Escandalosamente Secreto
4 Conversas e vinho
Com toda a correria do dia em preparar Beatrice para o grande encontro, Andie acabou não tendo tempo de escrever para Paul, mas a carta não passaria do dia seguinte.
Charles e Beatrice saíram por volta da sete, pois pretendiam pegar a última sessão. Como o sr. Bayhart era um homem ocupado não conseguia marcar qualquer compromisso que fosse antes desse horário.
Beatrice estava tão empolgada que não cabia em si. Andie tentou acalmá-la e colocar um pouco de discrição em sua mente agitada, mas percebeu que seria mais fácil fazer brotar chifres com a força do pensamento do que dissuadir Beatrice de toda aquela empolgação. No final, Andie acabou se sentindo culpada por sequer pensar em brochar sua amiga.
—Ele é tão maravilhoso! – ela dizia, enrolando seus cachinhos feitos com bobs mais uma vez. O nervosismo era evidente pela maneira como mexia as mãos, torcendo-as como se quisesse arrancá-las. – Dá para acreditar que um homem tão importante como Charles me convidou para ir ao cinema? – sua voz e expressão eram uma mistura de assombro, encantamento, euforia e ansiedade desmedida.
—Bea, você é linda! Não teria como não olhar para você! – Andie exclamou, impondo uma dose ligeira de bronca.
—Mas sou uma simples empregada. No máximo não passo de uma dama de companhia.
—Isso não importa! Charles gostou de você e você dele. Independentemente de quem seja, quando surge uma oportunidade devemos agarrar. Eu não gosto mais de Charles por ter enxergado a mulher incrível que você é, mas também não desgosto mais dele por isso.
—É que a senhora não o enxerga como eu enxergo!
—É claro que não. Não estou apaixonada por ele.
—Como estou? – Beatrice perguntou, dando uma volta sem sair do lugar.
Beatrice estava esplendorosa. O vestido com estampa de pequeninas flores roxas em contraste com o tom rubi lhe caiu como se tivesse sido feito para ela. Embora pertencesse a Andie, esta nem chegou a hesitar quando Beatrice lhe pediu uma roupa emprestada. O vestido ficou levemente folgado na cintura de Beatrice, pois ela era de menor estatura e ossatura mais fina, mas Andie rapidamente deu um jeito com presilhas. Os cabelos de Beatrice, tão lisos e compridos agora estavam enrolados em cachos perfeitos que lhe chegavam aos ombros, deixando-a parecida com uma fada. O brilho na pele, causado tanto pela maquiagem quanto pela felicidade, contribuía para essa impressão, e ressaltavam sua pele clara e macia. Os sapatos pretos tinham um salto que emitiam um cloc gostoso e suave quando andava. Foi esse barulho que Charles e Ernest ouviram, até mesmo antes de ver Beatrice.
—N-nossa! – Charles exprimiu, gaguejando, deslumbramento e surpresa passando pelo seu rosto. – Quer dizer... está magnífica, se me perdoa a ousadia de dizer, senhorita Beatrice.
Beatrice corava violentamente, ficando quase tão vermelha quanto seu vestido, mas teve coragem de responder e permanecer firme na voz:
—Não é ousadia nenhuma, sr. Bayhart.
—Esta noite pode me chamar de Charles. – ele pediu, estendendo a mão em um gesto de cavalheirismo.
Beatrice aceitou e colocou sua palma com a dele, sentindo arrepios quando suas peles encostaram.
Formam um belo casal, Andie pensou, meio contra sua vontade.
—Devo concordar com meu sobrinho, senhorita. Não haverá dama mais graciosa e elegante no cinema hoje. – Ernest falou, solene e respeitoso. O jeito como elogiou não fora o mesmo de Charles. Enquanto este último olhava Beatrice com paixão e desejo, Ernest a olhava como um pai olharia para a filha.
—Beatrice está escandalosamente linda! – Andie falou, subindo uma oitava na voz.
—E a senhora está escandalosamente resoluta, não é mesmo? – Ernest retrucou.
—Não sou de meias palavras. Falo exatamente aquilo que desejo falar.
Percebendo que ambos começariam a discutir, Beatrice anunciou:
—Vamos antes que fique tarde! – ela puxou delicadamente Charles pela manga do paletó e ele entendeu o recado, conduzindo-a até a porta e dizendo:
—Voltamos em breve. Tenham uma ótima noite!
Assim que saíram, Andie e Ernest se viram sozinhos exceto pelo barulho distante de sra. Doherty organizando o jantar modesto que seria servido hoje.
—Queira acompanhar-me em uma taça de vinho enquanto esperamos o jantar, sra.
Andie não respondeu, contudo se dirigiu à copa e sentou em uma ponta da mesa, Ernest servindo-lhe o vinho antes de se acomodar na outra ponta.
—Beatrice estava de uma aparência encantadora.
—Uma mulher linda como ela não precisa se esforçar muito para ficar bonita. – Andie falou, convicta.
—É muito mais elegante uma mulher discreta que sabe se comportar. Uma dama escandalosa, com trejeitos rebeldes e autoridade quase masculina não chega nem aos pés de uma dama fina e discreta.
—O senhor não se diz defensor dos direitos femininos? – Andie ergueu uma das sobrancelhas, tomando um longo gole de vinho.
—E eu sou. Só não considero adequado o comportamento de certas mulheres.
—Para mim todo aquele que se diz defensor das mulheres também defende seu direito de se expressar e a livre manifestação de sua personalidade. Beatrice é uma pessoa de personalidade única. Ao mesmo tempo em que é discreta também demonstra o que quer. Embora não fale tudo que pensa é transparente. Empolgada, mas não escandalosa. Delicada, mas não frágil. É tudo que há de perfeito na junção das qualidades femininas.
—A senhora a estima muito, estou certo? – Ernest batucou os dedos na taça de vinho e a levou à boca.
—A estimo mais do que considerariam adequado. A relação entre uma patroa e sua empregada só é vista com bons olhos se houver certo distanciamento profissional entre elas. Mas quando Beatrice chegou em minha casa... – Andie abaixou o tom de voz, lembrando de todas as coisas que não tinha mais, como sua antiga casa, e recordando inclusive o dia em que Beatrice chegara, faminta, magra e assustada, mas doce, meiga e gentil. – ...imediatamente simpatizei com ela. Costumo ser do tipo de pessoa que só de olhar gosta ou não gosta. Minhas primeiras impressões raramente erram.
—E qual a primeira impressão que a senhora teve de mim?
Ernest entrou em um território delicado. Ele sabia estar pisando em um campo de guerra, incerto sobre onde colocar os pés. Qualquer passo em falso poderia explodir uma bomba, e, estranhamente, tinha mais medo dessa bomba chamada Andie do que teve das bombas nazistas durante a Segunda Guerra.
—Estaria mentindo se dissesse que gosto do senhor.
A sinceridade de Andie antes o irritava, mas agora ele enxergava como um aspecto quase positivo. Pessoas diretas sempre o deslumbraram justamente por ele não ser do tipo direto. Pelo menos perto de Andie sua língua se soltava antes da mente perceber o que dizia. Isso era outra coisa que ele não entendia. Ou Andie despertava seus piores demônios ou simplesmente o exasperava a tal ponto que era impossível segurar.
—E posso saber por que motivos desgosta de minha pessoa?
—Para começar não o conheço.
—Duas semanas morando em minha casa não foram suficientes para conhecer a mim mesmo?
—Sr. Raytower, às vezes não conhecemos direito nem quem mora conosco há anos, quem dirá um completo estranho que mal fica em casa.
—Nisso devo concordar com a senhora. Mas esse foi apenas um dos motivos. Quais os outros?
—O senhor esconde alguma coisa.
A afirmação de Andie, a acusação em sua voz e a surpresa pelo modo tão curto e grosso que falou deixaram Ernest sem palavras. Seu silêncio foi interpretado pela sra. Marshall de outra maneira, e ela cruzou os braços, com cara de quem acabara de descobrir o segredo mais impressionante do mundo.
—O que exatamente eu poderia estar escondendo? – ele disse, assim que recuperou o choque inicial.
—Sei lá. Qualquer coisa. Todos nós escondemos algo, não é?
—Com certeza. E quais fatores levaram a senhora a julgar que eu tenha algum segredo?
—Ora, o senhor não fica em casa, e não somente em horários de trabalho. Já o escutei saindo tarde da noite, quando todos dormiam. Também parece estar sempre nervoso ou preocupado, e não creio que todo esse nervosismo seja só por causa de minha situação financeira.
—A senhora me julga muito mal. Estou realmente muitíssimo angustiado em resolver os problemas da senhora e tem noites em que saio para esfriar a cabeça. Quem exatamente pensa que sou?
—Não um simples contador, disso tenho certeza.
—E por um acaso a senhora acredita que eu seja algum informante alemão tentando me infiltrar no governo inglês e derrubar o Primeiro-Ministro?
—Sir Harold Macmillan não é tão despreparado assim. E o senhor nem é alemão.
—Não precisa ser alemão para trabalhar com eles.
—Qualquer que seja seu segredo não é algo tão idiota e previsível assim. Tentar qualquer coisa contra o Exército Britânico é suicídio.
Ernest não soube dizer em qual momento ele começou a rir, mas uma gargalhada sincera brotou de seu peito e ecoou pela copa, assustando a sra. Doherty que trazia o jantar e deixando Andie sem entender porcaria nenhuma.
—Desculpe, sra. Marshall – ele começou a dizer, sua voz quebradiça e o fôlego curto. – acho que começamos do jeito errado.
Andie ficou desconcertada, e acredite quando digo que nossa protagonista dificilmente se sentia assim.
—Pode me chamar de Ernest, fica muito mais fácil e menos distante.
Ainda estranhando a situação, Andie falou, hesitante:
—Tuuudo bem então... pode me chamar de Andie. O nome de tratamento não muda nada se quem fala não fala com respeito.
—Perdoe toda a maneira pela qual a tratei, Andie, eu também estava inseguro. Se pudermos trabalhar juntos para resolver seus problemas financeiros tudo isso acabará mais rápido.
—Concordo. – Andie nem pensou no orgulho amargo que estava engolindo, tamanha sua admiração por Ernest ter tomado a iniciativa.
O sr. Raytower levantou-se da mesa e se aproximou em toda sua altura de Andie. Os olhos azuis não estavam mais tão frios, e carregavam consigo o brilho quente e masculino. Pela primeira vez Andie não o olhou como uma pessoa, olhou como homem.
—Amigos? – Ernest estendeu a mão.
Andie segurou a mão dele de volta, sentindo como estava quente e era macia, com apenas alguns calinhos nas pontas dos dedos pela atividade intensa de escrita, e disse:
—Amigos.
Na hora em que Beatrice chegou Andie estava quase pegando no sono. Ela foi despertada pelo barulho da porta do quarto e os passos pesados de Beatrice. Imediatamente acendeu a pequena lamparina a óleo em cima da mesinha de cabeceira e fitou sua amiga.
Beatrice estava com um brilho nos olhos tão ofuscante que deixaria o Sol no chinelo. Suas bochechas permaneciam coradas e Andie suspeitava que isso não se dava somente em razão da maquiagem. A boca de Beatrice parecia levemente inchada e foi essa última observação que fez Andie levantar da cama em um pulo:
—Ele a beijou? – tentou gritar meio sussurrando.
—Na verdade eu que o beijei. – Beatrice confessou, ficando ainda mais vermelha.
Os cabelos estavam em desalinho, por isso quando ela passou a mão em um gesto de exasperação e incredulidade os cachinhos entraram em rebuliço, se desmantelando.
—VOCÊ O QUÊ? – Andie gritou, sendo calada pela mão de Beatrice.
—Shiiiu... eu o beijei, senhora.
Havia um ponto de interrogação entre as sobrancelhas de Andie, e Beatrice rapidamente percebeu, respondendo sua pergunta oculta:
—Nós mulheres também podemos tomar iniciativas. Achei de muito bom gosto de minha parte beijar Charles. E ele gostou muito.
—Lógico que ele ia gostar. – Andie falou por meio dos dedos entreabertos de Beatrice.
—Eu estou nas nuvens! Nunca imaginei que beijar fosse tão bom!
A inocência e ingenuidade de Beatrice enterneceram o coração de Andie.
—Se acha que beijar é tão bom assim espere só até estar casada.
—O que isso quer dizer, senhora?
—Existem umas coisas muito gostosas que podemos fazer na cama com nosso marido.
—A senhora pode me dizer, por gentileza, que coisas são essas?
Por um momento Andie realmente pensou na possibilidade de abrir o jogo e revelar as intimidades de um casal, mas os olhos assustados e a expressão inocente que Beatrice carregava no rosto ansioso a dissuadiram da ideia, tanto que ela se limitou a falar:
—Quando você estiver pronta, Beatrice, lhe direi. Mas tudo na hora certa.
Ao ver a completa falta de conhecimento de Beatrice com relação à consagração de um matrimônio Andie se sentiu absurdamente aliviada. Durante todos aqueles três anos que Beatrice servira na casa dos Marshall ela pensava que a jovem havia se prostituído no passado e por isso nunca tocava no assunto de seus dias antes de conhecer a família. Mas agora, com essa revelação de sua ignorância, Andie passara a enxergar Beatrice com menos comiseração.
—Então, me conte.
—Contar? – por um segundo Beatrice pareceu confusa, mas seu rosto se iluminou em seguida. – Aaahhh... conto sim. Sente-se.
Andie não percebeu que Beatrice lhe dera uma ordem até ter se sentado. Achou graça.
—Charles foi gentil o tempo todo. Comprou flores para mim, ajudou-me a subir no carro e pagou a entrada do cinema. Também deu um pote de pipoca que eu quase nem senti o gosto, tamanho era meu nervosismo. A hora em que ele resolveu pegar na minha mão... – Beatrice levantou meio corpo da cama, com expressão sonhadora. Parecia estar flutuando. -... achei que ia morrer!
—E o filme?
—O que tem o filme?
—O que achou do filme?
—Eu nem consegui assisti-lo direito. Se Charles me perguntar o que penso sobre o final não saberei responder.
—Ora, Bea, você foi em um cinema para assistir filme e acabou nem assistindo?
—Eu queria ter prestado atenção! Juro que queria. – Beatrice não precisava jurar. Andie acreditaria em tudo que ela dissesse. – Mas a proximidade com Charles e a sensação quente de sua mão contra a minha tiraram qualquer concentração que eu pudesse ter. Sinto muito, senhora. Não lembro de nada do filme.
—E em qual momento ele te beijou?
—Logo após o término do filme. Ficamos andando pela praça, seu paletó em minhas costas apesar de não fazer frio... ele segurou minhas mãos entre as suas, olhou bem fundo na minha alma e se aproximou devagar, tão devagar que pensei ter desistido. Mas assim que a boca dele encontrou a minha... aahh senhora... não creio existir sensação mais poderosa no mundo.
A felicidade de Beatrice era sua felicidade. Mesmo que não suportasse Charles ela suportava a tristeza da amiga menos ainda. Se tivesse de aturar o sobrinho prepotente de Ernest a troco de ver Beatrice radiante ela pagaria o preço, e pagaria até em dobro.
—Agora, durma, patroa. Amanhã a senhora irá ao correio. Deve aproveitar e ir cedo, do contrário enfrentará fila.
—Tem razão, Bea. Embora eu não tenha falado, estou muito feliz por vê-la feliz. Se Charles machucar um centímetro seu que seja vou fazer se arrepender por isso.
—Não se preocupe, senhora. Charles está apaixonado por mim, ele mesmo disse! Finalmente encontrei meu lugar no mundo: ao lado dele.
Ouvindo Beatrice organizar suas roupas, preparando-se para dormir, Andie teve a impressão de que Charles ainda iria machucar muito Beatrice, tão profundamente que nada no mundo seria capaz de consertar.
Esperava estar errada.
Andie levou a carta para o correio antes das sete. O atendente gordo e careca a recebeu como se tivesse fezes na cara. Ignorando-o, Andie trincou o maxilar, ergueu o queixo e foi firme no que queria:
—Preciso mandar esta carta para o Serviço do Exército Britânico, aos cuidados de Sir Paul Marshall, Conde de Buckingham. É urgente e deve chegar ainda esta semana.
—Senhora, o serviço de postagens não trabalha com prazos. Entregamos e ponto final. Se a senhora quer que chegue esta semana porque a senhora mesma não a leva?
—Escuta aqui seu...
—Ora, mas o que está acontecendo aqui? – um homem baixo, de olhos assustadoramente verdes, carregando uma bengala em uma mão e um embrulho na outra, aproximou-se dos fundos da agência. Era novo, mas mancava de uma perna, provavelmente resultado de algum acidente. – Henrie, quem é esta senhora?
—Esta senhora – falou como se tivesse limão na boca – veio até aqui em toda sua superioridade típica pedindo que entregássemos uma carta para um tal de Paul Marshall alegando ser ele o Conde de Buckingham ainda esta semana. Não tem cabimento uma coisa dessas sr. Featherton.
—Prazer, Honorio Featherton. E a senhora? – Honorio estendeu a mão em um cumprimento que foi logo aceito por Andie.
—Senhora Andie Marshall, Condessa de Buckingham e esposa de Paul Marshall, a quem eu devo entregar esta carta. – Andie mostrou o envelope pardo para Featherton.
—Entendo. Pode deixar o envelope com Henrie. Ele se encarregará de enviar o mais rápido possível. Não prometo que chegue esta semana ao seu marido, mas daremos nosso melhor para fazê-lo.
Andie entregou o envelope para um muito carrancudo Henrie. O homem careca o pegou como se estivesse em brasas e guardou em uma gaveta larga e cinzenta, trancando-a.
—Obrigada, sr. Featherton.
—Ora, por favor, pode me chamar de Honorio. Queira ter a honra de me agraciar com uma xícara de chá?
—Fico muito lisonjeada com o convite, Honorio, mas receio ter de recusar hoje. Preciso organizar a casa para receber alguns convidados.
Andie acordara com a notícia de que Ernest receberia alguns amigos para jantar nesta noite em comemoração a algo que ela desconhecia. Talvez fosse aniversário de alguém e nem ela nem Beatrice ficaram sabendo.
—Deixemos para outra ocasião, sendo assim. – Honorio disse, gentil. – Foi um prazer conhece-la, senhora. Henrie – ele chamou o atendente antipático – estou esperto com você, rapaz.
Andie voltou para casa pensando nas palavras da carta:
Meu querido e amado Paul
Tendo você agora conhecimento de nossa situação atual espero voltar em breve para Londres. Sinto sua falta mais do que é permitido. Estamos muito bem acomodadas na casa de seu amigo Ernest Raytower, mas não é a mesma coisa.
Hoje ele dará um jantar especial. Chamou alguns amigos distantes. Admito estar um pouco nervosa. Você é a única pessoa – além de Beatrice, é claro – para quem posso expressar minha insegurança e fragilidade tão bem escondidas nesta fortaleza que criei para mim.
Desconheço a razão do jantar, mas se tiver alguma ocasião na qual possa comer mais do que já como não é de meu feitio recusar. Beatrice está muitíssimo empolgada, obviamente. Não somente com o jantar, mas com o sobrinho de Ernest. Quando você voltar lhe conto tudo.
Onde está, meu amor? Preciso de seu conforto, de seu alento... preciso saber que está bem e voltará em breve. Por favor, me dê notícias.
De sua
Andie
P.S.: Creio que Ernest lhe passou nosso endereço, mas caso tenha alguma dúvida deixei escrito no verso desta carta. Te amo e estou com saudades.
P.S. 2: Não consegui escrever antes em razão das minhas inúmeras tarefas. Julgo ser muito inconveniente se hospedar na casa de alguém e não ajudar com a organização. Você conhece meu constante estado de agitação e sabe tão bem quanto eu que não fico parada nem dormindo. Te amo e estou com saudades.
P.S. 3: Talvez eu seja uma das únicas pessoas no mundo a colocar tanta observação em uma carta, mas nunca lembro de tudo que preciso falar. Como agora, que acabei esquecendo de mencionar o susto que levei quando Ernest contou de nossa situação financeira. Nunca pensei que chegaríamos a este ponto, Paul. Por favor, quando puder me explica o que realmente aconteceu para tanto. Te amo e estou com saudades. Prometo que este será o último P.S.
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