Escape
30 Emma é a sua pessoa
Notas iniciais
Regina ficou parada em frente ao enorme portão de ferro, que tinha sido fechado diante de si. Não conseguia se mover, mal conseguia respirar. As lagrimas nublavam seus olhos, e a imagem de Emma na janela lhe acenando, não abandonava sua mente. Pensou seriamente em bater naquele portão, em fazer com que o abrissem.
Queria correr até o segundo andar, se viu desesperada para um último abraço, um último beijo, para ouvir a voz que tanto lhe trazia calma por uma última vez, mas antes que pudesse fazer tal coisa, sentiu braços a envolverem. Robin, era ele quem lhe abraçava, enquanto ela continuava do mesmo jeito, inerte, incapaz de retribuir aquele abraço, incapaz de fazer de conta que estava tudo bem.
Quando por fim o marido desistiu daquela tentativa de abraço, outro par de braços a envolveram, dessa vez os do filho. Deixou suas poucas coisas caírem, e agarrou-se ao garoto. O abraçou apertado, enquanto suas incontroláveis lagrimas caíam e ela soluçava.
Henry nada disse, não sabia ao certo o motivo daquele choro, se era de felicidade, tristeza, saudade, tudo junto, mas de uma coisa tinha certeza, Emma era um dos motivos das lágrimas da mãe. Ele a apertou o mais forte que pôde, em uma tentativa de lhe transmitir segurança, e ficou lá, agarrado a ela por uns bons minutos, só a largou quando o choro cessou e ela afrouxou os braços do abraço esmagador.
Os três não trocaram nenhuma palavra, Robin juntou as coisas da mulher, e caminharam até o carro no mais profundo silêncio. Incomodado com tamanho silêncio, Robin ligou o som do carro, e durante os primeiros dez minutos, músicas foi tudo que ouviram.
Regina tinha fixado os olhos na janela lateral, mas a verdade é que não fazia noção das coisas que passavam por ela. Não conseguia parar de pensar em Emma, ficava imaginando o que estaria acontecendo com a loira naquele exato minuto. Se perguntava se a loira tinha a ouvido na enfermaria, e se tinha, por que não a deixou saber sobre aquilo? Por que não abriu os olhos para que conversassem? Por que a deixou ir sem um último abraço? Queria saber como ela foi parar na janela da “despedida”. E queria saber também se aquilo lhe causaria algum castigo. Não queria que Emma voltasse para solitária, sentia pavor só de pensar sobre tal coisa. Pediu a Deus, para que Ruby tivesse conseguido leva-la de volta a enfermaria, e para que a lábia de French, tivesse conseguido convencer a enfermeira a relevar qualquer coisa.
– Você quer ir para casa, quer passar no café? O que quer fazer, querida? – Ao ver que a mulher não abriria a boca para interagir, Robin resolveu fazer. Um pouco hesitante descansou a mão sobre a perna da mulher.
– Quero ir para casa. – Respondeu, sem tirar os olhos da janela.
– Ok, então vamos para casa. – O homem resolveu ignorar toda a tristeza e melancolia da mulher, resolveu excluir da memória a ceninha que Regina fez em frente ao portão da prisão, afinal, estava feliz por finalmente tê-la de volta. – Eu preciso voltar ao escritório ainda hoje, então tudo bem se eu deixar você e Henry e ir até lá? Prometo não demorar. – Regina balançou a cabeça em sinal de concordância.
– Tudo bem. – Foi tudo que respondeu. A verdade é que se sentia aliviada por saber que o marido não estaria por perto. Não estava nem um pouco preparada para retomar sua vida de casada. Não tinha clima para aquilo, não tinha a menor vontade de sequer beijar o marido. Precisaria pensar o que faria com seu casamento, não tinha a mínima certeza se poderia de alguma forma conserta-lo.
– Sabe, eu estava pensando, você poderia fazer uma lasanha, daquelas que só você sabe fazer e que não existe receita no mundo capaz de imita-la. – Henry tentou animar a mãe. Pôs a mão sobre os ombros dela, a arrancando um pequeno sorriso.
– Estava com saudades de mim ou da minha lasanha? – Provocou o filho, ao tocar-lhe a mão e acarinha-la.
– De você e consequentemente, da sua lasanha. E da sua torta de maçã e do seu estrogonofe, e das panquecas no café da manhã, e das massas. – Suspirou pensando em todas as gostosuras que sua mãe fazia. – Varias saudades, mãe! – De novo Regina riu, puxou a mão do filho e a beijou.
– Ok, vamos começar pela lasanha.
– Torta de maçã de sobremesa? – Pediu.
– Torta de maçã de sobremesa. – Concordou.
– Ahh, você é a melhor mãe do mundo! – Comemorou, de novo arrancando um sorriso da mulher.
– Então acho que preciso passar no supermercado e comprar o que precisa para essa lasanha deliciosa. – Robin tentou entrar na conversa. – Acho que não temos nada em casa além de...
– Congelados. – Henry falou junto com o pai, arrancando uma careta de Regina.
– Ah Deus! Não quero acreditar que vocês viveram esse tempo todo de congelados. – Reclamou com os dois.
– Nem sempre, as vezes Tinker ficava compadecida e me chamava para almoçar com ela nos finais de semana. A comida dela não é tão boa quanto a sua, mas também não é de se jogar fora e é tipo, muito melhor do que congelados. – Regina sorriu. Se uma vez pensou em demitir a funcionaria por ter cozinhado para seu filho e marido do natal, agora pensava seriamente em agradece-la.
– Que bom que pelo menos as vezes, você se alimentou de comidas saudáveis. Lembre-me de agradece-la. – Robin tirou os olhos do trânsito por alguns segundos para olhar em direção da sua mulher.
– O que aconteceu com a mulher que queria matá-la no natal, por ter ido lá em casa cozinhar para nós? – Indagou. Regina simplesmente deu de ombros.
– Desistiu da ideia. – O homem bufou, e voltar a se concentrar no trânsito. Sabia exatamente o motivo de ela ter “desistido da ideia”, e aquilo o fez apertar as mãos contra o volante.
– Ela é legal, acho que vocês deveriam ser tipo, amigas ou coisa assim. – Henry sugeriu.
– Será que você consegue isso, querida? – Robin debochou. – Digo, talvez você prefira ser “algo a mais” ao invés de ser “coisa assim”. – Regina tirou os olhos da estrada e voltou-se para o marido.
– Quem sabe? Estou aberta para tudo, querido. – Devolveu a provocação, o fazendo fechar a cara.
– O que isso significa? Por que vocês estão falando em códigos? – Henry quis saber.
– Assunto nosso, nada que você precise saber. – Robin avisou, o olhando pelo retrovisor.
– Henry, eu quero saber sobre suas aulas. – Regina mudou de assunto. – Aliás, quero saber porque motivo não está na aula. – Funcionou, Henry ficou enrolado naquele assunto chato até chegarem em casa. Regina era paranoica quando o assunto envolvia o filho e as aulas. Embora o filho tivesse herdado sua inteligência, embora ele tivesse dois anos adiantado, embora sua única nota abaixo de dez fosse em educação física, Regina não facilitava. Era exigente quando o assunto envolvia seu filho e os estudos. Quando Robin estacionou na frente de casa, a mulher ainda reclamava pelo filho ter perdido a tarde de aulas, apenas para busca-la na prisão.
– Querida, não é como se ele fosse reprovar ou ficar menos inteligente por perder uma única tarde. – Robin saiu em defesa do filho. – Ele só queria matar a saudade de você. Não seja mal-agradecida. –Regina suspirou, e desistiu da bronca.
– Hoje passa, mas só hoje, não quero mais saber de você matando aula sem motivo algum. – O avisou, o fazendo prestar uma continência.
– Sim, senhora! Senhora capitão! – A morena não conseguiu não rir da graça do filho.
– Vamos entrar, abusado. – Tirou o cinto de segurança e abriu a porta do carro. Antes que conseguisse sair, Robin segurou seu pulso, a impedindo.
– Henry, você vai na frente, preciso de um minuto com a sua mãe. – O garoto apenas assentiu e mesmo curioso sobre a conversa que teriam, não disse nada, apenas abriu a porta e foi.
– Querida, feche a porta, tenho uma coisa para você. – Regina rolou os olhos e fez o que lhe foi pedido, fechou a porta. A verdade é que estava sem um pingo de paciência para o marido naquele momento. Eles simplesmente não conseguiam mais conversar civilizadamente, sem uma provocação, uma discussão ou acusação.
– E que coisa seria essa? – Indagou com o marido ao voltar-se para ele. O homem lhe sorriu, e tirou a carteira do bolso interno do paletó. Regina soube exatamente do que se tratava ao ver aquela cena. A aliança de casamento. Entregou para Robin minutos antes de entrar na prisão e ele a guardou exatamente lá. Agora infelizmente estava a devolvendo.
Pegou a mão esquerda da mulher, e sem dizer nada deslizou a grossa aliança de ouro branco cravejada de brilhantes pelo anelar dela. Sorriu e beijou sua mão.
– Bem melhor assim. – Enquanto ele sorria, ela tinha vontade de chorar.
– É só isso? – Questionou sem paciência.
– Por que você está brava comigo? – A verdade é que nem Regina sabia o motivo de estar irritada, apenas estava.
– Não estou brava. – Respondeu com rispidez.
– Eu já tirei muita gente da prisão, perdi a conta de quantas pessoas tirei de lá, mas nunca, nunca em todos esses anos, vi alguém triste, irritado, chateado, por ter que sair de lá. Se não for pedir demais, será que você pode esquecer a sua ex-namoradinha, e todo o romance lésbico que vocês tiveram, e dar um pouco de atenção para a sua família? Família essa que foi perseguida por traficantes única e exclusivamente por culpa do seu romance lésbico. – Ouvir a voz de nojo e deboche com o qual ele disse aquilo, fez Regina sentir vontade de virar a mão na cara do marido, mas ao invés de tal coisa, ela apenas respirou fundo, sorriu e o olhou nos olhos.
– Eu nunca, nunca, vou esquece-la, querido! Ela faz parte da minha vida desde que eu me entendo por gente. Não importa em quantas coisas ilegais ela esteja envolvida, não vou esquece-la mesmo assim, não consigo esquece-la, não quero fazer isso. Sabe por quê? Porque eu a amo. E vou continuar amando, mesmo que nunca possamos ficar juntas. – Tentou abrir a porta do carro, mas Robin voltou a agarrar seu pulso, dessa vez sem nenhuma delicadeza.
– Acho bom você me respeitar, senão... – Ela lhe lançou um olhar desafiador.
– Senão o quê? Vai me bater? – Quis saber.
– Não me provoque, Regina. Não faça isso. – Avisou, lhe lançando um olhar ameaçador.
– Eu não vou fazer, se, você colaborar comigo. Se não quer ser provocado, então não me provoque. – Não se intimidou com o olhar. – E se você um dia encostar uma mão em mim, querido, você vai parar na prisão. Quem sabe lá você possa viver sei lá... – Deu de ombros. – Um romance gay. Depois podemos trocar figurinhas sobre o assunto. – Robin apertou ainda mais a mão contra o pulso da mulher, o que a fez bufar pela dor que sentiu.
– Cuidado, querida, cuidado! – Murmurou sem tirar os olhos dos dela, antes de larga-la. Não trocara mais nenhuma palavra, Regina enfim conseguiu sair do carro. Irritada, bateu a porta do mesmo com força, antes de começar a andar pela a grama, em direção a casa.
Suspirou e olhou para as suas mãos. Detestou a aliança grossa e extravagante que tinha no anelar esquerdo. Se perguntou como um dia gostou daquela coisa tão chamativa que chegava a ser brega. Voltou a suspirar quando seus olhos pararam no anelar da sua mão direita. O Anel com pingente do cisne que Emma lhe deu. Aquilo parecia tão mais certo, tão mais leve, tão simples. Parecia pertencer a ela.
Estava tão concentrada naquilo, que não viu quando o filho abriu a porta de casa, liberando Algodão, que correu em direção a morena. Ela só o percebeu, quando o mesmo começou a latir, mas já era tarde demais, não conseguiu firmar os pés a tempo, o que fez o cachorro leva-la ao chão. Ele literalmente a derrubou, não contente com aquilo foi para cima dela, e começou a lambe-la. Não conseguiu não rir com aquilo, abraçou o bicho de estimação enquanto tentava desviar sua boca das lambidas do cão.
– Meu Deus, você cresceu! – Exclamou. – Está um monstro! Não acredito que me derrubou. – Continuava falando enquanto alisava seus pelos. – Eu também estava com saudades. Pensei que nem se lembraria mais de mim. – Continuou com a “conversa”. – Preciso saber de tudo que aprontou. Espero que tenha poupado meu sofá, e as almofadas. Espero também que não tenha se apossado do meu quarto. – Riu quando o cachorro começou a latir, como se estivesse tentando responde-la. – Você vai voltar para a sua cama na garagem, e isso não é discutível. – O avisou.
– Na verdade, ele meio que tomou conta do seu sofá. – Henry contou ao estendeu a mão para a mãe, para ajudá-la a levantar. Regina a pegou, mas ao invés de levantar-se, puxou o filho, o fazendo cair por cima dela.
– Devo ter medo de entrar em casa? – Indagou ao abraçá-lo e aperta-lo com força.
– Não muito. Quer dizer, antes de saímos de casa estava tudo em ordem. – Levantou a cabeça para encara-la.
– Sei... – Murmurou desconfiada, enquanto sorria para o filho.
– Sério. A Tamara veio ontem, então está tudo perfeitamente organizado. – Tamara era a mulher que limpava, lavava, passava e deixava tudo em ordem.
– Abençoada seja a Tamara! – Sorriu ao lembrar-se da mulher, que tanto lhe ajudava a manter aquela casa.
– Mãe? – Pelo jeito que Henry a chamou, Regina sabia que viriam perguntas.
– Sim? – Tirou uma mão do garoto, e a levou até o cachorro, que tinha deitado ao lado deles.
– Por que você estava chorando quando saiu de lá? – A pergunta não passou de um sussurro. Antes de responder Regina suspirou e desviou os olhos.
– Despedidas nunca foram o meu forte. – Foi tudo que respondeu.
– O que aconteceu com a Emma? – Estava preocupado com a amiga. Ainda estava horrorizado pelo que presenciou há alguns domingos. O jeito como a loira chorava agarrada a sua mãe, o desespero dela, o tapa que ela levou do guarda, a tal da solitária. Estava desesperado por notícias dela, mas sempre que questionava com a mãe, ela mudava de assunto.
– Henry, esse não é o momento. – Esquivou-se.
– Quando será o momento então? – Insistiu.
– Depois nós conversamos sobre isso. – Cutucou as costelas do filho. – Agora levanta, vamos entrar. – Henry suspirou e desistiu, sabia que não adiantaria insistir, então beijou a testa da mãe, levantou-se, estendeu a mão para ela e a rebocou do chão.
(...) Depois de inspecionar a casa ao lado do filho e do cachorro, Regina foi até sua adega, enquanto Henry foi alimentar algodão. Ela escolheu uma das suas melhores garrafas de vinho e caminhou com ela até o bar. Ao pegar o saca-rolhas acabou lembrando-se de Emma, da cara de perdida da amiga segurando o instrumento, e tal lembrança a fez sorrir.
Com maestria abriu a garrafa, levou a rolha até o nariz, fechou os olhos e inalou o cheiro da bebida, abriu um sorriso de satisfação com aquilo. Por fim, pegou uma das suas taças, despejou a bebida lá dentro e suspirou.
Estava um pouco perdida em sua própria casa. Não sabia exatamente o que fazer. Levou a sua mão livre até a cintura, enquanto passava os olhos pela sala um tanto quanto enorme. Seus olhos acabaram parando no piano, e suas pernas acabaram a levando até ele.
Sentou-se, deu um gole em sua bebida e depositou a taça sobre o tampo do instrumento. Fez com que sua postura ficasse impecável, estalou os dedos, moveu o pescoço de um lado para o outro, fechou os olhos e lentamente seus dedos tocaram as teclas. Começou uma melodia que não levava a música alguma. Estava apenas dedilhando, desenferrujando os dedos, matando a saudade e mais uma vez lembrou-se de Emma. Do tempo em que elas eram crianças.
Regina estava de olhos fechados há algum tempo, enquanto seus dedos habilidosos pareciam brincar com as teclas do piano. Segundo a partitura a sua frente, ela estava tocando uma música de Beethoven chamada Für Elise, ou coisa assim. Emma mal entendia de inglês, então ler o nome que com certeza não era inglês, dava nó na sua cabeça, aliás, não só o nome da música dava nó na sua cabeça, como todas aquelas notas, ou sabia lá como se chama aquilo, que Regina por um acaso nem estava lendo.
Não fazia a mínima noção de como a amiga tocava aquilo, seus dedos tocavam as teclas brancas e as teclas pretas com perfeição, não bastasse aquilo, as vezes seus pés usavam o pedal ou algo assim. Emma concluiu naquele dia que tocar piano era muito difícil, além de precisar usar as mãos, e os pés, tinha também que pensar e muito, para fazer aquilo tudo funcionar junto, o que a fez decidir que o piano com certeza não seria seu instrumento.
– Como você consegue? – Murmurou admirada.
– Consigo o quê? – Regina perguntou sem parar de tocar, ainda de olhos fechados.
– Tocar essa coisa. – Falou como se fosse obvio. – Pior, além de estar usando as duas mãos, os pés e estar de olhos fechados, você está falando comigo. – Estava perplexa. – Isso é muito injusto. Você é inteligente e tem uma cicatriz maneira, enquanto isso eu sou loira. – Ao ouvir tal coisa Regina começou a rir e desistiu do piano.
– Eu gosto dos seus cabelos loiros. – Abriu os olhos e encarou a amiga, tentando não rir. — E dos seus olhos cor de camaleão. – Emma juntou as sobrancelhas.
– Cor de Camaleão? – Regina afirmou.
– Eles vivem mudando de cor. Quando você está chateada, ficam verdes bem escuros, isso acontece nos dias de chuva também. Quando você está feliz, eles ficam bem claros, quase azuis. E quando você está em um lugar que tem muita luz eles ficam, wow! Super verdes. – Explicou, fazendo Emma sorrir.
– Mais alguma coisa que você gosta em mim? – A amiga balançou a cabeça em sinal de positivo.
– Suas sardas! – Falou ao levar o indicador até o rosto da loira. – Elas são fofinhas. – Emma fez careta, não concordando com aquilo.
– Eu não gosto delas. – Admitiu.
– Mas eu gosto. – Regina respondeu com sinceridade, o que fez Emma já não acha-las mais tão ruins assim.
– Obrigada! – Agradeceu sorrindo, fazendo Regina sorrir junto.
– E eu acho você inteligente, mas você não presta atenção na professora. Em vez de fazer isso você fica viajando na batatinha. – Emma rolou os olhos, Regina viva lhe dizendo aquilo.
– Ela fala muito. Da o maior nó na minha cabeça e aí de repente, eu já estou pensando no que eu vou fazer quando chegar em casa. – Regina balançou a cabeça em sinal de reprovação.
– Você tem que prestar atenção. – Repetiu as palavras da professora, fazendo Emma suspirar.
– Eu prefiro quando você me explica, é mais fácil de entender e menos chato. Acho que quando crescer, você deve se professora. – A careta que a menina fez ao ouvir aquilo, fez Emma concluir que ela não gostou da ideia.
– Não, professora não, porque eu ia brigar com todo mundo, se eles ficassem rindo e conversando em vez de prestarem atenção em mim. – Emma riu com aquilo, tinha certeza que amiga bravinha brigaria mesmo. – Quero ser arquiteta. – Afirmou com convicção.
– E o que é isso? – As sobrancelhas de Emma se juntaram.
– Alguém que projeta casas. – Resumiu, e como Emma sabia que muito provavelmente não entenderia nada sobre aquilo, resolveu não perguntar nada a respeito. – E você, quer ser o quê? – A menina loira sorriu.
– Policial! Para mandar em todo mundo, vou poder mandar até na professora de matemática. E vou poder vestir aquela roupa legal. E andar no carro da polícia e ter um revolver. – A empolgação com que contou aquilo fez Regina rir. – Você acha errado eu querer ser isso? – Regina arqueou as sobrancelhas.
– Não. Por que eu acharia? – Indagou com dúvida.
– Porque a mamãe e o chato do Daniel acham. Eles dizem que eu não posso ser isso, porque é coisa de menino. – Regina balançou a cabeça em reprovação.
– Eu não acho. Acho que você pode ser tudo o que você quiser ser. – Um largo sorriso tomou conta do rosto de Emma ao ouvir aquilo.
– Então eu vou ser policial. – Coçou a cabeça lembrando-se de outra coisa. – Ou talvez eu seja uma rock star. – Ao ouvir uma coisa que não sabia o significado, Regina juntou as sobrancelhas.
– O que é rock star? – Nunca tinha ouvido falar sobre aquilo.
– Uma estrela do rock. – Respondeu como se fosse obvio, e seria, se Regina não ouvisse única e exclusivamente, aquelas músicas chatas. – Regina Mills, você precisa começar a ouvir Rock N Roll, essas músicas que você fica tocando aí são muito chatas e me dão o maior sono. – Foi sincera. – Você precisa conhecer os Beatles, eles foram os maiores rock stars. Vou gravar uma fita para você, e aí você vai aprender a tocar umas músicas legais nesse piano. – Regina negou-se.
– Eu não gosto de rock n roll.
– É porque você nunca ouviu, tenho certeza que vai gostar. Vou até chamar você para tocar na minha banda. – Empolgada com a ideia de ter uma banda, Emma levou as mãos até o piano, e fez ele fazer sons nada melódicos, fazendo Regina fazer careta. – All you need is love, all you need is love, all you need is love, love, love is all you need. – Não contente em maltratar o piano, a menina loira resolveu também cantar, o que fez Regina concluir que se ela quisesse mesmo ser aquela coisa de rock star, precisaria ensaiar muito e fazer muitas aulas de canto, porque tudo bem não saber tocar nenhum instrumento, mas precisava pelo menos saber cantar sem desafinar.
A velha melodia da banda britânica, invadia a sala da morena, enquanto de olhos fechados ela tocava a parte final. Estava tão compenetrada, tão absorta entre a melodia e as lembranças, que sequer percebeu o filho ao seu lado, a admirando tocar algo que não fosse música clássica.
– Love is all you need, love is all you need, love is all you need. She loves you yeah, yeah, yeah! She loves yeah, yeah, yeah! She loves you yeah, yeah, yeah! – Cantarolou a parte final. Sorriu no final da última notada, quando pensou em dar início a outra melodia do quarteto, a salva de palmas de Henry, a fez abrir os olhos. Ao olhar para o lado se surpreendeu com o filho sentando ao seu lado.
– Bravo! – Elogiou empolgado enquanto sorria. – Minha mãe tocando Beatles, isso é... – Procurou uma palavra para tal coisa. – wow! Surpreendente! – Regina rolou os olhos. – Sério, nada contra Beethoven, Mozart, Chopin, e as músicas chatas deles, mas mãe, saber desse seu lado mais rock, é muito... wow. – A morena acabou rindo do jeito empolgado do filho.
– Eu gosto de Beatles. – Passou um braço em volta do pescoço do filho e o trouxe para perto. – Eles me trazem algumas boas lembranças da infância. – Henry a olhou com curiosidade. A mãe pouco falava sobre a infância, era bem difícil arrancar alguma coisa dela sobre tal tempo.
– Tipo quais? – Indagou, na esperança de saber algo mais sobre a mulher.
– Tipo algumas férias de verão, que eu ia acampar com a família de Emma. Todos eles são loucos por Beatles, o que os fazia ser a trilha sonora da viagem. – Sorriu. — Tio David tinha um Volvo velho e comprido, não sei o nome do modelo. Enfim, o toca-fitas do carro não funcionava direito, tinha que dar alguns socos para talvez funcionar. Daniel dizia que era porque ele já estava cansado de tocar sempre a mesma coisa e isso fazia com que Emma brigasse com ele e sempre sobrava para mim, que sentava entre os dois. – Contou saudosa. — Tia Mary ficava possessa com aquelas brigas, o que fazia com que ela brigasse com os dois, brigasse com o tio David, e ameaçasse cancelar a viagem. As coisas só ficavam calmas quando o toca-fitas resolvia colaborar, então todos voltavam ao normal, como se nada tivesse acontecido e nós íamos cantando pelos pulmões, dançando e rindo das coreografias que inventávamos. – Voltou a sorrir. – Nossa, eu realmente gosto de Beatles. – Deu-se conta daquilo.
– Você se divertia? – Regina afirmou.
– Muito! Muito mesmo. – Sorriu, e Henry sorriu junto.
– Por isso você gosta, porque traz boas lembranças. – A morena concordou.
– Muitas lembranças boas. – Soltou com o ar. Henry a analisou por algum tempo, e decidiu ir devagar no assunto “Emma”, se fosse direto ao ponto e perguntasse tudo que queria, a mãe com certeza se esquivaria, então resolveu que não forçar. Gostou da técnica de faze-la recordar, tinha certeza que se investisse naquilo, logo, logo teria todas as suas respostas.
– Então, quer continuar no piano, ou fazer outra coisa? – De propósito, mudou de assunto.
– O que seria outra coisa? – Quis saber.
– Sei lá... – Deu de ombros. – Comer pipoca e assistir algum filme velho. – Sugeriu.
– Me parece uma boa ideia, vamos fazer isso. – Concordou.
– Além de pipoca pode rolar um cafuné, daqueles que só você sabe fazer. – Regina sorriu e voltou a concordar.
– Vamos fazer isso no meu quarto então. Lá o espaço para a sua preguiça é maior. – Henry gostou da ideia.
– Ok, então eu faço a pipoca e você vai escolhendo o filme. Só por favor, não escolha nenhum muito de mulherzinha. – Fez cara de nojo, fazendo Regina rir.
– Sabe, eu conheço uma pessoa que fazia essa mesma cara quando o assunto era filmes de mulherzinha, hoje ela vive falando sobre esses filmes. Então cuidado com o que você fala, rapaz. – Ele mostrou a língua para mãe.
– Além de ser fã da Katy Perry, Emma também gosta de filmes de mulherzinha, mais um ponto negativo. – Não precisa perguntar para mãe sobre a pessoa, para saber quem era. Pôs-se de pé, e saiu dali reclamando sobre aquilo, o que fez Regina sorrir e balançar a cabeça.
Suspirou, pegou sua taça de vinho e encarou as escadas. Pensou sobre seu quarto, na verdade, pensou sobre com quem o dividia. Se viu tentada a mudar-se para o quarto de hospedes, mas naquele momento aquilo só tornaria tudo ainda pior, então suspirou derrotada e fez suas pernas a levarem para o quarto que um dia ela adorou dividir com Robin.
Ao chegar no mesmo, depositou sua taça de vinho em cima do criado-mudo e foi em direção ao closet, onde guardava suas caixas de filmes antigos. Bufou, ao ver o quanto a parte de Robin, estava desorganizada. Por um momento pensou em arruma-la, mas como ela era sua mulher e não sua empregada, decidiu que faria ele fazer aquilo.
Fez seu cérebro bloquear aquela bagunça e foi até seu lado do closet, abaixou-se e puxou as duas caixas. Antes de voltar a ficar de pé, seus olhos passaram por uma outa caixa, uma caixa há muito tempo esquecida e ignorada por ela.
Desistiu dos filmes, e pegou a valha caixa de fotos, caminhou com ela até a sua cama, onde sentou-se, depositou a velha caixa de madeira e ficou a encarando. Todo seu passado estava lá dentro. A infância, a adolescência o começo da vida adulta. Lembranças das quais por muito tempo ela fugiu e tentou apagar. De repente estava com uma vontade enorme de revive-las, de recordar, de ter alguns minutos de felicidade. Não tinha mais medo de sofrer, pelo contrário, talvez aquelas fotos a ajudassem a se sentir menos mal.
– O que tem aí dentro? – Henry, que acabou voltando sem a pipoca já que a mesma tinha acabado, apontou com a cabeça para caixa, enquanto olhava a mesma com curiosidade.
– Fotos. – Regina lhe sorriu. – Vem, sente-se aqui. – Bateu com a mão ao seu lado. Depois de abandonar os tênis pelo meio do quarto, o garoto mergulhou na cama. Apoiou os cotovelos na mesma, e descansou o queixo entre as mãos
– Que tipo de fotos? Nunca vi essa caixa antes. – Regina nada disse, apenas abriu a caixa e puxou uma foto qualquer.
– Do tipo velhas. – Avisou ao entrega-la ao filho, que prendeu os olhos na mesma.
– UAU! Como seu cabelo era comprido. E o seu sorriso? Olha como era enorme. E essa sua cara de adolescente? Ah meu Deus! Nunca tinha imaginado você adolescente. – Murmurou admirado, fazendo a mãe rir. – Essa é Emma? – Perguntou só por perguntar, tinha certeza que era Emma, só que com cara de adolescente. Sorriu para a foto, a loira estava com o braço em volta do pescoço da sua mãe, enquanto beijava o rosto dela.
– Sim. Foi minutos depois dela receber a notícia que tinha passado na prova final de matemática. – Sorriu ao lembrar. – Ela ficou uma meia hora me bajulando, abraçando, beijando e agradecendo por tal feito. – Henry sorriu junto com a mãe.
– Nunca vou entender essas pessoas que não entendem matemática. – Comentou com a mãe que riu e concordou com a cabeça. – Bonita a foto, você parece tão... feliz. – Não tinha outra palavra que definia o sorriso largo da mãe naquela imagem. — Tem mais? – Regina afirmou.
– Tem muito mais. – Colocou a mão dentro da caixa e puxou outra foto. – Nossa! Não lembrava dessa. – Comentou consigo, sorrindo.
– Acho que nunca tinha visto uma foto sua de quando era criança. – Henry pegou a foto da mão da mãe. – Como a sua cicatriz era grande. – Murmurou.
– Oh sim, era horrível. – O garoto negou.
– Claro que não! Era ainda mais maneira. – Regina sorriu e balançou a cabeça em sinal de negativo. — Claro que essa loira só pode ser Emma. – Concluiu. A menina não lembrava muito a loira dos dias atuais, exceto pelos olhos.
– A própria. – Regina afirmou sem parar de sorrir para aquela foto, onde elas estavam abraçadas a um boneco de neve. – Nossa, esse inverno fez muito, muito frio. Emma e frio não combinaram em uma mesma frase. – Seu indicador tocou a imagem. – Está vendo o sorriso forçado dela? É porque ela estava quase congelando. – Henry riu. – Foi o primeiro dia de neve, eu estava na casa dela, e quando acordamos o chão lá fora estava completamente branco. Eu quis sair para brincar, e a teimosa veio atrás de mim. – Contou.
– E quase congelou. – Henry concluiu.
– Sim. Quem sofreu as consequências fui eu. Quando entramos eu fui alvo dos pés e mãos dela.
– Hey, é bom saber que não estou sozinho nisso. – Regina riu.
– Com certeza não está. Emma consegue ser tão freezer quanto você. – Contou. – Vocês são parecidos em muitas coisas. – De novo pensou alto. Henry tirou os olhos da imagem encarou a mãe.
– Por isso você gosta dela? Porque ela se parece comigo. – Regina sorriu.
– Por isso também, garoto convencido.
– E mais por quê? – Regina suspirou e desviou os olhos dos do filho.
– Muitas outras coisas. – Soltou com o ar.
– Por que nunca me mostrou essas fotos antes? – Resolveu arriscar e tirar sua mãe da zona de conforto.
– Porque eu não queria vê-las. Não queria recorda-las. – Soltou com o ar. – Isso magoaria muito. – Por alguns segundos eles só se olharam, até por fim Henry decidir levar o assunto adiante.
– Não magoa agora? – Negou.
– Não. Agora servem como antidoto para a saudade. – Foi sincera.
– Você... você ama ela? – De novo seus olhos ficaram presos uns nos outros, antes de lentamente Regina assentir com a cabeça.
– Sim, eu amo. – De novo foi sincera.
– Como amiga? – Quando a mãe desviou os olhos, Henry teve a confirmação que não, não era só como amiga.
– Também como amiga. – Murmurou.
– E mais o quê? – Arriscou perguntar, fazendo a morena respirar fundo. Queria contar para o filho, porque talvez as coisas com Robin viessem a não dar certo. Então seria justo Henry saber a verdade, mas por outro lado, tinha medo da reação dele.
– É complicado. – Murmurou com os olhos fixos na caixa. Henry tocou a mão da mãe.
– Juro que posso entender coisas complicadas, e juro também que não vou ficar bravo, nem chocado, nem nada. – Regina esboçou um sorriso e concordou com a cabeça.
– Lembra quando você tinha dez anos e chegou em casa falando sobre Anna? – A pergunta fez as bochechas do garoto ganharem cor. – Você me falou: “mãe, ela é tão linda de vários jeitos diferentes. E os olhos dela, acho que eles sorriem para mim e quando isso acontece meu coração fica louco. Acho que vou pedi-la em casamento. ” — Sorriu com a lembrança. – Foi mais ou menos desse jeito que me senti quando conheci Emma. Ela era linda de vários jeitos diferentes, era não, é. E os olhos dela, depois desses anos todos, eles continuam sorrindo para mim e meu coração continua ficando louco com isso. – O tom carinhoso com o qual contou aquilo ao filho, o fez sorrir. – Eu a amo, Henry! Amo de todos as formas possíveis de amar. Amo por tantos motivos, tantas razões e loucuras. – Suspirou. – Acho que sempre a amei. Primeiro, amei aquela menina hiperativa, que falava pelos cotovelos, não parava um minuto, e achava minha cicatriz o máximo. Amei ainda mais na primeira vez que ela me abraçou e se ofereceu para sofrer comigo, no dia em que a minha mãe morreu. – Suspirou. – Amei quando ela pegou minha mão e me acompanhou em um choro silencioso, enquanto baixavam o caixão. – Limpou uma lágrima que deixou escapar. – Amei nas madrugadas insones em que ela apareceu com um pote de sorvete e um saco de paciência enorme para me ouvir. E todos os filmes de terror que ela assistiu comigo, mesmo morrendo de medo, a amei por isso também. Amei por ela ter me despertado de muitos pesadelos, me abraçado e prometido que tudo ficaria bem. Amei por todos os segredos que ela guardou, mesmo quando eram bobinhos. – Sorriu. – Amei também por ela ter me feito gostar de rock. – Fez careta lembrando de algo. – E quando ela fez com que Daniel e eu nos beijássemos, nossa eu a amei muito! – Henry acompanhou a mãe na careta. — Por todos esses motivos e inúmeros outros, um dia me peguei apaixonada por ela. Já faz algum tempo, eu tinha recém dezenove anos, mas desde então, venho a amando. – Henry não sabia exatamente o que dizer. Aquela era a primeira vez que ouvia a mãe falando abertamente sobre a amizade que teve com Emma. Sabia que elas tinham sido amigas, mas jamais imaginou o tamanho daquela amizade. A loira das tatuagens e sua mãe se conheciam praticamente desde sempre. Sentiu-se bem em saber que Emma esteve com Regina nos piores momentos da vida da morena, era bom saber que alguém consolou sua mãe, bom saber que um dia ela falou sobre o assunto proibido, que era a morte de Cora, com alguém. Bom saber que a mãe não sofreu sozinha. Mas também era estranho, quer dizer, ele nunca imaginou aquilo. Sua mãe não só foi apaixonada por Emma, como com toda certeza do mundo, continuava sendo. Aquilo o fez ter certeza que elas tiveram mesmo alguma coisa na prisão, como o guarda idiota que bateu em Emma, sugeriu.
– Eu não sei o que dizer. – Foi sincero.
– Você não precisa dizer nada. Só respondi o que você perguntou, certo? – Levou a mão até os cabelos do filho.
– E o meu pai, você nunca gostou dele? – A pergunta fez Regina suspirar.
– Claro que gostei, acho que ainda gosto, mas é diferente. Seu pai e eu temos uma história juntos, temos você. Seu pai me deu o que eu mais amo no mundo, que é você. — O garoto deixou a cabeça cair sobre a cama, e virou-se, ficando de barrigada para cima. Seus olhos voltaram a procurar pelos olhos da mãe.
– Você gosta dele, mas de verdade, verdadeira, você ama ela, certo? – A mulher esboçou um sorriso e assentiu. – Eu não entendo. Por que vocês não ficaram juntas?
– Emma teve medo. Medo que um dia eu fosse cansar e desistir dela, medo da reação dos pais, e coisas do gênero, então ela resolveu ir embora e meu orgulho ferido a deixou ir. – Suspirou. – Ouça Henry, ouça com atenção, porque o que eu vou falar, pode um dia fazer toda diferença na sua vida. – Ele concordou com a cabeça. – No dia que você conhecer uma pessoa que consiga arrancar um sorriso seu, quando você estiver se sentindo a pessoa mais triste do mundo. Que prefira ficar em casa assistindo filmes velhos com você, ao invés de sair para uma festa com os amigos. Que faça você gargalhar com piadas sem graça. Que quando abrace você, você se sinta no melhor lugar do mundo. Que lhe ouça com atenção e se preocupe com você, independente do dia e do horário. Que faça seu coração bater rápido, suas pernas tremerem, suas mãos suarem, e as tais borboletas agitarem aí dentro do seu estomago. Que você continue achando linda de várias maneiras diferentes, mesmo sabendo de todas as suas coisas erradas, quando você conhecer esse alguém, não importa se seja homem, mulher, extraterrestre, não importa, não se preocupe com isso, apenas agarre, lute, não desista, porque muito provavelmente você vai estar diante do amor da sua vida. Se você perder isso, você vai sim poder ser feliz com outra pessoa, mas nunca vai ser igual. No final do dia, quando você deitar para dormir, vai sempre ter a impressão de que falta algo, uma parte sua, uma parte quase vital. E é nesse momento, não importa o quão feliz você seja, nesse momento, você vai se sentir a pessoa mais solitária do mundo. E essa solidão as vezes castiga, sabe? Machuca. – Levou a mão até o peito. – Machuca aqui dentro, e infelizmente, não existe remédio capaz de curar isso.
– Emma é a sua pessoa. – Henry não perguntou, apenas afirmou.
– Sim, ela é. – Concordou.
– E pelo jeito, vocês não vão ficar juntas. – Tudo que a mãe tinha lhe falado, o fez concluir aquilo.
– Não, nós não vamos. – Murmurou com pesar.
– Você ama ela, e eu sei que ela ama você. Então não entendo o motivo disso. – Coçou a cabeça. – Mãe, eu amo meu pai, amo você, amo a nossa família, não vou mentir, gostaria que continuássemos sendo uma família. – Regina concordou com a cabeça. – Mas infelizmente meu pai não faz com você, o que Emma faz. Deveria existir um jeito de você conseguir se ver quando está com ela. – Suspirou e pegou a foto que viu a pouco. – Está vendo essa Regina aqui? Ela é muito feliz, da de ver nos olhos, no tamanho do sorriso, no jeito que vocês duas estão abraçadas. Eu conheci essa Regina, tive o prazer de conhece-la, quando fui visitar minha mãe na prisão. Se Emma é a responsável por ela, então eu não posso ser contra isso. Porque eu quero muito, você não tem noção do quanto eu quero, essa Regina da foto em nossas vidas. – Lagrimas vieram aos olhos da mulher ao ouvir aquilo. – Você vai ser sempre a minha mãe e Robin vai ser sempre o meu pai, não importa se vocês estiverem juntos ou não. Mas essa Regina feliz, despreocupada, ouvinte de rock, e várias outras coisas que eu pretendo descobrir, ela só vai existir se estiver com Emma. Eu quero que você seja feliz, mãe. Não só durante o dia, mas a noite também, quero ir dormir sabendo que você foi fazer o mesmo, ou, se não foi, que seja por uma coisa boa, não por essa solidão que você fala. – Por um tempo, Regina não disse nada, apenas alisou os cabelos do filho, enquanto engolia sua vontade de chorar. Foi impossível não imaginar a reação de Emma, se ela tivesse ouvido as palavras de Henry. Impossível não imaginar os dois trocando figurinhas, agora sem mais segredos ou faz de conta.
– Eu não posso ficar com ela, Henry, infelizmente, eu não posso. – Lamentou-se.
– Por que não? – O garoto levou a mão até o rosto da mãe, o acarinhando. – Vocês brigaram naquele domingo, não brigaram? – Regina afirmou em um balançar de cabeça. – Então é só pedir desculpas. Pela cara que ela olha para você, tenho certeza que vai desculpar.
– Nós já nos desculpamos, Henry, mas mesmo assim, não pode ser. – Agarrou a mão do filho e o encarou. – Eu não posso me envolver com ela, e eu preciso que você não volte a falar com ela. – Pediu, fazendo o garoto juntar as sobrancelhas.
– Por que não?
– Sabe os filmes de ação que você vê? Que os caras do mal sempre pegam as pessoas que o mocinho ou a mocinha gostam para fazer chantagem? – Henry afirmou. – É o que vai acontecer conosco caso Emma saia do tráfico. – Ao ouvir tal coisa, os olhos do garoto cresceram. – Sim, ela ainda trabalha como traficante, e vai continuar trabalhando, pelo simples fato de não poder sair, já que sabe demais. – Suspirou. – O chefe dela, ou sei lá o nome que se usa, descobriu que ela e eu... – Hesitou ao continuar. Tudo bem, tinha admitido para o filho que amava Emma, mas aquilo era diferente de dizer que as duas tiveram um caso.
– Que vocês duas estavam juntas. – Deduziu o obvio, fazendo a mãe sorrir um pouco sem graça.
– Isso. Ele descobriu, e então se informou sobre mim. Descobriu onde moro, descobriu sobre você, sobre Robin, sobre a cafeteria, sobre tudo. E nos usou para fazer chantagem com Emma, caso ela queira sair, vai sobrar para nós. – Explicou.
– E aí vocês desistiram? – A morena confirmou com a cabeça. – Qual é, mãe? Existem outros jeitos de se resolver isso.
– Que jeitos, gênio? – Pegou no pé do filho.
– Emma pode denunciar, ele vai preso e pronto. – Regina negou.
– Basta uma ligação dele, e todos morremos. – Ao ver que aquilo fazia sentindo, o garoto suspirou frustrado.
– Então, podemos fugir. – Ao ouvir a mesma ideia que Emma teve, saindo da boca do filho, Regina acabou sorrindo.
– Viver como fugitivos? Não ver mais a nossa família, não poder voltar para o nosso país? Acha mesmo que isso me faria feliz? – De novo a resposta da mãe o frustrou.
– E se você ignorar esses “detalhes” da vida dela e ficar com ela mesmo assim? – Ao ouvir tamanho absurdo, Regina balançou a cabeça em sinal de descrença.
– Você está louco? Ser mulher de traficante? Posso dizer para você como essa história terminaria, ou na prisão e dessa vez para sempre, ou sete palmos abaixo da terra. – Falou bastante séria, ainda incrédula pelo que tinha ouvido. – Não só eu, como você também. Você tem noção que nos usariam sempre, para fazer chantagens com ela? – Estava um pouco irritada.
– Já passou pela sua cabeça, que isso pode acontecer mesmo que vocês não estejam juntas? – Já. Regina já tinha pensado muito sobre aquilo, mas não tinha o que fazer.
– Sim, talvez isso venha a acontecer, mas só talvez, se ficarmos juntas, com certeza vai acontecer. – Suspirou. – Ouça, Henry, não tem jeito, acredite, pensei muito sobre isso e ficar longe é a melhor opção. Se eles verem que nós não temos mais nada, que Emma superou, que seguiu em frente, não vão mexer conosco. – Explicou. – Para isso eu preciso da sua colaboração. Sei que Emma tem o número do seu celular, se por um acaso um dia ela ligar, você não vai atender. Está entendendo? – Henry não gostou nada, nada de ouvir aquilo.
– Mas... – Tentou começar e foi impedido.
– Henry, ouça, você não tem noção do quão difícil foi dar as costas para ela, não tem noção do quanto eu sofri para pôr um fim a tudo. Então por favor, Henry, por favor, colabore comigo. Porque se algum dia alguma coisa acontecer com você, por causa dessa história, eu não sei, provavelmente eu acabo matando Emma e depois cometo suicídio. – O tom totalmente sério com o qual a mãe disse aquilo, fez Henry balançar a cabeça e acatar sua decisão. Não queria um final trágico para aquela história, e pela a cara da mãe, não teve dúvidas que ela cometeria tais atrocidades caso um dia alguma coisa acontecesse.
– Ok, se é o que você quer, ok. – Ela afirmou.
– Sim, é o que eu quero. Sinto muito, estragar a amizade de vocês, mas tem que ser assim. – De novo ele concordou.
– Tudo bem. Acho que vou sobreviver. – Ela tentou sorrir, e deitou-se ao lado do filho.
– Nós vamos! – Murmurou ao puxa-lo para seus braços.
– Eu mais do que você. – Sussurrou.
– Não se preocupe comigo, Henry. Não quero que você faça isso. – Ele suspirou e aninhou-se melhor nos braços da mãe.
– Então, você beijou a loira das tatuagens... – A conclusão do filho fez as bochechas da morena ganharem cor.
– Por favor, Henry! – Resmungou totalmente sem graça.
– Você viu as tatuagens dela? – Se Regina já estava sem graça, tal pergunta a deixou ainda pior.
– Henry, nós podemos por favor mudar de assunto? – O garoto riu ao ver o quanto sua mãe estava envergonhada.
– Você viu as tatuagens dela. – Concluiu. – Ok, vou parar de envergonhar você. – Avisou. – Que tal você me mostrar mais das suas fotos e me contar sobre elas? – Foi o que eles fizeram, passaram o resto da tarde absortos nas fotos e suas histórias, e só puseram fim aquilo, quando Robin chegou em casa e olhou com cara de poucos amigos, aquelas imagens espalhadas pela cama.
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