Passaram-se duas semanas quase sem que Andie percebesse. A rotina na casa era sempre a mesma: as duas acordavam – Beatrice vinte minutos antes de Andie, despertando-a com os sons da arrumação -, tomavam o desjejum e procuravam algo para ocupar seu dia. Andie pegava algum livro aleatório na pequena biblioteca particular de Ernest e o devorava enquanto Beatrice organizava a casa com a ajuda de sra. Doherty.

A mulher baixinha e roliça, de cabelos brancos, parecia estar o tempo todo ocupada com algum afazer doméstico. Desde tirar o pó até recepcionar convidados – coisa que ela fazia com surpreendente perspicácia. Andie nunca havia conversado com ela outro assunto que não fosse o tratamento da casa, mas pelo que pode perceber era uma mulher irreverente e rígida, pouco dada a conversas fúteis e mexericos.

Beatrice e Andie passavam quase o dia todo ocupadas com suas atribuições, parando somente na hora em que Ernest chegava, por volta das seis. Depois disso se ocupavam em organizar a mesa de jantar e comiam os três juntos, sem conversar. Beatrice costumava fazer um ou outro comentário, procurando ser simpática e educada, como era de seu feitio, mas Andie, com sua personalidade orgulhosa e uma teimosia indômita mal se dignava a desejar boa noite antes de subir para seu quarto e trocar algumas horas de papo com Beatrice.

Naquele dia não foi muito diferente. Quando digo “muito diferente” refiro-me à chegada inesperada de um parente do sr. Raytower.

—Meu sobrinho, Charles Bayhart.

O jovem magro, de olhos muito brilhantes e cabelos lisos que lhe caíam pelos ombros, se curvou em uma reverência sem tirar os olhos de Beatrice, que corava violentamente e piscava de forma nada lisonjeira.

—É um prazer conhece-la, senhora. – Charles beijou a mão de Andie.

—E é igualmente um prazer conhece-la, senhorita. – ele beijou a mão de Beatrice por mais tempo, tendo a ousadia de olhar para ela enquanto o fazia.

—Charles é um famoso advogado em Liverpool e resolveu passar uma temporada conosco. Contei-lhe sua situação financeira, senhora Marshall, e ele se interessou muitíssimo. Crê poder ajuda-la mais do que já estou ajudando.

—Ora, mas que notícia boa! Agradeço profundamente seu interesse, senhor Bayhart. – Andie falou, curvando os ombros ligeiramente. – Quantos anos tem? Parece ser muito jovem para um advogado.

—Formei-me antes que meus colegas de classe, senhora. Sempre fui um aluno muito dedicado e meu pai passou muitos ensinamentos da área da advocacia. Orgulho-me em dizer que era o primeiro de minha sala e sou um profissional reconhecido em minha cidade. Já visitou Liverpool?

—Ainda não tive o prazer, mas espero poder fazê-lo em breve.

—É uma cidade magnífica com um rio igualmente belo. As mulheres são recatadas e as crianças incrivelmente educadas. Não é o que se espera de crianças, é claro, mas em Liverpool gostamos de dizer que “tudo é possível”.

—Parece tentador. Prometo visitar Liverpool tão logo resolver minha situação financeira, senhor Bayhart. – Andie tentou ser clara e direta sem parecer deseducada, pois queria encerrar logo a conversa. Não estava com a mínima vontade de ouvir Charles discorrer sobre sua cidade mãe.

Ernest pareceu entender, não se mostrando magoado, contudo, e emendou outra conversa:

—Charles, meu querido sobrinho, acomode seus pertences em meu quarto. Receio não ter muito espaço para você, mas ofereço de bom grado minha cama.

—E onde o senhor irá repousar?

—Tenho um divã na biblioteca que me serve muito bem de cama. Não se preocupe comigo. Deve estar com fome, não?

—Estou ficando verde de fome, tio. Agradeço se tiver algo para o desjejum.

—Leve suas coisas para cima e depois peça à senhora Doherty um pouco de torradas e creme azedo. O jantar sairá em breve e não quero que perca a deliciosa refeição.

—Com licença, tio. – Charles se curvou brevemente em reverência a Ernest, dirigindo-se em seguida às duas belas moças prostradas a sua frente. – Senhora Marshall... senhorita Beatrice. – para ela Charles falou de forma mais suave, quase sussurrando seu nome, deixando-a arrepiada desde os dedos dos pés à raiz dos cabelos castanhos.

Depois que ele se retirou Andie expressou sua opinião:

—Charles parece ser realmente competente, sr. Raytower. É filho de seu irmão?

—De minha falecida irmã.

—Minhas condolências. – Beatrice disse.

—Sinto muito. – Andie falou de forma curta, mas genuína – Ela pode pagar pelos estudos dele enquanto estava viva?

—Na verdade minha irmã faleceu há quase dez anos. Charles foi criado pelo pai durante a maior parte da vida, mas eles não tinham condições financeiras para arcar com seus estudos. Coube a mim, no final, colocá-lo na universidade e assegurar que ele sairia de lá formado e empregado. Tenho muito orgulho por ter proporcionado isso a ele.

—Foi um belo gesto, sr. Raytower. – Beatrice elogiou, emocionada.

—Qualquer tio faria o mesmo pelo sobrinho. – Andie retrucou.

—Qualquer tio faria o mesmo pelo sobrinho se tiver condições para isso. Minha sorte foi que, na época, surgiu uma oportunidade única de cuidar das finanças de uma família muito abastada em Cambridge, e consegui pagar a universidade tranquilamente durante dois anos.

—E depois? Afinal, ainda faltavam mais dois anos para Charles se formar. – Andie rebateu.

—Depois Charles precisou encontrar trabalho. Ele mesmo admite ter sido a fase mais difícil de sua jovem e inexperiente vida. Conciliar cinco horas de estudo com quatro de trabalho não foi tarefa simples, mas ele aguentou o tranco. Charles sempre teve afinco e determinação.

—São características admiráveis para alguém tão jovem. – Beatrice reconheceu, um sentimento desconhecido crescendo dentro do peito.

—Sem dúvidas. Tenho a ousadia de dizer, madame, que Charles dará um esposo e pai perfeito algum dia. Não preciso nem falar de seus feitos como advogado. Eles já estão adequadamente explícitos na forma como é tratado em Liverpool.

—Fico feliz por ele. – falou Andie, sem carregar emoção alguma na voz. Ela não era dada a elogios ou demonstrações de sentimentos. E, no fundo, não gostara muito de Charles. Lhe parecera um homem prepotente e orgulhoso demais. Claro que Beatrice compartilhava de opinião contrária, a julgar pela maneira que bebia as palavras de Ernest sobre o jovem. Não seria Andie a estragar a visão de Beatrice.

—É uma pena as mulheres não poderem advogar. – Ernest confessou, para surpresa de Andie e Beatrice.

—O senhor é defensor das mulheres? – Andie indagou, levantando uma das sobrancelhas.

—Claro. Sou um homem revolucionário, sra. Marshall.

—Isso é incrível! – Beatrice exclamou, quase dando pulinhos de êxtase. – Charles pensa como o senhor?

—Charles é do tipo conservador, mas não creio que se oporia a ter uma esposa advogada.

—E o que exatamente o senhor defende? – Andie perguntou, de súbito.

—Como é?

—Quais direitos femininos o senhor defende?

—Defendo a entrada de mulheres em universidades, a igualdade nas relações matrimoniais, o direito de voto, de governo... Mulheres e homens não são muito diferentes. A única coisa que os distingue é a anatomia. Elas não nasceram com uma perna a mais, nem com orelhas peludas e grandes... Nunca fui capaz de entender o porquê de tanto estardalhaço quando digo isso, nem quais acontecimentos levaram a uma segregação social tão grande.

Apesar de Ernest ter subido alguns pontos no conceito mental de Andie, seu orgulho não permitiria que dissesse, então ela se limitou a falar:

—Sinceramente, sr. Raytower, não esperaria tal opinião do senhor tanto quanto não esperaria rabos nascerem em aranhas.

—É uma comparação peculiar, senhora. – Ernest disse, fazendo uma cara engraçada na tentativa de encaixar a metáfora em sua cabeça. – Mas obrigado pelo elogio.

—Senhor Ernest, fico imensamente feliz por ouvir tal coisa. – Beatrice quase gritou, não cabendo em si de felicidade.

—Ora, senhorita Beatrice, sou um contador, não um homem das cavernas. – ele falou sério, mas um brilho de divertimento passou pelos olhos azuis e provocou uma série de risadas em Beatrice.

—Acho melhor me arrumar para o jantar. – Andie anunciou, piscando para Beatrice entender o recado e segui-la para o quarto. – Se nos der licença, senhor.

Andie saiu tão rápido que fez seu vestido rodado sem mangas esvoaçar, soltando o cheiro de margaridas no ar. Ernest inspirou o perfume com a indiferença de um casal apaixonado. Contra a vontade o cheiro embaralhou seus sentidos e entorpeceu a ponta dos dedos, confundindo-o por um momento fugaz.

Beatrice e Andie subiram as escadas. A primeira estava feliz pela conversa com Ernest e mais empolgada ainda com a iminência de jantar na companhia de Charles. Já nossa protagonista carregava um embrulho no estômago que nada tinha a ver com o pão recheado que comera mais cedo.

Chegada a hora do jantar Andie se sentia mais nervosa que nunca. A simples ideia de se sentar à mesa com Ernest e Charles deixava seus nervos emaranhados. Beatrice, ao que parecia, não compartilhava dos mesmos sentimentos, e arrumou-se de forma particularmente detalhista e calculada esta noite.

—Vejo que gostou do sr. Bayhart. – Andie comentou enquanto fechava os botões da blusa de seda, tentando incutir tranquilidade e indiferença na voz.

—Ele é fascinante! Um advogado formado e uma pessoa inteligente. Não sei como ainda está solteiro. – Beatrice tinha nos olhos aquele brilho enjoativo tão característico de alguém enamorado.

—Talvez o problema esteja nele e não nas mulheres.

—Nossa, senhora, até parece que não gostou nem um pouco dele. – havia assombro em toda sua expressão, e Andie teria achado engraçado se o sentimento não estivesse sendo dirigido a ela.

—Quando não gosto não gosto e ponto. Minhas primeiras impressões dificilmente erram.

—E quais as suas primeiras impressões dele, então? – Beatrice parou de alisar a saia violeta plissada e cruzou os braços, colocando descrença no rosto delicado com as bochechas salpicadas de vermelho.

—Prepotente, orgulhoso, arrogante... – Andie contava nos dedos. — ... hostil, imaturo... quer que eu fale mais?

—Não vi nada disso nele. – Beatrice fez bico. – Para mim Charles é bonito, inteligente, gentil, simpático e todos os outros elogios que alguém tão jovem e inexperiente poderia receber.

Andie conhecia aquele olhar no rosto da amiga, o havia visto em si mesma diversas vezes ao longo dos anos. A diferença é que Andie sempre fora pé no chão e raramente se deixava guiar pelo que sentia. Beatrice, por outro lado, bebia suas emoções da mesma forma que um viajante perdido bebe água depois de sair do deserto. Tentar teimar com Beatrice agora seria inútil, portanto Andie se concentrou em fechar o restante dos botões e, em seguida, as duas desceram as escadas, silenciosas.

A empolgação e contentamento de Beatrice era perceptível em seus múltiplos detalhes. Desde os olhos claros e viçosos como botões até o rubor que descia pelo decote da blusa de seda repleta de bolinhas brancas. Os cabelos estavam organizados em cachinhos que lhe caíam feito cascatas pelas costas e a doçura de seus lábios fora preenchida com batom rosa e brilho. Apesar de se esforçar para controlar suas emoções, acabou sendo traída pelo tremor na mão assim que levou a taça de água na boca.

—Parece nervosa, senhorita Beatrice... – Charles comentou, genuinamente preocupado.

—Não é nada, senhor... apenas exagerei em um pouco de café mais cedo e estou sentindo os efeitos somente agora. – Beatrice realmente bebera alguns goles de um café amargo e forte preparado pela sra. Doherty, mas isso fora logo que levantou, portanto não havia mais o que se falar em efeitos colaterais da cafeína.

—Gosta de café? – Charles perguntou, passando o indicador pela borda da taça de sua água intocada.

—Gosto muitíssimo. O amargor é revigorante!

—Considero o café uma bebida de mal gosto. Amargo e nada sutil. Como um bom inglês prefiro chá. Ele pode ser adoçado sem ficar ruim e combina com qualquer aperitivo. O que a senhorita pensa sobre o chá?

Andie revirou os olhos. Como era possível que o assunto da noite seria chá?

—Ahhh... chá??? – Beatrice entortou a boca em um visível gesto de desagrado, mas Andie foi em socorro da amiga e emendou:

—Beatrice bebe chá, mas prefere café. Chá é para maricas.

Um silêncio tumular se abateu sobre todos. Andie procurou não olhar para a expressão de ninguém, pois não ia conseguir segurar e acabaria rindo.

—C-como disse, senhora? – Charles gaguejou, embasbacado.

Na verdade, embasbacado seria pouco para descrever sua expressão. Parecia mais que ele havia engolido um sapo muito grande e não tinha como engolir. Mas agora tentava desesperadamente mandar a criatura para dentro, dividido entre o decoro e a dignidade.

—Beatrice é suficientemente independente para gostar do que quiser. Se ela prefere café deixe que beba, ora! E, além do mais, café é infinitamente melhor que chá. O amargo se mistura com o doce e desce pela garganta. Cada gole mais quente que o outro e chegando mais profundo no estômago. O cheiro de café moído é dos deuses, e sua cor é tão forte quanto as cores do céu, perdurando no infinito. Depois de horas, o gosto do café continua na língua, para meu deleite. Se tem algo bom neste mundo tão miserável é café.

Ernest observava tudo atentamente, e vez ou outra dava indícios de querer se intrometer com suas próprias opiniões. Não se sabe o que o impedia, mas ele não proferiu coisa alguma enquanto seu sobrinho e sua cliente discorriam verborragicamente em uma disputa de qual era melhor.

—Chá é elegante. O que prefere, senhora? Um homem com força nos pensamentos ou com força nos braços?

—Algum dia uma guerra foi vencida com conversas? Não. Então podemos ver claramente que café é forte e chá é fraco. Embora eu aprecie um bom chá de vez em quando.

—Com todo respeito a senhora não sabe o que perde bebendo algo tão vulgar feito café quando temos à disposição os melhores chás do mundo! A Inglaterra é a mãe do chá! – ele falou, de forma tão patriótica que deu arrepios em Andie.

—Se a Inglaterra é a mãe do chá então dispenso a maternidade. Não há nada neste mundo que me faça pensar o oposto. Bebo café até morrer. – Andie trincou o maxilar e bebericou sua água, mal sentindo os cubos de gelo lhe entorpecerem a língua, tamanha sua impaciência e consternação.

Graças à intervenção divina de alguma entidade defensora da paz a sra. Doherty chegou com o jantar.

—Guisado de porco com molho de abóbora e ervilhas! – Ernest exclamou, juntando os talheres na mão e cortando a carne suculenta.

—Parece esplêndido! – Beatrice exclamou, com deleite puro puxando seus olhos para baixo. Imediatamente ela começou a comer, sem se preocupar pela primeira vez com a educação.

Andie, com seu orgulho quebradiço, não fez comentários sobre a comida, mas Ernest a observou por cima da taça de vinho francês e pelo que ele entendia de expressões faciais a dela estava muito próxima de contentamento.

—Conte-me, tio, o que fez durante o tempo em que estivemos separados? – Charles iniciou uma conversa mais amena, para alívio de Andie.

—O mesmo de sempre, sobrinho. Trabalho e mais trabalho. Mal paro para comer, quem dirá para gastar o tempo com viagens e eventos culturais.

—O senhor não assistiu a 12 Homens e uma Sentença, devo supor?

—Supôs corretamente, Charles. Como disse, mal sobra tempo para as coisas do cotidiano, quem dirá filmes longos e complexos.

—É excelente! Podemos assistir algum dia.

—Sobre o que fala, sr. Bayhart? – Beatrice indagou, curiosa.

—É sobre um caso de assassinato. O acusado pelo crime está aguardando o veredicto que será dado por doze pessoas. Essas pessoas estão trancadas em uma sala para decidir o destino do jovem. Contudo, onze votam em sua condenação enquanto um fará de tudo para provar sua inocência. O filme retrata perfeitamente o demônio que existe em cada um de nós e como somos facilmente corrompíveis.

—Qualquer um pode ser corrompido com a promessa de dinheiro fácil. – Andie falou, com a voz soturna.

—Não qualquer um, senhora. Se houver alguém de bom coração, com princípios e valores éticos exemplares, não há que se falar em corrução. Só é corrompido aquele que se deixa corromper. Falo isso com toda a experiência que pude adquirir nestes dois anos de exercício da advocacia.

—Eu discordo, senhor.

—Como sempre... – Ernest disse, em um muxoxo que ele pensou ter sido inaudível, mas o olhar enviesado de Andie lhe fez pensar diferente.

—Pense comigo... uma mulher, mãe, de bom coração, não faria mal a uma formiga, se vê sem ter o que dar de comer aos filhos e prestes a morar na rua. Um homem, mal-encarado, lhe oferece dinheiro se ela o ajudar em um assalto. O que acha que ela diria neste caso?

—Este é um caso completamente diferente, senhora... – Charles começou a defender seu ponto de vista, mas foi interrompido por Andie.

—Não vejo nada de diferente. A mulher era boa, mas a urgência de manter seus filhos alimentados foi sua corrupção. Isso prova que toda pessoa, sem exceção, é altamente corrompível. A mente humana pode ser sua fortaleza ou sua queda. Por mais que tente, não consegue fugir de sua natureza.

Pela primeira vez e para sua própria decepção, Charles não tinha argumentos para rebater o raciocínio de Andie. Quando julgava estar preparado para enfrentar qualquer situação meramente parecida com a que via nos tribunais acabou se deparando com uma realidade muito inferior. Aquilo deixou Charles quase no chão não fosse por Beatrice:

—O filme parece ser muito... como posso dizer... estimulante! Por que não assistimos algum dia desses? O que acha, Charles? – Beatrice julgou que chamando-o pelo primeiro nome atrairia melhor sua atenção e poderia tirá-lo da mágoa que ameaçava engolir o brilho inteligente em seus olhos verdes. Ela não julgou mal.

—Eu a convidei primeiro, senhorita. – o divertimento jovial voltava aos poucos para suas feições. – Queira ter o prazer de acompanhar-me em uma exibição no cinema amanhã à noite. Esteja pronta antes das sete.

A animação infantil de Beatrice apagou a cena do jantar quase por completo da mente de Charles, mas Ernest olhava para uma Andie carrancuda com mágoa.

—Tio, gostaria de nos acompanhar? – Charles convidou, torcendo para que o tio não aceitasse por dois motivos muito claros: se Ernest fosse, Andie teria de ir junto, ou a situação ficaria constrangedora; além do mais, Charles estava se interessando muito rápido por Beatrice. Seu jeito doce, meigo e alegre o conquistara quase de imediato, muito diferente da amargura e arrogância que enxergara em Andie. Dessa é melhor manter distância, pensou.

—Não creio que seja apropriado. Ficarei em casa na companhia da sra. Marshall.

A cara que Andie fez ao descobrir que Ernest ficaria com ela valia milhões, e Beatrice quase engasgou com o vinho na tentativa de não dar risada.

—E que companhia... – Charles sussurrou no ouvido de Ernest, tomando cuidado de fazê-lo no momento em que Andie estava ocupada com a degustação do bolo inglês.

O restante da noite transcorreu sem maiores complicações, e Andie e Beatrice se retiraram para o quarto sem terminar o vinho. Andie começava a ficar solta demais quando bebia, cabendo à Beatrice, assim, controlar possíveis transtornos.

—Por que aceitou ir ao cinema com aquele paspalho? – Andie questionou, meio grogue.

—Senhora! – Beatrice ralhou.

—Vai dizer que ele não é intolerante e sem noção?

—Intolerante estava sendo a senhora! Para que foi arrumar briga por causa de chá?

—Eu estava defendendo minha opinião. Para mim é mais importante defender no que acredito do que ajoelhar diante das convenções sociais.

—Isso eu já percebi. Mas, senhora, por favor... eu gosto de Charles. Gosto de verdade. Se a senhora tiver um pouco de consideração por mim, controle suas emoções perto dele. Por favor. – Beatrice suplicou de um jeito impossível de ignorar, então Andie cedeu com um suspiro.

—Tudo bem, Bea. Eu prometo tentar me controlar quando estiver perto dele. Mas não venha me pedir que passe a gostar do sr. Bayhart, pois isso jamais acontecerá! Não confio em pessoas engomadinhas que se acham os donos do universo só porque têm diploma. Desculpe, minha amiga. – Andie chegou mais perto de Beatrice e colocou as mãos em seus ombros frágeis. – Se ele é importante para você então é importante para mim.

—Obrigada, senhora. – Beatrice relaxou de alívio. – Agora podemos dormir?

—Claro. Não estou aguentando mais. Comi como se estivesse indo para a cadeira elétrica.

Depois de darem boa noite e Beatrice começar a roncar baixinho assim que sua cabeça encostou no travesseiro Andie ficou um bom tempo pensando no jantar e nas implicações que ele traria.

Ela passava por um momento difícil. Não tinha mais em quem confiar além de Beatrice e Paul, mas este se encontrava muito longe. Pensar no marido a deixou triste e cabisbaixa, e lágrimas tímidas rolaram pelo travesseiro. Amanhã iria escrever para ele e levaria pessoalmente a carta ao correio. Daria um jeito de ludibriar Ernest e levar Beatrice consigo, alegando precisar de itens pessoais de higiene. Ele com certeza não questionaria isso mais do que o decoro permitia.

A simples perspectiva de escrever para Paul lhe encheu de esperança sólida, tão dura quanto as paredes da Capela Sistina, e Andie pegou no sono recordando daqueles olhos cinzentos cálidos que a olhavam de volta com deslumbramento.

Notas finais
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