Andie ficou estarrecida. A sucessão de eventos inesperados a deixou com a sensação de ver seu mundo antigo despedaçado. Era como se alguma entidade divina estivesse brincando com sua capacidade de resiliência.

Ela olhou abobada para Paul, esperando não passar de uma brincadeira, mas seu marido não dava sinais de atender sua súplica. Ele a encarava de volta, sério, com toda a intensidade e calmaria de seus olhos verdes. Naquele momento, Andie desejou apagar os últimos meses de sua vida, voltar à sua casa, esperar por Paul, sem preocupações financeiras nem a memória da noite passada.

—Andie, querida, está tudo bem? – ele segurou seus ombros, apertando delicadamente, como se para despertá-la.

—Então ele... ele... – balbuciou, perdida em seus pensamentos. -... ele não é Ernest Raytower?

—Não. Conheço Ernest Raytower há mais de vinte anos, e posso afirmar com toda a certeza que ele não se parece nem um pouco com o Ernest verdadeiro.

—Mas, então... quem é ele? E por que nos enganaria?

—Não sei, mas entende agora porque devemos ir embora? Desconheço os motivos e as intenções deste homem; em todo caso, melhor não arriscarmos.

—Beatrice teria de ir conosco.

—Beatrice espera um filho de Charles, ela deve ficar.

—Não! Paul eu juro por Deus que se Beatrice não for conosco eu também não irei. – ela se desvencilhou do aperto de Paul, o choque se transformando em uma raiva defensiva. Jamais sairia dali sem Bea.

—Andie, você está sendo irracional! Pense um pouco: Beatrice está segura aqui. Quaisquer más intenções que ele tenha são dirigidas exclusivamente a mim.

—Paul, não tente me dissuadir! Ou saio daqui com Beatrice ou não saio. O Brasil fica do outro lado do mundo, não a deixarei aqui!

—Acho melhor você me obedecer. – sua expressão sempre tão serena rapidamente mudou para algo muito próximo da raiva e da indignação.

—Ou o quê? Vai me obrigar? – ela bateu de frente, cerrando os punhos.

—Uma esposa deve obedecer seu marido. – apesar de sua voz permanecer neutra, Andie notou a autoridade e a ameaça escondidas.

—Você sabe que nunca fui uma mulher convencional!

—Não. Nunca foi.

Eles ficaram se encarando durante um tempo absurdamente longo, no qual nenhum dos dois falou nada. Andie estava puta – se me perdoa o uso da palavra, mas é a que melhor descrevia seu humor -, seus olhos estavam injetados e ela trincava o maxilar com tanta força que poderia parti-lo. Paul continuava calmo, mas por trás de sua postura ereta tinha desafio. Ele a desafiava a contrariá-lo. Andie sempre impôs suas vontades, mas de forma racional e comedida. Nunca haviam brigado por algo tão grande quanto essa decisão. Não se tratava simplesmente de fazer as malas e voar para o Brasil. Isso envolvia Beatrice e toda a confiança que ela depositou em Paul e Andie. Não poderiam deixa-la logo agora, quando mais precisava de cuidados, mas também não era correto e nem seria adequado deixar Charles e Beatrice separados. Os dois eram uma família, mesmo que não houvesse documentos ou união matrimonial para comprovar.

Andie se sentia confusa. Por mais que respeitasse e quisesse permanecer em conformidade com Paul, não ousaria deixar sua melhor amiga, sua confidente. Passaram por tantas coisas juntas, e Andie deveria estar com ela quando o nenê viesse. Não era uma questão de dever ou senso, e sim de fidelidade. Amava Paul, mas amava Beatrice igualmente, e não seria um homem a colocar rédeas ou correntes em volta de seu corpo. A única coisa que aceitava ao redor de si era o corpo de Paul, amando-a intensamente. Algo diferente disso era impensável.

Ela pensou que Paul iria deixar o assunto de lado e tentar ficar na casa de Ern... não, do homem que ela pensava ser Ernest, mas ele foi muito rápido e prendeu as mãos nos braços de Andie.

—Paul, está me machucando! – seu pulso passava de vermelho para roxo, e suas veias inchavam. Ela girou o braço para tentar se soltar, mas Paul era forte e não aceitava que lhe dissessem o que fazer.

—Me escute bem, Andie – ele falou, aproximando o rosto do dela – quando eu digo para fazer alguma coisa, você faz. Se eu disser que vamos nos mudar para o Brasil sem Beatrice, então vamos para o Brasil. Não há o que decidir, você vem comigo. – ele deu um puxão violento em seu braço, fazendo quase se desequilibrar.

Andie não sabia o que dera em Paul. Ele sempre foi doce, compreensivo e acatava muitas de suas decisões. Quando ele se casara com ela a conhecia bem o suficiente para saber que ela não era de aceitar ordens de homens. Andie tinha opiniões próprias, acreditava em suas intuições e potenciais, e não deixaria que ninguém lhe dissesse o que fazer.

Pensou em Beatrice, na pobrezinha que ficaria perdida e decepcionada, e foi isso que a impulsionou a se libertar de Paul e empurrá-lo.

De início ele ficou surpreso, depois em choque e por último lívido. Havia uma fúria em seu rosto que Andie nunca vira antes, e pela primeira vez teve medo do marido.

—Como ousa, sua vagabunda... – ele foi para cima dela, e Andie colocou os braços na frente do rosto, tanto para se defender quanto para revidar.

Mas não veio golpe nenhum. Quando ela arriscou olhar pelas frestas nos braços não viu Paul. Em seu lugar estava Ernest, estonteante em toda sua altura. Paul estava caído no chão, com um corte feio no lábio e parecendo um filhote de cachorro que acabou de apanhar. Ernest o olhava com nojo, desprezo e ódio. Os olhos azuis estavam dilatados, quase negros, e Andie agradeceu por não serem dirigidos a ela.

—Como você ousa, Paul. E levantar o dedo para Andie outra vez farei muito mais que partir seu lábio.

—Ela é minha esposa, eu falo o que deve fazer ou não! – a voz saiu engrolada e sangue caía no assoalho.

—Andie, você está bem? – Ernest se virou para ela, preocupado, imediatamente assumindo outra expressão.

—Estou, sim estou...

—Agora esse desgraçado não garanto que ficará nada bem... – ele continuou, dando um chute na perna de Paul, fazendo-o se encolher.

—Ernest... ou seja lá qual for seu nome, por favor deixe-o.

—‘Seja lá qual for seu nome’? O que quis dizer com isso, Andie? – ele questionou, confuso, esquecendo momentaneamente de Paul.

—Ela sabe... – Paul grunhiu, tentando se levantar, sem sucesso. -... vá lá, confirme que é um impostor.

—Eu sinceramente não sei do que está falando. O impostor aqui é você! – ele apontou para Paul.

—Espera, espera! – Andie pediu, espalmando as mãos no ar, a cabeça rodopiando. – Do que estão falando?

—Andie, sinto muito em dizer isso, mas ele não é o Paul que eu conheci.

—E você não é o Ernest que conheci!

—Gente, pelo amor de Deus, o que está acontecendo?

—Andie... – Paul começou, sendo interrompido por um olhar quase assassino da esposa, e por fim calou a boca.

—Meu nome é Ernest Raytower, mas ele não é Paul Marshall.

Tudo que Andie conhecera e acreditara ruiu. Ela saberia se seu marido não fosse seu marido. Conhecia Paul muito bem, o amou da mesma forma que agora o odiava, compartilhou a cama, o coração e os dias com ele. Fizeram planos para o futuro e questionaram a vida; discutiram política e, inclusive, torceram pelo mesmo candidato. Ele a colocava para dormir com um beijo apaixonado. Andie sonhava com seus braços, com seu corpo, desejando fundir fisicamente com ele e nunca mais se separar. Quando Paul foi chamado a serviço do governo ela pensou que fosse morrer. Passou semanas antes que conseguisse sequer sair do quarto. Paul destruíra suas barreiras, provocara questionamentos e a fizera ser quase completamente submissa a seus desejos. Pensou que tal sentimento nunca mais teria por outra pessoa, até chegar Ernest.

Todos os seus alicerces, fortalezas e disfarces foram por água abaixo com ele. Paul a fazia se sentir em casa, mas Ernest a fazia se sentir fora de tudo que conhecia, expandia seus horizontes e a abria para a vida... e isso a assustava tremendamente.

—C-como assim? Está dizendo que não sei quem é meu marido?

—Não disse nada disso, Andie... quando você o conheceu ele se apresentou como Paul Marshall, mas estou atrás desse homem há anos. Não posso dizer quem sou, nem o que procuro nele, só o que tenho permissão para lhe contar é que você esteve com um assassino procurado, dividindo a cama por anos, e nunca soube disso. Nem saberia se não fosse por mim.

Andie segurava as lágrimas. Os olhos ardiam e ela não conseguia falar; parecia haver um nó obstruindo sua garganta, e ela quase se engasgou.

—Sinto muito dizer isso, Andie... Paul não é quem você pensava que fosse e terei de entrega-lo.

—Não conseguirá fazer isso se estiver morto, Ernest... – não viram Paul se aproximando com o revólver, mas ouviram o estalido da bala contra carne quando ela acertou a coxa de Ernest. Ele caiu no chão, e Andie caiu com ele, se protegendo de Paul atrás da poltrona. – Saiam daí seus covardes... Andie virá comigo por bem ou por mal. Se não hoje, amanhã, ou depois... mas não desistirei de tê-la para mim.

—Paul, por favor! Por que está fazendo isso? – ela gritou, derramando copiosas lágrimas, desesperada, desiludida, aflita...

—Por anos eu esperei, Andie. Concordei com todas as suas ideias estúpidas e aguentei cada explosão... porque te amava! Se você me ama, venha comigo! Ernest não viverá muito mais, eu prometo!

—Vá embora, Paul! – por mais que isso doesse na alma, ela não poderia viver com alguém como Paul. Sua condição de mulher a fizera lutar por anos pela independência e igualdade, e essa luta não acabaria por causa de homem. – Nos deixe em paz!

Paul ficou quieto. Ela escutou um soluço desolado e o barulho de passos se distanciando. Quando ele falou sua voz estava embargada:

—Eu vou agora, Andie, mas voltarei para busca-la. Ouça minhas palavras, meu amor! Não viverei sem você. Juro pelo santo nome de Deus que a levarei comigo!

Eles escutaram a porta batendo, e Paul saiu. Ernest acompanhou seus passos pela janela, e só voltou a respirar normalmente quando ele atravessou o portão e entrou em um carro da cor de ameixa, dando a partida.

Ernest saiu de trás da poltrona, mas resmungou de dor antes que pudesse se levantar por completo. Em sua coxa esquerda tinha um buraco, do qual sangue escorria, manchando a calça de alfaiataria azul e borrando o assoalho.

—Ernest, deixe que te ajudo! – Andie o segurou debaixo do braço, colocando a maior força que podia para levantá-lo.

—Não se incomode com isso, a bala saiu. – ele avisou, apontando para um pequeno objeto de chumbo deformado e manchado de sangue próximo ao pé da mesa de centro.

—Menos mal. Pelo menos uma notícia boa em um dia como esses. – Andie desligou sua mente dos últimos acontecimentos, focada agora em cuidar para que Ernest se recuperasse do ferimento e não tivesse maiores sequelas. – Vamos lá para cima, cuidarei da sua perna.

—Não se incomode com isso. Temos assuntos mais urgentes que minha perna agora.

—Podemos deixar Paul para depois. Ninguém consegue resolver problemas machucado como você está. Não seja teimoso, posso ser tão cabeça-dura quanto você.

—Eu bem sei disso. – ele falou enquanto subiam vagarosamente a escada, cuidando para que não abrisse mais o ferimento. Beatrice surgiu assim que colocaram os pés no patamar superior, alarmada.

—Senhora, o que aconteceu?

—Onde você estava, Beatrice? Me ajude aqui.

Beatrice segurou o outro lado de Ernest, preocupada.

—Escutei sons de gritos e pancadas. Resolvi olhar e vi o senhor Paul com uma arma na mão. Eu estava em nosso quarto, repousando. Ando muito cansada ultimamente. Espiei pelo buraco da fechadura e fiquei em silêncio, torcendo para que ele não percebesse minha presença.

—E Charles? – Ernest perguntou, sentando com cuidado na cama de Andie, imediatamente ensopando-a com seu sangue.

—Ele havia saído mais cedo, disse que foi resolver algumas pendências do trabalho. Precisa de algo, senhora?

—Vá buscar panos limpos e álcool. Devemos desinfetar o ferimento antes de enfaixa-lo.

—Não seria melhor leva-lo ao hospital?

—A bala saiu, e além disso, como iríamos explicar à polícia o que aconteceu?

—Tem razão. Já volto, senhora. – Beatrice saiu apressada.

—E você sabe fazer isso? – Ernest perguntou, com os olhos embotados pela dor.

—Isso o que?

—Curativos. Limpar um ferimento e enfaixar. Você sabe?

—Não há segredo algum nisso.

—Quer falar sobre o que aconteceu? Sei que está sofrendo e disfarça para não deixar Beatrice mais preocupada do que ela já está.

—Se não se importa, prefiro evitar o assunto. – ela falou, firme, sem dar espaço para Ernest retrucar ou insistir.

—Eu a protegerei, Andie. Prometo.

Ela o olhou, comovida. Uma lágrima escorreu por sua bochecha, e Ernest a enxugou com a ponta dos dedos, parando ali mais tempo que o permitido.

—Não deixarei que Paul a leve contra sua vontade.

—Você acha mesmo que eu iria com ele?

—Não. A conheço bem. Mas se fosse de seu desejo...

—Eu também achava que Paul respeitava meus desejos. Pelo visto eu estava enganada.

—Todos nós nos enganamos com as pessoas. Quando pensamos conhecer muito bem alguém, vemos que não conhecemos nada.

—Ele mudou, mas não entendo o porquê.

—Ninguém muda o que é, Andie. A essência será sempre a mesma desde o momento em que nascemos até nosso último suspiro. A vida nos faz alterar nossas percepções, nossas ações e nossos sentimentos. O que já existe dentro de cada um não se altera jamais. Uma pessoa má não fica boa, e uma boa não fica má.

—Discordo.

Ernest riu, grunhindo com a dor que o movimento lhe causou.

—Essa é sua palavra preferida, pelo visto. Mas me diga, por que discorda? – ele parecia genuinamente interessado.

—Rousseau sempre dizia que o homem nasce bom, mas a influência corruptora da sociedade o inclina para o mal. Acredito nisso. Acho que todos nós nascemos com uma parcela maior de bondade, mesmo que tenhamos pequenas doses do mal também. As circunstâncias, os sofrimentos e as desilusões nos deixam amargos e dados para a maleficência.

—É uma visão muito interessante, admito. Mas o que me diz de uma pessoa miserável, que tudo sofre e tudo perde, e nunca encontra o caminho do mal? Isso contradiz a tese de Rousseau.

—Existem exceções, é claro. Para tudo existem exceções. Até para a morte. Jesus Cristo e a Ave Maria estão aí para provar.

—Então acha mesmo que as pessoas se tornam más, e não nascem más?

—Eu não acho. Tenho certeza. Acredito em meus princípios e em minhas convicções.

—É por isso que gosto tanto de você. – ele admitiu, sério.

Andie perdeu o fôlego e o fitou, brigando com os sentimentos em seu peito.

—Também gosto de você, Ernest. – ela confessou, com o coração subitamente disparado.

Ernest encontrou sua mão no colchão e a segurou, prendendo de forma terna entre as suas. Ela percebeu como era diferente o modo como Paul segurava e o modo como Ernest segurava agora. Se xingou mentalmente por nunca ter notado antes. Se Ernest a segurava com respeito e ternura, Paul era possessivo e controlador. Ele não a tocava, simplesmente, e sim segurava com força, como para mantê-la grudada a ele, pertencendo a ele.

Eles ouviram passos do lado de fora do quarto e Beatrice pigarreou, se sentindo mal por atrapalhar o momento.

Depois que Andie limpou o ferimento e cuidou para que os curativos ficassem no lugar, Ernest dormiu, a dor tendo consumido suas forças. Ela e Beatrice saíram do quarto, de cabeça baixa, roupas amarrotadas e sangue em suas mãos.

—Pode deixar que limparei o assoalho, senhora. – Beatrice se adiantou na direção das escadas.

—Não! – Andie colocou a mão em seu braço para impedi-la. – Bea, me perdoe. Fui muito injusta com você. Ontem aconteceu tanta coisa que não parei muito para pensar no que disse, mas agora tenho certeza que agi mal. Se puder me perdoar...

—Oh, senhora! Não há o que perdoá-la, entendo suas preocupações. Nunca falaria algo para meu mal. E agradeço por isso. – Beatrice a tomou em um abraço.

—Pode descansar, Bea... eu limpo o assoalho. Você precisa de repouso. Não quero que perca meu sobrinho. – ela soltou uma risada fraca, mas verdadeira.

—Tem certeza?

—Sim. Pode ir. Esta noite durma com Charles. Ele é o pai de seu filho. Nada mais justo.

—E a senhora?

—Há duas camas em nosso quarto, se contei direito. – ela zombou.

—Se precisar de qualquer coisa pode me chamar, senhora.

—Eu chamo, agora descanse. – ela empurrou Beatrice delicadamente na direção do quarto de Charles, e desceu as escadas para limpar o sangue do chão.

Ernest acabou se mostrando um paciente difícil. Embora deixasse Andie cuidar dos ferimentos e desinfetar a cada duas horas, não obedecia suas ordens de repouso. Ela o escutava andando pela casa enquanto se ocupava com alguma tarefa que ficara a seu encargo e imediatamente ia atrás dele para colocá-lo de volta na cama.

—Eu estou bem, Andie, me deixe! – ele resmungava quando Andie enfiava a mão em seu braço e o puxava para o quarto.

—Não está bem coisa nenhuma. Olha como manca! Isso deve doer que nem os diabos, mas você é tão orgulhoso que jamais daria o braço a torcer...

Beatrice a ajudava no que precisava. Sua barriga começara a despontar e ela tinha certas dificuldades em realizar pequenas tarefas. Os enjoos aumentavam e a jovem ficava completamente inútil de manhã. Somente depois do almoço conseguia trocar curativos e ver sangue sem vomitar as tripas. Charles também era uma presença constante. Apesar do choque inicial sobre sua nova condição como pai ele estava confiante e fazia companhia para o tio.

Quando Andie não estava cuidando de Ernest tentava entender os inúmeros papeis contábeis de seu marido. Ela tentou expulsar qualquer pensamento sobre Paul, mas ele rondava sua mente da mesma forma que a abelha ronda um botão de flor. No começo, quando tudo ainda era recente, Andie chorava escondido, de raiva, decepção e frustração. O fato de Paul ter machucado alguém como Ernest, que era gentil e atencioso com ela, não ajudava muito, e Andie ficava cada dia mais e mais perturbada com os acontecimentos. Seu coração endurecera com Paul, mas, por outro lado, com Ernest se enterneceu. Ela não sentia pena dele, de forma alguma. No lugar da comiseração nascera algo único; tinha dentro de si a necessidade quase doentia de protege-lo e defender seus interesses, tanto que, em nome de Ernest deixara de lado a picuinha com Charles, e passara a conviver em algo próximo à harmonia e amizade.

Andie dormia no quarto com Ernest, atenta a qualquer sinal de desconforto e problemas médicos, mas igualmente atenta com Charles e Beatrice. Os dois viviam como um casal jovem e apaixonado. A jovem comentava com Andie, nos raros momentos que passavam sozinhas, o quanto estava feliz. O clima na casa se alterara de preocupação para esperança; Paul não surgia mais nos assuntos e os meses correram sem grandes surpresas.

Apesar de Ernest ainda mancar isso já não lhe causava o mesmo desconforto. Sua perna nunca mais seria a mesma e Andie o avisara disso. Ela agora conseguia compreender os cálculos matemáticos e criara algo verdadeiro com Ernest. Os dois passavam muito tempo juntos. Ele a ensinava seu ofício e Andie, por sua vez, compartilhava e defendia suas teses. O clima havia esfriado absurdamente, e naquela manhã cinzenta e nublada de 1958 os quatro almoçavam em perfeita harmonia. A comida estava deliciosa. Beatrice, com o dobro de seu tamanho original e uma barriga redonda, comia feliz da vida. O viço nunca mais saíra de sua pele, e os olhos brilhavam de alegria e contentamento. Ela ia ao médico uma vez por mês acompanhada ora de Charles, ora de Andie. Aquele sentimento de decepção havia há muito passado, e ela considerava o bebê seu sobrinho.

—Ele chutou! – Beatrice gritou, interrompendo sua refeição e admirando a barriga rechonchuda com amor no rosto delicado.

Todos pararam de comer e ficaram encarando a barriga, à espera de outro sinal do bebê. Charles estava ao seu lado e espalmou a mão no volume, concentrado. Quando o bebê chutou novamente Andie exclamou, emocionada. Charles, sentindo cada chute, tinha uma expressão boba no rosto bonito. Até Ernest parecia comovido, e continuou encarando Beatrice muito depois de todos terem retornado às suas refeições.

—Se me derem licença, precisarei ir ao escritório e talvez chegue tarde hoje. – Charles anunciou, empurrando a cadeira para trás e levantando. Não saiu sem antes dar um beijo em Beatrice e acariciar sua barriga. –Há umas coisas que preciso resolver. Vai ficar tudo bem? – ele perguntou se dirigindo à Beatrice.

—Tudo sim, Charles. Te vejo mais tarde.

—Andie... – Ernest começou a falar. -...hoje parece um bom dia para me conceder a honra de um jantar. O que acha?

Andie ficou surpresa. Em todos aqueles meses cuidando de Ernest e afastando todos os sentimentos de dentro de si só agora ela se dava conta de que eles nunca mais haviam ficado sozinhos, e a simples expectativa disso ocorrer a deixou com um formigamento nas mãos e uma palpitação no peito.

—Seria ótimo, mas e Bea? – ela questionou se virando para olhar a amiga.

—Ficarei bem, senhora... esteve ocupada demais cuidando de mim e de Ernest. Tire um tempo para se divertir. Confie em mim. – ela apaziguou a angústia de Andie colocando a mão inchada por cima da dela.

—Mas você dará à luz a qualquer momento. Não acho seguro deixa-la logo agora.

—A barriga ainda está para cima. E ainda nem completei as trinta e seis semanas. Estou bem. O bebê não escolherá o dia de hoje para dar as caras. – ela parecia confiante, e isso acalmou os nervos de Andie.

—Muito bem. Vamos jantar então.

Aquela noite foi a mais gelada do ano. Andie se encapotou em um sobretudo cor de ameixa e botas. Quando ela desceu as escadas Ernest já a esperava, parecendo muito ansioso. Seu casaco azul marinho combinava perfeitamente com o tom de seus olhos, escurecidos pela expectativa.

—Está particularmente elegante, Ernest. – Andie comentou, aproximando dele.

Ernest não conseguiu falar. Olhava para ela com deslumbramento, encantado pela beleza da mulher. Ele se contentou em assentir com a cabeça. Não precisava falar, sua expressão dizia tudo.

—Vamos? – ele disse, depois de u tempo, oferecendo o braço a ela.

—Tem certeza que ficará bem, Beatrice? – ela inquiriu, preocupada, olhando para a jovem parada perto da porta.

—A senhora já me perguntou isso cinco vezes hoje. E nas cinco vezes disse a mesma coisa que direi agora: ficarei bem, confie em mim.

Com o coração mais calmo Andie se virou e saiu.

Embora o frio rasgasse a pele, os dois concordaram em caminhar. O restaurante não era o mesmo daquela vez; Ernest escolhera um local mais intimista, com mesas separadas por biombos e velas no lugar de luzes elétricas.

Eles caminharam em silêncio até lá, e Ernest só foi comentar alguma coisa quando puderam distinguir o restaurante na rua tranquila.

—Eu não disse nada antes, mas está escandalosamente bonita, Andie.

Ela achou graça do elogio, e respondeu:

—Ora, mas que comentário mais ousado. – Ernest pensou que ela tivesse se ofendido e virou a cabeça na sua direção, preocupado, mas assim que detectou a diversão e a zombaria em seus olhos negros rapidamente se desfez em uma risada.

—Por que escolheu justo este restaurante? – ela indagou quando chegaram no local. As mesas com toalhas vermelhas eram dispostas de forma a não permitir que as pessoas espionassem a conversa ou o jantar umas das outras. Aquilo era um restaurante romântico, Andie percebeu, capturando com o olhar o conjunto de velas, flores em vasos pequenos e a iluminação fraca.

—Os outros estavam lotados. – Ernest chamou o garçom e um jovem magro de olhos muito verdes apareceu, dando um sorriso simpático para Ernest e tomando a mão de Andie.

—Boa noite, senhores. Mas que bela a senhora! – ele beijou a mão de Andie, com respeito e admiração, olhando-a da cabeça aos pés. Andie não se sentiu explorada, e sim bela. – Desejam uma mesa reservada?

—Sim. – Ernest foi curto e grosso, parecendo sentir ciúmes de Andie. Ele não gostou nada da intromissão do garçom, mesmo que aquilo não a tenha ofendido.

—Por aqui. – ele os guiou até uma mesa mais ao fundo e gentilmente puxou a cadeira para Andie. – Fiquem à vontade. Assim que escolherem é só levantar o braço que anotarei o pedido.

Ele saiu, e imediatamente a expressão de Ernest se alterou.

—Você não gostou nada dele, não é?

—Intrometido demais. Ele pegou sua mão e beijou assim, como se não fosse nada!

—Quer dizer então que está com ciúmes? – Andie provocou, entortando a boca em um sorriso que ela pensou ser travesso.

-Ciúmes? Desconheço tal sentimento. Só fiquei incomodado. – ele baixou os olhos para o cardápio, fingindo escolher uma opção.

—Sei. – Andie comentou, cética.

Outro garçom trouxe dois copos e uma jarra.

—Obrigada. – Andie agradeceu, e o garçom saiu, não sem antes dar uma boa olhada nela.

—O que é isso agora? Todos os garçons daqui vão cair em cima de você? – Ernest exclamou, indignado.

—Eu não tenho culpa por ser tão bonita. – ela disse, séria. Porém não conseguiu segurar a risada por muito tempo, e acabou soltando mais alto do que deveria, atraindo ainda mais a atenção dos garçons.

—Eu sei. – Ernest apenas concordou, sem fazer graça.

Andie sentiu a pele quente e uma pressão deliciosa na barriga. Se serviu de um copo de água para acalmar os nervos e em seguida tirou discretamente o sobretudo, colocando-o atrás da cadeira. Por baixo vestia um conjunto de suede esmeralda, ressaltando o negro de seus cabelos assentados com laquê. Ernest a olhou embevecido, seus olhos ficando mais escuros e sua boca parecia entreabrir sozinha. Ele despertou quando o garçom atrevido surgiu.

—Já escolheram?

Andie percebeu que Ernest estava ficando impaciente e resolveu responder o moço:

—Escolhemos sim. Eu vou querer o risoto de camarão com pedaços de pão torrado e um vinho branco para acompanhar, por favor.

—Vou querer o mesmo.

—Perfeito. Ótima escolha, senhora. – ele comentou, olhando despudoradamente para Andie.

—Ainda vou dar um soco nesse cara.

—Não vai, não! Ele foi gentil e educado comigo o tempo todo, não tem porque se irritar com ele. É apenas um jovem com vigor demais.

—Mesmo assim... não gosto de ver outros homens pegando na sua mão.

—O que você tem contra isso?

—É só que... bem, você é casada e...

—Podemos não falar sobre Paul hoje? Andei evitando falar ou pensar no assunto durante todos esses meses. Hoje quero distrair a cabeça, tirar um tempo para mim. Foi um ano intenso, ocupado e, no mínimo surpreendente. Se me dissessem no ano passado que Paul estaria foragido e eu estaria morando com outro homem teria pensado que alguém bateu muito forte com a cabeça.

—E se me dissessem que eu abrigaria em minha casa uma mulher excêntrica com opiniões demais e bom senso de menos eu teria achado um absurdo.

—Eu não sou excêntrica, talvez só um pouco... autêntica.

—Pouco é eufemismo. Considero você a mulher mais única que já conheci. Não tem medo do que as pessoas pensam e age de acordo com suas intuições.

—Isso me causa tanto problema...

—Não acredito.

—Mas causa mesmo. Veja bem, pessoas racionais pensam antes de tomar uma decisão, mas pessoas como eu, que agem instintivamente, não costumam medir as consequências e colocam a emoção acima de qualquer coisa.

—O mundo está cheio de pessoas que pensam demais e fazem de menos, Andie. Se um por cento da população fosse como você, se tivessem empatia o suficiente e bondade de sobra, não teríamos miséria, fome ou guerras. Acredite em mim.

—Ser assim me traz muita confusão. As pessoas não entendem minha personalidade... olha, não sou de me queixar, mas preciso desabafar que ser da maneira que sou não é o paraíso. As outras mulheres me olham torto e os homens me consideram vulgar.

—Nem todos os homens. – ele a interrompeu.

—Como?

—Eu não a considero vulgar. Não chega nem perto disso. A enxergo como uma mulher forte, independente, que sabe o que quer e fará o que for preciso para atingir seus objetivos, mesmo que se machuque no caminho.

Andie ficou calada, não sabia o que responder. A intensidade de seus sentimentos a atingiu da mesma forma que um tsunami atinge a costa. Ela quase engasgou com a saliva, e teve de se concentrar em respirar corretamente. Os dois se encararam com seriedade, tentando deter a enxurrada de emoções; o encanto foi quebrado quando o garçom atrevido empurrou os pratos na mesa, anunciando a refeição.

—Este risoto de camarão foi feito com o legítimo crustáceo dos mares andinos e embebido em vinho francês. As cenouras são holandesas e o vinho é de primeira qualidade, com as uvas tendo sido colhidas na região de Toscana.

—Já entendemos, amigo. – Ernest falou, incisivo. O garçom não percebeu seu humor e continuou falando, mais para Andie que para o homem.

—A senhora pode perceber toques sutis de caviar no risoto. Nosso chefe entendeu que o ingrediente traria um sabor mais acentuado, pois o camarão tende a roubar o paladar. Deixe-me servi-la. – ele disse pegando a taça de Andie e inclinando a garrafa de vinho.

—Não precisa! – Andie exclamou, colocando a mão na garrafa para impedi-lo de virar. – Eu me sirvo sozinha, obrigada!

—Tem certeza, senhora? É um prazer servi-la. – ele arregalou os olhos, genuinamente interessado em colocar vinho para Andie.

—Tenho certeza. Obrigada pela explicação muito... hum, detalhada do prato. Se precisarmos de mais alguma coisa o chamamos. – ela garantiu.

—Certo. Com licença.

Andie quase conseguiu segurar a risada, mas ao ver a cara de Ernest sua tentativa foi por água abaixo. A expressão fechada no semblante rijo dele derreteu em admiração, pois estava ocupado observando-a rir. O modo como ela enrugava os olhos e a forma como seus cabelos balançavam por cima dos ombros estreitos deixavam-no estarrecido.

Somente quando Andie pegou os talheres para comer a bela refeição que ele acordou do estupor e a acompanhou, comentando sobre os ingredientes na mesma forma como o garçom havia falado.

Andie pou pouco não cuspiu a comida diante da imitação de Ernest.

—Para, por favor! – ela suplicou, entre risadas e engasgos. – Não consigo comer assim!

—Me conta, qual seu maior sonho na vida? – ele indagou repentinamente, colocando a colher na boca e mastigando.

Andie lutou contra a ânsia súbita de passar os dedos em seu maxilar marcado que mexia conforme ele mastigava e se concentrou na pergunta:

—Bem, eu sempre me interessei muito pela literatura. Sei que mulheres nessa área são dificilmente reconhecidas, mas isso está mudando. Estamos conquistando nosso lugar no mundo aos poucos. Embora com muitas dificuldades.

—Assim como tudo que vem fácil vai fácil as coisas difíceis de serem conquistadas são igualmente difíceis de se perderem.

—Tem razão. – ela emborcou um grande gole de vinho, acabando com metade da taça. – A literatura sempre foi um espaço para criticar, para se manifestar sobre os mais diversos aspectos da sociedade, e desde Virginia Woolf estamos ganhando cada vez mais notoriedade.

—Jane Austen e Charlotte Bronte fizeram um trabalho igualmente bom. Eu, particularmente, aprecio mais Razão e Sensibilidade que Orgulho e Preconceito.

Andie ficou surpresa por Ernest conhecer tanto de literatura.

—Mas Orgulho e Preconceito é sem precedentes! Lizzie é o retrato de uma mulher única, que não se deixa enganar por ninguém e tem inteligência o suficiente para formar as próprias opiniões.

—Pode até ser, mas Darcy é arrogante demais. Não consigo imaginar alguém tão menos atraente que ele.

—Mas Darcy mudou. Lizzie o fez mudar.

—Aí que está, Andie! – ele exclamou, alto, assustando-a. – Ninguém muda por ninguém. Se Darcy mudou por Lizzie não quer dizer que ele era apaixonado por ele, só significa que ele não tinha personalidade própria o bastante para pensar e agir por si mesmo.

—Discordo.

Ele revirou os olhos, com uma sugestão de sorriso na boca.

—Darcy mudou porque a amava sim! Quando duas pessoas se amam deixam seus orgulhos e preconceitos de lado e ficam juntas. – Ernest achou graça do trocadilho, não tirando os olhos dos dela nem quando virou a taça na boca.

—E o que me diz de Mary Shelley? – ele perguntou, pegando um camarão e o observando antes de enfiar na boca.

—Mary é muito subestimada. A vida dela foi miserável ao extremo. Ninguém que não seja um gênio consegue viver tudo aquilo e ser considerada uma das melhores escritoras da história.

—Nisso devo concordar com você. Então seu sonho é se tornar escritora?

—Me tornar uma escritora seria a consequência do estudo. Eu já havia comentado com Paul a respeito disso – havia mágoa e dor em sua voz -, mas ele sempre arranjava alguma desculpa para que eu não fizesse. Como não percebi antes? Pensei que ele estivesse preocupado comigo, por isso nunca concordava.

—Andie, qualquer um que ouse cortar seu sonho pela raiz não é uma boa pessoa. – ele havia tomado muito vinho, e em um momento de ousadia estendeu a mão por cima da mesa e segurou seu pulso.

Ficaram surpresos; depois constrangidos; e em seguida uma excitação tal qual ela nunca experimentara antes atingiu sua veia, enviando uma onda de calor por todo o corpo. De repente o vinho não era tão gelado, e a comida estava quente demais. Ela libertou seu pulso, desejando muito não precisar fazê-lo, e arregaçou a manga da blusa de suede, sem se importar com o decoro. Ernest se remexeu, tenso, no assento, e resolveu continuar comendo.

O resto do jantar transcorreu com conversas leves. Eles discorreram sobre música – Ernest adorava o jazz, mas Andie era apaixonada, como toda boa inglesa, pelo charleston -, sobre política e sobre assuntos aleatórios. Em determinado ponto da conversa se inclinaram um para o outro e conversaram baixinho, com os rostos muito próximos. O hálito de vinho se misturava, e nem deram muita atenção ao creme de baunilha trazido pelo garçom atrevido. Nem mesmo a intromissão do rapaz deixou Ernest exasperado.

Eles saíram do restaurante com as mãos se encostando, tontos pelo vinho e pela aproximação. Caminharam por entre as árvores da praça central, cada um admirando aquilo que mais lhe atraía.

Ernest olhava as folhas no chão, rodopiando com o vento noturno e frio, se embolando umas por cima das outras e parando de quando em quando debaixo das solas de seus sapatos. O movimento o fez se lembrar dos cabelos negros de Andie, quando uma brisa batia de encontro a eles e os deixavam rodando, um fio se entremeando ao outro.

Andie como sempre se perdia dentro de seus pensamentos. Apesar de olhar as árvores com suas folhas escuras e vislumbrar alguns casais enroscados nos bancos de madeira, ela voava alto em si mesma. A natureza era linda, mas ela era inquieta demais, e não conseguia se concentrar em nada por muito tempo. A vida é curta, dizia, por isso devemos captar de tudo um pouco. Ela alternava o olhar pelos elementos, mas os pensamentos permaneciam ligados a mil. Recordava com ressentimento da forma que Paul a envolvia nos braços, tendo a sensação de seu calor reconfortante; pensava em Beatrice, preocupada com o futuro da jovem, ao mesmo tempo feliz pelo presente que ela lhe dera; mas, acima de tudo, se perdia em Ernest. Na sensação de seu toque, no cheiro de seus cabelos se mesclando ao odor das roupas, na forma como ele a olhava, o azul de seus olhos se transformando em negro, na rigidez de seus ombros sob o paletó e na confiança de seus passos.

Eles pararam sob a sombra de uma enorme árvore soltando pequeninas flores vermelhas. Ernest pegou uma a meio caminho do chão e a enrolou atrás da orelha de Andie. Ela ficou extremamente comovida com o gesto, não sabendo se a quentura que lhe subiu era efeito do vinho ou do toque de Ernest em seu rosto.

—Uma flor em outra flor. – a mão dele parou em seu queixo, contornou a boca e se alojou na nuca. O rosto dele se aproximou, e Andie prendeu a respiração.

Quando suas bocas se encontraram, ela se esqueceu de tudo. Esqueceu de Paul, de Charles e até de Beatrice. Só havia a sensação dos lábios dele de encontro aos dela. Se entregando por completo, Andie deixou a língua de Ernest fazer uma exploração silenciosa, e todo seu corpo vibrou. Quando Paul a beijou pela primeira vez suas pernas ficaram moles feito gelatina, mas agora, com Ernest, não as sentia. Seus mamilos endureceram e ela pressionou o corpo contra o dele, tentando disfarçar o endurecimento involuntário. A pressão no baixo-ventre se intensificou; sua cabeça rodava, mas ela não se incomodou com nenhuma dessas coisas. Envolveu os braços no pescoço de Ernest e o beijou com ardor.

Ela sentia toda a extensão de seus músculos; o enrijecimento entre suas pernas e o tremor nos braços. Ele parecia conter uma explosão, se segurando para não toma-la de uma vez ali mesmo.

O tempo havia parado. Não da mesma forma como na noite em que foram assaltados em Northampton. Isso era diferente. Ela desejava nunca parar. Queria ficar nos braços de Ernest, estremecer com ele e mandar o bom senso às favas. Realmente faria isso, não fosse por ele.

Ernest afastou-se delicadamente, ainda prendendo-a em seu corpo. Embora ele a quisesse com tremendo ardor não poderia deixar-se levar. Andie ainda era casada, e estavam em público.

—Ah, Andie... eu a quero. – admitiu.

Ela fitava sua boca com fome. Tentou investir em outro beijo, mas ele a impediu, dizendo:

—Não podemos... não tenho nenhuma garantia de que conseguirei me controlar.

—Não quero que você se controle. Quero você.

—Devemos voltar. – ele engoliu toda a dor que sentia por ter de afastá-la e a libertou de seus braços. Os olhos de Andie, escurecidos pela paixão, se apagaram com mágoa.

Ela desvencilhou dele e se abraçou, subitamente abandonada. O corpo protestava pelo fogo que não foi apagado, mas seu coração se partia. Ela sabia e concordava que não poderiam continuar com aquilo, mas os sentimentos sempre acabavam falando mais alto.

Caminharam separados, tentando controlar seus instintos. De quando em quando Ernest grunhia algo ininteligível, mas Andie não ousava perguntar por medo dele perceber a rachadura em sua voz.

Quando passaram pelo portão da casa notaram algo errado.

A rua estava quieta, sem o usual latido dos cães e barulho de carros. O coração de Andie se apertou. Imediatamente ela pensou em Beatrice. Ernest fez um sinal com o braço para que ela ficasse onde estava, mas pareceu relaxar ao encontrar a porta trancada.

—Se houvesse ladrões eles não se dariam ao trabalho de trancar. – ele comentou, retirando a chave do bolso do paletó e destrancando.

Ouviram gritos na parte de cima da casa. A voz da sra. Doherty chegou aflita até eles, intercalada por gritos e lamúrias de Beatrice.

Andie subia a escada feito um raio, com Ernest em seu encalço.

Ela encontrou Beatrice de pé, com a mão nas costas e o rosto vermelho rodeado pelos cabelos revoltos. O nariz escorria e tinha lágrimas nos olhos.

—Ele me prometeu! Ele me prometeu! – gritou, emendando um soluço desolado.

—Bea... meu Deus, o que está acontecendo? – Andie se aproximou da amiga, oferecendo apoio.

—Charles, aquele canalha do Charles! Ele me deixou! – mais lágrimas e um grito agudo de dor.

—Ela entrou em trabalho de parto antes da hora! – a sra. Doherty avisou, colocando um pano úmido na testa de Beatrice.

—Charles a deixou? – Ernest perguntou na soleira da porta, o rosto sombrio e um tom de voz que causou arrepios em Andie.

—Ele veio aqui tem dez minutos, recolheu suas coisas sem dar explicação alguma e foi embora! Ela está assim desde então. – a empregada gorducha ajeitou os lençóis na cama e empurrou Beatrice delicadamente para que deitasse. No chão havia um líquido claro feito água, e Andie quase escorregou ao ajuda-la com Beatrice.

—Deite aqui, Bea... o bebê vai nascer.

—Ah meu Deus, eu quero Charles! Como ele pode fazer isso comigo? – ela tentou lutar, mas a dor das contrações vinha mais constante e Beatrice se entregou aos cuidados das duas, deitando na cama.

—Não pense nisso agora, o que importa é que você e seu bebê fiquem bem! Sra. Doherty, preciso de panos limpos e água quente. Já! – a velha senhora correu para buscar, desviando de Ernest no caminho. Andie o viu ali e levantou para falar com ele: — Preciso que você faça uma coisa.

—Qualquer coisa. – ele prometeu, com preocupação e raiva no rosto.

Andie olhou rapidamente para Beatrice antes de continuar, com voz baixa: — Procure Charles. Ele não pode sair impune de nada disso. Juro por Deus que se eu colocar as mãos nele eu mato!

—Pode confiar que quando ele aparecer serei o primeiro a dar uma surra nele.

—Se acontecer qualquer coisa com Beatrice eu arranco o pau dele e dou para ele comer!

Ernest nunca tinha visto a fúria distorcer as feições de Andie daquele jeito, e quase teve pena do sobrinho.

—Agora, vá! Tentarei dar o meu melhor aqui. Você ficará bem?

—Não se preocupe comigo. Não voltarei enquanto não souber de Charles. – ele jurou, assentindo com a cabeça e dando um último olhar para Beatrice, e depois para Andie, antes de virar as costas e sair.

—Vamos lá. – ela falou mais para si mesma que para Beatrice. – Está pronta? Só sairei daqui com esse bebê em seus braços.

Notas finais
Por que Charles deixou Beatrice?