músicas de adolescentes, e vou cantar junto com você e com ela, vamos fazer isso no último volume. E em momento algum, vou reclamar do quanto ela é desafinada. – Emma sorriu entre as lagrimas, e balançou a cabeça concordando. Teve certeza que estava mesmo muito mal, Regina não sugeriria tal coisa, caso estivesse tudo bem.
– Eu não vou me esquecer disso. – Avisou e a morena concordou.
– Por favor, não esqueça. – Fazer aquilo significava ficar viva.
Emma concordou com a cabeça e fechou os olhos, então o tal do silêncio apavorante, fez presente entre elas. Regina também não gostava daquele silêncio, gostava muito menos de ver a amiga de olhos fechados.
Os lábios sem cor, o rosto suado, a respiração se perdendo. Estava vendo a vida se esvair do corpo da amiga, sem poder fazer absolutamente nada a respeito, a não ser esperar e pedir a Deus que pelo menos uma vez na vida, ele não lhe tirasse a pessoa que sempre amou.
– Casa comigo. – Emma abriu os olhos instantaneamente.
– O quê? – Tinha ouvido muito bem, mas queria ver também.
– Casa comigo. – Repetiu. – Casa comigo. Emma, você quer casar comigo? – Fez o pedido. – Prometo não brigar com você, quando você se jogar em cima do meu sofá branco com seus tênis sujos. Nem reclamar do furacão que passa pela minha cozinha todas as manhãs. Prometo passar as madrugas acordada ouvindo você tagarelar. Prometo acordar todas as manhãs junto com você, prometo fazer isso rem reclamar, sem ser grossa, prometo até conversar animadamente. – Sorriu entre as lágrimas. — Prometo ser uma boa esposa, prometo fazer todas as suas vontades, prometo o que você quiser, Emma, só por favor, case-se comigo. – Implorou. — Não me deixe perdê-la de vista, esteja sempre por perto, não me deixe só saudades, não me deixe só com lembranças, elas não são suficientes para mim. Fique comigo, viva comigo, envelheça comigo. Por favor, você casa? – Emma balançou a cabeça afirmando.
– Caso, mas é claro que eu caso. – Não sabia se eram suas lágrimas que não a deixavam ver Regina direito, ou se sua visão estava mesmo se perdendo. – Eu acho... – Tentou respirar fundo. Precisava continuar respirando, queria continuar respirando, precisava fazer aquilo por Regina. Não era justo deixa-la. Deus! Se ele existia mesmo, se a ouvia confessar seus arrependimentos todas as noites antes de fechar os olhos para dormir, se a ouvia pedindo para que a ajudasse a cuidar de Regina, se gostava pelo menos um pouquinho da sua pessoa, aquela era a hora dele ajuda-la. – Acho que esse foi o pedido de casamento mais inusitado. – Sua voz saiu tremula, ofegante.
– Não fale. – Regina pediu ao ver o quanto aquilo estava se tornando difícil para a amiga.
– Você! – Voltou a inspirar o máximo de ar que pôde. – Um beijo. – Pediu. Regina concordou, e sem tirar as mãos do ferimento, inclinou o corpo cuidadosamente até sua boca alcançar o rosto da amiga. Beijou-lhe a testa, a ponta do nariz e por fim, selou seus lábios aos dela. Suas lágrimas juntaram-se as de Emma, que fechou os olhos e sorriu. – Amo você! – Sussurrou.
– E eu amo você! – Também sussurrou, antes de se afastar.
– Fale sobre o casamento. – Pediu, a voz praticamente nula.
– Eu não sei... precisamos planeja-lo. – Regina sentia-se sufocada, angustiada, inútil. Emma estava morrendo, não precisava ser médica para saber daquilo.
Onde estava a maldita ajuda, afinal? Não adiantaria de nada Emma lutar pela vida, se não recebesse ajuda adequada para fazer aquilo. E Deus! Por que ainda pensava nele? Por que ainda pedia para ele? Ele levou sua irmã, e sua mãe, quando ainda era uma criança. Ele não fez nada para impedi-la de abrir a porta do quarto e encontrar a mãe lá, suspensa, com uma corda amarrada no pescoço. Ele nunca lhe ajudou, então por que começaria de uma hora para a outra?
– VOCÊ ME DEVE ISSO! – Esbravejou com ele em voz alta, ao levantar a cabeça e encarar o teto. – Você me deve. Não me tire ela. – Implorou. – Se seu plano é que eu permaneça viva, então por favor, não me tire ela. – Voltou a implorar. – Não seja assim tão cruel, por favor, pelo menos uma vez na vida, atenda um pedido meu. Eu prometo, prometo faze-la andar na linha, prometo que ela nunca mais fazer nada de errado, nada de mal, prometo que você vai se orgulhar muito dela ainda. Então por favor, me deixe ficar com ela. – Pediu em meio a um choro apavorado. Segundos depois, ouvir um baixo volume de sirenes, o que a fez sorrir e respirar aliviada.
– Está ouvindo? – Tirou os olhos do teto e procurou pelo rosto da namorada. – A ajuda está chegando. – Comemorou. – Você vai ficar bem. Nós vamos ficar bem. – Seu sorriso foi se desmanchando à medida que os segundos foram passando e Emma continuava de olhos fechados, completamente imóvel. – Emma? – Chamou. – Emma! – Voltou a chamar. – Emma, abra os seus olhos. – Chocalhou a amiga. – Por favor, por favor, Emma! – O desespero começou a se apossar de si. – Abra os olhos, Emma, por favor! – Pediu de novo e ao não ser atendida, rendeu-se ao desespero. – EMMA! – Gritou ao deixar a cabeça cair sobre o corpo da amiga. – Você não pode fazer isso comigo. Você prometeu. Você prometeu. Você prometeu! – Repetiu aquilo incansáveis vezes.
O desespero a fez perder a noção do tempo, do lugar, de tudo em sua volta. Não sabia como, mas de repente a ajuda estava ali. Um par de mãos a arrastou para longe da amiga, enquanto uma outra pessoa tentava acalma-la. Sabia que lhe perguntavam alguma coisa, mas não conseguia responder, porque não ouvia.
Não queria ouvi-los, não queria ouvir o que eles tinham para dizer. Seus olhos assustados continuavam presos em Emma, e nas pessoas a sua volta. Viu uma massagem cardíaca ser iniciada, e viu um par de mãos com um desfibrilador. Tentou correr até a amiga, mas foi impedida.
Gritava palavras de ordem para que a soltassem, gritava palavras de ordem para que Emma ficasse viva, gritava palavras de ordem para Deus, enquanto era arrastada para longe dali, para longe de Emma, para longe da felicidade que tinham construído naqueles poucos meses. A última imagem que teve da amiga, foi de sua cabeça caída para o lado, os olhos fechados, e o corpo sem vida.
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