Escandalosamente Secreto
7 Paul
Notas iniciais
O choque de Andie com a chegada repentina e inesperada de Paul suplantou toda a situação de minutos atrás. Ela ficou parada, encarando o marido, tentando decidir se ficava feliz ou assustada.
Paul a olhava com admiração e saudade. Ele a puxou em um abraço quente, mas o gesto não trouxe o conforto que sempre trouxera para Andie.
—Estava sentindo tanto a sua falta, Andie. Podemos entrar?
Ela se desvencilhou sem dizer nada, e entrou de mãos dadas com ele. Paul não havia percebido o estado em que Beatrice se encontrava e nem o atordoamento de Ernest. Estava preocupado somente em se instalar com Andie e descansar.
—Olá, senhor. – Beatrice cumprimentou.
—Beatrice... estava sentindo sua falta também. – ele sorriu, olhando para Ernest em seguida.
O sr. Raytower olhava para Paul com estranheza. Como se não o conhecesse. Andie imaginou que a carga emocional do momento o deixara confuso.
—Ernest, meu velho amigo. – Paul se aproximou de Ernest, ainda de mãos dadas com Andie, reafirmando sua propriedade, e estendeu a mão livre para o contador.
—Paul, que surpresa vê-lo. Não esperava sua chegada.
—Na verdade, ninguém esperava. Meus serviços foram dispensados por enquanto e não quis esperar mais para voltar. Estava com saudades da minha Andie. – ele se virou para a esposa e plantou-lhe um beijo no rosto. – Preciso de um descanso. Se nos der licença. – ele subiu as escadas com Andie.
Quando passou por Beatrice parou e colocou a mão no ombro delicado da moça, sorrindo:
—Está corada, Beatrice. Aconteceu algo do qual não tenho conhecimento?
—Não, senhor... é só a emoção por vê-lo. – Beatrice olhou rapidamente para Andie e abaixou a cabeça, envergonhada e um pouco ressentida. Paul pensou que fosse subordinação e ergueu o queixo dela com a mão.
—Não precisa abaixar a cabeça. Eu é que devo cumprimenta-la por cuidar de Andie esse tempo todo. Terei gratidão eterna com você.
Paul abaixou a cabeça e depois subiu as escadas.
—Você e Beatrice dividiam o quarto?
—Sim. Há apenas dois quartos na casa. Nós dormíamos em um e Charles, o sobrinho de Ernest, no outro.
Paul franziu as sobrancelhas, em parte pelo tom na voz de Andie quando ela mencionou o nome de Charles e em parte pela intimidade com que tratou Ernest. Mas ele resolveu ficar quieto, estava cansado demais, e continuou subindo as escadas até chegar na frente do quarto:
—E onde Beatrice ficará?
—Não a deixarei com Charles. Sugiro você ficar com ele e eu permanecer com Beatrice.
—Isso não está certo, Andie. Somos casados.
—Sim, mas não nascemos grudados. – o êxtase que imaginou que sentiria quando visse Paul não apareceu. Em seu lugar havia somente desconforto. – Não é correto fazer Beatrice e Charles dividirem o quarto, apesar de...
—Apesar de quê?
—Acho melhor entrarmos para eu te explicar tudo que aconteceu por aqui enquanto esteve fora. – Andie retorcia as mãos de nervosismo e ansiedade, e o gesto não passou despercebido para Paul.
Uma luzinha acendeu na cabeça do sr. Marshall. Sua esposa não costumava se abalar por quase nada nesse mundo, e saber que algo a deixara inquieta era um motivo e tanto para preocupa-lo.
Andie o puxou para sua cama estreita e eles se sentaram frente a frente.
—Como vou começar a explicar para você... só digamos que essa noite foi intensa demais para mim... não sei se consigo falar sobre ela agora.
—É por causa de minha aparição repentina?
—Não! Quer dizer... é e não é.
—Andie, explique melhor. Você não está me deixando nada calmo. O que aconteceu? Algo parece perturbá-la. Ernest a tratou com desrespeito?
—Não. No começo tivemos nossos desentendimentos, mas isso já foi resolvido. Eu tinha dificuldades em confiar nele... como você sabe...
—Essa sua desconfiança com todo mundo ainda vai lhe custar algumas amizades.
—Eu bem sei... mas é que não o conhecia e você nunca havia falado a respeito dele.
—Não julguei importante mencioná-lo. Mas se não foi isso então o que foi?
—Uma das coisas que aconteceram hoje não posso dizer... ainda. – ela se apressou em acrescentar vendo a expressão murcha de Paul. – É muito... hã, chocante. Preciso de um tempo para assimilar antes de lhe contar. Por favor, respeite isso. – ela suplicou quando Paul abriu a boca para fazer objeções. – A outra coisa eu preciso lhe contar para que possamos resolver isso juntos.
Andie respirou fundo, reunindo coragem dentro de si.
—Beatrice está grávida.
Paul ficou quieto. Em seu rosto não havia nenhuma expressão, e Andie temeu que ele estivesse em choque. Ela pensou em sacudi-lo, mas quando ia fazê-lo Paul despertou:
—De quem?
—De Charles, o sobrinho de Ernest.
Os olhos verdes de Paul ficaram sombrios. Ela viu o choque se transformando em raiva e sentiu certo medo. Paul geralmente era muito calmo, e ela esperava nunca vê-lo explodindo.
—Como isso aconteceu? – ele falou, com a voz controlada, rangendo os dentes.
—Ora, Paul... do jeito que você já sabe.
—Não é disso que estou falando... quero dizer, como você não percebeu os sinais?
—Sinais? Você por acaso acha que Beatrice simplesmente chegaria para mim e falaria estar pensando em engravidar de Charles?
—Não seja tola, Andie. Você entendeu muito bem minha pergunta.
—Eu juro que não percebi. Beatrice foi discreta e não deixou transparecer que chegaria nesse ponto com Charles. Se eu tivesse a mínima desconfiança teria dado um jeito de impedir.
—Enxerga a gravidade dessa situação?
—Claro que enxergo. E, além do mais, Charles é mulherengo. Não irá querer um compromisso sério com Beatrice. Isso arruinará sua vida. Embora eu não ache que seja um escândalo uma mulher criar filhos sozinha.
—Como não acha? É a pior coisa que poderia acontecer com uma mulher, Andie.
Antes de Andie conhecer Ernest e seu jeito progressista, relevava tudo que Paul lhe dizia. Acreditava que suas opiniões eram corretas e o defendia em qualquer coisa. Mas, agora, sabendo que existiam outras alternativas para uma mulher solteira e discordando completamente da forma como Paul a tratava – com expectativa de submissão e obediência -, ela não poderia ficar quieta.
—Paul... existem muitas coisas infinitamente piores que poderiam acontecer com uma mulher.
—Quais, por exemplo? – o ceticismo em seu semblante deixou Andie desanimada, desapontada e com raiva. Por fim, ela desistiu de contradizê-lo, pois estava cansada.
—Deixa isso para lá. Só quero ir para a cama.
Paul se acendeu, envolvendo a cintura de Andie com os braços rijos.
Ela percebeu suas intenções e se afastou, gentilmente:
—Paul, hoje não, por favor. Estou exausta.
—Mas não estava com saudades de mim?
—Claro que estava querido... – ela falou, mais branda. -... é só que estou realmente cansada. Por favor, entenda. Amanhã quem sabe... e outra: Beatrice também vai querer descansar e, com você aqui, não lhe restará alternativas a não ser esperar do lado de fora até sabe-se-lá-que-horas.
Ele se desvencilhou de Andie e saiu da cama, parando na soleira da porta e olhando para a esposa por alguns segundos. Depois, falou com a voz mais calma, contudo Andie percebeu que havia certo ressentimento, mágoa e contrariedade:
—Tudo bem, querida. Descanse e amanhã conversamos melhor. Eu te amo.
—Eu também te amo.
Quando ele saiu Andie fechou a porta. Trocou de roupa rapidamente e se deitou na cama, apagando as luzes e se cobrindo até a cabeça. Preferiu ficar virada para a parede, pois não queria ter de encarar Beatrice.
A jovem não demorou muito para entrar no quarto. Ela cheirava a perfume masculino e jasmim. Remexeu em algumas coisas e pareceu trocar de roupa. Em seguida, deitou na cama com um baque surdo e deve ter adormecido de imediato, pois Andie não escutou mais nada além do som regular de sua respiração.
Andie demorou quase duas horas para conseguir entrar em um estado próximo à inconsciência. Seus pensamentos se embaralhavam em cima uns dos outros, alternando-se entre a sensação do sangue fresco e quente enchendo sua mão, a expressão envergonhada de Beatrice quando anunciou que estava grávida e o comportamento incômodo de Paul. Tais lembranças eram pontilhadas pelo rosto marcante de Ernest, sorrindo para os pais, defendendo sua família dos assaltantes e, finalmente, Andie adormeceu recordando da forma como ele a olhava.
Logo após o café Paul chamou Andie para conversarem. Ela não sabia o que esperar, portanto estava receosa. Temia que ele a forçasse a falar sobre o incidente da noite passada, mas Paul ainda era o mesmo que conhecia, então ele não a faria falar se ela não quisesse.
Sentaram na antessala; duas poltronas atrás da mesa de jantar, com uma mesinha de centro. Em cima dela haviam duas xícaras de chá, uma delas intocada, e um bule. Paul já estava na segunda dose quando enfim falou:
—Querida, preciso que conte tudo que aconteceu durante minha ausência. Recebi sua carta e admito também ter ficado surpreso com nossa situação financeira.
—Surpreso? Mas como você não percebeu?
—Eu andava notando umas irregularidades nas contas da casa, mas não sabia que isso nos traria grandes problemas.
—Irregularidades? Desconfia de alguém?
—As únicas pessoas que tinham acesso às contas éramos nós dois. Beatrice não mexia em nada...
—E mesmo que mexesse confio nela minha vida. Eu só estou muito desapontada com ela no momento, mas isso não quer dizer que deixei de considera-la uma amiga.
—Talvez as irregularidades tenham sido causadas por nós mesmos. Podemos ter deixado passar algum gasto ou esquecido de anotar determinada despesa. É a única explicação possível.
—Não sei... acho tudo isso muito estranho... eu nunca deixei de te informar sobre meus gastos, nem torrei dinheiro com luxos como as outras senhoras fazem... sempre fui muito comedida e dava prioridade às coisas realmente necessárias.
—Querida... eu sei... – ele a acalmou, colocando as mãos fortes em seus ombros. – Não se preocupe, resolveremos isso. Mas tem algo sobre o qual preciso lhe falar... algo que me desagrada muito... – ele tirou as mãos de seus ombros e as firmou nos joelhos. Estava muito consternado; Andie imediatamente ficou em alerta. – Enquanto eu estava a serviço, escutei certas coisas que me deixaram aflito... planejam um ataque contra MacMillan.
—Um ataque? Mas por quê? E quem?
—Um oficial do exército estava comentando com um colega de regimento... desconfiam que a União Soviética planeja tomar a Inglaterra. É onde está o centro de poder da Europa. Os Estados Unidos são do outro lado do oceano e a China está fora de cogitação.
—Mas eles têm potencial suficiente para fazer isso?
—Creio que sim. A Rússia está expandindo sua indústria bélica e não vai desistir tão cedo. Por isso me dispensaram do serviço. Vão avaliar todo o território inimigo e tentar um acordo... não sabem quanto tempo isso levará, e seria um risco deixar todos nós no meio do fogo cruzado.
—Se MacMillan cair quais seriam as consequências?
—A Inglaterra ficaria completamente exposta às ameaças de bombardeio nuclear dos soviéticos. Enquanto temos alguém para incutir um pouco de medo estamos em segurança. Essa guerra não é feita com armas, Andie... e isso é o que mais me assusta. Armas podemos ver, mas isso? É algo com o qual não contávamos.
—Quem está por trás dessa descoberta? É uma informação confiável?
—Sinceramente eu não sei... mas não arriscaria.
—E o que faremos? A queda de MacMillan é nossa queda também. Como podemos ajudar?
—Primeiro, podemos ajudar ficando em casa, seguros, sem contato com estrangeiros. Não é hora de confiar em ninguém... até mesmo alguns ingleses estão contra MacMillan e podem facilmente se aliar aos soviéticos. Enxergam uma vida mais fácil do outro lado... Berlim ameaça implodir, a Itália ainda é vista como não confiável, sua entrada na União Europeia está muito recente... os ocidentais não têm uma base tão forte onde se apoiar.
—E o que você pensa de tudo isso?
—Andei avaliando nossas possibilidades e acredito ser melhor nos mudarmos...
—Mudar daqui? – Andie levantou da poltrona. – Para onde iríamos?
—A América é nossa melhor opção. Poderíamos viver no Brasil. Dizem que é de uma beleza estonteante... nossas chances de crescer lá são enormes. O presidente Juscelino desenvolveu o país de uma forma como outros não fizeram. Já pensou em uma vida sossegada, com tudo de melhor que a natureza tem a oferecer...
—Mas Beatrice está em uma situação frágil, não podemos ir agora.
—Se esperarmos mais há grande chance de não conseguirmos sair... a economia está instável e os nervos inflamados pela proximidade de uma possível guerra armamentista. Teremos de ir agora.
—Não temos dinheiro e Ernest está cuidando disso, se formos agora corremos o risco de não ter dinheiro depois. Ir morar em um país cuja cultura e idioma desconhecemos é suicídio, Paul.
Andie não estava preocupada somente com isso. Abaixo de toda essa pilha de argumentos havia um que a inquietava. Não queria deixar a Inglaterra, pois isso significava deixar Ernest. Ela não conseguia nem pensar na hipótese de nunca mais vê-lo. Mas também não conseguia sequer cogitar compartilhar esse pensamento com Paul.
—É suicídio maior ainda ficarmos morando aqui.
—Se é por incomodar Ernest ele me garantiu que...
—Andie, não é nada disso. Aliás, há outra coisa que vem me perturbando desde ontem, quando passei pela porta... – a urgência nos olhos verdes de Paul a deixou com as pernas moles. Precisava de muito para causar perturbação no tranquilo Paul.
—É algo relacionado a Ernest?
—Sim, é com ele mesmo que estou tremendamente angustiado. – ele levantou e se aproximou de Andie, encarando-a com toda sua altura. – Andie... eu conheço Ernest como a palma e minha mão, e aquele não é Ernest.
—Como assim? Está querendo me dizer que ele não se chama Ernest, é isso?
—Estou querendo dizer, Andie, que esse homem é um impostor. Ele não é Ernest Raytower.
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