Notas iniciais
Boa noite amiguinhas! Com um dia de atraso, cá estou eu para pôr um fim nessa história que completa hoje 366 dias de vida. Agradeço a todas que passaram por aqui nesse tempo, a todas que comentaram, me ameaçaram, choraram, me odiaram, enfim, que de uma certa forma, fizeram-se visíveis. Obrigada por todos os reviews, pelas opiniões, pelas recomendações, enfim, obrigada a todas que direta ou indiretamente me ajudaram com a história. Obrigada a Lele, Camzz e a Madu, que fizeram recomendações lindíssimas a fanfic. Nunca sei exatamente como agradecer recomendações, mas sério, elas me deixam muito feliz, é muito gratificante recebe-las, então muito, muito obrigada mesmo! Enfim, acho que é isso. E aí, será que a Nossa Senhora das Fanfics, ajudou a Emma a sobreviver? Vamos ao capítulo então, que por sinal está ENORME!

Os olhos castanhos fixos em mim, parecem curiosos, ansiosos. Me pedem por repostas, querem o resto da história. Faço de conta não perceber, tiro os olhos dela e miro o sol se pôr lá fora, enquanto pacientemente, espero o tempo dela. Com o canto dos olhos, a vejo descruzar as pernas, e então cruza-las novamente. Não consigo evitar sorrir quando ela passa a mão pelos cabelos grisalho, arruma a postura, e então coça a garganta, tentando chamar minha atenção. Me faço de desentendida, e continuo mirando o mesmo lugar, tal coisa a faz bufar, o que me faz ter vontade de novo sorrir.

– Então, o que aconteceu? – Questiona enfim, em uma tentativa de ter minha atenção. Tiro os olhos lá de fora e volto a encara-la. Ela parece perturbada, as vezes me olha como se tivesse certeza de quem eu sou, mas então seus olhos voltam a se perder.

– Emma morreu. – Conto ao fechar o diário que tenho sobre as pernas.

– Não! – Recusa-se a acreditar, balançando a cabeça de um lado para o outro. Seus olhos sempre tão expressivos, imploram para que eu diga que Emma ficou bem. Diante do meu silêncio, ela volta a balançar a cabeça. – Ela não pode. – Lhe sorrio e me ponho de pé.

– Mas foi o que aconteceu. – Caminho até a mesa de centro e me inclino para alcançar a chaleira. – Tenho saudades do tempo que podia me abaixar rapidamente, sem ter que pensar que isso pode causar uma das muitas dores de velha. – Reclamou com ela, enquanto deposito a água quente nas xícaras. Mesmo com a atenção no que estou fazendo, sei que a atenção dela está mim.

– A história acaba assim? Emma morre e pronto? O que aconteceu com Regina? – Caminho até ela e lhe estendo a xícara de chá.

– Camomila, mel E baunilha. – Ofereço. Sua atenção continua em mim, seus olhos nem piscam, está com certeza está tentando lembrar-se de algo, talvez de mim.

– Nós nos conhecemos, não nos conhecemos? – Sua pergunta sai um tanto quanto perturbada, enquanto ela continua tentando lembrar.

– Não sei. Nos conhecemos? – Tenho vontade de sorrir, mas me obrigo a permanecer séria. Só quando dou as costas para ela é que esboço um sorriso. Pego minha xícara e volto para o sofá, me sento de frente para ela e cruzo as pernas. Ao levantar a cabeça e olhar em sua direção, vejo que seus olhos continuam fixos em mim. – Tome seu chá. – Sugiro ao dar um pequeno gole no meu.

– Minha memória ultimamente não funciona muito bem. – Murmura um pouco envergonhada, como se tivesse culpa de tal coisa.

Tomamos o chá em silêncio, enquanto me pergunto o que se passa pela cabeça dela. O que ela está pensando? Durante toda a vida, sempre desejei saber as coisas que se passavam pela cabeça dela, mas nunca desejei tanto como atualmente. Ao perceber que eu sei que ela está me olhando, desvia os olhos, está envergonhada pelo flagra, o que me faz sorrir.

Ela abre a boca algumas vezes, ensaiando falar alguma coisa, mas desiste em todas. Por fim, descruza as pernas, se põe de pé e vai até a mesa de centro, onde deposita sua xícara. Volta para sua poltrona, e faz todo o procedimento que sempre fez. Coluna reta, pernas cruzadas, mãos repousando sobre as pernas, e um olhar misterioso. Ao perceber que estou lhe assistindo, ela me encara.

–O que aconteceu com Emma? – Volta a perguntar. Parece ter certeza de que eu sei muito mais do que tudo que lhe contei.

– Como eu já disse, ela morreu. – Repito.

– Não tem mais nada escrito aí? – Aponta para o diário que está ao meu lado.

– Não. Você quer ver? – Ofereço ao pega-lo.

– Eu posso? – Pede, seu olhar oscila entre o diário e eu.

– Claro. – Lhe estendo. Sem dizer nada, ela levanta-se e vem em minha direção. Para em minha frente parecendo um pouco hesitante em pega-lo da minha mão. De novo eu o ofereço, e dessa vez ela não se retrai. Senta-se ao meu lado, e me olha como se pedisse permissão para abri-lo. Concordo com a cabeça e levanto. Deixo minha xícara ao lado da dela, e volto para o sofá.

Ela admira a foto colada na contracapa do caderno. Duas crianças fazem parte da imagem já surrada pelo tempo. Por uma fração de segundos, tenho certeza que ela reconheceu as meninas da foto. Sorri e olha saudosa para a imagem.

– Eu tinha uma amiga... – Conta baixinho, sem tirar os olhos de lá. — O nome dela era Emma. – Continua.

– Você tinha? – Meu coração bate mais forte ao ouvir tal coisa.

– Sim. Foi a única amiga que eu tive. – Sua voz continuava baixa. – Algumas coisas que você contou de quando elas eram crianças, são perturbadoramente parecidas com as que eu vivi com ela. – Seu indicador para na menina loira da imagem. – Essa criança, ela me lembra muito de Emma, a minha Emma. – Penso em dizer várias coisas, mas como sei que apressar as coisas não é uma boa ideia, resolvo ser cautelosa e contenho minha vontade de abraça-la.

– E o que aconteceu com ela? O que aconteceu com a sua Emma? – Ela pensa um pouco, antes de levantar a cabeça e me encarar.

– Um dia ela se cansou de mim e foi embora. – Conta com pesar. Essa é uma das poucas coisas que dificilmente ela esquece. O dia em que “Emma” foi embora.

– E nunca mais voltou? – Minha pergunta a faz tirar os olhos dos meus e voltar a encarar o diário.

– Eu não sei. – Balança a cabeça. – Acho que não. – Folheia a primeira página do diário, e passa o indicador pela letra. Com calma e atenção, vai virando as páginas. – Por que as letras mudam? – Indaga sem tirar os olhos de lá.

– Porque foi escrito por duas pessoas. – Conto.

– Essa é a sua letra, certo? – Abro um largo sorriso quando ela reconhece a minha letra. Um bom dia, está dando claros sinais que estamos vivendo um ótimo dia.

– Sim, essa letra é minha. – Embora esteja ansiosa, tento não demonstrar. Calma, me lembro que é preciso ter muita calma. Sem dizer mais nada, acompanho o folhear das páginas, até enfim ela chegar na última. Fica um bom tempo olhando para última folha. Não faço ideia do que se passa pela cabeça dela. Volta algumas páginas, aparentemente analisando as letras. Por fim, fecha o diário e volta a me encarar. – A letra das últimas páginas, não foi você quem escreveu. – Afirma e eu concordo.

– Não. Eu não poderia escrever algo do qual quase não lembro. – Ao ouvir tal coisa, os olhos dela crescem, e minha ansiedade aumenta.

– De quem é essa letra? – Pergunta-me sem tirar os olhos dos meus, esperando que eu lhe responda algo que aparentemente ela já sabe.

– Me diga você, de quem é essa letra, Regina Mills? – O choque ao ouvir seu nome sair da minha boca, faz com que o diário em suas mãos vá ao chão, e seus olhos se encham de lágrimas. Não tenho mais dúvidas, ela com certeza ligou os nomes as pessoas.

– Emma não morreu. – Sua voz falha murmura atordoada, o que faz meu coração bater ainda mais forte.

– Por que você acha que Emma não morreu? – Não consigo conter o sorriso, tampouco as lágrimas que represam em meus olhos.

– Porque ela... – Deixa uma lagrima escapar, e enfim, retribui meu sorriso ao agarrar minhas mãos. – Ela é você. – Afirma com convicção. – Ela é você! – Repete. – Você está viva! – Sem que eu espere, ela se joga em meus braços, e dá início a um abraço. – Você sobreviveu. Você conseguiu. – Emocionada, apenas balanço a cabeça afirmando.

– Como eu prometi. Sobrevivi, fiz isso por nós, por você, por mim. Não tenho ideia de como, mas fiz. – Minha voz sai embargada.

– Eu tive tanto medo. Tanto. – Pelo jeito com o qual me confidencia tal coisa, sei que as lembranças daquele dia, estão de volta em sua memória. – Ver a vida se esvaindo do seu corpo. Vê-los tentando ressuscita-la... – Faz uma pausa e me aperta mais em seus braços, tentando se assegurar que estou mesmo aqui. – Isso foi mais aterrorizante, mais doloroso, do que quando encontrei minha mãe morta. – Já tivemos essa conversa incontáveis vezes, e eu nunca, nunca deixei de chorar, de ficar angustiada, emocionada, como se estivéssemos tocando nesse assunto pela primeira vez. Para ela, é como se fosse a primeira vez, e de certa forma, acaba se tornando para mim também. – Você morreu em meus braços, morreu enquanto eu exigia que Deus lhe deixasse viva. – Sua voz sai falha.

– Eu tive uma parada cardíaca. – Explico. — A caminho do hospital, tive outra. Na sala de cirurgia, mais outra. – Conto o que ouvi dos médicos, e da própria Regina. – Então, como eu já disse, não faço ideia de como, mas eu acho que lutei, certo? Eu lutei por nós. – Ela beija meu rosto, e desfaz-se do abraço, afastando-se minimamente. Seus olhos marejados procuram pelos meus, e ela me sorri. Segura meu rosto entre as mãos, e seus polegares livram-se das minhas lagrimas.

– Sim, você fez isso. Você manteve a sua promessa. – Lhe retribuo o sorriso e levo minhas mãos até as suas, as segurando. – E mantendo a sua promessa, você manteve a minha sanidade. – Trago suas mãos até minha boca e as beijo.

– Nós temos a continuação desse diário, onde tem o desfecho dessa história, você quer saber? – Balança a cabeça muitas vezes.

– Sim, por favor. – Pede. Beijo sua testa, junto o diário que ela deixou cai, o deixo sobre o braço do sofá e levanto-me. Vou até a estante, abro um dos seus muitos compartimentos e pego o outro diário. Temos dois, um que uso para tentar fazer com que ela lembre. E outro com algumas recordações que julgamos serem mais importantes, ou coisa assim. Acabo lendo algumas coisas do segundo sempre que ela recorda.

Volto a sentar ao seu lado, e abro o caderno, sorrio para a letra dela ali escrito. Respiro fundo, e coço a garganta, antes de mais uma vez, nos tele transportar de volta para o passado.

Regina andava a passos largos pelo corredor do hospital. As pernas bambas, as mãos suadas, o estomago embrulhado e o coração a mil. Tentava conter ao máximo sua vontade de correr, já que tal coisa não era permita por ali.

Estava há quase 120 horas sem dormir. Recusava-se a tal coisa, porque tinha medo de fechar os olhos. Tinha medo de fecha-los e ser acordada por alguém lhe dizendo que Emma não conseguiu.

Durante aqueles dias, fugiu dos médicos do jeito que pôde. Falou com eles uma única vez, na madrugada em que chegou ali. Ouvi deles que a situação de Emma era grave, e que provavelmente ela não aguentaria até o final daquele dia. Desde então, passou a evita-los. Sempre que via algum vindo em sua direção, fugia, se escondia, e só voltava para sala da espera, quando a mesma estava segura.

Acabou sendo pega de surpresa, quando estava tomando mais um café na cantina do hospital, e a médica de Emma se materializou eu sua frente. Tal coisa fez seu café ir ao chão, e como estava sentada, acabou não tendo tempo para fugir, graças a tal coisa, ouviu a mulher lhe contar que Emma tinha acordado. Deixou a médica falando sozinha, deixou sua bolsa, seu celular, e foi certificar-se de que aquilo era mesmo verdade.

Ao parar em frente ao quarto de Emma, seu coração bateu ainda mais rápido. Respirou fundo antes de levar a mão a maçaneta e abrir.

Ao levantar os olhos e mirar a cama, seus olhos encheram-se de lágrimas, e seu sorriso tornou-se amplo.

Tinha perdido as contas da quantidade de promessas, pedidos e rezas fez durante aqueles dias, para ver Emma mais uma vez de olhos abertos, falando, rindo, vivendo. E agora estava ali, diante do caso que foi dado quase como perdido.

Sem tirar os olhos da amiga, que sustentava seu olhar, caminhou até ela. Quando deu por si, já tinha roubado o lugar do tio ao lado da cama.

– Você quase me enlouqueceu. — Sussurrou ao agarrar a mão da namorada, que tirou os olhos dos seus e procurou pelos do pai.

– Quem é ela? — Questionou ao juntar as sobrancelhas, aparentemente confusa. Tal pergunta fez Regina paralisar, e seu sorriso se desfazer. Seus olhos desacreditados continuavam na namorada, enquanto processava o que tinha acabado de ouvir.

Emma tinha perdido a memória? Tinha se esquecido dela? Delas? Quando pensou em recolher sua mão para fugir dali, Emma a agarrou, a impossibilitando. Não conseguindo manter seu teatro, começou a rir, fazendo Regina balançar a cabeça negativamente e respirar aliviada. Teve vontade de estapear e xingar a amiga, mas devido as circunstâncias, guardou à vontade para si.

– Eu odeio você! — Tentou esbravejar, fazendo a namorada rir mais.

– É mesmo? Porque pelo tamanho das suas olheiras, o semblante cansado e abatido, a falta de maquiagem, e a sua roupa de ficar em casa, me dizem o contrário. — Entrelaçou os dedos aos da namorada enquanto a analisava. — Estava preocupada, Regina Mills? — De repente, toda a vontade de chorar que Regina engoliu durante todos aqueles dias, fez-se presente.

Não disse nada, não conseguiu dizer nada, apenas agarrou-se a mão da loira, e se permitiu chorar. Seu desespero, angustia, medo, colocou tudo para fora naquele choro alto e compulsivo. Chorou tudo que tinha para chorar, enquanto era consolada pela voz da amiga, que lhe dizia que estava tudo bem.

No final daquele desabafo feito em lágrimas, sentiu-se melhor, como se toneladas tivessem saído de cima de si. Largou a mão de Emma, para que pudesse passar suas mãos pelo rosto. Fez aquilo algumas vezes, fungou e então encarou a amiga, que também se livrava de algumas lágrimas que deixou escapar.

David tocou os ombros de Regina, lhe beijou o topo da cabeça, e resolveu dar privacidade as duas, retirando-se dali.

– Desculpe. — Pediu, ganhando um sorriso da loira.

– Eu quem peço desculpas. Desculpe por todos esses dias, desculpe por deixa-la assim, desculpe pela brincadeira sem graça da falta de memória. — Regina assentiu com a cabeça. Com dificuldade, Emma chegou o corpo para o lado da estreita cama e bateu com a mão sobre o pequeno espaço vazio. — Vem aqui. — Pediu.

– Não acho uma boa ideia. — Embora tivesse uma vontade enorme de jogar-se ali, sabia que não devia. Não queria de jeito algum, correr o risco de prejudicar a recuperação da amiga.

– Eu acho uma ótima ideia. Você não pode negar isso para uma pessoa enferma. Ainda mais quando essa pessoa enferma é sua namorada, namorada essa que você propôs casamento. — Acabou sorrindo um pouco sem graça, claro que Emma lembraria daquilo. — Por favor Regina, se os tiros e três paradas cardíacas não me mataram, não vai ser você a fazer isso caso deite aqui. – Insistiu.

– Só um pouquinho. – Avisou ao tirar a jaqueta e joga-la sobre a poltrona. Antes de juntar-se a amiga, livrou-se também das sapatilhas. Ajeitou-se do jeito que pôde sobre a cama apertada, sem nunca tocar na amiga, que rolou os olhos por tanto cuidado.

– Mais perto, Regina. – Pediu.

– Não, você mal pode se mexer direito. – Negou-se.

– Posso sim. Esse ombro está bom, você pode deitar nele. – Pediu e a contragosto, foi atendida. Ao ouvir a namorada suspirar, agarrou sua mão, levou até a boca e a beijou.

– Então, como estão as coisas? – Entrelaçou os dedos aos dela.

– Acho que... – Inspirou. – Desabando. – Soltou com o ar.

– Como está Henry?

– Assustado, acuado, eu não sei direito. – Contou. – Está com Nathalie e Ruby. – Voltou a suspirar. – Eu realmente não sei como ele está, ainda não tive coragem de olha-lo nos olhos. – Admitiu.

– Ele sabe de tudo? – Regina afirmou.

– Sim, eu contei. – Sussurrou ao lembrar-se do momento em que disse ao filho que o pai havia morrido. – Por mais errado que Robin tenha sido, era pai dele. – Era a primeira vez que estava conseguindo realmente pensar sobre o que tinha acontecido. – Quando dei a notícia, e contei o que tinha acontecido com você, e com Robin, ele se isolou. – Ao pensar sobre tudo que tinha acontecido durante todos aqueles dias, não conseguia lembrar de quase nada. Tudo que ouviu e disse, perdeu-se em meio ao caos que estava sua cabeça. – Não sei quanto tempo depois, ele apareceu aqui no hospital, me abraçou e me disse que tudo ficaria bem, que você ficaria bem. – Suspirou. – Isso é uma das poucas coisas que lembro.

– Aquele garoto ama você, você sabe disso, não sabe? – Regina afirmou.

– Eu matei o pai dele, mesmo tendo todos os motivos para isso, eu matei o pai dele, ele amava Robin, você sabe disso, não sabe? – Emma voltou a levar a mão da amiga até os lábios para um outro beijo.

– Sim, eu sei. – Suspirou. – Tempo, Regina. Ele só precisa de um pouco de tempo para entender, assimilar, aceitar. Henry idolatra você, e você sabe que a relação que ele tinha com Robin já não era mais a mesma. Você sabe que as coisas entre eles nunca mais foram as mesmas depois que Robin bateu em você. – Regina concordou.

– Sim, mas isso é diferente... vamos deixar essa conversa para outro dia. – Resolveu desistir, não queria preocupar Emma com suas coisas. Afinal, a loira tinha acabado de acordar e tudo que menos precisava era de problemas.

– Ouça, eu imagino o caos que está aí dentro da sua cabeça. A morte do Robin, minha quase morte, Henry no meio disso tudo. Você sabe, eu conheço você, sei que você gosta de resolver qualquer problema na hora, e sei que sofre quando isso não é possível, mas acredite em mim, você só precisa dar um tempo para ele. – Pediu. – Eu conheço o seu filho Regina, com certeza não tanto quanto você, mas conheço. Conheço suficiente para lhe dar a certeza de que agora que eu aparentemente ressuscitei dos mortos, ele vai vir falar com você. – Sorriu. – Fale com ele, fale abertamente, seja franca. Tenho certeza que depois dessa conversa e com um pouquinho de tempo, tudo vai voltar a ser como era. – Cutucou o ombro no da amiga. – Vai ficar tudo bem, Okay? – Regina acenou com a cabeça.

– Okay. – Respondeu enquanto pensava no que Emma lhe disse.

– E você, como está? – Deu de ombros.

– Não faço a mínima ideia. – Murmurou. – Sobrevivendo, acho que essa seria a palavra. – Emma lhe afagou a mão.

– Me desculpe, me desculpe por isso tudo. Por ter deixado você nesse estado, por Henry, por tudo o que aconteceu. – O pedido de desculpas fez a morena suspirar.

– Só se você me desculpar pelo marido psicopata que eu tive. – Resmungou, e acabou fazendo Emma sorrir.

– Digamos que você nunca foi boa em escolher pessoas para amar. – A piada que fez contra si, fez Regina esboçar um sorriso.

– Digamos que você é a escolha errada mais certa que eu fiz na vida. – Respondeu.

– E a polícia, o que você disse a eles? – Regina pensou um pouco sobre o assunto enquanto tentava lembrar da conversa que teve com o xerife do qual não lembrava mais o nome.

– Robin ameaçou você o dia todo e fez você pensar que ele era um traficante, já que você conheceu muitos quando trabalhava com tráfico e como você entregou alguns, você achou que estava sendo alvo de alguma vingança. – Emma assentiu para que a morena continuasse. – Então com medo de que ele pudesse me machucar ou machucar Henry, você aceitou ir ao encontro dele e quando chegou lá, encontrou Robin. – De novo assentiu. – Falei sobre toda a parte que desconfiei de você e fui atrás, a parte da nossa conversa na rua, da minha certeza que era Robin e da minha ligação para o 911. Então eu entrei, ele ficou nervoso e para se vingar de mim, atirou em você. Eu me desesperei, me joguei ao seu lado, ele provocou, disse que ia me matar, eu peguei a arma e atirei. – Resumiu.

– E foi desse jeito? – Negou.

– Não exatamente. Ele repudiou, e eu descarreguei a arma nele. – Contou. – Mas ninguém da polícia precisa saber sobre isso. – Emma riu e concordou.

– E a arma, ele não questionou sobre você estar armada? – Regina afirmou.

– Sim. Respondi que estava armada porque caso você estivesse de novo envolvida com o tráfico, eu mataria você. – Os olhos da loira cresceram ao ouvir tal coisa.

– Medo de você. – Murmurou.

– Devido as últimas circunstâncias, no seu lugar eu também teria medo de mim e andaria na linha. – Balançou a cabeça concordando. – Ah, eles levaram seu celular, por favor, me diz que não tem nada nele que possa de alguma forma comprometer você. – Pediu.

– Não tem. Todas as conversas que tive com Daniel, foram através de um pré-pago que foi completamente destruído e suas partes espalhadas por diversas lixeira. – Contou. – Você acha que eu estou muito encrencada? – Regina negou.

– Não. Segundo meu advogado, encontraram muitas fotos suas, minhas, de nós duas juntas e até de Henry, na casa em que Robin estava morando. Fotos do nosso cotidiano. Há uns bons meses, ele colocou detetives atrás de nós. E encontraram também o plano da sua morte meio que arquitetado na parede do escritório. – Cutucou o braço no da amiga. – Vai ficar tudo bem. Você com certeza não vai escapar de um interrogatório, mas vai ficar tudo bem. — Garantiu.

– E nós vamos finalmente ter paz. – Soltou com o ar.

– E nós vamos finalmente ter paz. – Regina concordou. – E por favor, pelo amor de Deus, nunca mais me assuste desse jeito. Eu não tenho palavras para explicar como me senti, como sobrevivi a esses dias. – Suspirou. – Sem você, eu saio do ar. – Confidenciou.

– Eu prometo, Regina, prometo não lhe trazer mais preocupações, pelo menos não preocupações desse nível. E refaço a promessa, morreremos mesmo velhinhas. Você viu, não há mesmo jeito de livrar-se de mim.

Fecho o diário, o coloco sobre o outro e me volto para ela. Agarro suas mãos e as beijo.

– Já faz muito tempo, mas eu prometi e reprometi, e aqui estou, cumprindo minhas promessas. – Ela sorri.

– Por favor, continue as cumprindo. – Aceno com a cabeça, concordando.

– Henry, ele aceitou? – Afirmo.

– Sim, como eu disse, assim que eu voltei para casa, vocês tiveram a conversa que eu sugeri. Uns dias depois ele voltou para a Harvard, você ficou chorando e menos de vinte quatro horas depois, ele estava batendo na porta do seu quarto. Vocês choraram, na verdade, nós choramos, nos abraçamos, conversamos um pouco mais e tudo se ajeitou. – Ela me sorri, parece aliviada ao ouvir tal coisa. Suspira e um pouco hesitante, leva a mão ao meu rosto.

– Você está tão mudada. – Afaga o lado direito da minha face, o que me faz sorrir.

– Estou? – Beijo sua mão em meu rosto.

– Sim. – Sussurra.

– Acho que não existe cabelos loiros, pele lisa e corpo bem cuidado, que resistam sem nenhum dano ao tempo, certo? – Passa a mão pelos meus cabelos, enquanto me sorri.

– Você continua linda, mas agora é linda na versão senhorinha. – Seu comentário me arranca uma risada.

– Mas você continua preferindo a versão mais jovem. – Conto. – Sempre que precisamos mudar de enfermeira, você dá preferência a loiras, e gosta de chama-las de Emma. – Ela sorri envergonhada e desvia o olhar.

– Me desculpe. – Murmura o pedido, me fazendo sorrir e passar o braço em volta de seus ombros.

– No seu lugar, eu também daria preferência a minha versão mais jovem. – Até porque, ela pouco conhece a mais velha. Deita a cabeça em meus ombros e suspira.

– Por que temos uma enfermeira? – Sua pergunta sai surrada, ela tem medo de ouvir a resposta.

– Você sabe, já não somos mais tão jovens assim, então é sempre bom ter ajuda. – Desconverso.

– Não minta para mim, Emma. – Pede. – Não faça de conta que está tudo bem, porque eu sei que não está. Só não consigo entender o que aconteceu. – Sua mão repousa em minha perna a aperta. – Me conte. – Suspiro e concordo.

– Não temos uma enfermeira, temos três. – Começo. – Elas trabalham em três turnos diferentes. – Continuo. – Elas me ajudam a cuidar de você. Você tem uma doença chamada Alzheimer, é uma doença neurodegenerativa que causa algumas complicações, uma delas é a perda de memória. – Explico o básico. — Às vezes as coisas ficam um pouquinho difíceis, então precisamos de ajuda. – Ela faz silêncio, como sempre acontece quando lhe conto isso. Afago seus ombros enquanto espero seu tempo, espero ela processar a informação, e aceita-la. Às vezes aceita bem, as vezes chora, as vezes tem crise de raiva, e outras vezes, faz de conta que não ouviu e começa outro assunto.

– Por isso eu não consegui ler muitas das palavras que estão escritas no seu diário? – Sussurra, enquanto mira um ponto qualquer em sua frente.

– Sim. – É tudo que respondo.

– E mais o quê? – Sua voz soa angustiada, o que me faz suspirar.

– Regina... – Tento pôr um fim ao assunto, mas ela vira o rosto em minha direção, seus olhos marejados procuram pelos meus.

– E mais o quê? – Insiste.

– O piano. – Aponto para o instrumento. – Você quase não sabe mais como toca-lo. – Conto. – Às vezes você para em frente ao espelho, e não reconhece sua imagem refletida lá e aí você briga e bate boca com você mesma. – Envergonhada, ela volta a desviar os olhos. – Você não sabe mais escrever, não sabe mais sobre as horas, o dia da semana, o ano. – Uma lágrima solitária desce pelo seu rosto. Decido não tortura-la mais, faço silêncio e de novo espero seu tempo. Ela leva a mão ao rosto e se desfaz da lágrima.

– E as pessoas, eu também esqueci delas? – Indaga em um fio de voz. Como não respondo nada, seus olhos voltam a procurar pelos meus. – De quem eu esqueci? – Sua pergunta autoritária não me dá opção de não responder.

– Praticamente de todas as pessoas que foram mencionadas na história que você ouviu. – Suspiro. – French, Ruby, seus irmãos, sua madrasta, Robin, Henry.

– Meu filho. – Murmura atordoada.

– Sim. – Confirmo.

– Eu tenho um filho. – Fala consigo mesma.

– Sim, você tem, nós temos. E netos, temos três netos. – Ela esboça um sorriso ao saber sobre isso.

– Henry tem filhos? – Pelo tom surpreso da pergunta, constato que ela lembra dele, provavelmente, da versão adolescente dele.

– Sim, três. Kate está com vinte e sete. Chris tem vinte e cinco. E tem a Rachel, que chegou por último, sem ser planejada, ela recém completou vinte. É o nosso bebê. – Não consigo evitar de sorrir ao pensar nos três. – Eles amam você. – Conto, lhe arrancando um sorriso.

– Eu não me lembro deles. – Fala com pesar, enquanto nitidamente se esforçar para tentar lembrar. – De nenhum deles. – Lamenta-se. – Quantos anos Henry tem?

– Fez sessenta no mês passado. – Seus olhos crescem, mostrando surpresa e espanto.

– Isso é... – Balança a cabeça negativamente. – Assustador. – Sussurra.

– Imagino que seja. – Também sussurro.

– E você? – Sua mão toca minha perna.

– O que tem eu? – Tento lhe sorrir.

– De você eu me lembro, certo? Quando você me diz quem é, eu recordo, não recordo? – Me olha com ansiedade, esperando uma resposta que não posso lhe dar. Não falo nada, não consigo lhe falar nada, o que a faz chegar a uma conclusão, trazendo novas lágrimas aos seus olhos. – Quando você me fala seu nome, quando me diz que é a Emma, a minha Emma, eu não me lembro? – Balanço a cabeça negando.

– Você não consegue assimilar meu nome a minha pessoa, a essa pessoa. – Respiro fundo, tentando não demonstrar qualquer tipo de tristeza. – Você lembra de quando nós éramos crianças, você lembra muito da sua mãe, um pouco da sua irmã, do seu pai, lembra muito da infância, algumas coisas da nossa adolescência, e só. – Suspiro. – Você vive no passado, então você não associa essa Emma de agora, com a Emma que está nas suas lembranças. Para você, eu não envelheci, tenho no máximo dezoito, vinte anos. – Explico. Me olha perplexa, com os olhos cheios de lágrimas, não consigo sustentar seu olhar, então olho para o chão, e respiro fundo, de novo em busca de autocontrole.

– Eu sinto muito. – Sussurra.

– Não é sua culpa. – Esclareço.

– Isso machuca você. – Balanço a cabeça negando.

– Não. – Minha voz sai falha. Sua mão toca meu rosto, seus dedos prendem meu queixo e fazem meu rosto virar em sua direção. Meus olhos continuam baixos, não quero olha-la, não agora, não quero que ela saiba sobre meus medos.

Ela se inclina em minha direção e sua outra mão vai de encontro ao meu rosto, o segurando entre as mãos.

– Emma... – Sua voz falha chama meu nome. Não acho minha voz para responde-la, então apenas balanço a cabeça negando. – Olhe para mim. – Pede. – Por favor. – Volta a pedir. Respiro fundo antes de atender seu pedido. Os olhos marejados dela contagiam os meus quase que instantaneamente. – Isso machuca muito você. – Faz uma afirmação. De novo tento negar, mas as lagrimas que não consigo segurar acabam me entregando.

– Eu só... tenho medo. – Confesso. – Medo de um dia, não conseguir trazer você de volta, de volta para nós, de volta para mim, para as nossas lembranças. – Suspiro. – Eu queria tanto, tanto, ter essa doença também. É egoísta eu sei, mas as vezes eu perco o controle sabe? Quando eu penso que um dia, não vai existir história, fotos, diálogos capazes de trazer você de volta, eu perco o controle. Eu não sei, não sei o que vou fazer quando esse momento chegar. – Admito. Ela esboça um sorriso, enquanto seus polegares livram-se das minhas lagrimas. – Desculpe. – Peço. – Vai ficar tudo bem, eu sei que vai ficar tudo bem. – Respiro fundo, e fungo algumas vezes. – Não importa o que os médicos dizem, não importa a porcaria da ciência, não importa os estágios dessa doença, não importa, não importa quanto tempo demore, você vai continuar voltando. – Afirmo não só para ela, mas para mim também. Ela esboça um sorriso triste e balança a cabeça negativamente. – Eu quero lhe mostrar uma coisa. Algo que tornou-se praticamente uma oração para mim. Todas as manhãs antes de levantar, eu a repasso na minha cabeça. – Levanto e vou até a mesa de centro, pego a velha caixa de madeira que Kate gosta de chamar de “vintage” e volto para o sofá. A abro e com cuidado e tiro do seu fundo falso um envelope pardo.

– O que é isso? – Me pergunta com curiosidade.

– Uma carta. – Conto sorrindo ao tirar as folhas do envelope. – Você escreveu duas cartas para mim durante todo esse tempo, e não importa quantas vezes eu as leias, ambas continuam me fazendo chorar. – Me lança um olhar preocupado.

– Eu escrevi coisas ruins? – Sua preocupação me faz sorrir e negar.

– Coisas boas. Coisas diferentes em cada uma delas, mas ao mesmo tempo tão iguais. Coisas que me fazem sorrir, que me dão forças para continuar todos os dias. – Explico. – Eu já li tanto essa aqui, que decorei cada parte dela, como já disse, é a minha oração diária. – Desdobro as folhas, deixando a letra dela visível. – Posso lê-la para você? – Ela assente com um aceno de cabeça. Passo meu indicador pelas palavras escritas e sorrio.

The Pretenders — I'll Stand by You

Querida Emma,

Me perdoe pelo querida, sei que você não gosta que eu lhe chame assim, mas é praticamente impossível começar uma carta romântica, sem ser desse jeito. Não que eu tenha muita experiência em cartas de amor, mas elas sempre começam com “querida”, não começam? Não importa, a minha começará assim. Sei que você vai fazer careta ao ler, e sei também que vai superar e talvez vá até rir.

Me desculpe também, caso está fique um tanto quanto sentimental, mas enquanto lhe escrevo, ouço as músicas velhas e sentimentais que você está ouvindo na sala ao lado, e por uma ironia do destino, Stand by You, está tocando nesse momento.

Bom, como disse acima, não sou muito experiente em cartas de amor, só escrevi uma em todos esses 77 anos da minha vida. Fiz isso minutos antes de sair da prisão, uma carta de despedida, uma carta para você. Bom, quis o destino que muitos anos depois, eu voltasse a sentar para escrever, de novo para de certa forma, me despedir.

Poderia me lamentar, dizer que a vida foi um tanto quanto injusta comigo, nesse final que sabemos ser inevitável. Poderia dizer que eu não mereço isso, que você não merece isso, e realmente acho que não merecemos.

Não era esse o final que eu tinha planejado para nós. Meus planos envolviam pequenas caminhadas matinais, onde andaríamos de mãos dadas, despreocupadas, sem pressa alguma, observando e comentando o quanto nosso bairro mudou. Compararíamos os adolescentes de hoje, com os adolescentes do nosso tempo. Compararíamos as pessoas de hoje com as pessoas do nosso tempo.

Entre uma garfada e outra do seu macarrão à bolonhesa, no seu restaurante favorito, lembraríamos saudosas de algumas histórias de quando éramos jovens, despreocupadas e achávamos que os anos seriam imunes para nós, que a velhice nunca nos alcançaria. “Bons tempos aqueles”. Comentaríamos ao final de tudo.

O vinho do almoço, nos faria voltar para casa rindo mais alto do que o necessário, chamando atenção de todos a nossa volta. Ele também nos faria dormir metade da tarde, mas você acordaria a tempo de assistir aquela sua velha série onde todas as catástrofes possíveis, acontecem naquele hospital. Não contente em sofrer sozinha, você me acordaria para sofrermos juntas, e mesmo já tendo visto cada episódio incontáveis vezes, voltaríamos a chorar com a desgraça da vez.

Ao entardecer, tomaríamos o nosso já tradicional chá das 17:00, você reclamaria sobre as dores nas pernas e nas costas, e comentaria sobre quanto sente saudade do tempo em que podia correr, abaixar, pular, se movimentar, sem precisar pensar nas consequências que um movimento mal calculado, pode causar a sua coluna.

Depois de ouvir todas as suas reclamações, nós iríamos até o piano. Você me pediria para tocar uma das velhas canções da sua amada Katy Perry, como já pede. Mesmo reclamando, não concordando e resmungando, eu faria isso, como sempre faço. Preciso admitir que no começo, eu não gostava mesmo das músicas dela, mas você e sua insistência me fizeram mudar de ideia. Então faz muito tempo que eu implico com ela única e exclusivamente com o intuito de contrariar você, gosto de ouvi-la resmungando e rolando os olhos, sempre que comento o quanto ela era desafinada.

Enfim, continuaríamos no piano até Henry chegar com as crianças, que infelizmente de crianças não tem mais nada. Você como sempre, faria perguntas com intuito de envergonha-los. Depois lhes daria conselhos não muito ortodoxos para uma pessoa da sua idade e sobraria para mim, chamar sua atenção. Então você começaria uma série de história já bastante conhecida por eles, sobre a nossa também nada ortodoxa adolescência. Eles ouviriam atentamente, mesmo já tento ouvido muito do mesmo.

Preciso admitir, não sei como você consegue ter a atenção deles mesmo contando sempre as mesmas coisas. Eles amam você “vó, Emma”, é impressionante o quanto da atenção deles você consegue com uma simples frase. É cativante vê-los interagindo. O carinho que você tem por eles, que eles têm por você, toda cumplicidade, é algo maravilhoso, único, e que sempre me faz sorrir e me enche de orgulho.

Terminaríamos o dia satisfeitas, orgulhosas pela família que construímos. Deitaríamos com aquela sensação boa de dever cumprido. Antes de dormir, você pegaria a minha mão, a beijaria, entrelaçaria nossos dedos, e descansaria nossas mãos unidas sobre o seu peito. E você me diria que continuava me amando, mesmo eu estando cada dia mais rabugenta.

Esse seria o fim de vida que imaginei para nós, sem muitas aventuras, talvez um pouco monótono, mas cheio de belas lembranças. Infelizmente sabemos que não vai ser assim.

Não vamos caminhar de mãos dadas por aí, não vamos recordar nossa adolescência. Nossas idas a restaurantes vão com certeza começar a ser cada vez menores, até por fim não existirem mais. Não vou mais assistir a programas de TV com você, pelo menos não sabendo quem você realmente é. Nossos netos vão se tornar estranhos, e o mesmo vai acontecer com Henry. E a nossa cama, ela não vai ser mais nossa, vai ficar um grande espaço vazio nela, porque daqui algum tempo, você não vai mais dormir lá.

Segundo aquela frase clichê que conhecemos desde muito tempo: “a vida imita a arte”. O problema é que nem sempre tal arte é bonita, ou talvez seja, mas bonita nunca teve o mesmo significado de feliz.

Você nunca foi muito fã de filmes de romance, nem nunca foi muito sentimental quanto a eles, mas lembro que o primeiro filme que lhe arrancou muitas lágrimas, chamava-se Diário de Uma Paixão.

Os personagens tiveram uma vida maravilhosa juntos, lembra? Mas no final de tudo, o Alzheimer apareceu na história, e acabou pegando a Allie. Lembro que isso deixou você devastada, inconformada. Foi a primeira vez que eu tive que consolá-la e não ao contrário. Essa foi a primeira coisa da qual eu lembrei, quando recebemos o diagnóstico da minha doença.

Confesso que estou com medo, estou apavorada, aterrorizada, não por mim, mas por você. Você se faz de forte, faz de conta que está tudo bem, continua fazendo planos, continua me sorrindo, mas sabemos que você não me engana.

Há tristeza por trás dos seus sorrisos, há medos por trás dos seus planos, há muitas lágrimas por trás dessa fortaleza. Eu ouço seu chorar quase silencioso quando as luzes do nosso quarto se apagam. Vejo seu olhar preocupado a cada novo esquecimento. Vejo você cochichar com Henry pelos cantos da casa.

Sempre que vejo seus olhos marejados, mirando um ponto qualquer, sinto vontade de lhe abraçar bem apertado e prometer que tudo vai ficar bem, que nós vamos ficar bem, que vamos superar mais esse obstáculo posto em nossas vidas. Às vezes eu chego a abrir os braços para fazer isso, mas então eu lembro do filme, lembro de você inconsolável, e me pergunto, o que eu vou fazer, caso tal cena se repita? Eu não posso dizer para você que está tudo bem, tampouco posso dizer que é só um filme. Porque infelizmente não é, infelizmente, é a nossa vida imitando a arte, uma triste e lamentável arte, que já não parece mais tão bonita e poética assim.

Tenho pavor em pensar que vou esquecer, sabe? Eu não quero esquecer, Emma. Não quero. Não quero esquecer dos cachorros que tivemos, não quero esquecer do meu filho, não quero esquecer dos meus netos, e eu não quero esquecer de você, de nós.

Não sei explicar exatamente como essa doença me faz sentir, mas é algo como, estar em um avião em queda livre. Sei exatamente o que vai acontecer, sei que o impacto é inevitável, mas mesmo assim eu me recuso a aceitar, eu continuo procurando uma saída, enquanto o encontro com o chão não acontece.

Mas infelizmente, mesmo não querendo, mesmo lutando contra, mesmo fazendo de conta que está tudo bem, eu vou esquecer, nós sabemos que eu vou esquecer, sabemos que eu já estou esquecendo, e sabemos o quanto isso vai machucar você.

Então através dessa carta, eu peço o que não tenho coragem de abrir a boca para pedir. Peço que me perdoe sempre que eu olhar para você, sem saber quem você é, o quanto significa para mim. Peço que me perdoe sempre que eu me recusar a falar com você. Peço que me perdoe sempre que for grossa, sempre que eu mandar você embora, sempre que eu fazer você pensar que você não tem importância alguma. Me perdoe, Emma. Tudo bem você se zangar as vezes, tudo bem você me odiar um pouquinho, mas por favor, não vá embora. Nunca me dê as costas, não me abandone, não agora, porque mesmo eu não lembrando, esse é o momento da minha vida que eu mais preciso de você.

Sei que é um pouco egoísta lhe pedir isso, mas por favor, fique comigo Emma, seja paciente como Noah foi com a Allie, e assim como ele fez com ela, lembre-me.

Traga-me de volta, traga-me para as nossas lembranças, para nós, para a vida um tanto quanto agitada, tempestuosa, porém também plena e feliz que construímos durante todos esses anos.

Traga-me de volta para aquela menina afobada, despenteada, cheia de sardas, com um sorriso faltando um dente que me ofereceu amizade quando eu estava apavorada. Traga-me de volta para aquela adolescente um tanto quanto rebelde e insensível, que deixava qualquer rebeldia e insensibilidade de lado, para ouvir meus lamentos a qualquer hora do dia ou da noite. Traga-me de volta para aquela jovem estúpida, que com medo de magoar e ser magoada, decidiu sozinha sobre o futuro de nós duas. Traga-me de volta para aquela mulher galanteadora, insistente, persistente, que não se deu por satisfeita até me reconquistar. Traga-me de volta para a mulher que se casou comigo, para a mulher que meu filho tem como mãe, para a avó dos nossos netos, para a pessoa que fez com que toda essa jornada fizesse sentido. Traga-me de volta para você, Emma, por favor, faça isso.

Leia para mim todas essas lembranças que varamos madrugada escrevendo, conte e reconte nossa história, e se mesmo assim as lembranças continuarem perdidas, olhe-me nos olhos por alguns segundos e então me sorria. Você pode ter certeza de quando isso acontecer, de algum jeito, eu vou saber quem você é, o quanto significa para mim.

Você sabe, eu amo você, e não importa o que aconteça, vou continuar amando. Quero que saiba que isso não é uma hipótese, é uma certeza. Porque essa ligação que nós temos, é algo que vai além das lembranças, além da vida, além do que eu consigo explicar, além do que eu consigo expressar.

Posso perder minha memória, mas o que eu sinto por você, o que você significa para mim, isso vai muito além de memórias, muito além uma doença neurodegenerativa.

Mesmo sem saber, mesmo sem lembrar, eu sei que foi sempre você, sabe? Foi você na outra vida, é você nessa vida, será você na próxima e na próxima. Eu não sei absolutamente nada sobre vidas passadas e vidas futuras, mas quando eu olho para você, tenho essa certeza. Eu sempre vou encontrar você, Emma. Com Alzheimer, ou sem Alzheimer, eu prometo que sempre vou dar um jeito de voltar para você.

Quando as coisas ficarem um pouco difíceis, quando a tristeza lhe castigar, quando o desânimo bater, leia essas palavras, espero que elas lhe lembrem o quanto você é importante para mim, o quanto significa e sempre significou.

Embora tudo pareça perdido, não está. Nós só estamos assustadas por esse não ser o final que imaginávamos, mas não podemos dizer que não tivemos uma boa vida, podemos?

Há quanto tempo estamos juntas nessa jornada? Nós éramos apenas crianças, e olha só o quão longe chegamos. Quando eu penso na vida, você é a primeira lembrança que tenho dela. Você foi e é tantas coisas para mim, que não há palavras que consigam expressar o quanto lhe sou grata. Você é minha amiga, minha conselheira, minha confidente, minha mulher. Você se importou, quando ninguém mais se importava. Com você eu tive os melhores anos da minha vida, como você eu dei as minhas mais sonoras e sinceras gargalhadas, com você eu entendi o significado de amor, de perdão. Com você eu fui feliz, eu sou feliz, sou completa.

Acho que são poucas as pessoas que chegam no fim dessa jornada louca com essa sensação, sabe? Muitas pessoas enchem a boca para dizer a outras o tal do “eu te amo”, mas são poucas as que amam de verdade, são poucas a que entendem o significado de tal sentimento. São poucas as que entendem que amar envolve muito mais do que beijos, abraços, coisas incomuns, olhares trocados, sorrisos bobos, e sonhos compartilhados.

Amor para mim, envolve perdão, compreensão. Amor para mim, envolve saber ouvir, mais do que saber falar. Envolve errar, envolve não ter sempre razão. Amor para mim muitas vezes envolve ódio e dores de cabeça. E consequentemente envolve muitas respirações profundas em busca de paciência.

O amor não é perfeito, e eu acho que esse é o erro que a maioria das pessoas comete, elas querem o transformar em uma coisa que ele não é, que não pode ser, perfeito. Nós não somos perfeitos, eu não sou perfeita, você não é perfeita, como então esse sentimento pode ser? É exatamente a imperfeição dele, que o faz valer a pena.

Somos duas pessoas imperfeitas, errantes, teimosas, e muitas vezes, difíceis. Mas nós sabemos ouvir, sabemos dar o braço a torcer, e pedir perdão e perdoar, nós sabemos perdoar. Muitas vezes eu errei, muitas vezes você errou, muitas vezes nos magoamos, mas o orgulho nunca foi maior do que a nossa amizade, do que o nosso companheirismo, do que a vontade de estarmos juntas. Somos duas orgulhosas, mas isso nunca nos impediu de nos perdoarmos e superarmos. Somos imperfeitas, discordamos em muitas coisas, o que nos fez e ainda faz discutirmos muitas vezes, mas nós temos essa ligação, essa cumplicidade, essa vontade de seguirmos juntas, sabe?

Eu amo você, Emma. Amo você exatamente do jeito que você é, amo com todos os seus erros e acertos, com todos os seus medos e incertezas, amo nos seus bons dias e nos ruins também. E eu sei, tenho absoluta certeza que você me ama também, me ama desse mesmo jeito, dessa mesma forma.

Muitas vezes tudo que eu tive na vida foi você, seus sorrisos, sua fala mansa, suas piadas que mesmo sem graça, sempre me fizeram sorrir, seus abraços, seu silêncio reconfortante. Nesse tempo eu não sabia muito sobre a vida, sabe? Eu tinha muitos medos e poucas certezas, na verdade eu tinha uma única certeza, você. Não sei, mas desde muito criança eu sempre soube que se eu tivesse você comigo, então tudo acabaria ficando bem, eu acabaria ficando bem.

Eu tenho tanto orgulho disso, de você, de nós, do que vivemos e compartilhamos. Nós sobrevivemos ao tempo, Emma. Nossos corpos tem as marcas do quanto ele desgasta, do quanto estraga, mas essa nossa ligação, ela sobreviveu ao tão impiedoso tempo, nem mesmo ele conseguiu danifica-la, posso dizer que ela está ilesa.

Não tenho palavras para expressar o quanto eu sou uma pessoa realizada, o quanto você me faz ser assim. Eu cheguei até aqui sabendo o significado dessa pequena palavra, tão fácil de pronunciar, mas tão difícil de ter e dar, amor.

Obrigada por isso, Emma, obrigada por tudo, obrigada por ter feito parte disso tudo. Mesmo que você não saiba, mesmo que eu não saiba, mesmo não sabendo explicar, lhe garanto que você vai estar sempre comigo, e eu tenho certeza que quando meu dia enfim chegar, será você o meu último pensamento, e será seu o meu último sorriso.

Espero nessas palavras, conseguir expressar, conseguir lembra-la, o quanto você significa para mim. Espero que você esteja sorrindo agora, mesmo que esteja chorando também. Espero que essa carta lhe traga um pouco de paz em dias difíceis, um pouco de alegria e por que não, de esperança?

Me traga de volta, Emma, por favor, sempre que possível, me traga de volta para você. Embora as vezes venha parecer que eu não sou mais eu, saiba que continuarei aqui, perdida, trancada em algum lugar da minha mente, esperando por você, esperando por cada novo reencontro.

Me recuso a dizer-lhe adeus, então despeço-me aqui com um até breve!

Regina Mills

Embora meus olhos estejam na carta, a deixei de ler ainda na metade, como já disse, decorei cada parte dela. Ao respirar fundo e piscar algumas vezes tentando me livrar das lágrimas, algumas acabam caindo e molhando a folha de papel, o que me faz dobra-las e devolve-las ao envelope.

Ao ouvi-la fungando, volto a respirar fundo e levanto a cabeça para encara-la. Ela tem os olhos fixos em um ponto a sua frente, e o rosto molhado pelas lágrimas. Penso em dizer muitas coisas, em prometer muitas coisas, mas acabo não dizendo nada.

É difícil para mim? Sim. Mas não deixa de ser difícil para ela também. Não lembrar, não significa não sofrer, não sentir. A doença a consome, a desgasta, a maltrata cada dia mais, sei que ela sabe disso, e as vezes me odeio por não poder fazer absolutamente nada a respeito.

É angustiante não poder lhe prometer melhora, não poder dizer-lhe que isso é apenas algo passageiro, que um dia ela vai acordar com todas as suas memórias de volta. As vezes perco o sono pensando nisso. O quão difícil, quão doloroso deve ser não lembrar. Quão penoso deve ser, ouvir, saber sobre a sua vida pela lembrança dos outros. Quão horrível deve ser pensar a respeito de cada história e não conseguir lembrar de absolutamente nada. O quão assustador é não se reconhecer e não reconhecer ninguém a sua volta. Levo minha mão até as dela, que estão repousadas sobre suas pernas cruzadas.

– Continuo amando você, Regina Mills. – Sussurro ao apertar suas mãos. Ela concorda com a cabeça e se volta para mim. Seus olhos se prendem nos meus, e ficamos assim por um tempo, em silêncio, apenas nos olhando.

– Posso não saber, não lembrar de boa parte da vida, mas eu sei que você me ama, tenho certeza disso. – Balanço a cabeça concordando. — Você não precisa ficar, Emma. Você não me deve isso, não precisa ver isso. Você pode ir, na verdade, você deve ir. Não precisa ficar só porque eu lhe escrevi uma carta estúpida lhe pedindo que fizesse isso. Vá, leve com você essas boas memórias, se apegue a elas, e não volte, não olhe para trás. Não existe mais nada de bom aqui, nada que valha a pena, essa não sou mais eu. – Balanço a cabeça muitas vezes, discordando dos absurdos que acabo de ouvir.

– Regina, não é nada elegante uma mulher da minha idade, mandar alguém calar a boca, mas por favor, cale a sua boca. – Fungo. – Você não sabe o que está dizendo. Você acha que eu continuo com você só por causa dessa carta? – Minha voz acaba soando ressentida. – Ir? Para onde você quer que eu vá, Regina? Eu construí uma vida com você, uma família com você, uma história com você. Eu fui feliz com você, e acredite, eu ainda sou feliz com você. – Esboço um sorriso. – Você me apoiou, você me ajudou, você acreditou, confiou em mim, quando ninguém mais fez isso. Você me aceitou de volta, você dividiu seu filho comigo, seus netos, sua casa, seus cachorros. Você conheceu a melhor parte de mim, e a pior também, e mesmo com todos os motivos para se afastar, para me dar as costas, você ficou. Você me amou o suficiente para ficar, para passar por cima de muitas coisas. – As lágrimas voltam ao meu rosto. – Por medo, eu lhe dei as costas uma vez na minha vida, e eu nunca me senti tão infeliz. Então não, garota estúpida, eu não posso ir, eu não devo ir e eu não quero ir, e isso não tem nada a ver com o pedido da carta, mas tem muito a ver com o amor que você mencionou nela. – Levo minhas mãos até as dela, que ainda seguram meu rosto. – Você pode não lembrar, pode não se reconhecer, mas você ainda é você, as suas lembranças, continuam aí, escondidas dentro da sua mente, mesmo que seja cada dia mais difícil recorda-las, elas continuam aí, e mesmo que você não lembre, elas aconteceram. Você continua valendo a pena. Para mim, você sempre vai valer a pena. – Volto a fungar. – E não importa se chegará um dia em que você vai se perder aí dentro para sempre, não importa se eu me tornar uma completa estranha para você. Não importa se eu vou sofrer, se vou chorar, não importa. Posso não saber o que vou fazer quando esse dia enfim chegar, mas de uma coisa tenho absoluta certeza, eu vou continuar aqui do mesmo jeito. – Lhe garanto. — Porque eu lembro, Regina, lembro perfeitamente quem você é, o que vivemos, o que você significa e sempre significou para mim. – Trago suas mãos até minha boca e as beijo. – Então por favor, não fale mais isso, ir embora não é, nem nunca foi uma opção. Nós estamos juntas nessa, em mais essa, e eu vou com você até o fim, porque eu continuo tendo certeza que nenhum dia nessa terra sem você, fará o mínimo sentido. – Me lança um olhar tristonho, enquanto balança a cabeça negativamente.

– Isso não é justo com você. – Sussurra entre as lagrimas.

– E é com você?

– Eu não tenho saída, você tem. – Nego com a cabeça.

– Não, eu não tenho. Dar as costas para você agora, seria o mesmo que dizer que eu amei você enquanto você era jovem, saudável, sem rugas, e esquecimentos, e isso não é verdade. Eu continuo amando você. Cada manhã que eu faço esbarrar em você e me apresento, eu ainda fico apreensiva. – Meu polegar alisa sua mão. — Cada vez que seus olhos param nos meus, eles continuam me dizendo mil coisas, sem que você precise pronunciar uma palavra. E mesmo já tendo contado para você a nossa história algumas dezenas de vezes, eu ainda dou risada e me emociono junto com você, como se estivesse lhe contando pela primeira vez. Os seus sorrisos, continuam me fazendo sorrir. Os seus cafunés e os beijinhos que eu ganho as vezes, continuam sendo as melhores coisas do mundo. – Enfim, consigo lhe arrancar um meio sorriso.

– Com que frequência eu recordo?

– Duas, as vezes três vezes por semana. – Conto.

– Toda semana? – Meu silêncio a faz balançar a cabeça negativamente. – Há quanto tempo eu não lembrava?

– Exatos quinze dias. – Solto com o ar. – Foi a primeira vez que você ficou tanto tempo sem lembrar.

– E o que você faz quando eu não lembro?

– Tem dias que você acorda de mau humor, e aí nem quer saber sobre ouvir uma história. Nesses dias geralmente você está me odiando por eu ter ido embora, então eu passo o dia ajudando você a falar mal de mim. — Me lança um olhar de incredulidade, o que me faz sorrir. – Tem dias que eu começo a contar, mas aí você diz que está ficando com sono. Nesses dias você fica mais quieta, mais ausente, então eu me limito a ficar com você e deixar a conversa por sua conta. E tem dias que você acorda cantarolando, e é muito simpática e eu aproveito isso para paquerar você. – Sorrio. – Às vezes você diz que vai chamar a polícia, as vezes grita por socorro, as vezes me diz que não gosta de mulheres, e as vezes diz que é muito jovem para essas coisas. Estou esperando você completar cem anos para lhe pedir em namoro. – Minha tentativa de piada a faz sorrir de novo.

– Boba. – Resmunga ao bater com a mão em meu braço. – E eu nunca retribuo suas tentativas? – Sua curiosidade me faz rir.

– Sim, as vezes você retribui, as vezes retribui tanto que quer até se aproveitar de mim. – As bochechas vermelhas dela, me fazem rir mais. – Apesar de tudo, nós ainda nos divertimos, ainda damos boas risadas. – Conto ainda rindo. – Ainda temos nossos momentos, nossos picos de felicidade. – Ela retribui meu sorriso.

– Você foi feliz comigo? – Pergunta com receio. – Isso tudo vale a pena?

– Mas é claro que vale a pena, eu fui e ainda sou feliz com você. Mesmo se no começo de tudo, eu soubesse da sua doença, eu viveria e reviveria com você de novo, de novo e de novo. – Lhe garanto. — Olhe a sua volta, olhe a quantidade de retratos, olhe a vida que tivemos. Boa parte do que vivemos, está espalhado pela casa. Nós fomos muito felizes, Regina, nós fizemos tudo que planejamos fazer. E depois fizemos mais e mais planos, e continuamos os pondo em prática. – Ela tira os olhos de mim, e os passa pela sala, dessa vez, prestando real atenção. — Não tenha medo, você só vai encontrar felicidade. – A incentivo, o que a faz se pôr de pé e ir até a parede da lareira, onde um grande quadro com o retrato da nossa família a enfeita. Me levanto e vou até ela.

– São eles? – Questiona enquanto sorri para a imagem.

– Sim. – A foto é do natal passado. Nela, estamos sentadas em frente a lareira. Henry e a esposa atrás de nós, e as crianças sentadas sobre os braços das duas poltronas. – Você quer que eu apresente essas duas senhoras lindas? – Ela sorri e nega. – Atrás de você é o seu filho, atrás de mim, sua nora. – Conto, enquanto ela os analisa atentamente, aparentemente tentando recordar. – Chris, obviamente é o que está sentando entre a minha poltrona e a sua. – Sorri para a imagem do neto. – Rachel é a que está sentada no outro braço da sua poltrona. E Kate a que está sentada no outro braço da minha poltrona. – Continua sorrindo e analisando a imagem.

– Kate é loira, como você. – Seu comentário me faz sorrir.

– Sim, ela é, mas isso nada tem a ver com a nossa genética. – Sorrio para a imagem da primogênita de Henry. – Ela foi algo perto de uma filha para nós. – Conto. – Sandra, assim como Henry, também é médica, e ela engravidou quando eles ainda eram residentes, então nós meio que fomos mães dessa menina. Até os dez anos de idade, ela praticamente morou aqui. Com Chris aconteceu praticamente a mesma coisa. – Suspiro. – Rachel foi a que menos cuidamos, mas com certeza a que mais mimamos. – Ela se volta para mim.

– Eles ainda moram em Nova York? – Afirmo.

– Henry mora no final do quarteirão. – Conto. – Ele vem todos os dias aqui, dar um abraço em você. Kate também vem. Ela vem de manhã, ela no começo da noite. E nos domingos vem a família toda, até Rachel, que está morando do outro lado do país. – Me olha com curiosidade.

– O que ela está fazendo lá? – Questiona.

– Cursando cinema. Foi a única dos três, que não quis seguir medicina. – Seus olhos crescem.

– Henry formou uma família de médicos? – Parece surpresa.

– Sim, estamos bem assessoradas quanto a isso. – Sorri e concorda. Tira os olhos de mim e caminha até o rack, onde encontra alguns porta-retratos. Sorri para alguns, pega outros, até que um rouba toda sua atenção, o que a faz ir até ele e o pegar. Sorri e o mostra para mim.

– Você se tornou policial. – Conclui.

– Sim, para isso, contei com uma pequena ajuda. – Conto. – Quando fui fazer a entrevista para entrar na academia, Muller, o senhor que entrevistava e decidia quem entrava ou não, foi com a minha cara, o que o fez digamos “esquecer” sobre meu passado com tráfico. – Explico. – Graças a ele eu entrei, me formei e trabalhei com isso até me aposentar. – Ela abre um sorriso amplo. – O quê? – Lhe questiono.

– Você contou isso com tanto orgulho, que é impossível não sorrir. – Ouvir tal coisa me faz sorrir mais.

– É que é algo do qual eu realmente me orgulho, muito. Eu não teria ido até a academia, se não fosse por você, pelo seu incentivo. – Aponto para o retrato em que estou com ela e Henry. – Foi feito no dia da minha formatura.

– Temos esse dia escrito no seu diário? – Afirmo com a cabeça. – Você se importa em ler para mim? – Pede.

– Claro que não. – Lhe sorrio e vou até o sofá, onde deixei o diário. Folheio as páginas, procurando por tal dia, ao encontra-lo, vou até ela, que está sentada sobre a banqueta do piano. Me sento ao seu lado e passo o braço em volta de seus ombros, ela me sorri e deita a cabeça sobre meus ombros.

– Conte-me sobre esse dia, Sra. policial. – Pede, me fazendo rir e concentrar os olhos nas folhas.

Emma estava uma pilha de nervos, nunca foi muito boa em falar em público e tudo ficava ainda pior quando envolvia um público muito grande, e piorava a níveis estratosféricos quando tal público ocupava todo o Barclays Center.

Quando imaginava sua formatura, imaginava um lugar muito, muito menor, com no máximo cem pessoas e nunca na sua imaginação, discursaria para tais pessoas. Bom, na prática viu que não era bem assim, junto com ela, mais 1117 pessoas, estavam se formando, não bastasse esse número exorbitante, as famílias dessas 1117 pessoas estavam ali presentes naquele enorme ginásio. Para piorar tudo, por algum motivo, tinha sido ela a escolhida para falar algumas palavras naquela noite.

Como discursos também nunca foram seu forte, passou o último mês tentando fazer o mesmo. Passou noites em claro, teve pesadelos com aquilo, dias de mau humor, e descontou muitas vezes em quem não merecia. Por fim, os dias passaram, as palavras não saíram, o desespero bateu forte, e não lhe restou alternativa a não ser recorrer a Regina, que acabou lhe expulsando do quarto, além de lhe avisar que só poderia voltar para o mesmo, quando aquele assunto estivesse resolvido. Enfim, conseguiu resolve-lo mesmo, só na noite passada e não tinha nenhum pouco de certeza se o mesmo seria bem aceito.

Mais uma vez durante a cerimônia, pensou em bater em retirada, mas infelizmente para ela, já era um pouco tarde, já que foi chamada ao palco. Nervosa, com as pernas bambas e as mãos suadas, caminhou em direção ao mesmo.

– GOSTOSA! – O silêncio que se fazia presente no lugar, foi quebrado pela voz de Regina, lhe gritando tal coisa. Instantaneamente lembrou-se do dia em que fez Regina prometer que aplaudiria seu discurso e a chamaria de gostosa. A amiga lembrava de tal promessa, acabou rindo com aquilo, olhou para trás e mais uma vez passou os olhos pelo ginásio, dessa vez finalmente encontrando a namorada, que era a única que naquele momento estava em pé e lhe acenava. Acenou de volta, antes de dar as costas a amiga e subir no palco.

Caminhou até a bancada, ajeitou os papéis do discurso e o copo d’água que lhe foi entregue, respirou fundo e levantou a cabeça. Todas as pessoas que se fizeram visíveis em seu campo de visão, a fizeram engolir em seco. Mirou o lugar onde Regina estava e resolveu começar.

– Primeiramente quero dizer que não sabia exatamente sobre o que tinha que discursar, então tomei a liberdade de escolher um tópico. – Ouviu alguns murmúrios e risadinhas, o que a deixou ainda mais nervosa. – Segundo, quero pedir desculpa aos homens, mas hoje eu vou discursar para as mulheres. – Avisou ao de novo ajeitar suas folhas. — Vou discursar para a minha mãe, para as minhas colegas de profissão, para todas as outras mulheres aqui presentes, e para você, Regina Mills. – Sorriu para câmera, assim Regina poderia lhe ver no telão. — Quanto eu sei lá... tinha cinco, seis anos, lembro de estar brincando com os soldadinhos de chumbo do meu irmão, quando minha vó viu, e me tirou os brinquedos. Segundo ela, aquilo não era brincadeira de menina. – Balançou a cabeça negativamente. — Esse foi o primeiro não, do qual me lembro que recebi pelo simples fato de ser mulher. – Sorriu sem humor. – Com sete anos, contei para a minha mãe que quando crescesse, queria ser policial. Sem ao menos hesitar, ela me respondeu que não, que eu não podia ser policial, porque essa profissão, é uma profissão de menino. Disse que eu precisava escolher outra coisa. – Coçou a garganta e então suspirou. — Desde criança eu venho colecionando esse tipo de não. “Não brinque com isso, porque isso é brincadeira de menino.” “Não fale mais isso, meninas não falam essas coisas.” “Não vá lá, aquele não é um lugar para meninas.” “Não sente-se desse jeito, você é uma menina.” “Não. Não. Não.” – Fez uma pausa para respirar. — Com meus vinte anos eu já tinha uma coleção imensurável dessa palavra. Das coisas que eu não podia, que não devia, única e exclusivamente pelo motivo de ser mulher. – De novo sorriu sem humor. – E com vinte anos, eu me peguei apaixonada, amando, a minha melhor amiga, sim, uma mulher. Como tal coisa me deixou assustada, e sem saber o que fazer, caí na besteira de me abrir com meu irmão, e em vez de me encorajar, ele me disse que não. Que não iria dar certo, que nossos pais não aceitariam, que ela só estava confusa, mas que não gostava de mim desse jeito. Enfim, ele me convenceu que não, não poderia ser. E esse não, esse não ele arruinou a minha vida por anos. – Confessou com um certo pesar na voz. — Por muito tempo, eu culpei esse único não. Por muito tempo eu odiei meu irmão por isso. Até que um dia, quando estava no hospital, me recuperando de uma tentativa de assassinato, me peguei pensando sobre a minha vida, e o muito da palavra “não” que eu ouvi nela. – Fez uma pausa para molhar a garganta. – É praticamente imperceptível, sabe? Praticamente imperceptível o que essa pequena palavra pode fazer com a sua vida. Você vai guardando todos eles, faz de conta que não se importa, faz de conta que não lhe afeta, faz de conta que está tudo bem e vai seguindo com a sua vida. – Suspirou. – Mas chega uma hora que de tanto ouvir que não podemos, não devemos, não conseguimos, não somos capazes, acabamos aceitando isso, e acreditando cegamente em tais coisas. – Seus olhos passaram pelo amplo lugar, e de novo pararam no lugar onde Regina provavelmente estava, com certeza se ela estava lá, Daniel e seus pais também estavam. – Então não foi um único não, que fez eu perder anos da minha vida. – Garantiu aquilo ao olhar para a câmera, como se fazendo aquilo, estivesse olhando para o irmão. – Foi por uma coleção dessa palavra. – Lamentou-se. — Dizem que a maioria é burra, mas eu não acho que seja realmente isso. Acho que a maioria é preguiçosa, acomodada. A maioria é um americano obeso, sentado em frente à TV, que com preguiça de levantar para mudar o canal, espera alguém passar pela sala para pedir que troque o canal para ele, ou que lhe alcance o controle, mesmo que isso demore horas e o faça perder seu programa favorito. – Suspirou. — Nós somos assim, acomodados, ou pelo menos a maioria de nós é assim. A maioria de nós passa a vida ouvindo não, não, não e mais não, e infelizmente muitas vezes a única coisa que fazemos a respeito é lamentar. Nós não lutamos por um sim, nós não exigimos os muitos sins que são nossos por direito. Nós simplesmente achamos mais fácil aceitar e acatar os nãos. – Fez outra pausa para respirar. — São poucas as pessoas que não aceitam a palavra não, mas eu aposto que cada um dos aqui presentes, conhece pelo menos uma dessas pessoas. – Seus olhos voltaram para a câmera. — Eu conheci a minha quando eu tinha meus seis anos de idade. Quando eu contei para ela o que eu queria ser quando crescesse, ela não me disse que não, ela me disse que sim, que eu podia ser, que eu podia ser qualquer coisa que eu quisesse ser. – Sorriu. — Essa pessoa, é a mesma que eu me peguei amando anos mais tarde, é a mesma que eu continuo amando até hoje, é a mesma que meu irmão disse que não podia ser. E adivinhem só? Ele estava errado. Podia sim ser, como é, e tenho certeza que continuará sendo. – Voltou a sorrir para a câmera. – Regina me resgatou desse mundo de “nãos”, ela me fez ver que sim, que é possível, que não importa o quão difícil seja, se eu realmente quero, pouco importa todo o resto, pouco importa o que as pessoas acham, se eu quero então é possível. – De novo passou os olhos pelo lugar. — A cada xingamento, desencorajamento, tapa, a cada soco, cada spray de pimenta espirrado propositalmente nos meus olhos, a cada não que ouvi nesses seis meses de treinamento, eu dizia para mim mesma que sim, que era possível, que eu podia sim aguentar, e que eu chegaria até o fim. – Sorriu. – E como podemos ver. – Abriu os braços. – Aqui estou. Eu e mais cento e três colegas. – Apontou em direção a grande turma de formandos. – No meio de mais de mil homens. Sabem quantos homens desistiram durante o treinamento? Vinte e três. Sabem quantas mulheres? – Abriu um largo sorriso. – Nenhuma. – Contou com orgulho. – Então eu peço para vocês, mulheres aqui presentes hoje, e principalmente para as meninas: não desistam de absolutamente nada, só por serem mulheres. Não deixem que lhes convençam de que vocês não podem, de que não são capazes. Não deixem quem quer que seja, destruir seus sonhos. – Voltou a encarar a câmera. — Digam sim, lutem pelo sim, exijam o sim, mostrem que sim, que é possível. Não é errado brincar com soldadinhos de chumbo, não é errado querer ser policial, não é errado amar outra mulher, não é errado viver a sua vida, a vida que você quer viver. – Fez uma pausa para tomar ar. — Errado é viver a vida que os outros querem que vocês vivam. Não tenham medo, agarrem-se a quem ou ao que faz sentido na vida de vocês e lutem. – Pediu. — Lutem porque no final dessa jornada maluca, quando for só vocês contra vocês, vocês vão acabar se deparando com a pergunta “isso tudo valeu a pena?”, e talvez o arrependimento bata, talvez também seja tarde demais. – De novo parou para tomar ar. — Sei que se conselhos fossem bons, não seriam de graça, mas mesmo assim, vou arriscar um. – Voltou a passar os olhos pelo lugar. — Perguntem-se: se eu morrer hoje, a minha vida valeu a pena? Não tenham medo da resposta, nem tenham medo de mudar caso a mesma seja negativa. Tenham medo de continuar vivendo uma mentira, só porque a sociedade impôs que deve ser assim. – Suspirou e sorriu. – E por último, mas não menos importante, se orgulhem. Se orgulhem do nosso “sexo frágil”, porque se sendo frágil, nós somos violentadas fisicamente, sexualmente, psicologicamente, se damos duro o dia inteiro e continuamos ganhando menos, se somos capazes de criar nossos filhos muitas vezes sozinhas, se somos vítimas diárias de preconceitos, de piadas, se com tantos nãos que nos são impostos desde que nascemos pelo simples fato de sermos mulheres, nós continuamos de pé, continuamos lutando, continuamos vencendo, imagem então se nós fossemos os “machos” da situação. – Fez uma pausa para dar um gole na água. — Então tenham orgulho de vocês mesmas, orgulho da vida de vocês, orgulho do nosso “sexo frágil”. Não sejam o americano obeso sentado no sofá à espera do controle, levantem-se e lutem, lutem pelos nossos direitos. Façam isso não só por vocês, façam pela próxima geração, pode ser difícil, mas não é impossível. Digam sim, lutem pelo sim, e se algum idiota tentar desacredita-las, encham os pulmões de ar e respondam: vá se foder, a vida é minha e dela cuido eu. – Os segundos de silêncio que sucederam o final de seu discurso, deixaram Emma muito desconfortável, mas tal coisa não durou muito, já que Regina pôs-se de pé, gritou o nome da namorada, voltou a chama-la de gostosa e puxou uma salva de palmas que se expandiu por todo o lugar.

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– Você falou mesmo tudo isso? – Me indaga com curiosidade.

– Falei. – Confirmo. – Temos um vídeo que pode provar isso. – Ela sorri.

– Eu acredito na sua palavra, Emma. – Garantiu. – Você fez um belo discurso. Achei encorajador e corajoso. Quantos dos seus colegas lhe olharam de cara feia? – Sua pergunta me faz rir.

– Alguns, mas cara feia nunca me abalou. Então eu ignorei e um dia eles superaram. – Conto.

– Você é o meu orgulho. – Me faz sorrir.

– E você o meu.

– Gostaria de lembrar disso tudo, de todos esses momentos, das suas conquistas, do quanto fomos felizes. – Confidencia.

– Eu sei. – Afago suas costas. – Tudo que eu lhe contei, fomos nós que escrevemos, então tenha certeza que aconteceu assim, sem exageros, nem invenções, nem mesmo na parte dos orgasmos múltiplos. – Ela ri.

– Como eu já disse, eu acredito na sua palavra, Emma. – Balanço a cabeça concordando. – Conte-me mais. – Pede.

– Sobre o que você quer saber? – Questiono.

– Sobre o que você quiser me contar. – Paro meus olhos na sua mão que afaga minha perna e lembro de algo.

– O nosso casamento. – Levanta a cabeça dos meus ombros e me encara.

– Aconteceu mesmo? – Sua pergunta me faz rir.

– Claro que aconteceu, Regina Mills. – Mostro a aliança em minha mão esquerda, antes apontar para uma aliança idêntica no anelar esquerdo dela. – Claro que uma pequena colaboração minha, mas aconteceu. – Conto enquanto folhei o diário, em busca de tal acontecimento. – Aqui, preste atenção. – Peço.

Regina estava um pouco irritada, não podia mesmo acreditar que Emma a tirou do trabalho, a fez cancelar uma reunião, apenas por aquele motivo.

Tudo bem, tinham combinado de um dia voltarem ao colégio onde estudaram e tudo mais, mas tinha em mente marcar tal coisa com antecedência, assim poderia se organizar, ir com tempo, sem pressa, sem precisar cancelar, nem remarcar nada. Mas Emma sendo Emma, resolveu aquilo sem seu consentimento, e resolveu apenas avisa-la. Avisa-la não seria exatamente a palavra, convoca-la, intima-la. Ligou dizendo que a amiga precisava estar ali dentro de vinte minutos e não lhe deu espaço para questionamentos, então ali estava.

Ao sair do carro e olhar para o lugar, prestou atenção nele pela primeira vez. Estava tudo diferente, maior, muito maior. O colégio se expandiu para cima e para os lados, a cor já não era mais a mesma, os muros estavam mais altos, o estacionamento tinha mudado de lugar, as arvores crescido, assim como o canteiro.

A faixada da entrada, essa era a única coisa que tinham preservado, a única coisa que lembrava mesmo que um dia estudou ali.

Sorriu, pendurou a bolsa no ombro e caminhou em direção ao lugar. Sua atenção acabou em alguns adolescentes que saiam de lá. Ao passar por eles e ver que foi completamente ignorada, sorriu, e perguntou-se quantas vezes já tinha feito aquilo, quando ela era no lugar deles. Naquele tempo nunca tinha parado para pensar, que adultos um dia já foram crianças, que mães e pais, já foram adolescentes e que os mesmo uma vez, ignoravam os adultos.

Provavelmente os adolescentes que a ignoraram, se é que a viram, pensaram que era mãe de algum aluno, e tinha mesmo idade para ser, na verdade seu filho já estava na universidade. Teve vontade de dizer para eles “hey, eu já estudei aqui também, já tive a idade de vocês e também achei que seria assim para sempre”.

Parou em frente à entrada e suspirou, abriu a porta do lugar e deu um passo à frente, entrando no mesmo, então paralisou. Estava tudo bem diferente lá dentro também. Os armários, as lixeiras, os bancos, a cor das paredes e até o chão. Nada mais era igual, exceto o cheiro, o cheiro daquele lugar era exatamente o mesmo. Eucalipto, concluiu que continuavam usando os mesmos produtos de limpeza. Fechou os olhos e inspirou o máximo daquele cheiro, que de certa forma lhe trazia tantas recordações.

– Não precisa ter medo. – Sorriu ao ouvir a voz de Emma. Tal frase lhe trouxe uma sensação de déjà vu, fez seu coração bater mais forte e seus olhos se abrirem, deparando-se com a amiga diante de si.

Prendeu os olhos nos olhos claros da amiga e a olhou profundamente, enquanto lembrava do momento em que se conheceram. Exatamente ali, há muitos e muitos anos. Passaram por tantas coisas desde então, encontros, desencontros, fatalidades, e de algum jeito, a ligação que tinham, a amizade que começou ali, venceu até a morte. Pensar em tal coisa a fez sorrir.

– Eu não tenho, não mais, não com você. – Lhe garantiu, arrancando da amiga um largo sorriso. Lembrou-se da primeira vez que seus olhos pararam em Regina. Lembrou-se da menina miúda, assustada, acuada, que parecia com vontade de sair correndo para longe dali e sorriu para a mulher que ela tinha se tornado.

– Oi, Regina Mills! – Ganhou um sorriso e um balançar de cabeça como saudação.

– Nós fomos uma bela coisa de duas, não fomos? – Sua voz saiu falha.

– Nós ainda somos. – Emma lhe respondeu.

– Obrigada, Emma! Obrigada por ainda estar aqui, pessoa falante. – Emma lhe sorriu.

– E onde mais eu poderia estar, garota estúpida? – Levou as mãos até a cintura da amiga e a puxou para perto. – Obrigada você, por ter acontecido na minha vida. – Sussurrou, ao juntar os lábios ao da namorada. – Você já não é mais aquela menina insegura, se nos conhecêssemos hoje, você me daria aquele seu sorriso esnobe e então me ignoraria completamente. – Tal absurdo fez Regina rir. – Então obrigada por ter aparecido por aqui, quando você ainda era só uma criança. – Voltou a beijar-lhe os lábios.

– Emma! – Regina tentou repreende-la. – Acho que as regras continuam as mesmas para beijos. – Como resposta ganhou outro beijo, junto com um sorriso.

– Se nem quando éramos alunas, seguíamos as regras, imagina agora. – Apertou os dedos na cintura da namorada e de novo a beijou. – E você acha que alguém vai vir discutir com uma policial, que além de estar fardada tem cara de má? – Regina riu e pendurou os braços no pescoço da loira folgada.

– Abuso de poder, Srta. Swan? – Tentou repreende-la.

– Sabemos o quanto você pode gostar do meu abuso de poder. – Seu comentário maldoso, junto com seu olhar sugestivo, fez Regina rir.

– Você é impossível! – Acusou.

– E sabemos que você também gosta disso. – Deu mais um beijo na amiga, suspirou e afastou-se, a puxando pela mão. – Vem, vamos ver se nossa arvore ainda existe. – Convidou.

– Você viu o quanto esse lugar está mudado? – Passou o braço em volta da cintura de Emma, enquanto caminhavam pelo corredor em direção ao pátio. – Provavelmente derrubaram nossa arvore para fazer um bloco novo. – Lamentou.

– Não acho que tenham construído lá, afinal, ela está perto do campo, e você sabe o quanto aquele campo é sagrado. – Pensando por aquele lado, talvez a arvore tivesse mesmo sobrevivido. – Sabe, eu estava pensando, as coisas aqui estão bem mudadas. Você mudou, eu mudei, a única coisa que continua igual além da faixada e de provavelmente a nossa árvore, é o seu tamanho, ou a falta dele. – A piada fez Regina empurrar a namorada e tentar afastar-se dela, mas a mão de Emma a impediu e de novo a puxou para perto.

– Vá se ferrar, garota! – Esbravejou e ganhou um beijo estalado na bochecha.

– Desculpa, não pude perder a oportunidade. – Voltou a beijar o rosto da namorada, que lhe lançava um olhar nada feliz. Ao alcançarem a rua, e depararem-se com o lugar, pararam de caminhar e limitaram-se a olhar.

Crianças e adolescentes iam e vinham, riam e corriam, conversavam, gargalhavam. Os uniformes também já não eram mais os mesmos, as mochilas já não reinavam mais soberanas, os cortes de cabelos eram mais estilosos e diversificados, as gírias completamente diferentes, e celulares, eles faziam parte daquele cenário.

Eram tempos diferentes, pessoas diferentes, mas a essência, a essência ainda era a mesma. Jovens ansiosos para viver o futuro, achando que já sabiam muito sobre o mundo, sobre a vida.

Alguns querendo versem livres daquele lugar e daquelas pessoas o quanto antes. Outros pensando na graduação da universidade e na quantidade de dinheiro que teriam. Outros fazendo planos para continuar dependente dos pais. E com certeza ainda existia a turma que pretendia completar o colegial, casar, ter filhos e viver na mesma. Como também provavelmente ainda existia a turma do “mal”, que iria pelo caminho mais fácil, como por exemplo, vender drogas.

Ao prestarem atenção naquelas pessoas, tiveram plena certeza que apensar de tudo muito mudado, algumas coisas continuavam exatamente iguais, e provavelmente sempre continuariam assim.

– Eu me sinto completamente, nostálgica. – Regina murmurou, enquanto passava os olhos pelo lugar. Quase podia ver ela e Emma quando crianças, correndo pelo gramado, enquanto apostavam corrida de quem chegava primeiro até a arvore que elas tinham se apropriado.

– Eu sinto... – Emma pensou uma palavra para definir como se sentia. – Saudades. Meu Deus, Regina! Nós crescemos. – Deu-se conta de quanto o tempo tinha passado, do quanto elas tinham mudado, da quantidade de coisas que já tinham vivido.

– Sim, infelizmente nós crescemos. – Respondeu saudosa.

– Eu só queria voltar para cá e fazer tudo diferente, e ter menos pressa, ter menos vontade de ser adulta. Eu faria tantas coisas diferentes, acho que até matemática eu estudaria. – Ao ouvir tal coisa, Regina sorriu.

– Acho que você não estudaria, mas sim, eu também tenho essa vontade. – Confidenciou.

– Olha, lá está ela. — Emma apontou para arvore, enquanto sorria.

– Não sei, não parece ser ela. — Regina não tinha nem um pouco de certeza sobre aquilo.

– Claro que é ela, só está um pouco maior. — Dobrou os joelhos e abaixou-se. Desamarrou os cadarços dos coturnos e se desfez dos mesmos. Riu ao levantar a cabeça e ver que Regina continuava olhando com dúvida para a arvore. — Você nunca foi muito boa com essa história de senso de localização.

– Não se pode ser boa em tudo. — Defendeu-se, o que fez a amiga rir. Emma tirou as meias, as pôs dentro dos coturnos e se pôs de pé.

– Não se pode. — Concordou ao puxar a namorada pela cintura. — E você é boa em coisa muito, muito, muito mais interessantes. — Beijou-lhe os lábios. — Então deixa a localização comigo. — Pediu ao ajoelhar-se diante da amiga. — Vamos retirar seus sapatinhos, Cinderela. — Pediu ao pegar o pé da amiga, que mesmo não gostando muito da ideia, levantou o pé, para que Emma tirasse.

– Por que está descalço, e por que eu tenho que ficar também? — Resmungou.

– Por dois motivos, primeiro, para sentirmos a grama fofinha sob nossos pés. Dizem que é terapêutico sabia? — Ao tirar o outro sapato da namorada rabugenta, Emma pôs-se de pé.

– Conheço coisas terapêuticas muito melhores. — Seu tom de voz um tanto quanto sugestivo, fez a amiga rir.

– Quem te viu quem te vê, Regina Mills. — Implicou.

– O quê? — Fez-se de desentendida, de novo fazendo a namorada rir. — Não sei o que está querendo dizer, sou um poço de inocência. — Defendeu-se, fazendo Emma lhe lançar um olhar duvidoso.

– Uhum, ainda tem marcas da sua inocência das minhas costas. — Pegou a mão da amiga e analisou. — Eu não sei como unhas tão curtas, conseguem arranhar tanto. — Pensou alto, fazendo Regina recolher a mão.

– De novo, não sei sobre o que está falando. — Tentou não sorrir. — Agora me diz... — Levou a mão até o quepe da namorada e o tirou, com a outra mão lhe soltou os cabelos que estavam presos em um coque. — Qual o segundo motivo? — Emma passou os dedos pelos cabelos, em uma tentativa de penteá-los.

– A corrida que vamos apostar até na arvore. — Afrouxou o nó da gravata do seu uniforme, e abriu o primeiro botão da camisa azul marinho.

– Já extrapolei minha cota de corrida diária hoje de manhã na academia. — Regina tentou esquivar-se, já que sabia que não tinha chances contra Emma.

– Sabemos que você tem fôlego para uma corrida extra. — Negou.

– Você é muito exibida, sabemos que não tenho chances contra você. — Rebateu.

– Gostaria que os ladrões que as vezes me fazem correr atrás, também pensassem assim. — Seu pensamento alto fez Regina sorrir.

– Gostaria nada, assim você não poderia se gabar quando chegasse em casa. — Implicou.

– Verdade, não gostaria. — Concordou. — Agora para de drama, vamos brincar de polícia e ladrão, só desse jeito vou poder me gabar para minha mulher quando chegar em casa. — Regina suspirou, devolveu o quepe a Emma, assim como o elástico que há pouco prendia seus cabelos. Entregou-lhe também sua bolsa e aproveitou que a namorada estava enrolada tentando ajeitar aquelas coisas e correu.

– REGINA! — Riu ao constatar que deixou Emma indignada. — ASSIM NÃO VALE! — A loira reclamou ao deixar cair tudo que lhe foi entregue, para correr atrás da namorada que estava cumprindo com louvor seu papel de ladra.

– NO AMOR E NA GUERRA VALE TUDO! – Gritou sobre os ombros, enquanto ria e corria o máximo que podia, em busca da arvore.

A cada novo passo, a arvore se tornava menos distante, maior em seu campo de visão, seu sorriso cresceu quando constatou que venceria Emma, tal confiança a fez diminuir o ritmo, o que fez a namorada alcança-la antes que pudesse mesmo chegar.

– PEGUEI! – Emma lhe agarrou a cintura de uma forma tão possessiva, que a impossibilitou de dar mais um passo à frente. Tirou a namorada ladra do chão e as fez girar algumas vezes.

– Nós vamos cair! – Regina ria enquanto procurava alguma parte da amiga em que pudesse se segurar. – EMMA! – Fechou os olhos e esperou a loira se dar por satisfeita. Quando foi devolvida ao chão, seu mundo começou a girar. Emma fez com que as costas da morena recostassem na arvore e a prendeu lá entre seus braços.

– Regina Mills, você está presa. – Avisou, sua voz saiu ofegante. – Tudo que você falar a partir de agora, pode me fazer decidir se eu libero você ou não. – Continuou. Regina riu e prendeu os braços no pescoço da namorada.

– Então você aceita propina, policial Swan? – Indagou de sobrancelha arqueada.

– Tudo depende de quem está me oferecendo. – Sua resposta fez uma ruga de preocupação surgir na testa de Regina.

– O que significa isso exatamente? Anda aceitando propina de mulheres por aí? – Emma riu.

– Só quando elas se chamam Regina Mills, e são lindas, cheirosas, gostosas, e me conhecem desde sempre. – Regina lhe lançava um olhar duvidoso, enquanto fazia pensar a respeito.

– Sei... – Emma lhe beijou os lábios.

– Que bom que você sabe. – Voltou a beijar-lhe. – Assim como eu também sei que aquele seu fornecedor bonito e charmoso que arrasta um caminhão por você, não tem chances contra a minha pessoa. – Foi a vez de Regina rir.

– Claro, por isso você sempre arruma pretextos para brigar, quando sabe que tenho reunião com ele. – Implicou, fazendo Emma lhe fazer careta.

– Se ele continuar com as gracinhas, vai acabar preso, por desacato a autoridade. – O tom de voz sério com que disse aquilo, fez Regina rir.

– Você é absurda. – Acusou.

– Não vamos falar dele, esquece aquele idiota, vamos falar sobre a nossa arvore. – Seu indicador tocou um pouco ao lado dos ombros de Regina, onde o nome das duas estava gravado. Sorriu ao vê-los lá e de novo pensou no tempo. Regina voltou-se para arvore e fez o mesmo.

Desde o primário até o fim do colegial, sempre se refugiaram ali quando queriam ficar sozinhas. Perguntou-se quantos planos fizeram ali, quantos segredos compartilharam, quantos medos admitiram, quantas boas gargalhadas deram. Os livros que leram juntas, os fones de ouvido que dividiram, os cafunés, as mãos que viviam se procurando, os abraços trocados, o amor que aquela árvore viu nascer.

– Olha! – Apontou um pouco para baixo dos nomes que Emma lhe mostrou. – Os outros também continuam aqui. – Debaixo daquele tinha outro e mais outro. A cada ano que passava e Emma crescia, seus nomes ganhavam um lugar mais no alto.

– É como se o tempo não tivesse passado. – Pensou alto.

– Vinte e três ano é muita coisa. – Regina sussurrou. – Mas estando aqui, também tenho essa sensação. – Seu indicador passava por seus nomes, enquanto sorria.

– Aqui! – Emma tirou um canivete do bolso. – Trouxe para talhar nossos nomes uma última vez. Você quer fazer isso? Sua letra é mais bonita. – Regina negou.

– Não, vamos continuar mantendo a tradição, faça você. – A loira lhe sorriu e concordou. Regina acompanhou o nome de Emma ser feito, antes de sentar-se, as costas recostadas na arvore.

Levantou a cabeça e olhou ao redor, riu quando viu um grupo de adolescentes parados perto dos pertences delas que Emma abandou, e riu mais ainda quando viu que eles estavam com certeza falando sobre as duas, já que olhavam na direção delas sem ao menos disfarçar.

– Emma, acho que nossa pequena brincadeira de polícia e ladrão, acabou despertando interesse dos curiosos. – Seu comentário fez a loira tirar a atenção da sua obra de arte e voltar-se para trás.

– O que você acha que eles estão falando? – Desejou poder ouvir a conversa daquele grupo de adolescentes enxeridos.

– Provavelmente algo que envolve a grave palavra: tiazinhas.

– Isso é mesmo grave. – Resmungou. – Espero que estejam usando também a palavra: gostosas. – Regina balançou a cabeça concordando.

– Espero.

– HEY VOCÊS! – Gritou com eles, o que fez Regina resmungar seu nome. – ALGUM PROBLEMA? – Usou seu tom mais autoritário.

– Emma, você está chamando a atenção de todos os outros. – Regina resmungou envergonhada.

– ÓTIMO! VOU ENTENDER ESSE SILÊNCIO COMO NÃO, PROBLEMA NENHUM, SRA. POLICIAL. – Ao ouvir o quanto ela enfatizou a palavra policial, Regina gargalhou. – AGORA QUERO VER TODOS VOCÊS CIRCULANDO. – Não precisou pedir, ou ordenar, duas vezes, o que a fez sorrir satisfeita. – Nasci para dar ordens. – Comentou com Regina, que ainda ria.

– Você é tão ridícula! – Acusou, fazendo Emma lhe mostrar a língua e voltar a se dedicar a sua obra de arte. – Sra. Policial. – Debochou. Suas mãos brincavam com as muitas folhas de Acer caídas.

Pensou em ir até sua bolsa, pegar o livro que lá estava, assim poderiam recordar os velhos tempos e quem sabe finalmente decidir para onde viajariam depois do natal, já que o livro era sobre lugares. 1000 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer, fazia uma semana que Emma tinha lhe dado, com intuito de decidirem para onde viajar.

Enfim, acabou desistindo da ideia, já que a bolsa parecia muito longe, e sua vontade de levantar dali era praticamente nula.

– Terminei. – O aviso de Emma soou empolgado. Regina levantou a cabeça e procurou pela arte que estava acima de todas as outras, inclusive de todos os outros rabiscos que muitos alunos já tinha deixado por lá. Sorriu para seus nomes que estavam dentro de algo que deveria ser um coração e juntou as sobrancelhas ao ver algo diferente.

– O que é RC? – Emma sorriu e juntou-se a amiga no chão.

– Recém casadas. Escrever isso tudo daria muito trabalho, então vamos abreviar, por favor! – Deitou a cabeça sobre as pernas da amiga, como sempre fazia.

– Recém? Não pode se dizer que três anos é algo muito recente.

– Então nós somos casadas? – A incerteza em sua voz, fez Regina revirar os olhos. – Devo lhe avisar que você esqueceu de me falar sobre isso.

– Emma, nós moramos juntas. Você arrumou um gato, e fez com que eu o aceitasse e chamasse de meu. Seus tênis roubaram metade do espaço dos meus sapatos, uma parte do closet é só sua. Seus quadros dos Beatles estão pendurados nas paredes da minha sala. Tem cervejas na geladeira, muitas cervejas. Por último, mas não menos importante, tem um videogame no meu quarto. Então se isso não é um casamento, por favor, devolva pelo menos o espaço dos meus sapatos. – Emma não conseguiu se manter séria durante toda aquela autodefesa que Regina fez.

– Okay, vendo por esse lado, nós até que somos casadas. – Enfim concordou. – Mas, não oficializamos isso. – Regina abriu a boca para responder, mas se viu sem respostas, afinal, tinha pedido Emma em casamento, sabia que ela lembrava de tal coisa, mas como a loira desde sua estadia no hospital, não tinha mais tocado no assunto, pensou que ela tinha se contentado com a história de morarem juntas.

– Okay, você quer uma festa? – Seu tom de voz saiu preocupado.

– Eu quero alianças. – Respondeu prontamente. — Você não me deu uma aliança. – Reclamou. – E ontem eu passei no shopping e vi umas tão lindas e aí pensei, por que não? Olha. – Levantou a mão esquerda, a mostrando para a namorada. — Uma mão tão linda, tão habilidosa e sem aliança nenhuma. – Regina balançou a cabeça negativamente, enquanto tentava não rir. – As mulheres olham para mim, Regina. Elas olham também para as minhas mãos, mãos tão lindas, mas sempre tão vazias de anéis. – Ao ouvir tal coisa, Regina baixou a mão da amiga. – Elas devem pensar: hum... aquela loira, tão linda, tão quente, e aparentemente, tão solteira.

– Além de tão humilde. – Regina debochou. – Em que shopping você viu essas alianças? E o mais importante, qual o preço delas? – Como o nome do meio de Emma, poderia muito bem ser, consumista, tinha quase certeza que não eram nada baratas.

– Na verdade, eu já comprei. – Contou.

– Comprou? – Ganhou um balançar de cabeça afirmativo como resposta. – Okay, então amanhã vamos até a prefeitura e oficializamos. Isso deixa você feliz, ou você prefere toda uma plateia presente? – Só perguntou porque tinha certeza que Emma dispensaria a plateia.

– Nem uma coisa, nem outra, prefiro que façamos isso aqui, agora, só nós. – Regina juntou as sobrancelhas.

– Oficializar para mim, envolve pelo menos um juiz. – Emma negou.

– Esqueça o juiz, quero oficializar entre nós, Deus, o universo, sei lá. Não preciso que ninguém mais saiba, além de você. – Tentou explicar e ganhou uma careta.

– Essa sua versão romântica as vezes me assusta um pouco. – Provocou ao inclinar o corpo para frente e baixar a cabeça, para que sua boca alcançasse a da namorada.

– Acho que você deveria aproveitar, você sabe que isso não acontece sempre. – Riu e concordou. 80% das vezes, os comentários de Emma eram pervertidos.

– Então estamos aqui para casar? – Questionou ao finalmente entender a vontade repentina de Emma de estarem ali.

– Sim. Foi aqui que tudo começou, certo? – Regina lhe sorriu e concordou. – Foi aqui que eu encontrei você, foi aqui que construímos essa coisa, essa ligação que temos. Provavelmente foi aqui que eu me apaixonei por você. – Suspirou. – Então nada mais justos do que virmos até aqui para fazer isso. – Regina pensou em dizer várias coisas, muitas delas melosas, outras bregas, então acabou não dizendo nada. Sabia que não precisava falar nada sobre seus sentimentos por Emma.

– Quem vê você aí, vestida dentro dessa farda, com esse seu ar de superior e essa sua cara de má, jamais imagina que você sequer pensa em falar essas coisas. – Decidiu fazer piada com a situação.

– Você quer por favor parar com isso? É o nosso casamento, respeite. – Pediu, fazendo a morena sorrir.

– Se você tivesse me avisado sobre isso, eu teria pelo menos pedido para o seu pai, afinal, foi descortês da minha parte ter pedido você em casamento e não ter pedido permissão para ele. – Emma riu.

– Acho que meu pai já permitiu muito antes de nós nos darmos conta de que era mais do que amizade. Então não se preocupe com isso. – Regina balançou a cabeça concordando.

– Tudo bem então, vamos fazer isso. Onde estão as alianças? – Emma sorriu, e tirou a caixa do bolso.

– Estão aqui. Ah, só para você saber, custou caro e é você quem vai pagar. – Avisou, fazendo Regina arquear uma sobrancelha.

– Como assim, eu quem vou pagar? – Questionou ao tirar a caixa da mão de Emma.

– Foi você quem me pediu em casamento. Eu só agilizei para que isso realmente acontecesse, mas como a ideia foi sua, você quem paga. – Incrédula, Regina balançou a cabeça negativamente.

– Como você é romântica! – Resmungou ao abrir a caixa e deparar-se com duas grossas alianças de ouro, cravejada de pedras que Regina tinha certeza serem brilhantes. Não sabia se admirava, ou pensava no quanto teria que pagar por aquele monte de dólares em formato de alianças.

– Espero que você tenha parcelado. – Murmurou sem tirar os olhos de lá.

– Suaves duas vezes. – Contou tranquilamente, fazendo a amiga tirar os olhos da sua conta negativa e encarar a loira.

– Duas vezes? – Questionou com incredulidade.

– Regina, para de ser mão fechada. Sabemos que você tem dinheiro para comprar um par dessas à vista todo o mês. – Ao ouvir tamanho absurdo, a morena balançou a cabeça negativamente.

– Nem por isso precisamos rasgar meu dinheiro com esse tipo de coisa. – Reclamou.

– Não é qualquer tipo de coisa, são alianças. Nossas alianças, que vamos usar para todo o sempre. Para de ser mercenária e olha para elas. – Pediu. — Olha, a sua tem um E, gravado no meio da fileira de brilhantes, e a minha tem um R. – Apontou.

– Um R de: rasgo dinheiro. – Resmungou. – Se antes as mulheres olhavam para você e para suas mãos com falta de anéis e se insinuavam. Agora quando olharem e verem esse amontoado de dólares em forma de aliança, vão propor que você vire amante delas. – Emma gargalhou.

– Para de ser rabugenta. Me diz que você não gostou? – Suspirou, tirou os olhos de Emma e voltou a encarar sua dívida. Tirou uma da caixa e a analisou atentamente. Ao ver o que estava gravado na parte interna da aliança, rolou os olhos e pegou a outra. Balançou a cabeça negativamente.

– Você gasta meu dinheiro com alianças caríssimas, e ainda tem coragem de mandar gravar um trecho de uma música da Katy Perry? – Tinha indignação no seu tom de voz.

– Como você sabe que é um trecho de uma música da Katy Perry? – Tentou não rir.

– Vejamos, porque juntando essa, onde está gravado: I will love you, que por um acaso é a minha. Com a sua que está gravado: Unconditionally que por um acaso é o nome da música. Dá o trecho da canção dela. – Emma não conseguiu manter-se séria.

– Chega de reclamar? – Indagou ao tirar a devida aliança da mão de Regina.

– Na verdade não, mas posso deixar isso para mais tarde. – Deu de ombros, enquanto tentava permanecer séria.

– Okay, então me dê a sua mão esquerda. – Pediu e foi atendida. – Você quer que eu faça aquelas promessas de casamento? – Ganhou um balançar negativo de cabeça.

– Não, podemos pular essa parte. – Não conseguiu não sorrir, quando seus olhos pararam na sua mão esquerda, repousada sobre a de Emma.

– Tudo bem então. – Deslizou a aliança pelo anelar esquerdo da amiga. – Eu não sei o que falar. – Admitiu em um sussurro, enquanto admirava a aliança na mão da amiga.

– Você não precisa falar absolutamente nada. – Regina a tranquilizou.

– O que você acha? – Emma questionou, enquanto ainda admirava a mão da finalmente, esposa.

– É linda. – Admitiu pela primeira vez. – Não podemos dizer que você não tem bom gosto. – Também admitiu.

– Claro que não podemos, afinal, escolhi você para casar comigo. – Levou a mão até o rosto da amiga o acariciou e a puxou para um beijo.

– Minha vez. – Regina ronronou contra a boca da amiga, lhe deu mais um beijo e afastou-se. – Sente-se, para que eu deixe essas mãos lindas e habilidosas visivelmente compromissadas. – O deboche em sua voz fez Emma rir, e assim como lhe foi pedido, sentou-se. – Sua mão, canalha. – Pediu e prontamente foi atendida. – Eu não tenho votos, mas... – Tirou os olhos da aliança e os prendeu nos da amiga, que estavam quase fechados pelo sol que se punha a sua frente. — Obrigada por ter sobrevivido, Emma. Obrigada por estarmos aqui. Obrigada por fazer tudo isso fazer sentido. – Agradeceu ao deslizar a aliança pelo dedo da amiga. – Amo você e tudo mais. – Emma suspirou e levou a mão até o rosto da amiga, o acariciando. – E agora? – Regina questionou ao encarar sua... esposa? Pensar sobre aquilo era um pouco estranho.

– Agora eu nos declaro mulher e mulher. – Respondeu sorrindo, com os olhos presos aos olhos escuros. Regina acabou sorrindo também e assentiu.

– Nunca se vá, Emma. Fique comigo até mesmo quando eu não for mais tão agradável aos olhos. – Pediu.

– Eu vou sempre estar onde você estiver. – Prometeu. – E você sempre vai ser agradável aos meus olhos, Regina Mills, sempre. – Garantiu. – Agora o que você me diz de beijar a noiva? – Sugeriu ao inclinar o corpo para frente e segurar o rosto da amiga entre as mãos.

– Acho uma ótima ideia. – Pendurou os braços no pescoço da mulher e juntou os lábios aos dela, oficializando aquele compromisso, mesmo que o mesmo, estivesse há muito oficializado.

Seus olhos estão fixos nas nossas mãos unidas, para ser mais precisa, em nossas alianças. O sorriso bobo em seu rosto acaba me contagiando e me fazendo sorrir também. Sua mão aperta a minha e ela suspira.

– É uma bela história, apesar de alguns pesares, tivemos vidas maravilhosas. – Balanço a cabeça concordando. – Eu tive uma vida maravilhosa. Você foi uma pessoa maravilhosa, ainda é. Sou alguém de muita sorte. – Tira seus olhos das nossas mãos e me encara. – Obrigada por isso! – Aponta ao nosso redor. – Por tudo isso.

– Eu é quem sou alguém de sorte. – Minha mão vai até seu rosto, o afago, o que a faz fechar os olhos. – Obrigada você, Regina Mills, por ter me escolhido, por ter me deixado chegar perto, por ter confiado em mim, em nós. Você me disse naquela carta que sou, ou era eu, a primeira lembrança que você tinha, quando pensava sobre a vida. – Sorrio. – Você também é minha primeira lembrança, e a segunda e a terceira. Pensar sobre a minha vida, é pensar sobre você. Direta ou indiretamente, você faz parte de tudo que eu guardo aqui. – Bato o indicador na têmpora. – Você fez tudo funcionar, sabe? Tudo o que eu tenho, o que consegui, quem eu sou, devo isso a você. Eu não sei o que teria sido da vida, se você não tivesse me aceitado de volta. Provavelmente o tráfico já teria me matado há algum tempo, ou eu acabaria meus dias na prisão. – Faço uma pausa. — Você me fez enxergar a vida, as oportunidades, as coisas boas que muitas vezes se perdem em meio a tantas coisas ruins que acontecem nesse mundo. Você me fez conhecer o significado de esperança, você me fez perder o medo de sonhar, de planejar. – Suspiro. — Você se tornou vital para mim, não existe Emma sem Regina, pelo menos não uma Emma que valha a pena. Essa coisa que nós temos, essa ligação, esse amor, é considerado utópico, sabe? Amor nos dias de hoje é algo que tem prazo de validade, e como você também disse, nós sobrevivemos a isso, ao tempo, a validade que impuseram a essa palavra. Somos um caso raro, Regina Mills, somos duas sobreviventes aos oitenta anos de idade. A verdade é que todos querem ser amados, mas poucos querem amar, poucos querem se comprometer, poucos entendem o significado disso. – Lhe sorrio.

– Eu espero, na verdade, rezo todas as noites, e peço a Deus, para que na próxima vida, nós continuemos sabendo amar, para que continuemos sendo um caso raro. Peço para que seja sempre você, eu preciso que seja sempre você. Peço para que comece como começou nessa vida, com uma bela amizade, que com o tempo, que sem percebermos, evoluiu e tornou-se isso que temos até hoje. Não me importo em como venha a terminar, não me importo em de novo, ter que lembra-la, não me importo, tudo que me importa é que continue sendo você. – Seguro seu rosto entre as mãos, me aproximo, e junto nossos lábios. – Amo você! – Sussurro contra seus lábios, que agora formam um sorriso.

– E eu amo você! – Também sussurra. – Eu continuo amando você, por favor, acredite. – Balanço a cabeça afirmando e volto a beija-la.

– Eu sei, eu acredito, eu continuo vendo nos seus olhos. – Lhe garanto. – Nós vencemos, Regina, saímos vencedoras dessa loucura que chamam de vida. Nós vivemos, meu Deus, como nós vivemos. – Balança a cabeça concordando, e seus lábios voltam a se juntar aos meus.

A casa interrompe nosso momento, quando me avisa que está na hora dos meus remédios.

– Nunca vou me acostumar com essa coisa interagindo comigo. – Meu murmúrio a faz rir.

– Quem está falando? – Questiona comigo.

– A tecnologia. – Explico. – Não existe uma pessoa física, é só um computador. Algo como, inteligência artificial. – Faço careta, já que não tenho certeza sobre tal coisa. – Não faço ideia de como funciona, mas enfim, fala, ouve, e também tem olhos. – Aponto para as câmeras espalhadas pelos cantos do teto. – Eu explicaria para você todas as funções que tem essas coisas, e as maravilhas que pode fazer, se entendesse algo sobre isso. – De novo ela ri. – Chris adora falar sobre isso, e programar e tentar me explicar. – Sorrio ao ter uma ideia. – O que acha de os chamarmos aqui? – Me olha apreensiva.

– Eu não sei, não sei como me comportar. – Parece receosa.

– Você não precisa se preocupar com isso, eles conhecem você, Regina, e eles amam e seus dias bons. Aposto que virão todos, e trarão pizza. – Esboça um sorriso.

– Você vai ficar perto de mim e me ajudar com qualquer coisa? – Balanço a cabeça.

– Prometo não sair de perto de você. – Me sorri.

– Okay, então os chame. – Concorda enfim.

– Scarlet? – Chamo a casa.

– Sra. Swan? – Enquanto reviro os olhos por ser chamada pelo sobrenome, Regina sorri, aparentemente da tecnologia.

– Quantas vezes já lhe pedir para me chamar de Emma?

– Desculpe, Sra. Swan, Chris me programou para chama-la assim. – Balanço a cabeça negativamente.

– Nós três vamos ter uma conversa muito séria sobre isso depois. – Aviso. – Agora por favor, ligue para Henry e avise que Regina está tendo um bom dia. – Peço.

– Gostaria de falar alguma coisa, senhora? – Gosto da ideia.

– Por que não? Para que câmera eu olho?

– Qualquer uma, vocês ficam bem em todas. – Seu elogio nos faz rir.

– Regina, olhe para aquela. – Aponto para a que está em nossa frente. – Hey, garoto! Tenho uma ótima notícia para você hoje. – Conto sorrindo. – Vou deixar sua mãe lhe contar. – Tiro os olhos da câmera e me volto para Regina. – Fale com ele. – A incentivo, enquanto ela olha desconfiada para as câmeras da casa.

– É só falar? – Balanço a cabeça assentindo. Ela suspira e olha para frente. – Oi, Henry! Não sei exatamente o que dizer para você, na minha cabeça, você é só uma criança de treze anos, mas pelas fotos e pelas coisas que Emma me contou, sei que estou muito atrasada. – Ela suspira. – A sensação que tenho é que dormi durante muitos e muitos anos, enquanto vocês viviam e agora eu me sinto um pouco perdida. Venha me ver, querido, venha me dar um abraço, me falar sobre você e por favor, se possível, traga também meus netos e a sua esposa. Um beijo. – Tira os olhos da câmera e se volta para mim. – Está bom assim? – Lhe sorrio e afirmo.

– Está ótimo, não está Scarlet?

– Está ótimo, Sra. Mills, a Sra. Swan não faria melhor. – A implicância dessa coisa comigo, faz Regina rir.

– Chris! – Olho em direção a câmera. – Nós vamos conversar seriamente sobre a educação que você anda dando para essa coisa. – Aviso. – Scarlet, envie isso para Chris e o anterior a Henry. – Ordeno. – Ao resto da família apenas avise sobre Regina. – Peço.

– Sim senhora.

– Ótimo, agora pode ir, desligar, parar de espiar ou sei lá o que você faz. – Quando nos convenceram a instalar esse negócio que as crianças chamam de inteligência artificial, confesso que fiquei um tanto quanto relutante, já que a tal Scarlet vê e sabe de tudo, e quando digo tudo é tudo mesmo, mas Regina acabou me convencendo. “Vamos ser senhorinhas tecnológicas” foi o que me disse. Scarlet e ela foram boas amigas, até Regina esquece-la. Agora é a essa tal inteligência artificial a quem recorro quando a insônia não me deixa dormir. As vezes varamos madrugada conversando.

– Os seus remédios, não esqueça de toma-los. – Volta a me avisar.

– Já estou indo, obrigada! – Lhe agradeço e ela não diz mais nada. Ponho o diário sobre o tampo do piano, beijo o rosto de Regina e me ponho de pé. – Vou até a cozinha tomar os remédios, antes que ela volte. – Aviso.

– Você está doente? – Me lança um olhar preocupado.

– Não, mas eu tenho pressão alta, e colesterol e mais algumas coisas de gente velha. – Balança a cabeça concordando.

– Mas você está bem? – Afirmo.

– Hoje eu estou ótima. – Minha resposta a faz sorrir. – Você me acompanha? – Convido.

– Se você não se importar, gostaria de um tempo com ele. – Aponta para o seu piano.

– Não me importo. – Lhe sorrio. – Ele também sente sua falta. – Balança a cabeça concordando.

– Ninguém da família toca? – Afirmo.

– Kate, ela é quase tão boa, quanto a professora que teve. – Lhe conto. – Você! Sempre que vem, ela toca para você e não importa o que você esteja fazendo, ou quão chateada esteja, você sempre para ouvir. É desse jeito que todos os dias, ela ganha você. – Não me diz nada, apenas esboça um sorriso e concentra seus olhos nas teclas do piano.

Caminho até a cozinha, enquanto ouço as notas saindo vagarosamente, tal coisa me faz sorrir.

– Ela vai lembrar. – Comemoro com Scarlet, ao alcançar a cozinha.

– Sim, senhora. Ela já está lembrando, saíram todas as notas. – Seu tom de voz é tão empolgado quanto o meu.

– É uma pena que você não exista fisicamente, se não lhe daria um abraço para comemoramos. – Ela ri.

– Sinta-se abraçada, senhora.

– Você guardou o momento em que ela lembra-se de mim? – Questiono, enquanto engulo os comprimidos.

– Sim, o momento em que ela lembra, as conversas que o sucederam, os abraços e beijos. Está tudo guardado. – Me conta.

Katy Perry — Unconditionally

– Ótimo, assistirei a tudo mais tarde. – Ao ouvir a melodia que suas notas até então perdidas, dão início, volto a sorrir. – Ela está tocando Katy Perry.

– A senhora não gostaria de ouvir meu comentário a respeito. – Olho de cara feia em direção a câmera. – Desculpe! – Pede.

– Mais tarde vamos conversar sobre seu comportamento, Scarlet. – A aviso. – Agora vou voltar para lá.

– Como quiser, senhora! – Reviro os olhos e não lhe digo mais nada.

– Como quiser, senhora. Sim, senhora. Não, senhora. Parece os sacs de antigamente. – Resmungo enquanto volto para a sala.

Paro ao lado do piano e me encosto no mesmo, enquanto a admiro tocar. Está de olhos fechados, completamente compenetrada na canção, como sempre acontecia quando sentava-se para tocar.

Lembro-me saudosa da menina, da adolescente, da mulher, sentada sobre a banqueta do piano, entregue desse mesmo jeito ao instrumento. A impressão que tenho e sempre tive, é que quando ela senta-se para tocar, se tele transporta para um mundo só seu, gostaria de entender isso, de saber qual a sessão que ela tem ao fazer isso, se é fascinante para quem assiste, imagino que seja extraordinário para ela.

A fim da melodia, suas mãos param sobre as teclas, enquanto mantém os olhos fechados, mas os mesmo se abrem assim que começo a aplaudir.

– Eu amei isso! Há muito tempo você não tocava Katy Perry. – O sorriso desconfiado que me dá, junto com seus olhos que me olham com desconfiança e um certo receio, me fazem parar de aplaudir, e fazem meu sorriso se extinguir. Conheço bem esse olhar, ela já não sabe mais de mim. Fecho os olhos e respiro fundo, em momentos assim tenho vontade de chorar, me descabelar, brigar com Deus.

– Olá? – Respiro fundo uma outra vez, antes de voltar a abrir os olhos.

– Olá! – Mesmo com vontade de chorar, lhe sorrio. Me olha me pedindo uma explicação para eu estar aqui. – Desculpe ter invadido sua casa, é que estava esperando meu filho lá fora, quando ouvi a melodia que você estava tocando. – Começo. – Fazia muito tempo que não a ouvia, então minhas pernas acabaram me trazendo para cá. – Pelo sorriso que se forma em seus lábios, constato que ela não vai me expulsar.

– Não sei de onde a tirei, nem o nome, nem quem canta, apenas surgiu. – Balanço a cabeça concordando.

– Chama-se Unconditionally, Katy Perry quem cantava. – Conto. – Obrigada por a ter tocado. – Sorri e concorda. – Bom, eu vou indo, mais uma vez, me desculpe ter invadido sua casa, e de novo, obrigada pela canção. – Lhe dou as costas e com o coração apressado, dou alguns passos em direção a saída.

– Espere! – Esboço um sorriso ao ouvir seu pedido, então me volto para ela. – Você pode esperar seu filho aqui, se você quiser. – Me convida.

– Você não se incomoda? – Caminho de novo até o piano.

– Não. Fique. – Balanço a cabeça concordando.

– Obrigada! – Sorri e acena com a cabeça.

– Qual o seu nome? – Já perdi as contas de quantas vezes já me fez essa pergunta, e sempre acabo me sentindo como se estivesse respondendo pela primeira vez.

– Emma, Emma Swan! – Seus olhos crescem, o que me faz ter certeza que vai me contar sobre a sua amiga.

– Eu tenho uma amiga que se chama Emma Swan. – Pelo seu tom de voz empolgado, constato que ela e “Emma” ainda são amigas.

– E onde ela está? – Da de ombros.

– Provavelmente em algum beco do bairro, se metendo em problemas e consequentemente me metendo em problemas. – O jeito com o qual me conta, me faz rir.

– E você, qual o seu nome? – Indago.

– Regina Mills. – Se apresenta.

– Oi, Regina Mills, é um prazer conhece-la. – Sorri envergonhada e murmura um “igualmente”. – Você quer ouvir algo curioso? – Balança a cabeça afirmando. – Minha esposa se chama Regina Mills. – Seus olhos voltam a crescer.

– Sério? – Afirmo.

– Sério.

– Que coincidência. – Parece admirada. — E onde ela está? – Me faz a mesma pergunta que lhe fiz, o que me faz sorrir. Aponto para o espaço vazio ao seu lado.

– Posso? – Peço permissão para sentar, e ela assente, chegando um pouco mais para o lado.

– Onde ela está? – Questiono ao sentar-me. – Digamos que perdida, dentro de algum lugar da mente. – Me lança um olhar de desentendimento.

– Desculpe, não consegui acompanhar seu raciocínio. – Me olha com curiosidade, tenho certeza que quer me perguntar muitas coisas, mas se contém.

– Ela tem uma doença que a faz esquecer, então digamos que nesse momento, ela não se lembra de mim. – Explico. Me lança um olhar solidário, olhar de quem sente muito.

– Isso é triste. – Fala em um sussurrar.

– É, é um pouco. – Concordo.

– Ela nunca lembra? – Parece interessada no assunto.

– Às vezes ela lembra, eu a faço lembrar.

– Como? – Seus olhos curiosos estão nos meus.

– O diário. – Aponto para o mesmo que está em cima do piano. – Leio para ela a nossa história, isso a ajuda a lembrar. – Explico.

– Você escreveu a história de vocês duas? – Seus olhos param no diário.

– Sim. – É tudo que lhe respondo.

– Você... – Começa um pouco hesitante, o que me faz crer que ela está pensando em como me pedir para eu lhe contar.

– Você gostaria de ouvi-la? – Ofereço.

– Você se importa? – Volta a me encarar. – Quer dizer, só até o seu filho chegar. – Sorrio e concordo.

– Não, eu não me importo. Desse jeito o tempo passa, certo? – Afirma. – Mas eu gostaria de poder encostar minhas costas em algum lugar. – Peço, sabendo que vai me convidar para irmos até o sofá, onde deixei o diário com a história.

– Vamos até o sofá. – Se põe de pé e me aponta o mesmo. Me levanto e caminho ao seu lado. Pego o caderno que deixei sobre o braço do sofá, antes que ela veja o mesmo. Sento-me ao seu lado, cruzo as pernas e coloco sobre elas o diário que Regina nomeou de Escape.

– Isso é meio que uma fuga da nossa atual realidade, por isso se chama Escape. – Lhe conto o que ela me contou, quando deu nome à história. Ela concorda e me sorri. Ao abri-lo e encarar a letra dela, sorrio. – Aqui vamos nós de novo. – Comento ainda sorrindo. – Preparada? – Ela afirma.

– Sou toda ouvidos. – É o que me responde. Coço a garganta, inspiro o máximo de ar que posso e começo.

Por que uma hora ou outra o passado sempre dá as caras? Por que quando a vida está se ajeitando, algo aparece para bagunçar tudo? Por que enquanto a vida de algumas pessoas simplesmente da certo, a de outras pessoas tende a sempre dar errado? Será que carma existe mesmo? Ou é só o tal do destino cumprindo seu detestável papel?

Talvez exista alguém em algum lugar controlando a vida da gente. Controlando cada ação, cada passo, cada sentimento. Talvez sejamos apenas meras marionetes, nas mãos de alguém muito impiedoso.

Regina estava absorta em pensamentos, enquanto aguardava na pequena fila, sua vez de tirar as malditas fotos... – Leio os primeiros parágrafos e suspiro, pensando no quanto um dia ela me odiou. Ainda fico ansiosa com o primeiro beijo, as borboletas ainda agitam meu estômago a cada declaração, ainda me emociono com as mesmas despedidas, as brigas continuam me deixando nervosa, e os reencontros ainda me fazem suspirar. Não importa quantas vezes já contei, quantas vou recontar, os sentimentos continuam os mesmos, o amor continua intacto.

Fim.

Notas finais
É isso, amiguinhas! Terminamos! Tentei fugir um pouquinho dos finais tradicionais. Espero que tenham gostado, torço para que tenham gostado, e caso isso não tenha sido possível, peço desculpas. Peço pela última vez, a opinião de vocês, peço que deixem saber o que acharam. Mais uma vez, de coração, muito obrigada a todas. Todas que de certa forma se envolveram, que ajudaram, que meio que se teletransportaram para dentro da história, e lutaram com as personagens, que brigaram pela vida delas hahaha. Convido a todas para que se puderem, se quiserem, a acompanharem minhas outras fanfics, que vocês encontram logo ali no meu perfil. E acho que é isso, abraço a todas, e mais uma vez, obrigada! Quem quiser seguir no twitter: @YeahRegal Beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!