Notas iniciais
Este capítulo é grande, por isso dividi em partes

Beatrice murchara ao descobrir a viagem. Tentou convencer – em vão – Andie a desistir da ideia, mas a sra. Marshall era irredutível quando colocava algo na cabeça.

Partiriam na semana seguinte, e para desespero de Andie o tempo passou rápido. Ela ainda estava insegura quanto a passar horas dentro do carro com Ernest, e tentava nem imaginar conhecer seu pai ou ficar sozinho com o sr. Raytower. A inquietude que sua presença trazia era um mistério constantemente em seus pensamentos.

Tudo estava pronto para partirem. Andie se despedia de Beatrice e Ernest dava as instruções a Charles. Deixar os dois sozinhos era preocupante para Andie. Ela conhecia Beatrice o suficiente para saber que teria juízo, mas não sabia se podia confiar em Charles.

—Tenha cuidado, senhora. – Beatrice falou, abraçando-a carinhosamente. – Essas estradas estão cheias de assaltantes e coisas piores.

—Fique tranquila, Bea, voltaremos logo. Ernest não quer se demorar com o pai. Em três dias estaremos aqui. Eu prometo. – Andie apertou o braço e em seguida soltou, olhando Beatrice como uma irmã mais velha olharia para a mais nova. – E você, tome conta dela. – apontou o dedo para Charles em uma ameaça silenciosa. O jovem permaneceu firme, mas uma sombra vacilante passou por seus olhos.

—Claro, senhora. Beatrice está segura em minhas mãos, pode acreditar.

Deu uma última olhada para a casa e acenou na direção de Beatrice, com o coração partido. Nunca havia ficado longe dela por mais de dia, e fazê-lo doeu mais do que pensou ser possível. Era como se separar de uma irmã, uma amiga, sua confidente mais próxima. Seu coração dizia que Charles não seria tão bom para ela quanto prometera, mas ao ver a felicidade reprimida de Beatrice relutantemente deixou a angústia de lado e apressou-se em subir no carro.

Já saíam de Londres quando Ernest enfim falou:

—Preocupada, Andie?

—Não. Só um pouco triste. Deixar Beatrice é difícil para mim.

—Vocês realmente são muito próximas, não é? – finalmente ele havia deixado de lado o tratamento formal com Andie, para seu alívio e confusão.

—Muito. Mas e Charles? Fica triste em deixa-lo?

—Andie, nós vivemos separados por muitos anos. Alguns dias não me farão chorar.

Ela sentiu vontade de rir, mas reprimiu quando uma pergunta apareceu na superfície:

—Ernest... tem certeza de que quer fazer isso?

—Já estamos aqui. Desistir não é uma opção. Eu faço a mesma pergunta a você: tem certeza de querer me acompanhar?

A hesitação de Andie pareceu trazer dor a Ernest. Ela não percebeu, pois tentava se manter concentrada no movimento do carro e na estrada que se abria à frente, as coníferas altas que perdiam as folhas com a aproximação do outono lardeando a pista.

Então ela respondeu:

—Na verdade, Ernest, eu também não sou de desistir, E, apesar de não querer fazer esta viagem, decidi acompanha-lo por educação e agradecimento pela sua hospitalidade e compreensão. Toda a ajuda que está dando com as finanças de meu marido nunca poderá ser adequadamente paga.

O olhar que eles trocaram não durou muito, pois Ernest tinha de prestar atenção na estrada, mas foi suficientemente intenso e significativo, fazendo o sangue de Andie correr mais rápido.

—Você é uma pessoa muito peculiar. – ele soltou de repente, depois de vinte minutos calado.

—Como disse?

—Te considero como uma mulher única, Andie. Consegue ser gentil e firme ao mesmo tempo, educada e pretensiosa, determinada e volátil... e não de forma ruim. Na verdade, isto é um elogio.

—Como ser volátil é um elogio? – ela franziu as sobrancelhas, dividida entre ficar indignada ou intrigada.

—A constância é entediante. Conheci diversas mulheres tediosas. Eram sempre as mesmas, não mudavam seus pensamentos e se conformavam em viver todos os dias da mesma maneira. Você é como o céu. Embora esteja sempre azul, por cima tem uma miríade de cores que o tornam belo e imprevisível. Ele pode ir do azul mais claro ao negro, passando pelo roxo, pelo vermelho, rosa, amarelo, verde... você é assim.

—Ainda não entendi. – na verdade ela havia entendido o contexto, mas não entendera o sentimento escondido por trás.

—Você é colorida. Seus dias podem ser cinzas ou amarelos, negros ou brancos... não há uma Andie só. Há várias formas pelas quais a Andie mostra sua essência. Mas nunca perdendo seu próprio ser. Você é inconstante... e eu gosto disso. Com todo o respeito.

A confissão súbita aqueceu o coração de Andie. Deixou-a se sentindo quentinha, com a sensação de flutuar. Não compreendia – e nem esperava compreender – o nó em suas entranhas, a confusão em sua mente e a bagunça no seu coração. Paul lhe era muito querido, e pensava nele o tempo todo, mas Ernest a fazia quase esquecê-lo. Isso a perturbava mais do que poderia admitir.

Observou Ernest de soslaio. Ele trincava o maxilar e retesava a boca, como se segurasse alguma coisa. Suas mãos estavam brancas ao volante e os ombros tensos por baixo do sobretudo bege. Subitamente o ar dentro do automóvel ficou denso e abafado. Quando ela pensou que não aguentaria mais enfim chegaram a Northampton. A placa azul anunciando a chegada apareceu a duzentos metros da entrada da cidade.

—Chegamos. – Ernest falou, soltando o ar que não percebeu segurar. – Bem-vinda a Northampton.

A cidade era bucólica. Havia pequenas casinhas com telhados laranjas organizadas em blocos. As árvores se espalhavam pela cidade como cabelos. Andie ficou animada por conhecer melhor a cidade de Francis Crick. Tinha vasto conhecimento de seu trabalho com as moléculas de DNA e esperava encontra-lo por lá.

—Se está na esperança de encontrar Francis Crick andando por aqui pode esquecer. – Ernst falou, lendo seus pensamentos.

—Como sabia que eu estava com essa ideia na cabeça? – ela estranhou.

—Andie, já aprendi a decifrar suas expressões. Quando entreabre a boca dessa maneira e fica com os olhos perdidos já sei que está pensando em algo ou arranjando problemas. Sempre faz essa mesma cara quando vai discutir com quem tem opiniões diversas das suas.

—Faço? – seu coração saltou diante da compreensão de que Ernest a observava, e muito. – E como sabe que estava pensando em Francis Crick? Poderia ser qualquer outra pessoa.

—Sei que você se interessa pelo mundo da ciência e das artes, então não pude deixar de notar sua coleção de livros, especialmente um que você fica horas lendo e trata justamente de DNA.

—Andou me observando bastante, hein? – ela riu com um tom leve na voz, mas não foi muito convincente.

—Observo todo mundo. Isso a deixa nervosa?

—Estou acostumada a ser admirada ou observada de qualquer forma que seja por meu marido, somente. E Beatrice, às vezes, se bem que ela me conhece bem demais e não é de observar. A convivência a fez conhecer cada cantinho de mim. Mas é um hobby bem estranho ficar olhando as pessoas, não acha? – ela perguntou como quem não queria nada.

—Eu não olho as pessoas. – Ernest frisou. – Eu as compreendo. Tento entender suas expressões, gestos e palavras procurando por características que as tornem mais... humanas. Se conheço quem me cerca posso conhecer a mim mesmo. É dessa forma que sei quando alguém está mentindo ou não é confiável.

—O que descobriu de mim quando me conheceu? – ela perguntou sem pensar, curiosa.

—Pela maneira como você me atendeu na porta já soube que teria problemas. Mas também soube que poderia confiar minha vida em suas mãos.

Andie ficou embasbacada. Tentou responder, mas as palavras não lhe saíam. Já estava tudo muito confuso sem que Ernest expusesse seus sentimentos assim, tão franco e direto.

—Desculpe, Andie... estou falando muito. É o nervosismo. Não costumo divagar dessa maneira, mas sua presença desperta minha língua e coisas das quais me esforço para não lembrar.

—Onde seu pai mora? – ela perguntou, desviando a atenção de um assunto que a deixava tremendamente nervosa.

—Virando essa rua... – ele deu uma guinada com o carro, entrando em uma viela estreita com árvores enormes e casas minúsculas, mas aconchegantes. Parou em frente a uma com tijolos azuis e portão branco e baixo, com trepadeiras delicadas se enroscando pela cerca de madeira e flores coloridas no jardim bem cuidado. A porta marrom estava fechada, mas as persianas lilases nas janelas estavam puxadas, e foi só assim que souberam haver gente lá dentro. -...é bem aqui. – Ernest falou, baixo.

—Está pronto? – Andie colocou a mão na dobra de seu braço, oferecendo conforto.

Ernest a olhou, perturbado. Em seguida, respirou fundo e abriu a porta, com Andie em seu encalço.

Eles caminharam vagarosamente pela calçada e abriram a cerca, passando pelo jardim. O cheiro de peônias e madressilvas encheu as narinas de Andie, e ela aspirou cada odor das plantas. Admirou o cuidado de um idoso com seu jardim e ficou deslumbrada ainda mais com o aspecto conservado da casa.

Ernest subiu os degraus da varanda e ficou parado em frente à porta, encarando-a. Andie percebeu sua hesitação e o instigou com um aceno da cabeça.

Ele bateu com o punho fechado e esperou. Esperou. Esperou... por um momento ficou animado por achar que não havia ninguém, mas finalmente escutou passos apressados do lado de dentro e a porta foi aberta.

Uma mulher de certa idade, mas esbelta, surgiu com um sorriso brilhante. Seus cabelos eram loiros e cacheados, contornando o rosto rugoso e redondo. Estava vestida com um avental e olhou para Ernest com simpatia:

—Boa tarde, o que desejam?

—Boa tarde... – Ernest começou a falar, mas parou.

—Olá, senhora, nós viemos de Londres – Andie o ajudou. – e gostaríamos de ver o sr. Raytower.

—Vocês o conhecem? – ela estava confusa, mas não deixou de ser gentil.

—Na verdade... – Andie ia falar, mas Ernest a interrompeu.

—Sou Ernest Raytower, filho dele.

A simpática senhora os convidou a entrar e ofereceu chá e bolachas amanteigadas. Ernest não conseguia comer tamanho nervosismo, mas Andie nunca encontrava desculpas para não forrar o estômago, portanto já havia comido seis bolachas quando um senhor muito elegante apareceu no umbral da porta da cozinha.

Ernest se levantou rapidamente. O senhor permaneceu parado, mas seus olhos revelavam uma emoção reprimida.

—Olá, pai. – a voz do sr. Raytower estava contida, e ele se esforçou para mantê-la firme.

—Ernest. O que está fazendo aqui? – ele não perguntou com grosseria. Por trás de sua expressão calma havia um turbilhão de emoções. Parecia que ele lutava para deixa-las no fundo, tentando não trazê-las até a superfície.

—Vim vê-lo.

O pai de Ernest se aproximou, cauteloso, e ficou frente a frente com o filho. De repente, ele jogou os braços em torno do filho e o abraçou com ternura. Ernest, que a princípio ficou hesitante, depois devolveu o abraço com o mesmo carinho.

Passaram-se alguns instantes até se soltarem, e seu pai manteve os braços em seus ombros, olhando para cada traço do rosto de Ernest. Um sorriso teimava em ficar, enchendo os olhos de lágrimas e deixando Andie comovida.

—Ernest. Seu velho pai aqui estava com saudade. E quem é essa bela moça? – ele virou para Andie, com interesse. – Finalmente se casou?

As bochechas de Andie queimaram, e ela percebeu que Ernest também ficara constrangido.

—Não é nada disso, pai. Andie, este é meu pai, Benedict Raytower. Pai, esta é Andie, cliente e amiga.

Benedict não disfarçava o deslumbramento com Andie.

—Ora, minha cara. É um prazer tê-la em minha casa. – Benedict pegou a mão direita de Andie e a beijou com respeito. Os olhos azuis eram enervantemente parecidos com os do filho – aliás, Ernest tinha os olhos parecidos com os do pai. A cor azul ficou ainda mais intensa quando Benedict admirou Andie. Ela não ficou desconfortável. A maneira que ele a olhava era a mesma maneira como um pai admira a esposa do filho.

—O prazer é todo meu, senhor.

—Não vamos começar com formalidades. Para a senhorita, sou Benedict.

—Pai, Andie é casada. – Ernest falou. Era impressão de Andie ou ele murchou à menção de seu casamento? Talvez fosse só reflexo do sol no vidro na janela, pensou.

—Perdão, senhora.

—Andie. Se devo chama-lo de Benedict então peço que me chame de Andie.

—Fiquem à vontade. Sentem-se e comam. Os bolinhos de Zélia são maravilhosos.

Andie e Ernest se sentaram lado a lado. A senhora simpática ficou em um canto do outro sofá e Benedict se acomodou em uma poltrona vermelha de couro.

—Andie já comeu seis, pai. – Ernest comentou, com diversão.

Ela deu-lhe uma cotovelada discreta nas costelas, e escutou com satisfação um pequeno resmungo ao seu lado.

—Além de bela e educada também não recusa comida? Perdeu uma moça e tanto, Ernest.

Benedict era muito ágil para a idade. E também incrivelmente sincero. Não o fazia por maldade, só preferia dizer o que pensava a guardar segredos para si. Isso o fazia ser menos querido entre seu grupo de amigos, mas ele não ficava incomodado. Antes ter um amigo de verdade do que mil que só te procuram por interesse, era o que sempre dizia. Seus cabelos grisalhos eram penteados para trás e firmemente seguros por gel, e cheirava a uma mistura forte e agradável de canela, cardamomo e vinho. Talvez fosse devido suas horas passadas na cozinha, preparando pratos e remexendo nas ervas à procura de alguma que lhe enchesse o nariz.

Ele empurrou os óculos de aro de tartaruga para cima e fitou Andie, muito curioso.

—Quem a visse e não soubesse enxergar direito pensaria que é muito tímida, Andie, mas sou extremamente observador e muito bom em ler as pessoas, e posso perceber que não liga para a opinião alheia e nem se deixa intimidar por coisa qualquer, estou certo?

—Não poderia estar mais certo, Benedict. – Andie confessou, desandando a falar. – Ernest é igualmente bom em ler as pessoas e não errou quando fez um julgamento antecipado de mim. Falo o que penso e não tenho medo de alguém não gostar. Prefiro ser verdadeira.

—Perfeito! – ele estava se divertindo. As bochechas estavam coradas e apertava as mãos umas nas outras sem parar. De repente pareceu lembrar-se da presença da simpática senhora sentada à sua direita, e falou: — Ah! Dada a situação sinto em dizer que quase me esqueci de apresentar Zélia a vocês. Ernest, Andie – ele se levantou do sofá e puxou a senhora com ele, apertando-a entre seus braços – esta é Zélia Raytower, minha esposa.

Ernest não poderia estar mais surpreso mesmo se Andie tivesse lhe confessado que podia se transformar em um elefante. Ele tinha os olhos esbugalhados em espanto e o queixo ameaçava cair. Mas deve ter se recuperado do susto inicial, pois fechou a boca e voltou ao normal, dizendo com voz comedida:

—O senhor casou novamente?

—Ora e por que não? Sua mãe faleceu há anos, Ernest, e eu não sou de ficar amando fantasmas pelo resto da vida. Precisamos seguir em frente.

—O senhor seguiu em frente muito rápido, pelo visto. – ele endureceu o maxilar, olhando para uma Zélia sem graça com mágoa e ressentimento.

—Ernest, sua mãe faleceu tem dezesseis anos, pelo amor de Deus! – ele falou, exasperado, soltando Zélia de seus braços. – Casei com Zélia tem um tempo.

—Ela era uma de suas muitas amantes?

Andie prendeu o fôlego. Embora entendesse em partes a reação de Ernest não via motivos para sua grosseria e estupidez. O pai merecia ser feliz de novo, e Ernest também deveria se dar a chance de seguir em frente. Será que ele não entendia isso? Devia ser completamente devoto à mãe para defender seu casamento com Benedict mesmo depois de dezesseis anos. Um lado de Andie achava isso muito bonito, mas seu outro lado – o racional – se assustava com todo o ridículo da situação.

—Ernest, você não tem que se meter nisso! – os olhos de Benedict faiscavam como os de Ernest, e ele deu um passo à frente, apontando o indicador para o filho. – O que faço ou deixo de fazer não lhe diz respeito.

—Diga-me, pai... – Ernest levantou do sofá, encarando Benedict -... ela era uma de suas putas domesticadas ou uma idiota ingênua qualquer que acredita que o senhor a ama?

Andie mais escutou do que viu o tapa. Ela estava concentrada nas feições de Zélia, muito assustada atrás de Benedict. Teve dó da senhora simpática. O pai de Ernest parecia realmente gostar dela.

Ernest colocou a mão na bochecha esquerda, que ficava rapidamente vermelha e inchada.

—Escute aqui, seu cabeça duro de merda! – Benedict falou, encostando seu nariz com o de Ernest. Uma veia pulsava perigosamente na testa. – Zélia é uma mulher gentil, boa e inocente. O que eu fiz no passado é algo do qual me arrependo amargamente. Nunca me perdoarei por todo o desgosto que causei para sua mãe, mas também não vou ficar deitado na cama em posição fetal até morrer. E você, como o estúpido teimoso e determinado que é deveria saber que sua mãe sempre lhe disse para viver. E é isso que estou fazendo, porra! – ele berrou essa última frase, cuspindo no rosto de Ernest.

A casa ficou em silêncio. Era possível escutar o zumbido dos insetos no jardim e o barulho dos carros na rua. Ernest e o pai continuaram com os narizes colados, se encarando, sem dizer nada. Mas Andie reconheceu o momento em que suas emoções foram controladas e o clima mudou. Os olhos azuis passaram de faiscantes a arrependidos, e os ombros de ambos relaxaram. A veia que saltava há poucos minutos na testa de Benedict voltou ao normal e eles abriram os punhos.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Benedict. Outra em Ernest. O velho senhor levantou as mãos e colocou uma em cada lado do rosto anguloso do filho, com proteção e cuidado, e Ernest não impediu.

—Perdoe-me, filho. Eu amei sua mãe, intensamente. Mas errei na mesma proporção que a amei, e nunca vou poder voltar atrás e consertar meus erros. Só posso pedir que me perdoe para que eu possa me perdoar também. – as palavras saíram baixas, mas Andie e Zélia conseguiram escutar.

Ernest não respondeu. Nem precisou. O abraço que deu em Benedict foi suficiente.

—A senhora pode se instalar aqui. Quanto tempo planejam ficar? – Zélia se dirigiu a Andie, ajudando-a com as malas. O quarto em que entraram era limpo e arejado, dando vistas ao pomar nos fundos da casa.

—Não muito. Ernest havia falado três dias, mas tenho certeza de que ele vai querer ficar um pouco mais. Afinal, apesar da viagem ser rápida não é algo que dá para fazer sempre. – Andie respondeu, tirando as roupas de sua bolsa de viagem e colocando em uma cômoda amarela e pesada ao lado da cama.

—Uma pena. Gostaria de ter tempo para conhecer melhor meu enteado.

Andie pode perceber como Zélia era bondosa. Seus olhos tinham a cor das trepadeiras que subiam vagarosamente pelas paredes externas, e as bochechas viviam coradas. Andie suspeitou que não fosse a maquiagem, e sim o constante estado de felicidade conjugal no qual parecia viver. Os cabelos da cor de palha fresca se enrolavam ao redor do rosto redondo e estavam sempre enfeitados com flores. Naquele dia era uma margarida muito pequena. O cheiro subiu ao nariz de Andie quando ela se aproximou da velha senhora.

—Acredite, senhora Zélia, eu estou morando na casa de Ernest já tem quase dois meses e mesmo assim não o conheço. Creio que alguns dias não serão suficientes. Ele é complexo, cheio de segredos e traumas do passado. Pessoas assim não se abrem tão facilmente.

—Conheço as pessoas muito bem, senhora... estudo a psiquiatria já tem alguns anos e julgo ser capaz de entender e compreender até aqueles que conheço há menos de vinte e quatro horas. Ernest a olha de forma especial... se a senhora acha que não o conhece bem o suficiente para ele se abrir é porque não percebeu o quanto ele confia na senhora. Tenho certeza de que ele é transparente em sua presença assim como o vidro é transparente em sua constância. – ela deu uma piscadinha para Andie e saiu, deixando para trás o cheiro de margarida.

Enquanto terminava de organizar suas coisas ela ficou pensando no que Zélia havia dito. Se Ernest fosse mesmo assim tão aberto quanto a madrasta acreditava então porque ainda parecia esconder coisas? Que segredos eram esses que tomavam sua vida e o deixavam acordado até tarde? Por que ele saía de madrugada? Tais coisas perturbavam os pensamentos de Andie quando o barulho de passos a despertou.

—Zélia a acomodou adequadamente, Andie? – Ernest parou sob o umbral e cruzou os braços, tensionando os músculos. Os olhos azuis varreram o aposento, absorvendo cada detalhe, parando na mala aberta. – Vejo que sim... até já tirou seus pertences da bolsa... ela perguntou quanto tempo planejamos ficar?

—Perguntou, sim. Disse que você planejava ficar por três dias. Ela se decepcionou.

—Não há motivos para decepção. Estou pretendendo ficar um pouco mais. Talvez uma semana. Ou duas.

Andie levantou os olhos das roupas que dobrava e fitou Ernest. Seu coração palpitava, dividido entre a perspectiva de conhecer melhor a vida dele e a angústia por deixar Beatrice tanto tempo sozinha na companhia de Charles.

—O que acha? – ele perguntou, olhando-a profundamente.

—Eu não devo achar nada... – ela respondeu, vaga.

Ernest franziu as sobrancelhas, descruzou os braços e andou até ela. Havia uma expressão engraçada em seu rosto bem marcado.

—Eu escutei direito? Você não vai discutir comigo por causa disso?

—Olha, Ernest... sinceramente estou com a cabeça em confusão demais para discutir agora.

—O que a atormenta? – ele se aproximou, ficando a dez centímetros de Andie. Ela levantou o rosto para poder encará-lo. – Confie em mim. Por que disse estar com a cabeça em desalinho?

—É Beatrice... – ela tentou organizar as ideias, mas o rosto dele tão perto do seu confundia os sentidos. O coração martelando contra as costelas e as palmas das mãos suadas de nervosismo também não contribuíam muito para isso. -... deixa-la sozinha durante tanto tempo me enerva.

—Ela não está sozinha. Charles vai cuidar de Beatrice. – ele afirmou, resoluto.

—É só que... ah, esquece! – Andie começou a se virar para voltar a arrumar suas coisas, mas Ernest a puxou com firmeza, mas delicadamente pelo braço. O toque dele a fez estacar. Como queria sentir a pele dele na sua... o desejo era enorme e sua resistência ficava cada vez mais fraca. Quando se virou para ele tentou projetar a imagem de Paul em sua cabeça para se dissuadir daquele sentimento abrupto, intenso e muito inoportuno.

—Diga-me, Andie. – havia urgência nos seus olhos. Aquilo acabou com a pouca força de vontade que tinha. – O que a preocupa tanto?

—Ernest, Beatrice é muito ingênua, e Charles não parece ser do tipo de homem que se importa com o que ela pensa ou sente. Não consigo confiar completamente nele. Alguma coisa me incomoda.

—E por que não me disse isso antes? Eu jamais a forçaria a confiar em Charles. Ele é meu sobrinho, mas não posso fazer com que confie nele pressionada. Se era de um tempo que precisava era só ter me falado. Ou não confia nem em mim? – Andie viu a dor em seu semblante. Os olhos azuis sempre tão vívidos se apagaram, e aquilo causou nela uma sensação de arrependimento amargo tão grande que precisou se agarrar ao paletó de Ernest para não cair.

—Desculpe-me... eu confio em você, é só que não quis abusar de toda sua hospitalidade. Como se não bastasse ter oferecido sua casa, sua ajuda e sua amizade... também não queria parecer ingrata.

—Isso não é ingratidão. Charles é muito novo e inexperiente, apesar de dizer o contrário. Fica difícil confiar de verdade em um jovem advogado. Geralmente nessa idade os homens só pensam em mulheres, jogos e bebida... não a julgo de forma alguma.

Andie riu. Era verdade. Homens nessa idade – e quase em todas as outras idades – gostavam de se gabar das mulheres que tinham e do dinheiro que gastava. As mulheres, por outro lado, se preocupavam em parecer mais jovens do que eram e competir umas com as outras para ver quem contava a fofoca mais quente. O mundo era assim e seria da mesma forma para sempre. Umas e outras exceções poderiam ser vistas, mas Charles não se encaixava em nenhuma delas. Já Ernest dava a Andie uma impressão muito diferente.

Ele não olhava lascivamente para nenhuma mulher, fosse senhorita ou senhora. Tratava a todas com respeito e se preocupava genuinamente com o bem-estar de Andie e Beatrice. Naquela noite, depois da conversa a caminho do restaurante, Ernest puxou a cadeira para Andie se sentar e na volta colocou o paletó em seus ombros. Voltaram em silêncio, mas havia muitas palavras no ar. Era como se não precisassem dizê-las. Entre os dois tinha uma conexão que misturava amizade, desejo e curiosidade; algo que ela nunca teve com Paul.

A vida de casada lhe trouxera decepções e surpresas ao mesmo tempo. Se por um lado Paul era ardente e intenso em suas obrigações maritais, também era rígido e severo. Demonstrava amor e carinho por Andie, mas sempre pareceu esconder características de uma personalidade mais distante e indiferente por trás da superfície tão elegante e discreta. Tal percepção nunca a havia incomodado mais do que o normal, porém agora, compartilhando opiniões e pensamentos com Ernest, aquilo teimava em ficar borbulhando em sua mente. Fosse pela proximidade íntima demais ou pela vulnerabilidade que apresentara pela primeira vez a alguém que não fosse Beatrice, Andie não afastou nem repudiou Ernest quando ele diminuiu a distância.

Ela sentiu o hálito quente contra seu rosto e o cheiro masculino de canela e água de colônia. Seus sentidos ficaram inebriados, o cérebro parecia uma bola de gelatina e as mãos estavam molengas. Se ele dissesse agora que vinha de outro planeta Andie nem ligaria.

—Eu me importo muito com o que pensa, Andie. Para mim, suas palavras, suas ideias, gestos, cheiros, sons... são tudo. Não consigo imaginar minha casa sem sua presença. Não ligo se nunca mais terei paz ou se ficarei um dia sem discutir com alguém... eu gosto de você. Mais do que seria permitido para uma pessoa na minha situação.

—Que situação? – ela estava confusa. Por um momento esqueceu de qualquer outra coisa.

—Você é casada, não se lembra? E é minha cliente. – ele achou graça do lapso de memória de Andie, mas voltou a ficar sério. – Isso que acontece entre nós não pode se concretizar nunca. Por mais que eu queira ter você em meus braços, é impossível.

Ernest cruzou os braços atrás das costas para se impedir de encostar em Andie. Ela apreciou o gesto, mas queria sentir o toque dele novamente em sua pele, por isso ficou mais próxima.

—Eu o desejo, Ernest. Jamais pensei que poderia sentir algo assim por um homem que não fosse meu marido. – à menção de Paul ela acordou do torpor, e se afastou com um passo para trás. – É melhor ficarmos a essa distância. Mais seguro.

—A única distância segura entre mim e você é se eu estiver na China. E mesmo assim o desejo ainda me queimaria inteiro.

Ernest voltou a se aproximar. Não é que ele ignorasse o dever, nem tivesse desconsideração por Andie, mas o sentimento se tornava grande demais para carregar. Ele precisava despejar tudo em mais do que isso, precisava sentir Andie em cada centímetro de si.

Ela não vacilou diante de seu olhar fervoroso. Uma parte de Andie se soltou naquele instante, se desprendeu dela e voou para longe. Talvez fosse a lembrança de Paul, ou talvez fosse todo seu juízo. Ela já não tinha quase nenhum mesmo.

Ernest colocou as mãos em volta do rosto dela. Fitou seus olhos negros que tudo engoliam, os cabelos macios e tão escuros quanto ébano, a curva do pescoço fino e longo, as longas pestanas e o nariz tão irritantemente arrebitado. Observou o queixo firme típico de alguém teimoso e subiu o olhar para os contornos da boca.

Sua saliva secou. Um soluço escapou de Andie e ela entreabriu a boca, tentando respirar. Ele entendeu como um convite, e investiu para beijá-la.

Um barulho no corredor os assustou. Ernest suspirou e soltou Andie com relutância.

—Pai. O que está fazendo?

Benedict estava agachado no corredor agarrando as coisas que caíram. Uma caixa de papelão segura em uma mão enquanto com a outra pegava pequenos objetos de madeira do chão.

—Eu estava levando esses bonecos para seu quarto, filho.

—E para quê, exatamente?

—Ora, para decorá-lo. Achei que se sentiria mais em casa se eu organizasse seu quarto da forma como sua mãe fazia.

—Pai, eu tinha 10 anos. Agora tenho 35. O senhor não acha que estou um pouco velho demais para decorações de... bonecos de madeira? – ele concluiu, pegando um dos bonecos da caixa e examinando.

—Sim, eu sei... mas pensei que gostaria. Ao menos enquanto está aqui. – a tristeza em Benedict enterneceu o coração de Ernest, e ele falou mais suavemente:

—Tudo bem, pai. Não me incomodo. Desculpe-me. Eu só estava desacostumado com todo esse tratamento de pai. – ele deu um riso baixo e ajudou Benedict a pegar os outros bonecos do chão.

—Eu os atrapalhei em algo? – ele perguntou, concentrado nos bonecos, mas seus olhos se dirigiram por um momento fugaz para Andie, parada no meio do quarto, ainda abobalhada.

—De jeito nenhum. – ela respondeu, pensando ter firmeza na voz.

—Pensei tê-los visto se beijando. – havia diversão no rosto enrugado de Benedict, e ele teve de segurar o riso quando Ernest engasgou e começou a tossir.

—Pai! – ele chamou a atenção em meio aos acessos de tosse.

—O que foi?

—O senhor se enganou. Eu e Andie temos uma relação estritamente profissional, apenas...

—Tão profissional que a trouxe para conhecer seu pai... – Benedict falou em um muxoxo.

—Como disse?

—Esses olhos de velho se enganam com frequência, Ernest. Agora, vou leva-los ao seu quarto. – ele levantou do chão e puxou a caixa, segurando-a entre os braços.

—Desculpe meu pai, Andie. – Ernest coçou a cabeça, parado no corredor. – Ele está um pouco senil e acaba perdendo a noção de... certas coisas.

—Não tem problema. Vou tomar um banho. Foi uma viagem cheia de surpresas.

—Tudo bem. Eu vou ajudar meu pai com a decoração do quarto – Ernest revirou os olhos, tentando parecer relaxado. – Até o jantar, Andie.

Ela não respondeu nada. Acenou com a cabeça e ele saiu.

Andie fechou a porta e se recostou contra a madeira fina. Seu coração estava uma bagunça. O corpo em chamas. A cabeça era a única que tentava permanecer racional. Ela a lembrava que tinha um marido, mas eram dois contra uma. Ela sabia que, no fim, o coração acabaria ganhando.

Oito dias se passaram sem que algo acontecesse entre Andie e Ernest. Ela ficava ocupada ajudando Benedict na cozinha. Claro que não era cozinhando; Andie sabia fazer pouco mais que um ovo mexido. Ela auxiliava mais na parte de comer. Experimentava temperos, misturas e massas, dando palpites ao pai de Ernest e fazendo comentários.

Ernest, por sua vez, se empenhava nos jardins com Zélia. Seus dias eram preenchidos com o cuidado às plantas e às podas nas árvores. Ele não era muito bom em jardinagem, mas a companhia da madrasta mostrou-se verdadeiramente agradável. Nas noites ficava com o pai, conversando até tarde e trocando lembranças da mãe. Zélia não se incomodava nem um pouco, e ficava com Andie comendo bolinhos e bebendo copos e mais copos de chá.

Na manhã do terceiro dia Ernest e Benedict saíram para comprar coisas que faltavam. O jantar seria especial naquela noite, pois era aniversário de Zélia. Andie e a velha senhora, então, organizavam a casa e separavam os ingredientes para iniciar a preparação dos pratos. Seria um evento simples, somente os quatro e dois vizinhos muito próximos da família, mas Zélia tinha um brilho de felicidade nos olhos tão grande que deixou Andie igualmente empolgada.

Ela se sentia quase em casa ali. Tinha companhia, ternura e diversão nas mesmas medidas. Se Beatrice estivesse junto tudo estaria perfeito. Paul começou a ficar no fundo da mente, bem distante dos acontecimentos atuais. Não havia dentro dela sentimento de culpa o suficiente para deixa-la cabisbaixa ou deprimida. As ocupações da casa, intercalada com as distrações eram confortos bem-vindos para suas preocupações constantes sobre sua situação financeira.

A casa era pequena e simples, mas limpa e meticulosamente organizada. Não da forma que sua casa era. Aqui, leitor, peço que imagine um lugar no qual tudo está perfeitamente arrumado, mas que de jeito nenhum é maçante ou desconfortável. É a mesma sensação que você teria ao entrar na casa de seus avós. O cheiro de flores, bolos assados e café quentinho pairava no ar, preenchendo Andie com um sentimento de lar e pertencimento. Os móveis eram brancos, mas as decorações em cima deles e nas paredes da cor de creme eram coloridas. Havia adornos nos umbrais das portas e cortinas que balançavam conforme o vento. O clima na cidade parecia não pertencer à Inglaterra. Ali sempre fazia sol e uma brisa fresca soprava depois do meio-dia.

Plantas cresciam em cada canto. Vasos ficavam espalhados pela casa, próximos uns dos outros, e em cada um tinha uma planta ou flor diferentes. Andie reconheceu suculentas, peônias, rosas, violetas e, é claro, margaridas. Zélia colocava uma flor nova no cabelo a cada duas horas, mas sua preferida parecia ser a camélia.

Andie sentiu o cheiro quando se aproximou de Zélia para verificar o andamento da sobremesa. O pudim de nata com calda de morangos silvestres estava lindo, e imediatamente Andie salivou.

—Do jeito que está secando o pudim é capaz dele murchar antes que os dois voltem, Andie. – Zélia falou, achando graça.

—Me desculpe. É que se o sabor estiver tão bom quanto a aparência vou poder morrer em paz, sabendo que comi a melhor sobremesa do mundo. Vou à toalete, com licença.

Andie já atravessava o corredor na direção do banheiro quando viu a porta do quarto de Ernest entreaberta. Não era educado ficar mexericando as coisas alheias, mas a curiosidade, como sempre, acabou vencendo e ela se viu abrindo melhor a porta e entrando no cômodo arejado.

A cama era larga, com colchão grosso e lençóis em tons pasteis. Em cada lado havia um pequeno móvel com três gavetas, e em cima de um tinham papeis timbrados e repletos de números.

Do lado oposto da cama tinha uma porta, e ao lado dessa porta um armário antigo e bem conservado. O quarto cheirava a canela e cardamomo.

O cheiro de Ernest, ela pensou, sentindo uma pressão no peito e em seu baixo-ventre.

Ela abriu a porta ao lado do armário e entrou em uma pequena sala com escrivaninha, prateleiras e cômodas minúsculas. Ao contrário do quarto que era arejado e cheirava agradavelmente a flores e ao odor masculino aquela salinha tinha um forte cheiro de local fechado e papeis velhos. Ela retorceu o nariz, mas ficou intrigada com uma pasta vermelha em cima da escrivaninha e contornou a mesa para olhar melhor.

Não havia nada na pasta que indicasse ser ultrassecreto, portanto ela abriu.

Eu não ia falar nada sobre o fato da pasta ser vermelha e estar dentro de uma salinha em um quarto alheio, mas acredito que você, leitor, já percebeu o quanto Andie era curiosa e facilmente se deixava levar por aquilo que era proibido.

A princípio ela não entendeu o que os documentos diziam. Depois, ao ver o nome de Paul em um deles imaginou ser a contabilidade do marido. Não poderia estar mais enganada. Aquilo era um contrato. De uma organização cujas siglas diziam apenas SY. O que seria SY?

Ela revirou o documento à procura de mais informações. Encontrou conversas transcritas, mas nada do que diziam fazia sentido. Parecia ser uma espécie de acordo entre um tal de HF e ER. Este último imaginou ser Ernest Raytower. Aquilo despertou desconfiança e um sentimento crescente de mágoa. O que Paul estaria escondendo dela? E o que era SY? Quem era HF?

Na última página havia um relatório intitulado “Andamento do serviço”, mas quando ia começar a lê-lo a porta da frente bateu e ela escutou a voz de Ernest e Benedict. Rapidamente deixou a pasta vermelha de qualquer jeito em cima da mesa e disparou para fora do quarto, chegando ao corredor exatamente um segundo antes de vislumbrar Ernest e o pai entrando na cozinha com sacolas.

—Andie estava me ajudando com a sobremesa, querido. – Zélia disse, recebendo um beijo de Benedict na bochecha corada.

—Hummm... isso está com uma cara tão boa! – ele exclamou, comendo o pudim com os olhos. Levava o indicador à calda de morangos, recebendo um safanão de Zélia. – Ai!

—Tire a mão daí. A sobremesa é para depois do jantar. Trouxeram tudo que eu pedi? – ela perguntou, abrindo as sacolas depositadas em cima da mesa no centro da cozinha e vasculhando os ingredientes, conferindo mentalmente se estavam todos ali.

Ernest estava muito quieto até o momento. Andie percebeu pelo canto do olho que ele a observava, e se sentiu tremendamente nervosa, tanto por achar que ele sabia de sua incursão pelo quarto quanto por ser objeto de admiração.

—Quer dizer então que Andie a ajudou com a sobremesa? – Ernest perguntou, sem qualquer brincadeira na voz, ainda mantendo os olhos fixos na moça.

—Ela mais ficou lambendo os dedos cada vez que os sujava com a calda do morango e tentando arrancar um pedaço de pudim sem que eu percebesse do que efetivamente fez alguma coisa. – Zélia riu, piscando para Andie.

—Então iremos comer pudim com gosto dos dedos da Andie. – Benedict brincou, levando Zélia às gargalhadas, sem tirar os braços de seus ombros por um minuto que fosse.

—Talvez. – Andie respondeu, agora fitando Ernest de volta, tentando parecer inocente e não demonstrar nervosismo.

—Preciso trocar de roupa. Com licença. – Ernest anunciou, passando rápido pela cozinha e atravessando o corredor. Quando chegou perto de Andie esbarrou a mão no pulso dela, enviando uma onda de choque por todo seu corpo magro e curvilíneo. Ela não soube interpretar esse gesto. Poderia ter sido um mero esbarrão. Ou ele fez de propósito porque queria senti-la. Esse último pensamento passou como um raio por Andie, e ela tratou de afastar.

—Se precisar de minha ajuda estarei na sala, querida. – Benedict falou, beijando levemente a boca de Zélia, e saiu da cozinha.

—Não precisarei. Andie e eu faremos tudo sozinhas. Talvez eu precise de você para vir me dar um beijo de vez em quando. – Zélia gritou, pois Benedict já estava longe.

—Mas isso não será preciso pedir. – ele gritou de volta.

Andie achou tudo extremamente tosco e belo. Um casal que, apesar das reprimendas sociais – um viúvo casando com uma senhora sem filhos – insistia em ficar junto e não se importava com a opinião de ninguém. O coração de Andie pareceu dobrar de tamanho diante da demonstração espontânea e genuína de amor, e ela foi ajudar com o jantar tendo Ernest em seus pensamentos, em vez de Paul.

A preparação do jantar foi extremamente simples, apesar de trabalhosa. Andie tinha o prazer de experimentar cada processo, e ao final elas tiveram certeza de que tudo estava maravilhoso.

Os vizinhos chegaram por volta das sete. Um casal simpático. O homem era falante e boca suja, mas isso não desagradou nenhum dos presentes. Andie sempre gostara de pessoas que falavam o que queriam. Sua esposa de início pareceu tímida, mas após a primeira taça de vinho ela começou a discorrer sobre os encantos das suculentas, e foi um alívio para Andie quando Zélia colocou o jantar à mesa.

—Nossa, mas está tudo um caralho de bom! – o homem exclamou, com a boca cheia.

Andie deu uma gargalhada tal qual não dava havia tempo. Riu com vontade, sentindo até falta de ar. Ernest a acompanhou com os olhos a todo momento. Mesmo quando prestava atenção ao que alguém falava dava um jeito de espiá-la de soslaio.

—Minha querida Zélia, depois de anos convivendo lado a lado ainda me surpreendo com seu talento para a cozinha. – a mulher comentou, pegando mais um pedaço do carneiro.

—Ora, é muito gentileza sua, Gertrude.

Andie achou graça do nome. Parecia que todas as senhoras rechonchudas de cabelos encaracolados que ela conhecia tinham esse nome. Gertrude poderia ser uma palavra usada para descrever qualquer idosa com o porte físico da mulher sentada à sua frente.

—Ela não foi apenas gentil, Zélia, foi verdadeira. – o homem elogiou, com um sorriso leve no rosto velho e aberto.

—Assim você me deixa até sem graça, Jack.

—Mudando de assunto – Jack continuou, virando para Ernest. – conte-me um pouco sobre você, rapaz. Soube que é um renomado contador em Londres.

—Não diria que sou renomado, mas realmente faço a contabilidade. – Ernest respondeu, com um brilho de diversão nos olhos.

—Ernest está sendo muito modesto. Ele é famoso em Londres. Talvez o melhor contador da cidade. – Benedict retrucou, com orgulho na expressão bondosa.

—Pai, não é para tanto. – Ernest estava sem graça. Dava para perceber pela forma como seus olhos azuis se acenderam. O rosto estava lívido e ele baixava a cabeça a cada cinco segundos. Parecia não conseguir segurar o desconforto.

—Não discuta! – Benedict repreendeu, de forma amigável.

—E como é Londres? Sempre tive o desejo de conhecer! – Gertrude falou, sonhadora, dirigindo-se à Andie.

—Londres é enorme. Mas acredite, Gertrude, Northampton é infinitamente mais bela. O rio Tâmisa fede um tanto mesmo depois que começaram a tentar despoluir. A cidade se perde de vista, mas é só um amontoado de prédios cinzentos e fumaça das fábricas. Até vir para cá eu considerava Londres de uma beleza contemporânea. Agora já não acho o mesmo. – Andie havia tomado um pouco mais de vinho que o normal, portanto começou a falar disparatadamente.

—Nossa! – Gertrude franziu as sobrancelhas ralas e esparsas. – Querido, não sei mais se tenho vontade de ir à Londres. Pelo menos o Big Bem vale a pena?

—Não é grande coisa. Somente um relógio enorme. Talvez as únicas coisas boas de Londres são os pubs e o Palácio de Buckinham. De vez em quando, em meus passeios pela cidade, consigo vislumbrar a rainha, mas é só isso. Não é nada de tirar o fôlego, como muitos pensam.

—Londres é minha casa. – Ernest defendeu, olhando com mágoa para Andie. O coração dela se apertou e imediatamente sentiu culpa. – Pode ser uma cidade malcheirosa com pessoas apressadas e indiferentes, mas ainda é minha casa. Não deveria falar desse jeito de uma cidade que te abriu os braços, Andie. – havia repreensão em sua voz dura e grave.

—Também não precisa falar assim com a moça, Ernest. – Benedict dessa vez estava realmente bravo.

Zélia capturou o olhar do marido e o fez se acalmar tão rápido quanto se enervou.

O pouco de dignidade em Ernest o deixou com vergonha. Seus olhos azuis ainda faiscavam, mas ele abaixou a cabeça novamente e Andie observou seu pescoço indo de branco para vermelho em segundos. A jugular pulsava.

—Ahh, bem... fomos para Cambridge ano passado. É linda e tão bucólica que parece ter saído daquelas fotografias. – Gertrude desviou de assunto, um tanto confusa.

—Sim, sim... eu mostrei a universidade para Gertrude e ela enfiou na cabeça que quer cursar Medicina. Onde já se viu uma mulher médica? Por mais que confie em Gertrude fico arrepiado só de pensa-la com um bisturi nas mãos e exposta às mais terríveis doenças. – Jack comentou.

—O que o senhor tem contra mulheres médicas? – Andie perguntou, sentindo a indignação brotar subitamente. O vinho lhe dera ainda mais coragem para retrucar.

—Tudo, senhora. Acho irritante esse movimento feminino... – ele fez um gesto de desdém com a mão. -... se elas já têm os maridos para sustenta-las por que iam querer trabalhar e ter sua própria fonte de renda?

—Isso, senhor Jack, se chama independência. – Andie se inclinou na cadeira para fita-lo melhor.

Ernest permanecia quieto, a raiva aos poucos o abandonando e dando lugar à admiração. Gertrude estava com a boca aberta e observava a discussão entre os dois com a cabeça como quem acompanha a bola de tênis indo de um lado ao outro da quadra. Zélia tinha orgulho na expressão e Benedict parecia curioso.

—Qual o sentido de ter independência? Elas só precisam ter bom senso e obedecer aos maridos. Não é nada muito difícil... e, além do mais, ter mulheres pensando e criticando é perigoso.

—Só é perigoso para os homens. Mulheres que pensam com a própria mente nunca se deixam levar por maridos como o senhor. Eu, por exemplo, nunca tive a oportunidade de estudar Jornalismo por falta de recursos. Também nunca conversei com Paul a respeito, ocupada com a administração da casa, e logo depois ele foi a serviço do governo. Mas não será um homem que colocará freios em meus sonhos. – ela ergueu o queixo, encarando Ernest como se o desafiasse.

—Essas mulheres visionárias ainda vão dar o que falar. – ele resmungou, cerrando os punhos em cima da mesa. – E o que a senhora pensa sobre os pretos?

—Pretos? O senhor pensa que está falando de cachorros? Negros... repete comigo sr. Jack, N-E-G-R-O-S. – ela enrolou cada palavra na língua, soletrando uma por uma, como se ele fosse burro.

—Para mim são pretos. Mercadorias nós chamamos pela cor.

—Não consigo acreditar na petulância do senhor, na sua total falta de respeito e de noção... em pleno século XX saber que ainda existem pessoas asquerosas desse jeito... é demais para mim! – Andie gritou as últimas palavras, dando um soco na mesa, espalhando os talheres e fazendo os copos retinirem.

—E em pleno século XX as mulheres ainda não terem compreendido seu lugar no mundo é pior! – ele gritou de volta, levantando um pouco o corpo da cadeira.

—Nosso lugar no mundo é onde quisermos! – Andie apontou o dedo para ele, também levantando. – Se nós, mulheres, preferirmos ser bancadas por nossos maridos é problema nosso, mas se quisermos estudar e trabalhar para viver como bem entender também é problema nosso! O senhor não é mulher para entender ao menos um por cento o que passamos! Lutamos por igualdade e respeito há séculos, e não vamos mais deixar homens pisarem em nossos sonhos, esmagarem nossas vontades e matarmos nossa esperança! Vamos lutar... a cada dia de nossa sofrida vida, vamos lutar! – agora ela estava totalmente em pé, e gritava a plenos pulmões.

—Podem tentar! Os homens sempre serão mais fortes e mais capacitados. Vocês não passam de mulheres teimosas e orgulhosas que querem mandar! Pensam que têm o mundo a seus pés e acham que podem dissuadir qualquer homem de qualquer ideia! Pois estão muito enganadas! – para um senhor ele era ágil e vigoroso. Levantou da cadeira e se aproximou de Andie, ficando mais e mais vermelho. Ele nem se incomodou quando, em seu frêmito, derrubou o prato ainda com comida no chão, estilhaços voando para todos os lados e por pouco não certando a perna de um muito embasbacado Benedict.

—Quem deve se colocar no seu lugar aqui é o senhor! Abra sua mente, meu querido! Não há nenhum homem das cavernas aqui. O senhor não pode achar que puxar a mulher pelos cabelos e estupra-la vai, assim, conquistar seu espaço na vida dela! Custa muito para o senhor tratar mulheres e negros com respeito e perceber que, não só o mundo mudou, mas as pessoas também! Não temos mais medo... vamos lutar por cada espaço que ainda precisamos ocupar no mundo, nem que para isso seja necessário perder a vida!

—Hitler fez tudo certo, mesmo! Aqueles judeus eram um bando de ignorantes... tinham mais é que morrer sufocados nas câmaras de gás! – ele ia falar mais coisa, mas Andie deu um tapa em sua cara gorda e prepotente, fazendo-o cuspir sangue no chão.

Quem estava na mesa prendeu a respiração. Ernest levantou, se prontificando a defender Andie caso Jack pensasse em fazer algo estúpido. Gertrude tinha um misto de raiva contra a mulher que batera em seu marido e decepção por tê-lo ouvido falar aquelas coisas. Não sabia ao certo qual dos dois defender, por isso permaneceu em seu lugar, segurando nas mãos de Zélia, ambas apreensivas.

Jack, que estava agachado, ergueu o corpo devagar e encarou Andie de forma assassina. O sangue escorria pelo queixo e empapava a gola da camisa social branca, pingando no chão em gotas gordas.

—Sua vagabunda! Como ousa? – ele avançou para Andie e ela colocou os braços defensivamente na cabeça, esperando pelo golpe que não chegou.

Andie espiou e viu que Ernest havia segurado o punho de Jack no ar. Os olhos do sr. Raytower estavam retorcidos pelo ódio e pela fúria desmedida, mas seu rosto permanecia impassível. Ele era frio, não faria nada impetuoso ou emotivo. Em sua cabeça ele analisava a situação e pensava no que faria a seguir. Decidiu apertar com a maior força que tinha o punho de Jack para alertá-lo sobre o que aconteceria se tratasse Andie dessa forma novamente. O marido de Gertrude arregalou os olhos com a dor e vagarosamente recuou o punho machucado.

—Acho melhor o senhor ir embora daqui, ou não terei piedade. – Ernest falou com a voz baixa, somente para Andie e Jack escutarem. – Sinto muito pela senhora – falou, se voltando para Gertrude. – por ter um marido como ele. Se algum dia precisar de minha ajuda estarei à disposição.

Ela estava com medo. Jamais ousaria pedir ajuda. Tinha medo do que o marido faria, mas assentiu, fingindo concordar. Em casa explicaria tudo a Jack.

Um barulho alto desviou a atenção de todos para o que ocorria no interior da casa. Ouviram o estalido de uma janela de vidro de partindo. Ernest libertou Jack de suas mãos e falou para Andie permanecer onde estava, aproximando com cautela de onde tinha vindo o som.

Uma sombra surgiu no corredor. Pela maneira como estava parado Andie pode concluir duas coisas: era um homem e tinha vindo diretamente da janela do quarto de Ernest. Na mão direita carregava um revólver, e tinha a outra mão escondida no bolso do sobretudo.

—Fiquem todos parados. – a sombra falou, sua voz saindo abafada provavelmente por estar com o rosto coberto. – Procuro Ernest Raytower.

—Sou eu. O que quer? – Ernest deu um passo a frente, confiante, colocando-se entre a sombra e sua família.

—O senhor deve me acompanhar. Tem em seu poder informações muito valiosas para nós. – enquanto ele falava outra sombra surgiu, desta vez vinda do jardim nos fundos. Devia ter aberto a porta da cozinha com algum arame, e se aproximava ameaçador, também portando um revólver.

—Eu não tenho nada comigo. Deixem-nos em paz.

Gertrude tremia, mas Zélia ao seu lado estava de queixo erguido e os ombros tensionados, à espera de qualquer ataque. Jack havia mijado na calça e a urina pingava no chão, misturando-se com o sangue e a saliva. Covarde, Andie pensou, por pouco não rindo. Benedict tirava discretamente algo da parte de baixo da mesa, com uma postura tão profissional como se tivesse sofrido ataques a vida toda e estivesse pronto para isso.

—Se não vier conosco receio que teremos de enfiar uma bala na cabeça de cada um aqui.

—Veja, Sawyer, o idiota se mijou todo! – o outro homem na cozinha apontou com o revólver para Jack, rindo.

—Cala a boca, seu estúpido! – aparentemente o homem no corredor era o chefe, pela forma como o outro se calou. – Agora, sr. Raytower, queira fazer o favor de nos acompanhar. – ele levantou mais o revólver, frisando que na verdade aquilo não era um pedido.

Andie calculou as chances de defesa. Jack era inútil, e ela não confiaria nele para defender quem quer que fosse. Gertrude tremia sem parar e começava a ficar pálida. Zélia, embora mantivesse a postura, estava com medo e isso era perceptível nos seus olhos arregalados. Os únicos que efetivamente faziam algo eram Benedict, ainda com a mão embaixo da mesa, e Ernest, tentando negociar com os assaltantes.

—Para quem trabalham?

—Isso não é da sua conta! Venha, e prometemos não machucar ninguém.

Ernest não acreditou na promessa. Nunca confie em ninguém que aponte uma arma para você, seu pai sempre lhe dizia. Ele olhou na direção de Benedict e fez um aceno minúsculo com a cabeça. O velho deve ter entendido, pois acenou de volta.

Ernest se aproximou devagar do homem no corredor, falando:

—Tudo bem, eu vou com vocês. – ele espalmou as mãos no ar, rendido.

Quando o homem ia agarrar Ernest ele deu uma rasteira e o derrubou, o que o fez soltar o revólver. A arma rolou pelo chão, indo parar na porta do quarto de Ernest. Ele escutou um tiro atrás de si ao correr para pegar a arma caída. O homem segurou seu pé e Ernest caiu no chão, tendo o assaltante em cima de suas costas. Ele ficou sem fôlego, tentando se esticar para pegar a arma.

Andie se protegeu com os braços quando Benedict atirou no assaltante, errando por causa da distância, sem tempo para mirar corretamente. O homem apontou o revólver para Benedict e atirou, mas acertou somente a cadeira vazia. Antes que pudesse encontrar o velho Benedict já estava em cima dele, lutando para lhe tirar a arma. Andie viu que ele precisava de ajuda e pegou o primeiro objeto a seu alcance.

O assaltante deu um murro em suas costelas e o ar escapou pela boca. Reunindo sua força jogou a cabeça para trás e escutou o estalo de nariz quebrando, antes de ouvir o grito estridente que fez seus ouvidos doerem. Sentiu algo morno pingando na nuca. Sangue. Com um último impulso se jogou para a frente e fechou os dedos no cabo frio do revólver. Virou de barriga para cima e atirou, sem mirar.

A faca tinha um cabo comprido e pequenas serras afiadas. Ela correu para o assaltante, tomando cuidado para não entrar no campo de mira do revólver sendo atirado a esmo. Uma bala atingiu o quadro que retratava pastores e caiu com estrondo no chão. Outra entrou na perna de Jack e se alojou em seu joelho. O covarde caiu no chão, gemendo de dor. Gertrude e Zélia assistiam a tudo embaixo da mesa, se encolhendo sempre que escutavam um tiro. Andie segurou a faca mais firme na mão e procurou um ponto sensível no assaltante, desviando das investidas de Benedict.

A bala entrou pela garganta e saiu atrás da nuca do homem, e sua cabeça pendeu um segundo no ar antes de cair no peito de Ernest. Ele jogou o homem para o lado e correu na direção da sala de jantar.

Andie devia estar querendo cometer suicídio, ele pensou. A moça estava parada, rolando os olhos à procura de algo, enquanto seu pai e o assaltante se atracavam em uma luta intensa e furiosa pela própria vida. A mão de Benedict escorregou do revólver do homem e ele viu a oportunidade perfeita para se livrar do velho. Andie aproveitou o momento e, sem pensar muito mais, enfiou a faca no pescoço dele, acertando a carótida. O assaltante estacou, com os olhos arregalados de surpresa e dor, e largou a arma no chão.

Sangue saía aos borbotões do ferimento e escapava pela boca. Ele engasgava, emitindo grunhidos incompreensíveis e levando a mão à garganta, em uma tentativa inútil de evitar que sangrasse mais.

Andie assistiu com uma frieza até então desconhecida. O homem moribundo escorregou para o chão e, com um baque surdo e molhado, caiu em uma poça de seu próprio sangue, morto.