Surpreendentemente, Zélia era a única que ainda tinha calma, por isso contatou a polícia.

—Chame uma ambulância para esse covarde. – Andie lhe dissera, olhando com pena e raiva para Jack.

As roupas da sra. Marshall estavam em desalinho. Os cabelos sempre tão naturalmente arrumados apontavam para lados incomuns, e havia sangue por toda sua roupa. Ela ainda segurava a faca que usara para matar o assaltante, e quando ficou contra a janela, com a luz das lamparinas da rua iluminando seu perfil, acabou parecendo um daqueles assassinos frios dos livros de Agatha Christie.

Jack resmungou quando os paramédicos o puxaram para colocar na maca. Gertrude teve de ser levada, pois seu estado de choque pela situação e temendo pela vida do marido a deixaram em um estado catatônico.

Benedict teve de responder algumas perguntas aos oficiais da polícia enquanto os peritos examinavam os corpos. Ernest ficou ao lado do pai o tempo todo, ajudando-o na descrição dos detalhes. Omitiram, por motivos óbvios, a confusão que houve antes entre Andie e Jack.

Zélia fazia companhia para a moça, tentando amenizar a situação. Por mais que tudo houvesse sido feito em legítima defesa, Andie deveria responder por homicídio e, sendo mulher, talvez ficasse um pouco encrencada. Ela não tinha medo, contudo, era o que constatava no momento em que Zélia tirou cautelosamente a faca de sua mão e um policial se aproximou, com um caderninho de notas em uma mão e o cigarro na outra.

O policial bigodudo lhe fez algumas perguntas:

—Por que a senhora pegou uma faca? – ele ergueu o saquinho transparente no qual os peritos colocaram a faca.

—Foi a primeira coisa que vi. Havíamos usado a faca para cortar o carneiro.

—Humm... – ele tragou. -... e a senhora teria utilizado o revólver, caso estivesse à sua disposição?

—Teria sim, mesmo não sabendo atirar. Olha, senhor, eu teria feito qualquer coisa para defender Benedict. Não deixaria aqueles idiotas entrarem aqui, matar todo mundo e levar Ernest para sabe-se-lá-onde.

—E qual era o interesse dos assaltantes no senhor Raytower? – ele perguntou, desconfiado, fazendo anotações apressadas no caderno.

—Sinceramente, não tenho ideia. Eles alegaram que Ernest possuía informações valiosas para eles.

—E o sr. Raytower negou?

—Negou, sim. Ele disse não ter nenhuma informação valiosa ou de interesse a dois desconhecidos.

—Como eles entraram na casa?

—O da cozinha destrancou a porta que dá para os fundos da casa com um arame, e o do corredor entrou pela janela do quarto de Ernest. Ele quebrou o vidro. Nós ficamos parados, escutando, até o momento em que ele chegou.

—O assaltante do corredor, identificado como Lionel Sawyer, era um procurado antigo da polícia de Northampton.

—Como ele sabia que poderia encontrar Ernest aqui?

—Ele já devia estar seguindo vocês há dias, mas só encontrou a oportunidade perfeito na noite de hoje. Parecia que ele estava muito interessado no sr. Raytower.

—E por que acha isso?

—Dentro de seu casaco encontramos alguns documentos pertencentes a Raytower. Ele devia estar procurando algo mais valioso e, como não encontrou, resolveu ameaça-lo colocando a vida de vocês em risco.

Andie imediatamente pensou na pasta vermelha. Com certeza era aquilo que eles procuravam, mas ela não contaria sua descoberta ao policial.

—Não sei o que ele poderia estar procurando no quarto de Ernest. Só havia papeis sobre a contabilidade de meu marido e relatórios financeiros. Nada mais. – ela mentiu, encarando o policial.

—Pois bem. Preciso que a senhora assine este relatório de confissão, afirmando o homicídio que causou em legítima defesa. O sr. Raytower também assinou um igual. Não se preocupe com as implicações. No máximo a senhora terá de pagar alguma multa pela perturbação da paz, mas só. – ele entregou um papel amarelado para Andie, junto a uma caneta, que ela pegou e rabiscou a assinatura no rodapé.

Após toda a série de procedimentos Ernest se aproximou dela e cochichou:

—Acho melhor voltarmos hoje mesmo a Londres, Andie.

—Mas agora? Nesse horário? Seu pai e Zélia estarão seguros?

—Eu já tomei providências para isso. A polícia ficará fazendo a ronda na casa todo dia a noite. Eles concordaram que isso seria o melhor a fazer. Pelo menos enquanto não descobrem quem está por trás de tudo isso.

—Ernest, já passa das dez! Como vamos pegar a estrada agora? É perigoso demais!

—Andie, pensa bem: comigo aqui será arriscado para os dois. Em Londres, será mais difícil de conseguirem me encontrarem.

Ernest tinha razão. Embora ela estivesse exausta e desejando muito um banho, não poderia dormir agora com toda a adrenalina correndo em suas veias. Também não queria, de forma alguma, trazer perigo para Zélia e Benedict.

—Tudo bem, então, Ernest. Vamos voltar para Londres agora mesmo.

Andie pode tomar um banho rápido para tirar o sangue, e saíram logo em seguida. Ernest havia arrumado suas coisas e não quis se lavar, trocando apenas a camisa. A outra estava empapada com o sangue de Sawyer, e ele a queimou na boca do fogão.

—Filho, tem certeza de que ficará bem? – Benedict perguntou, preocupado, quando eles pararam na soleira da porta para se despedir, após a polícia ter saído e Zélia ter limpado a casa, tirando o cheiro de sangue, suor e urina. – Vai saber se esses caras não estão por aí.

—Fica tranquilo, pai. Sei me cuidar. A polícia já está trás desses cafajestes. Só preciso saber se o senhor e Zélia ficarão seguros. Mande-me cartas toda semana informando o andamento das coisas, por favor. – Ernest abraçou o pai com ternura, triste por deixa-lo. Depois abraçou Zélia. Ela chorava, e ele limpou as lágrimas que escorriam por sua face.

Ficaram só oito dias, mas foi como se tivessem ficado oito meses. A proximidade que adquiriram e o valor que a união familiar tomou depois daquela noite foram intensas demais. Andie tinha lágrimas nos olhos quando abraçou Zélia, sentindo se despedir de sua própria mãe.

—Fique bem, Zélia. Espero voltar em breve.

—Oh, Andie... você foi como uma filha para mim nesses dias. Obrigada! – Zélia respondeu, chorosa.

—E o senhor... foi um prazer enorme conhecer o pai de Ernest. – ela se dirigiu a Benedict, abraçando-o.

—Pena que a senhora é casada. Daria uma excelente esposa para meu filho. – Andie corou, achando graça. – Agora, vá! Quanto menos ficarem aqui, melhor.

Os dois deram as costas para Zélia e Benedict, e antes de entrarem no carro acenaram, saudosos.

A viagem de volta foi menos divertida. Não dava para enxergar as árvores e a falta de movimentação na estrada deixava tudo mais sombrio. Isso, mesclado aos eventos recentes e catastróficos, fazia Andie se encolher a cada cinco minutos, um calafrio percorrendo a espinha.

A casa de Ernest estava quieta. As luzes do andar de baixo apagadas, mas Andie viu que a luz do quarto de Charles permanecia acesa. Talvez ele estivesse organizando seus processos mais urgentes e Beatrice havia dormido. Era tarde, para os padrões da época, e Andie ficou mais tranquila ao saber que, pelo menos, sua amiga estava segura.

Ernest abriu a porta da frente, olhando para todos os lados da rua silenciosa antes de virar a chave e dar espaço para Andie entrar primeiro.

—Vou para meu quarto. Boa noite, Ernest. – ela falou, subindo com sua bolsa.

Ernest havia acendido a lamparina do hall de entrada e a luz incidia sobre seu rosto amargurado e apreensivo. O brilho azul recorrente em seus olhos havia se apagado por completo. Ele parecia outra pessoa.

—Boa noite, Andie. Tente descansar. Se precisar de qualquer coisa durante a noite estarei na biblioteca. Creio que não conseguirei dormir hoje.

Ela acenou com a cabeça antes de subir as escadas e já ia abrindo a porta de seu quarto quando um gemido vindo do quarto de Charles – que, na verdade era de Ernest – a fez estacar.

Andie colocou a mala no chão e seguiu com passos silenciosos até onde a luz passava por baixo da porta. Ela escutou gritos e baques surdos. Desesperada, abriu a porta sem se importar em bater.

Charles estava em cima de Beatrice, enrolados debaixo do cobertor. Beatrice ergueu a cabeça e se espantou ao ver Andie. Charles imediatamente saiu de cima da moça e se cobriu com o lençol, deixando Beatrice desnuda.

—Senhora! O que fazem aqui? Por que não avisaram que estavam chegando? – Beatrice saiu da cama, pegando suas roupas do chão para cobrir a nudez.

A fúria no rosto de Andie despertou Beatrice, e ela parou onde estava, com receio de se aproximar. Sabia ter traído a confiança da patroa, mas o desejo e a paixão foram maiores e, além do mais, Charles era uma boa pessoa!

—Como ousa dormir com esse canalha, Beatrice? – ela direcionou o centro de sua raiva para Charles. Sabia que, apesar de Beatrice ser ingênua, não era boba, mas tinha verdadeiro asco pelo homem enrolado no lençol, que ousara enganar Beatrice com suas promessas de amor e a deflorara.

—Eu o amo, senhora! A senhora precisa entender isso!

Andie virou as costas, deixando Beatrice para trás. Mas a moça foi persistente e seguiu atrás de Andie, colocando seu vestido rapidamente no caminho. Andie desceu as escadas furiosa, atraindo a atenção de Ernest na biblioteca.

—Senhora, espere!

—O que está acontecendo aqui? – Ernest apontou na porta, observando a roupa mal encaixada de Beatrice, a decepção de Andie e o sobrinho no patamar superior munido apenas de um lençol verde. – Charles, o que fez com a garota?

—Eu não fiz nada, tio! Não a obriguei a dormir comigo. Ela quis, eu quis... e fizemos.

—Ora, seu... – Andie começou, mas Ernest a interrompeu, tentando colocar um pouco de calma na situação.

—Charles, pretende casar com ela?

—Sim, tio. Quero me casar com Beatrice. Já estou tomando providências para isso.

—Desde quando vocês dois estavam com essa... essa... argh, não sei nem que palavra usar para descrever isso. – Andie cuspiu.

—Eu me deslumbrei com Beatrice assim que a vi, mas só tomamos coragem para assumir os sentimentos um ao outro tem duas semanas.

—E você escondeu de mim durante duas semanas, Beatrice?

Ela abaixou a cabeça, envergonhada. – Sim, senhora. Desculpe, eu não podia falar, a senhora não parecia confiar muito em Charles.

—Se já não confiava antes quanto mais agora! – gritou. – E que garante a você que ele será fiel? Que ele não irá querer outra assim que conseguir casar com você?

—Porque... porque...

—Vamos, desembucha! – Andie ordenou.

—Eu espero um filho de Charles, senhora. Estou grávida.

Andie não explodiu. O tempo parou. Foi como um daqueles momentos em que nada acontecia. Os cinco segundos antes da explosão de uma bomba ou de uma tempestade, quando tudo rodava de forma mais lenta. Parecia até que o coração de Andie não batia. O choque superou qualquer dos acontecimentos da noite. A discussão com Jack, os assaltantes, o sangue quente escorrendo por sua mão quando ela enfiou a faca na garganta do homem... nada disso poderia se comparar com a surpresa.

Ela ficou sem conseguir falar durante um tempo. Grasnava e tentava articular uma palavra que fosse, mas nada lhe saía. Foi Ernest quem falou primeiro:

—Andie, está tudo bem?

—Não... – ela sussurrou, com a voz quebradiça. -... nada nunca mais vai ficar bem.

Seus olhos ficaram vazios. Se alguém chegasse e arrancasse seus dedos com uma tesoura ela nem sentiria, tamanho seu estupor.

—Senhora, eu posso explicar... – Beatrice desceu mais degraus na direção de Andie, mas ela se afastou, quase caindo.

—Não precisa me explicar nada, Beatrice. Eu já entendi tudo...

Andie deu as costas e foi para a porta da frente. Girou a chave sem falar e quando ia saindo deu de cara com um homem em um sobretudo longo. Ela bateu no peito dele e levantou o rosto, assustada.

—Paul? O que faz aqui?

—Olá, querida.

Notas finais
Estão gostando?